À grande beleza

* Texto publicado originalmente na fanpage do blog, facebook.com/misquilinas.

Pé ante pé, passos firmes e desenhados com ponta fina, ela parecia ter escolhido a Rua Carmo de Carvalho como passarela definitiva da vida. Era esguia e clara, os cabelos loiros quase completamente descoloridos, escorrendo abaixo dos ombros com parcimônia, como se fosse tudo montado e ensaiado à exaustão. Talvez fosse, mas provavelmente era apenas o caimento natural, como parecia também ser tudo que fazia naquele curto espaço. Trazia à mão uma bolsa preta de couro, nada muito exagerado, construindo um belo conjunto com sua camiseta branca e a calça jeans mais pro azul do céu da noite que do mar da tarde. E ia, segura, sem parar.

Mal olhava para o lado. Quando o fazia, era com uma graça que poderia derreter alascas inteiros. A segurança dos seus passos era uma óbvia referência à própria beleza e à consciência do que seu caminhar significa em uma cidade violenta como essa, com um clima opressivo como esse, embaixo de uma luz do sol imperativa como essa. Andava pela rua como se construísse com as próprias pegadas um novo caminho dentro do caminho, onde só ela poderia passar, do qual seria a única dona, uma capitania que nada teria de hereditária, já que nunca poderia ser de qualquer outra pessoa que não dela, portadora solitária de tais poderes especiais.

Eram quase duas da tarde de uma terça e a Carmo de Carvalho havia sido fechada para aquele desfile. Os carros deixaram de funcionar seus motores roucos, as bicicletas não mais rodavam a correia pela coroa, os chinelos dos trabalhadores da construção civil se recusavam a tirar o peito do chão. Os únicos movimentos realizados naqueles parcos metros de chão acinzentado vinham dela e das árvores que, com a anuência da brisa salvadora, batiam palmas tímidas para o rolezinho encantado da menina. Era mesmo uma cena de cinema, daquelas que a gente vê na grande tela e fica se perguntando se existe a possibilidade de acontecer na vida real.

Existe, sim.

E a certeza da existência fica ainda mais forte quando nos damos conta de que nada é assim, tão imaculado, tão eterno. Pois, quando na esquina da qual a moça cada vez mais se aproximava com seu gingado (in)voluntário passa o ônibus que ela tomaria em seguida, tudo muda. Ao ver o coletivo curvando há bons metros de caminhada, provavelmente sendo guiado por um motorista apressado, como são todos eles, a bela loira de cabelos quase descoloridos e caminhar desenhado com ponta fina chuta para longe a graça e se mete num sprint de 50 metros com fôlego olímpico.

Os braços que antes bailavam em harmonia com as pernas agora balançam para cima com o destempero que só o desespero da pressa é capaz de forjar. Ela corre com jeito de menina desajeitada, como se tivesse crescido mais de um lado do que do outro, joelhos enormes golpeando o ar, gritando pela misericórdia do chofer. De repente, os motores dos carros voltam a tossir em descompasso, as bicicletas passam correndo sobre seus aros, as chinelas se arrastam novamente no terreno empoeirado. O vento para, o tempo volta a andar. Estamos livres do feitiço, a Carmo de Carvalho é viva de novo. Eu sorrio por dentro com essa anedota da vida. A grande beleza não resiste nem a um ônibus perdido.