Coluna B, dia 11/12

Onde você esteve em 2010?

Um longo ano. 2010 começa a acabar, ainda que lentamente, e a gente vai olhando pra trás e percebendo quanta coisa aconteceu. Além de uma imensa quantidade de shows internacionais (2010 foi provavelmente o ano mais agitado nesse quesito na história do País), os lançamentos de discos também superaram qualquer expectativa. Novos álbuns de bandas já conhecidas chegaram com força, e muitos novos grupos conseguiram furar a bolha do hype para se destacar de verdade no mundo da música. Se você esteve ligado no que acontecia no planeta Terra neste ano, deve ter ao menos raspado de leve nas estreias dos ingleses Dinosaur Pile-Up e dos neo-zelandeses The Naked and Famous. Se não conhecia ainda, leia o que a Coluna B tem a dizer e localiza-se em 2010. Mas seja rápido, o ano já está acabando.

Dinosaur Pile-Up – Growing Pains

Formada há três anos, o Dinaosaur Pile-Up nada mais é que a resposta dos anos 2000 ao fenômeno grunge, movimento que saiu de Seattle para ganhar o mundo em meados de 1990. Quando falo em “resposta”, quero dizer um reflexo, um resultado do que todo aquele mundo de guitarras berrentas, gritos esporrentos e climão de chuva ininterrupta lá fora causou na juventude que hoje resolve pegar um instrumento nas mãos, chamar os amigos e montar uma banda de rock. Aliás, as palavras de Matt Bigland, vocalista e frontman do Dinosaur Pile-Up, para a BBC são esclarecedoras sobre sua ambição: “eu quero que a molecada fique como nós ficamos quando vimos Dave Grohl detonar o T in the Park”, afirma, referindo-se a um grande festival inglês. Se um dia Kurt Cobain fez isso influenciado pelo que o Pixies esfregava na sua cara, por que Bigland e seus amigos não poderiam fazer o mesmo?

E fizeram. Nota-se uma influência extremamente poderosa de bandas da época, mas com um molho que só um grupo formado por essa molecada que vivenciou plenamente a passagem dos anos 90 pro novo século é capaz de assimilar. Há não o dedo, mas uma pesadíssima mão de Foo Fighters por todo o repertório de “Growing Pains”, estreia do trio em disco, assim como fortes influências de Nirvana, The Hives, Mudhoney e Pixies. Tudo isso com uma pegada guitarreira grossa, um vocal perfeito para músicas do estilo, linhas de baixo que resolvem qualquer problema que surgir e uma bateria que combina potência e apuro técnico. Essa combinação dá muito certo, e coloca o Dinosaur Pile-Up com uma das grandes revelações das bandas de rock, aquele rock de verdade, dos últimos anos. Mas não se confunda, não estou falando de 1994.

The Naked and Famous – Passive Me, Aggressive You

Lembro de ter visto o nome dessa banda em algum post do Twitter: The Naked and Famous. Achei curioso. Na sequência, o nome do disco: “Passive Me, Aggressive You”. Sério, uma combinação de nomes tão boa assim não pode dar errado, foi o que pensei no minuto seguinte, quando já havia começado o download do disco. Sem pesquisa alguma em sites ou blogs especializados – fui pelo nome, ou pelos nomes, arriscando perder uma meia hora da minha vida escutando pura besteirada ou ganhar mais uma banda bacana na minha playlist. O resultado foi essa belíssima surpresa vinda da Nova Zelândia. O Naked and Famous tem Alisa Xayalith e Thom Powers como as cabeças pensantes do grupo, que ganha e perde componentes conforme necessário em estúdio e em apresentações ao vivo. Após lançar alguns singles e EPs nos últimos dois anos, a banda estreou com o delicioso “Passive Me, Aggressive You”, que tem a cara da geração que o fez nascer, com as referências que essa turma absorve tão bem e reproduz com tanta propriedade.

Há um lado shoegaze que é replicado nos riffs de guitarra que se derramam pelas músicas, como dá pra sacar bem em “All of This” e “Punching In A Dream”, mas o Naked and Famous vai muito além disso. A ensolarada “Young Blood”, primeiro single e o hit da banda, mete o dream pop na parada e ganha a simpatia pelo refrão grudento. “The Sun” tem uma cara mais amarrada, jeitão enigmático de ir se mostrando devagarzinho, até chegar o momento certo para deixar cair a máscara, algo que “Girls Like You” segue quando cresce a cada segundo, até estourar em um final inspirador. Direto de Auckland, essa bela surpresa reforça a minha crença de que essas coincidências da vida estão aí para nos guiar até o que realmente vale a pena. Mas já era de se esperar que a combinação de nomes The Naked and Famous + Passive Me, Aggressive You fosse dar muito certo. E deu.

Notinhas

2011 já está fervendo

Parece brincadeira, mas a coisa é séria. Mal saímos de um segundo semestre absurdamente cheio de grandes shows internacionais, e já vem o primeiro semestre de 2011 abalando geral. É tanta coisa que mal dá pra acreditar. Além da Amy Winehouse, que todo mundo já sabe que vem, estão confirmados Vampire Weekend, Two Door Cinema Club, MGMT, Janelle Monáe, Mayer Hawthorne e The Horrors para final de janeiro, começo de fevereiro. Mais: LCD Soundsystem para o segundo mês do ano está certíssimo, e março trará ao Brasil o renovado Alice In Chains em festival imperdível, o Crue Fest, promovido e estrelado pelo Mötley Crue e que ainda colocará no palco o Black Rebel Motorcycle Club. Ainda há boataria colocando Strokes, Arcade Fire, Sonic Youth, Marina and the Diamonds, Gorillaz e até o sumido Tears For Fears na América do Sul também no primeiro semestre. Isso sem falar em U2 com abertura do gigante Muse já em fevereiro. E sem contar a entrada do Coldplay no Rock In Rio, lá em setembro. Gente, aonde vamos parar?

Várias

Sabe quem voltou? O System of a Down, depois de um bom período em hiato, marcou mais de dez shows para o verão europeu. E, se bobear, a gente ainda vê os caras por aqui. Acorda, Rock In Rio! /// O Portishead está em estúdio. Sem data pra sair, mas preparando o quarto disco da banda. Tomara que não demorem quinze anos de novo, né. /// Outro com disco a caminho, o Strokes revelou que jogou o material inicial de gravação todo na lixeira e recomeçou a fazer suas canções até chegar nas dez ideais que verão a luz do dia ainda neste primeiro semestre de 2011. Não é à toa que demorou tanto pra sair. /// Noah and the Whale, Coldplay e Editors também estão com discos novos em construção. Ano que vem promete muitas novidades. /// Hoje rola o terceiro Smoke Island Festival, no Ilhacústico, com diversos DJs e as bandas Trepax, Joe Zee, Audiomindz, Zemaria e The 666 Order. Só o fino. Imperdível.

Todo mundo tem que ouvir

Um verdadeiro clássico. É assim que o recém-lançado “My Beautiful Dark Twisted Fantasy”, quinto disco de Kanye West, vem sendo encarado. E com toda justiça. Um álbum impressionante, que deve elevar de uma vez por todas o americano ególatra como um dos maiores rappers da história. Obrigatório.

Playlist

The Decemberists – Coocoon
Marcelo Jeneci – Tempestade
Patty Moon – The Raven
Tim Kasher – A Grown Man
Daft Punk – End of Life
Best Coast – Wish He Was You
Iron & Wine – Summer In Savannah
Pulp – Commom People
Damien Rice – Cannonball
Sex Bob-Omb – We Are Sex Bob-Omb

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Coluna B, dia 27/11

O maior fim de semana do mundo

São Paulo, dias 20 e 21 de novembro de 2010. Existe alguma coisa no ar dessa cidade que faz tudo parecer diferente, e eu não estou falando da poluição. É como se estivéssemos no centro de tudo. Sabe como é, as coisas acontecendo, e a gente fazendo parte disso. No dia 20, um sábado quente, mas sem muito sol, aconteceu no Playcenter o mais legal festival do país. O Planeta Terra Festival não é o maior, mas certamente é o mais bem organizado, mais bem localizado na cidade e com uma formação tão certeira, tão equilibrada, que ficou difícil dizer qual foi o melhor show. A mistura da novíssima música pop com velhos nomes do indie rock colocou 30 mil pessoas entre montanhas-russas, carrinhos bate-bate e a Monga para assistir ao extrato do que melhor acontece na música hoje.

Escolhi começar a festa com o Holger e seu animadíssimo set, que deixa os indies paulistas em polvorosa, mas logo pulei para o imperdível show do Of Montreal, cheio de bichinhos e teatrinhos esquisitos. O som grooveado dos americanos eram um bom preparo para o melhor show do festival, que viria a seguir. Empolgados, os caras do Yeasayer começaram errando o nome da cidade (“hello, Buenos Aires!”), mas logo pagaram a dívida com uma bela apresentação. O grave estouradão fazia com que a gente não conseguisse não pular com as músicas, então o melhor foi se entregar de uma vez à loucura de faixas como “O.N.E.” e “Ambling Alp”. Lindo de se ver. Na sequência, troquei o esforçado Mika por umas cervejas a mais e peguei algumas músicas do animadíssimo show do Passion Pit (deu até pena de sair no meio). Lá no palco principal, o Phoenix entrava para fazer um show irregular, com ótimos momentos e passagens de dar sono. Apesar dos hits, o melhor foi mesmo ver o vocalista Thomas Mars nadando na galera no final de tudo. Uma cena marcannte.

Peguei algumas músicas do ótimo show do Hot Chip, mas corri mesmo para ver a maior celebração indie que já fui: o Pavement entrou no palco daquele jeito, visual largado, climão de quem está fazendo uma jam na garagem de casa. Aquela desafinação camarada, a microfonia e os berros de guitarra, tudo parecia perfeito para aquela noite. A seleção deliciosa de hits que os anos 90 não nos deixam esquecer foi um belo presente da trupe de Stephen Malkmus, bem diferente da pasmaceira exagerada que o Smashing Pumpkins tentou nos fazer engolir. O grande mérito de Billy Corgan foi ter trazido uma baixista tão bonita, porque o resto do show pouco prestou. Cabia a mim terminar de maneira gloriosa esse festival tão bacana, então fugi para ver o Girl Talk armar uma grande festa na despedida do Planeta Terra, no Indie Stage. Aquela turma em cima do palco, com direito ao pequeno gafanhoto André Paste fazendo reverência ao mestre dos mashups, tornou tudo mais divertido, mas infelizmente o Planeta Terra Festival 2010 chegava ao fim, e o dia seguinte reservava novas grandes emoções.

Domingo, 21 de novembro. Dia de ver um Beatle. Ainda com as pernas doendo de quase 12h de shows do Planeta Terra, caminhar até o Morumbi não era nada agradável. Mas o que a gente não faz por Paul McCartney? A chance de ver o autor da maioria das músicas que a gente canta desde criança lá em cima do palco, pertinho da gente, é simplesmente imperdível. Quase 70 mil pessoas enchiam o estádio quando o músico inglês entrou no palco com seu blazer azul e entoando “Venus and Mars”. Paul dividiu seu setlist entre canções dos Beatles, incluindo algumas que nem eram suas, e faixas de seus discos solo, mas todas as canções, sem exceção, foram cantadas pelo público. E é bom que se diga: clichês à parte, cantar o “naaaa, na, na, na na na, naaaa” de “Hey Jude” acompanhado de McCartney e sua banda não tem preço. Particularmente, me emocionei muito com a versão de “Something”, uma bela homenagem de Paul a George Harrison (que é, além de tudo, uma das mais incríveis canções dos Beatles), com a fofura tristonha de “Blackbird”, as memórias implícitas de “The Long And Winding Road”, a poesia simples e tão linda de “Yesterday” e a energia explosiva de “Live And Let Die”, uma cacetada com direito a fogos de artifício e tudo mais. Um espetáculo completo, liderado por um showman de quase 70 anos que poderia ser o mais babaca dos seres humanos, mas prefere ser apenas um gênio simpático e alegre por poder fazer o que tanto ama.

E, assim, com mais uma caminhada deixando o Morumbi rumo a mais um atraso de voos no aeroporto, terminava o maior de todos os fins de semana do mundo. Dois dias em que estivemos inseridos no que de mais sensacional acontece no planeta musical. Um fim de semana para não esquecermos, jamais.

Notinhas

E o Beady Eye?

Se você não sabe o que esse nome significa, fique ligado porque em breve deve ouvir falar bastante dele. Trata-se do Oasis sem Noel Gallagher, com Liam nos vocais e todo o resto da banda mantido. Acontece que os caras estão começando a soltar músicas novas – e outras novidades também. A primeira faixa divulgada, “Bring The Light”, puxa as coisas para o rock dos anos 50, com direito a coro feminino e tudo mais. A segunda, “Sons of Stage”, um cover do World of Twist, é na verdade um b-side, mas já leva o Beady Eye mais perto do que um dia foi o Oasis. Liam em grande forma, cantando como se não houvesse amanhã. Mas há, sim, um belo horizonte para o Beady Eye, que começa a fazer apresentações ao vivo em março de 2011.

Várias

Se você não se lembra, por incrível que pareça, a semana passada em São Paulo não teve “apenas” Planeta Terra e Paul McCartney. The Raveonettes, Stereophonics, The Mummies, Calvin Harris, Lou Reed e Scissor Sisters também estiveram por lá, além do Kevin Costner, o ator, que tocou com sua banda folk. Que demais, hein? /// O Arcade Fire lançou essa semana o clipe de “The Suburbs”. A direção da intrigante história é do talentosíssimo Spike Jonze. Vale a pena assistir. /// Amy Winehouse teve seus shows confirmados no Brasil. E a facada é séria: os preços variam de R$ 180 a absurdos R$ 700 reais. Mais caro que ver um Beatle. Acho que a Coluna B vai passar essa… /// Neste sábado, este colunista promove a festa “Lucky!” no Teacher’s Pub, com discotecagens deste que vos escreve e os DJs Rotiv, Suricate e Bad Little Fingers. A partir das 23h.

Todo mundo tem que ouvir

Li por aí que o Elton John tinha lançado disco novo. Resolvi baixar. E gostei. O ícone inglês, que já teve dias de rock star, se uniu ao histórico Leon Russel e gravou “The Union”, um belo registro, cheio de blues nas veias. Acredite, vale a conferida.

Playlist

School Of Seven Bells – I L U
Scarlet Youth – Between Summer and Spring
The Hot Toddies – Matt Skiba Sandwich
Bárbara Eugênia – Agradecimentos
Metric – Gold Guns Girls
Queens of the Stone Age – Goin’ Out West
Of Montreal – Sex Karma
Paul McCartney – Maybe I’m Amazed
The Concretes – All Day
Wolf Gang – Lions In Cages

Coluna B, dia 20/11

Não deu

É curioso falar de discos que a gente não gostou. Com a enorme oferta diária de álbuns hoje em dia, a seleção, muito natural, força o ouvinte a desencanar rapidinho do que não curtiu e partir feroz para buscar novidades mais agradáveis. Acumulamos novos discos bons, novas boas experiências, e esquecemos completamente dos fraquinhos. Voltar ao material descartado, aquele que não deixou uma fagulha na sua cabeça nem grudou nadica de nada na sua mente, é uma tarefa árdua. Principalmente quando esses discos geraram expectativa, são de bandas que costumamos gostar e nos frustraram. É o caso dos álbuns lançados este ano pelos ótimos Interpol, Klaxons e Antony and the Johnsons. Sim, são ótimos, mas esse ano, amigos, não deu.

Interpol – Interpol

Perder um membro da banda nunca é fácil. Balança a montagem natural das coisas, desestabiliza o ambiente e faz tudo parecer um pouco estranho. Essa poderia ser a explicação para o fraco desempenho do Interpol neste disco homônimo, já que o baixista Carlos D, um dos fundadores da banda, deixou o grupo há poucos meses. Mas seria falsa: Carlos D ainda gravou “Interpol” antes de buscar novos ares (sua saída ocorreu de maneira amigável, é bom que se diga). Então, como se explica um álbum tão sem graça, tão enfadonho como esse? Bom, talvez não seja preciso explicação alguma. A grande verdade é que o grupo novaiorquino já vinha em uma descendente. Se “Turn On The Bright Lights” e “Antics” conseguem praticamente empatar no quesito imensa qualidade musical, “Our Love To Admire”, que ainda é um disco muito bom, já deixava lá no fundo a sensação de que alguma coisa estava ruindo dentro do Interpol. Três anos de silêncio e o Interpol retorna com um disco apenas mediano, muito abaixo do que a gente sabe que a banda pode render. Há aqui e ali boas canções, como a forte dupla “Lights” e “Barricade”, que guarda semelhança com a boa época do grupo, e “Succes”, que abre bem o álbum. Mas, infelizmente, as outras sete faixas não conseguem sustentar a mesma qualidade, e “Interpol” falha irremediavelmente.

Klaxons – Surfing The Void

O segundo disco da carreira do Klaxons tinha tudo pra dar certo. Os caras praticamente inventaram um novo rótulo, a new rave, fizeram o mundo inteiro dançar com singles de grande porte, como “Atlantis to Interzone” e “Gravity’s Rainbow”, e confeccionaram uma das capas de disco mais sensacionais deste ano, com um gato vestido de astronauta. Mas, na hora de mostrar trabalho, os ingleses escorregaram. A demora em colocar novo material na rua já era comentada por todos. Dizem que o Klaxons fez um álbum completinho, não gostou, jogou tudo fora e começou outro do zero. Ninguém confirma, nem desmente, mas esse atraso surtiu um efeito “Chinese Democracy” na banda – afinal, todos sabemos, a velocidade dos acontecimentos neste século faz com que um ano pareça dez. Quando chegou aos ouvidos do mundo, “Surfing The Void” parecia… deslocado. Como falam por aí, as músicas são tão 2008 que, aparentemente, não combinaram bem com 2010. Como não poderia deixar de ser, o álbum não é uma derrota completa. As faixas “Surfing The Void”, “Flashover” e “Echoes” são um caldo, lembrando aquele Klaxons divertido, aquele Klaxons moleque que arrebatou todo mundo com “Myths Of The Near Future”, em 2007. Mas ficam muito aquém do que se espera de uma banda que tinha a cara da sua geração, o cheiro de leite com pêra envolvendo o ar, e agora parece mais mofada do que um pão de forma com dois meses de idade.

Antony and the Johnsons – Swanlights

Antony Hegarty tem uma das mais belas vozes da nova música. Inimitável, é ao mesmo tempo grave e delicada, unindo uma afinação impressionante a uma sensação de fragilidade crônica. Sua figura andrógina reforça esses sentimenos, e chega a confundir quem não conhece Antony. Com sua banda, os Johnsons, o inglês radicado em Nova Iorque foi responsável por um dos mais incríveis discos deste século, o sensível “I Am A Bird Now”, lançado em 2005. Depois dele, minha relação com o músico se tornou esquisita. “The Crying Light”, que saiu ano passado, não me conquistou. Para mim, é um disco aquém das possibilidade do músico. A esperança estava depositada em “Swanlights”, quarto álbum de sua carreira. Antes dele, o EP “Thank You For Your Love” deixava no ar boas possibilidades, mas eu continuava desconfiando. Quando o disco finalmente chegou, fui com avidez para a primeira audição e… não bateu. Vocês sabem, um disco precisa “bater”, precisa despertar alguma coisa. E nada. Não acredito que “Swanlights”, que vem sendo bastante elogiado, inclusive, seja um álbum ruim. Aqui, como costuma-se dizer em final de namoro, o problema sou eu. Por algum motivo qualquer, não assimilei a mensagem de Antony. Pode ser que daqui a quatro ou cinco meses eu volte fazendo mea culpa e colocando o disco em um altar – coisa que fiz com “I Am A Bird Now”, que também só me ganhou, e aí foi pra valer, seis meses depois. Pode ser. Mas, para agora, a única coisa que tenho para dizer a Antony e seus Johnsons é: amigos, me desculpem, mas não deu.

Notinhas

Várias

O ótimo site Rock n’ Beats (www.rocknbeats.com.br) aproveitou a vinda de Paul McCartney para o Brasil e organizou uma coletânea com músicas do beatle tocadas por artistas nacionais, como Apanhador Só, Wannabe Jalva, Sabonetes, Tulipa Ruiz e outros. O disquinho levou o nome de “Indie On The Run”. Dá uma sacada lá no site e ouça. /// O Rock In Rio 2011 começa a anunciar suas presenças ilustres. Depois de começar com Metallica, a organização confirmou a presença de Red Hot Chili Peppers e Snow Patrol. Fala-se que o Coldplay deve ser o headliner de um dos dias do esquema, mas não há nada confirmado ainda. /// O Strokes finalmente terrminou seu novo disco, foi o que Julian Casablancas comentou via Twitter dia desses. Mas, sobre o lançamento, ainda não há nada oficial. Que enrolação, hein!? /// Adele, cantora inglesa que chamou a atenção do mundo com sua bela voz, prepara sua volta para fevereiro de 2011. O primeiro single, a bela “Rolling In The Deep”, já tem clipe e promete um grande disco.

Coluna B em São Paulo

Neste fim de semana, este colunista está em São Paulo para acompanhar dois dos maiores eventos musicais-culturais do ano: o Planeta Terra Festival, que rola hoje, e o show do beatle Paul McCartney, que rola amanhã (há ainda outro, na segunda). No festival, que rola no parque Playcenter, uma bela quantidade de atrações imperdíveis: Yeasayer, Phoenix, Pavement, Girl Talk, Hurtmold, Passion Pit, Smashing Pumpkins, Of Montreal, Holger, Hot Chip, Novos Paulistas, Mika, Empire of the Sun, Mombojó e República. Já no domingo, uma atração que vale por muitas, na provável última turnê interncional de Macca. Morumbi completamente tomado, certamente um dos eventos mais importante deste novo século. E, na semana que vem, você pode ler sobre tudo isso aqui na Coluna B. Aguarde.

Todo mundo tem que ouvir

Depois de um bom tempo de espera, com várias músicas lançadas com sucesso na internet, finalmente Cee-Lo Green deixou seu novo disco encontrar nossos ouvidos. “The Lady Killer” é uma bela seleção de canção que destacam a poderosa voz do cantor americano, destaque desde seus tempos de Gnarls Barkley. Ouça a bolachinha.

Playlist

Hot Toddies – Boys On Bikes
Girl Talk – Let It Out
Longwave – Best Kept Secret
Nouvelle Vague & Soko – Sandy Sandy
Belle and Sebastian – Come On Sister
Delay Trees – 4:45 AM
Winterpills – Hallway (The Top Of The Velvety Stairs)
Dinosaur Pile-Up – Broken Knee
Yann Tiersen – Palestine
Bad Religion – The Devil In Stitches

Coluna B, dia 6/11

Warpaint, banda de garotas

Garotas, garotas e mais garotas. São quatro delas, de tipos diferentes. Uma loira, outra morena, algumas bonitas, outras nem tanto, todas talentosas, donas de um estilo verdadeiro, que se deixam entrecortar por grandes canções mesmo com pouca bagagem. Elas são as donas do Warpaint, grupo que está finalmente dando material mais consistente àqueles que já vislumbravam ali uma boa adição ao seu playlist diário pelos singles soltos no ar e o EP “Exquisite Corpse”, lançado em 2008 com uma formação ligeiramente diferente da atual – já fizeram parte da banda desde a atriz Shannyn Sossamon até o ex-guitarrista do Red Hot Chili Peppers, Josh Klinghoffer. “The Fool”, incensaada estreia do Warpaint, foi lançado oficialmente no final de outubro, e já flutuava pelas páginas de download na internet há alguns meses. Com as músicas na nossa frente, e de olho na atual formação, esse grupo de quatro meninas poderosas, que fogem naturalmente do clichê de garotas que têm banda de rock, nos leva diretamente à pergunta: qual será o segredo delas? O que as difere das outras?

A resposta não é fácil, nem chega perto de ser óbvia, mas a principal suspeita recai sobre uma característica muito importante: a audácia. Poucas meninas seriam capazes de empunhar uma guitarra e abrir uma música com um fraseado tão sorumbático quanto o de “Warpaint”, a segunda canção do álbum. O dedilhado, ao mesmo tempo suave e amedrontador, é a cara do que o Tool faz de vez em quando em seus álbuns geniais. Um forte acento grunge nos envia aos anos 90 no começo da faixa, liberando depois o espaço para que a baixista Jenny Lee Lindberg, as guitarristas Emily Kokal e Theresa Wayman (as três também cantam) e a baterista e tecladista Stella Mozgawa deixem fluir uma jam session bonita de se ouvir. Uma bela apresentação para uma banda que costumava fazer turnê com The Xx, Vampire Weekend, Yeasayer e Black Heart Procession e que tem em seu disco muitas outras belezas refinadas como essa.

Trata-se de um disco bonito, acima de tudo. Normal, não é. Faixas que ultrapassam os cinco minutos e misturam exageros dramáticos e melodias contidas são o que mais se encontra em “The Fool”. Estruturas pouco convencionais também estão por todo o disco, o que nos faz perceber que o Warpaint é um Foals de saias. Aquela beleza esquisita da banda de Yannis Philippakis, que emociona porque não conseguimos distinguir de onde vem a pancada – só a sentimos, lá no fundo -, está presente em músicas como a envolvente “Shadows”, a singela “Baby” ou a quebrada “Set Your Arms Down”. Reverbs e ecos se misturam, embolando a nossa percepção do que é e do que não é orgânico no som das meninas. A cada entrada desavisada de uma guitarra ou de uma percussão intrometida, flutuamos um pouco mais em direção ao sol engrecido que parece construir uma paisagem feita por encomenda para essas belas vozes femininas. Climão pós-punk forte, aquela coisinha escura do Joy Division, do Cure e do Echo and the Bunnymen dando oi na porta de cada música, é outro detalhe interessante do Warpaint. De onde essas garotas, que se conheceram ainda na infância, tiraram essas referências todas e misturaram tão bem, eu não sei. E espero nunca saber. É o que as difere das outras, mas prefiro que continuem tendo seus segredos.

Notinhas

A volta do Death Cab For Cutie

Ben Gibbard deu uma sumida. Também, pudera, o rapaz, líder do cultuado Death Cab For Cutie, teve que cumprir a difícil missão de se casar com a atriz e cantora Zooey Deschanel, a namoradinha dos indies. Só agora, um bom tempo depois, é que o sortudo anda mostrando a cara novamente. Gibbard conversou com a revista Spin e revelou seus planos com o DCFC: disco novo no primeiro semestre de 2011. Mas não será um disco qualquer. O sucessor de “Narrow Stairs” vai ter, segundo o compositor de todas as faixas, muito menos guitarras que o normal: “estamos em um momento de teclados vintage, e o som do disco novo deve seguir essa paleta”, afirmou. Seria um híbrido de DCFC com Postal Service, seu projeto paralelo? Vai saber. Seja com teclados, com guitarras ou até sem instrumento algum, a espera pelo novo disco do Death Cab For Cutie está apenas começando.

Várias

Essa semana, o grupo americano The Decemberists anunciou seu disco novo, “The King Is Dead”, para o dia 18 de janeiro (ou seja, em breve estará pipocando pela internet) e fez mais: revelou a participação de Peter Buck (R.E.M.) no trabalho e colocou para download gratuito a faixa “Down By The Water”, primeiro single do disco. Já deu pra sentir que vem aí um álbum bem puxado para o pop. /// O Mogwai anunciou seu próximo álbum, ao qual deu o singelo nome “Hardcore Will Never Die, But You Will”. Precisa dizer mais alguma coisa? /// Mais um festival chega a São Paulo. A Halls, sim, aquela bala, anunciou que fará um festival no dia 4 de dezembro, e já confirmou a primeira atração: a revelação indie The Temper Trap. Belo nome, só nos resta aguardar por outros tão bons assim. /// Aliás, nem preciso dizer nada sobre o Lou Reed, que vem tocar em São Paulo simplesmente nos dias 20 e 21 de novembro, dias de Planeta Terra Festival e Paul McCartney, respectivamente. São Paulo = Londres? /// Ah, claro, e tem Roxette no Brasil em abril próximo. Preparado para voltar no tempo?

Todo mundo tem que ouvir

E tá de novo a Zola Jesus por aí. A mocinha Nika Roza Danilova, 21 anos e mais conhecida por Zola Jesus, lançou mais um EP, “Valusia”. Nem preciso dizer que as quatro músicas lançadas por ela são lindas, esquisitas e imperdíveis. Corre.

Playlist

Of Montreal – Famine Affair
Antony and the Johnsons – The Spirit Was Gone
Keane – A Bad Dream
Shannon Wright – Violent Colors
The Pains Of Being Pure At Heart – Heart In Your Heartbreak
Cee-Lo Green – It’s Ok
Aberfeldy – If I Were A Joiner
Nina Becker – Não Me Diga Adeus
Sufjan Stevens – Decatur
Brian Ferry – Shameless

Coluna B, dia 30/10

Quem aguenta Sufjan Stevens?

Gênios e chatos, quem são eles? Quem eles pensam que são? Quem é quem nessa corda-bamba da arte, quem parece menos ser o que realmente é? Quem ilude, quem impressiona? Quem chateia, quem arrebata? Há milhares e milhares de anos, o homem confunde excepcionais por malas, e malas por excepcionais. Ninguém sabe onde fica essa chavinha que se vira pra um lado e pro outro para passar a genialidade para um ser humano. Vire pra cá, isso: você será medíocre, fará de tudo para se sobressair e comerá poeira, apenas. Agora vire pra lá, pronto: você mal precisará se esforçar pra deixar no mundo uma marca indelével, fará sempre mais. Nós sabemos muito bem quem pode e quem não pode mudar o mundo. E, ainda assim, por vezes confundimos chatos por gênios (e vice-versa). Metido nessa confusão por quem o escuta por aí e por quem gosta de analisar de tudo, um músico americano se vê em uma sinuca de bico: seria Sufjan Stevens um qualquer ou um notável? Para ser mais direto, afinal: quem tem saco para o Sufjan Stevens?

Aos trinta e cinco anos, esse caucasiano de Detroit, dono de uma figura de semblante calmo e introspectivo, colocou na praça dois novos discos e soltou uma bomba: em entrevista ao site Pitchfork, revelou estar com uma gravíssima e pouco conhecida doença, que o deixou debilitado por meses e meses. Segundo ele, um vírus afetou seu sistema nervoso e o fez perder completamente o controle sobre seus movimentos e atos. Stevens não disse se já está curado, muito menos se a sua doença tem alguma relação com os discos que lançou este ano – a saber, “All Delighted People”, o nono, e “The Age of Adz”, o décimo de sua atribulada carreira. Pela internet, pipocaram pessoas lamentando a frágil saúde do rapaz, e outras dando pouca ou nenhuma importância à notícia. Para o primeiro time, Sufjan é um dos mais enigmáticos e talentosos músicos da nova geração americana, um multiinstrumentista dono de uma bela voz e de muita criatividade para criar canções pouco óbvias. Para o segundo time, ele não passa de mais um artista meia-boca que não faria diferença pra ninguém, um grande galhofeiro insuportavelmente chato.

Faço parte do primeiro time, mas compreendo as rabugices do segundo. Conheci o trabalho de Sufjan Stevens em 2005, quando o disco “Illinoise” estourou no mundo todo. Trata-se de um dos mais fantásticos álbuns deste século, não tenho a menor dúvida, e parte de um projeto curioso: o artista disse que iria compor um disco inteiro para cada estado americano (“Michigan”, de 2003, havia sido o primeiro da tal série – antes disso, Stevens havia lançado o folk “A Sun Came”, em 2000, e o eletrônico “Enjoy Your Rabbit”, em 2001. Faz parte de sua discografia ainda o belo “Seven Swans”, de 2004). É claro que isso não aconteceu. Em 2006, ele lançou “The Avalanche”, um álbum de sobras de “Illinoise”, e “Songs For Christimas”, uma caixa de cinco discos só com músicas natalinas. Sumido por um tempo, provavelmente por causa de sua misteriosa doença, Stevens reapareceu em 2009 com “The BQE”, uma espécie de trilha sonora temática de um filme que ninguém viu e teria sido escrito e dirigido por ele mesmo. Foi uma longa espera até que, de surpresa, o EP de oito músicas “All Delighted People” ganhasse vida e chegasse aos ouvidos do mundo. Sem avisos prévios, sem notícias do que estava por vir, o maluco e visionário havia voltado.

Daí parto eu para dar o braço a torcer. A grande verdade é que, sim, é preciso ter saco para o Sufjan Stevens. É preciso abrir a cabeça, querer se deixar levar por suas ideias pouco convencionais. “Enjoy Your Rabbit” é enjoado, assim como sua versão em arranjos de cordas, “Run Rabbit Run”, lançado anos depois. “The BQE” também faz pouco sentido se você não estiver a fim de se entregar às viagens de Stevens. “Michigan”, “A Sun Came” e “All Delighted People” têm seus momentos, mas dá pra viver a vida inteira sem escutar uma música sequer de qualquer um desses álbuns. Aí o cara faz um grande disco, “Illinoise”, e depois some por aí, deixando “Chicago” e “John Wayne Gacy Jr.” reverberando por anos, vendo sua fama de grande talento da arte moderna crescer, crescer, sem fazer nada para que ela realmente ganhe vida. É. Para quem quer, Sufjan Stevens pode ser um dos artistas mais malas dos últimos tempos.

É nesse momento que eu volto para o meu time de origem e torno a defender o rapaz. Tente fazer uma imersão em sua carreira. Sente-se, coloque um bom fone de ouvido e deixe a música passear de um lado ao outro. Poucos artistas são capazes de fazer isso por você, e cá está um deles Em “The Age of Adz”, seu mais novo álbum, o músico viaja para tudo quanto é canto. Usa guitarras, abusa de orquestrações, permite ecos e repetições, deixa a eletrônica entrar sem medo e usa até Auto-Tune, aquele processador de áudio que deixa todas as vozes, da pior à melhor, com o mesmo efeito de cantor de hip hop. Sim, há uma faixa de 25 minutos, e isso poderia servir para o segundo time formar mais um argumento. Mas ela é, na verdade, muitas músicas em uma só, incríveis releituras de uma mesma partitura. Há no disco algumas canções que não figurariam na minha lista pessoal de melhores canções do cara, mas também temos a impressionante “Age of Adz”, que chega a emocionar de tão completa, tão rica, tão desavergonhada de seguir caminhos pouco comuns. Um refrão mágico, melodias que ninguém imita, oito minutos de cordas, corais, metais, barulhos esquisitos, o límpido vocal de Sufjan e tudo o que uma música sua tem o direito e o dever de ter. Assim como ela, “Now That I’m Older”, “I Want To Be Well”, “Vesuvius”, “I Walked” e “Get Real Get Right” são cheias de grandes momentos, passagens que jogam holofotes sobre a genialidade de Stevens, sua invejável noção musical. Quem tem saco para Sufjan Stevens é capaz de escutar canções memoráveis, gemas pop que fogem da normalidade e caem direto na lista de incríveis manifestações artísticas. É verdade, é preciso paciência para gostar dele. É preciso querer. Mas o segredo é que vale muito a pena.

Notinhas

Circuito off-Festival pega fogo

Se você é uma das pessoas que vai se deslocar até São Paulo nas próximas semanas para comparecer aos intermináveis shows e festivais de música que acontecem na cidade, fique ligado no que acontece fora do festival. Vários artistas que farão show na cidade também se apresentam no formato DJ set em clubes da cidade. Se liga só: Calvin Harris, atração maior do Exxxperience, que rola dia 14/11 em Itu, está agendado para fazer um set esperto no Hot Hot, no centro, dia 18 de novembro. Já o Hot Chip, que toca no Planeta Terra dia 20, sai de lá direto para a D-Edge, onde faz set no after party oficial do festival. Kevin Barnes, vocalista do Of Montreal, é outro que deve colocar seu projeto solo DJ List Christee em algum clube após sua apresentação no Planeta Terra. Parece que o americano toca no Glória, em data a ser definida. Imperdível.

Várias

O mundo está perdido. Ou está finalmente entrando nos eixos? Não sei, o fato é que o U2 convocou o produtor indie Danger Mouse (Gnarls Barkley, Broken Bells) para trabalhar em seu próximo disco. Eles já têm 12 faixas e esperam lançar o disco no primeiro semestre de 2011. /// Sam Bean vai finalmente lançar seu primeiro disco do Iron & Wine por uma grande gravadora. Contratado pela Warner, o americano prepara “Kiss Each Other Clean” para janeiro de 2011, e promete um disco mais pop, “radio friendly”, como definiu em entrevista à Spin. O álbum foi produzido por Brian Deck e tem a participação de Dave Sitek (TVOTR, Maximum Balloon). /// Quem também promete novidades é o Foo Fighters. Dave Grohl anunciou que o próximo disco, que chega ao mundo nos primeiros meses de 2011, vai ser produzido por Butch Vig (de “Nevermind”) e terá participação especial de Krist Novoselic, ex-baixista do Nirvana. Grohl ainda disse que será o mais pesado de todos os álbuns do FF. Aguardemos.

Todo mundo tem que ouvir

Apesar de ter feito um show baseado em seus sucessos passados, o Kings of Leon esteve no Brasil para o festival SWU com um disco recém-lançado: “Come Around Sundown” é o quinto álbum da carreira da banda, e já denota certa maturidade com um tracklist equilibrado, coeso e bem sincero. Vale a pena conferir.

Playlist

Holger – Beaver
Bad Religion – Ad Hominem
Queens of the Stone Age – Burn the Witch
Maximum Balloon – Shakedown
Nina Becker – Lá e Cá
Warpaint – Bees
Aberfeldy – Play The Music Loud
Engineers – Twenty Paces
Mary Gauthier – Goodbye
Celardoor – Legacy

Coluna B, dia 23/10

Lembra?

Lembra do Razorlight? Aquela banda meio britânica, meio sueca, que teve um grande single, “America”, e depois desapareceu. Lembrou? Se a resposta for não, tudo bem, não se culpe. Eu também gostaria de não me lembrar, porque o grupo não faz a menor falta na vida de ninguém (apesar de continuar na ativa e estar preparando um novo disco). Feliz foi Andy Burrows, que de burro só tem o nome. O ex-baterista do Razorlight saiu a tempo de não se sujar demais na falta de graça de sua banda e montou um novo projeto chamado I Am Arrows, que é dez vezes mais legal que o anterior. Esperto, Burrows pulou da cadeirinha da bateria para o microfone principal, empunhou guitarra e violão e colocou na praça este ano o saboroso “Sun Comes Up Again”, primeiro trabalho da nova banda que conta ainda com seu irmão Ben Burrows, os também irmãos Adam e Ben Chetwood e Nick Hill.

Onze dias após se desligar do Razorlight, Andy assinou contrato com a Universal Records para gravar um disco com o I Am Arrows. A sagacidade do músico se explica nas quatorze faixas de sua estreia, um pop ensolarado, aberto a todos os ouvidos, dos mais sensíveis aos menos exigentes, completamente dado às maravilhas da escrita descompromissada, feliz, verdadeira. Burrows não inventou a roda, não deu novas cores a um planeta cinzento, não tirou coelho algum da cartola. Seu mérito é tão somente fazer bem feito algo que, quando realizado com tal qualidade, pode ser tão prazeroso quanto uma grande criação cheia de ineditismo. Isso é música pop. Saiba como reconhecê-la: a cavalgada dos violões em “Battle For Hearts & Minds”, a batida sacolejante de “Green Grass” e seu refrão hipnotizante, a vontade de abraçar alguém que “Bruises” e “You’ve Found Love” dão, o piano mágico que chora em “Monsters Dash” e nos carrega diretamente para a bela “No Wonder”, a letra em que todo mundo se vê retratado de “Another Picture Of You”, a leveza dos arranjos de “Far Enough Away”, a diversão intrínseca que envolve “The Us” e tudo que diz respeito a “Nice Try”, uma das músicas mais legais desse ano, desde seu começo de calmaria, os backing vocals, o refrão bonitão, enfim, tudo mesmo. Há todo um ar anos 70 que ronda “Sun Comes Up Again” e faz com que a gente tenha certeza absoluta que o Andy Burrows fez mesmo a escolha certa ao começar o I Am Arrows. Obrigado, Razorlight.

Agora, me conta: você se lembra do Snow Patrol, certo? Essa tenho certeza que sim, uma das melhores bandas farofas (digo isso com todo carinho) do rock atual, veio fazer show no Brasil na semana passada e tudo mais. Pois o senhor Gary Lightbody também deu uma fugida de sua banda de origem para criar um outro projeto, chamado Tired Pony. Calma, o Snow Patrol continua vivinho da silva, é só um grupo paralelo. Aliás, mais do que isso, é um supergrupo paralelo. Encantado com a música country, Lightbody resolveu chamar alguns camaradas para formar a nova banda e tocar o estilo, e não economizou na qualidade dos membros. Começaram com ele Iain Archer, cantor irlandês e letrista de alguns bons sucessos do Snow Patrol, Jacknife Lee, produtor famoso que já trabalhou com U2, Bloc Party, R.E.M., Snow Patrol, Weezer e muitos outros, e Richard Colburn, baterista de uma banda que algumas pessoas conhecem por aí, chamada Belle and Sebastian. Apesar do elenco estrelado, Lightbody ainda não estava satisfeito e resolveu ousar na próxima contratação. Foi quando anunciou o reforço de Peter Buck, sensacional guitarrista do R.E.M. e dito pelo vocalista do Snow Patrol como um de seus heróis de toda a vida.

O supergrupo recebeu a mão de Jacknife Lee também na produção de seu primeiro disco, “The Place We Ran From” – nome que, aliás, diz um bocado sobre a disposição de Lightbody de fugir do que ele mesmo chama de “seu próprio sistema”. O álbum foi gravado em apenas uma semana, em Portland (EUA), e traz em seu âmago a face empoeirada da música americana de raiz, algo que permeia cada nota do disco. Ainda que não tenha gerado um disco sensacional, a união de forças tão inspiradoras para formar o Tired Pony foi capaz de colocar ao menos um punhadinho de grandes canções nos nossos ouvidos sedentos. A empolgante “Poin Me At Lost Islands” recebe uma bela cota de violões e se assenta muito bem com a voz de Lightbody e alguns instrumentos de corda. “Held In The Arms of Your Words”, assim como “That Silver Necklace”, caminha em um terreno projetado para o folk, com batidinha relaxante e poucos desafios a oferecer. “Northwestern Skies” é constantemente alvejada por notas tristonhas, deixando por aí um ar de misteriosa. Já “Dead American Writers” foge dos traquejos country e soa como um lado B do Snow Patrol. Vale lembrar que o Tired Pony também recebeu contribuições valiosíssimas, como da dupla do She & Him, Zooey Deschanel e M. Ward, na melancólica “Get On The Road”, e Tom Smith, ótimo vocalista do Editors, que emprestou sua voz para a belíssima “The Good Book”, um dos destaques do disco.

Quando percebemos que “The Place We Ran From” não passa de um álbum apenas bom, agradecemos aos céus que Gary Lightbody não tenha feito como Andy Burrows, que chutou sua banda pra longe e formou outra. Tanto Snow Patrol quanto R.E.M. e Belle and Sebastian ainda têm muito o que fazer por nós. Mas, agora, ao lado do I Am Arrows, e não do Razorlight.

Notinhas

Novidades de 2011

Na boca de novembro, como estamos, é impossível não começar a pensar no que teremos o prazer de escutar no ano que vem – e, pra ser bem realista, já daqui a algumas semanas, quando os vazamentos começarem. Há uma boa lista de discos certos para 2011, e alguns artistas começaram a dar as caras já. Um deles é o sumido Red Hot Chili Peppers, que anunciou novo álbum, já sem John Frusciante mas com produção do mago Rick Rubin, para março. O U2, para quem curte, é outro que promete álbum para os primeiros meses do ano que vem, assim como o Beastie Boys. Caminhando um pouco mais para o indie, temos The Pains of Being Pure At Heart, Cold War Kids, Juliette Lewis e até o The Last Shadow Puppets, projeto do vocalista do Arctic Monkeys, Alex Turner, todos pensando em um 2011 mais bonito pra você.

Paul McCartney no Brasil

Não foi fácil. Uma verdadeira luta, com direito a pequenas rasteiras, choro, ranger de dentes e muita força de vontade para conseguir. Mas, no final, os recompensados ficarão felizes. Nas últimas semanas, uma batalha para conseguir assistir aos show de Sir Paul McCartney em São Paulo foi a notícia principal no mundo da música nacional. No Twitter, muitos desesperados praguejavam sua falta de sucesso na empreitada. Mas a Coluna B conseguiu, via irmão mais velho esperto, e estará lá para acompanhar o que possivelmente será a última turnê internacional, pelo menos a cantos selvagens como o Brasil, do Beatle mais querido de todos (eu sei, há controvérsias). Um segundo show foi aberto, e seus ingressos voaram com a mesma velocidade do primeiro. Por isso e por todo o resto, tenho a certeza de que estaremos (os poucos que conseguiram, é claro) diante de um momento sublime e histórico.

Todo mundo tem que ouvir

Da mesma forma que assombrou o mundo (pelo menos o meu) no começo do ano passado com o disco “Checkmate Savage”, o grupo escocês The Phantom Band voltou a aparecer: de surpresa. “The Wants”, segundo trabalho da banda, foi lançado há poucas semanas. Não chega à qualidade sensacional do primeiro, mas é impossível de se ignorar. Ouça.

Playlist

Os Pontos Negros – Se o Variações Fosse Meu Barbeiro
Plaumtree – Scott Pilgrim
Rene Hell – Walking In Tune
Sub Luna – A Distance Between
Warpaint – Undertow
Jenny and Johnny – My Pet Snakes
Japandroids – Lucifer’s Symphony
Delay Trees – In February
Nikola Sarcevic – Tro
The Mars Volta – Eriatarka

Coluna B, dia 16/10

SWU, um festival de momentos

Três dias inteiros dedicados a uma única coisa: curtir como nunca um festival de música. Itu, no interior de São Paulo, foi palco do SWU (Starts With U), evento de proporções grandiosas que aconteceu de 9 a 11 de outubro, em uma fazenda da cidade. Tão cheio de bandas quanto de polêmicas, o que deu o tom do festival foi mesmo a sucessão de momentos – bons e ruins. Uma enxurrada de sensações se atropelavam, enquanto mais de 165 mil pessoas se acotovelavam por um lugar mais próximo de suas bandas preferidas (e mais quentinho, a Fazenda Maeda é gelada). E lá estava a Coluna B, atenta a tudo para trazer para você os melhores (e piores) momentos do SWU.

Momento “me tira daqui”
O show do Rage Against The Machine foi caos puro. Tudo começou com uma estrela vermelha tomando o telão vagarosamente, enquanto uma sirene deixava todo mundo apreensivo. Assim que o primeiro riff de “Testify” explodiu das caixas de som, o mundo se tornou um lugar mais alucinado. A poderosa voz de Zach de la Rocha parecia incitar a violência. Empurra-empurra. Celulares perdidos pelo chão. Rodas de mosh. Cerveja jogada pro alto. Tudo o que um show do Rage merecia ter. Ainda que eu quase tenha sido pisoteado, foi épico.

Momento “haja paciência”
Levar duas horas para sair do SWU no primeiro dia não foi fácil. Ainda bem que o problema foi solucionado, e no segundo e terceiro dia foi infinitamente mais fácil deixar o local.

Momento “dei mole!”
Mallu Magalhães, CSS, Josh Rouse, Aeroplane, Mombojó e Bomba Estéreo estão entre as atrações que eu dei o vacilo de perder, seja porque escolho alguma outra coisa no horário, ou porque cheguei atrasado. Mas, acima de qualquer outro, o momento “dei mole” fica por conta do show do Otto, que aconteceu no mesmo horário do Dave Matthews Band, e foi considerado por muitos uma das melhores atrações do festival.

Momento “colírio”
Joss Stone não precisava falar nada. Quieta, ela já ganhava a atenção de qualquer um que tivesse vista para o telão. Que mulher linda! Já o seu show, bem, não faria diferença se estivesse no “mudo”.

Momento “conversa pra boi dormir”
O papo de sustentabilidade, que envolveu o festival, vira conversinha à toa quando notamos diversas formas de desrespeitar as pessoas que estavam no SWU. Desde a turma do camping até as pessoas que queriam se alimentar depois dos shows, o sofrimento foi eterno. Antes de se preocupar com o meio ambiente, o SWU precisa cuidar melhor das pessoas que vão ao festival.

Momento “eu já sabia”
Eu não tinha a menor dúvida de que chegaria aqui após a maratona de shows e diria que o Queens of the Stone Age havia sido o melhor show. Apesar de encurtado em meia hora por causa de um atraso por problemas técnicos, o set list perfeito e a indisfarçável animação de Josh Homme fizeram dele o melhor show do SWU.

Momento “Brasil-sil-sil”
A qualidade dos shows nacionais no SWU foi marcante e uma belíssima prova do quanto a música (indie?) brasileira tem evoluído. Começando pela abertura dos palcos principais com o Black Drawing Chalks, quando as pessoas se surpreendiam por eles serem brasileiros, passando pelas ótimas apresentações de Tulipa Ruiz, Cidadão Instigado, The Twelves, Macaco Bong, B Negão e os Seletores de Frequência e chegando ao sensacional show do Los Hermanos, muito melhor do que aquele do Just A Fest, com o Radiohead. Quem diria, em um festival de grandes atrações gringas, a nova música brasileira foi um dos maiores destaques.

Momento “aumenta o som!”
Regina Spektor sofreu com um som mulambo, raquítico em sua apresentação no SWU. Sua música sensível, fina, ficava quase inaudível por causa do som baixo. A tenda eletrônica sufocava a voz e o piano da cantora russa-americana. De vez em quando, víamos ela apontando o indicador para cima, pedindo que aumentassem seu volume. Uma pena.

Momento “cabeça fundida”
Um dos shows mais incríveis do festival foi o do Mars Volta. Cinco músicas em uma hora, com muita viagem, improvisação, jam e dancinhas de seus protagonistas. Uma aula de guitarra com Omar Rodriguez-Lopez. “Cicatriz ESP” foi antológico. Um show para fundir a cabeça de qualquer cidadão apaixonado por música.

Momento “surpresa!”
Ainda que muitos esperassem que elas fossem a decepção do festival, Incubus e Kings of Leon fizeram bons shows. O KoL animou a plateia, diferente do que se vê em shows transmitidos pela TV. Já o Incubus enfileirou velhos sucessos, da época em que ainda era uma banda relevante no cenário mundial.

Momento “me acorda quando acabar”
Dignos de nota, o show do MSTRKRFT, muito esperado por diversos fãs, foi fraquíssimo. Uma das decepções do festival.

Momento “naquele tempo…”
Pixies, Sublime With Rome, Yo La Tengo e Cavalera Conspiracy fizeram shows para quem sente saudades. O Pixies, meio em rotação lenta por conta da idade e da pouca animação de Black Francis e comparsas, ainda animou muita gente com diversos hits barulhentos antes da tortura com o Linkin Park (a qual nem me dei o trabalho de assistir). O Sublime apenas emulou o que um dia já foi sucesso, encaixando bem como a trilha sonora inofensiva de um lindo fim de tarde em Itu – o mesmo fez o Yo La Tengo, talvez com um pouquinho mais de sucesso, apesar dos fãs de Linkin Park vaiarem a banda por não entenderem o que é uma guitarra bem tocada. Já os irmãos Cavalera, Max e Igor (me recuso a escrever o nome dele cheio de frescuras), metiam músicas e mais músicas do Sepultura, uma atrás da outra, levando um bocado de pessoas ao delírio.

Coluna B, dia 09/10

Maximum Balloon, o Spin-off do ano

Todo mundo sabe, ou deveria saber, o que significa spin-off. É uma expressão em inglês usada para definir uma coisa que vem de outra já estabelecida, maior. Fala-se muito disso em séries de TV (exemplo: a série “Joey” era um spin-off de “Friends”, sacou?), mas agora a história veio parar diretamente na música com o Maximum Balloon, novo projeto do guitarrista do TV on the Radio, Dave Sitek, e seu excelente disco de mesmo nome.

Fosse mesmo uma série, este spin-off de sucesso contaria a história de um talentoso guitarrista, que com o tempo se mostrou um produtor sensacional – não á toa, esteve por trás de todos os discos do Yeah Yeah Yeahs, da estreia de Foals, Holly Miranda, Liars e até da Scarlett Johnasson, além dos discos do próprio TV on the Radio – e resolveu lançar um disco demonstrando toda essa habilidade musical sem a pressão que por ventura sofreria no dia a dia com sua banda de origem. E aí, mais tranquilo e dando as cartas como bem entende, o músico tiraria das caixas de som um dos álbuns mais bacanas desse ano, convocando grandes artistas para fazerem participações especialíssimas nas dez faixas de “Maximum Balloon”. Não é uma bela história?

Colocando a cabeça para funcionar, Sitek lança mão de suas armas que povoam as canções do TVOTR e se permite viajar em arranjos pouco comuns, engatando uma quinta quando o assunto é fazer bases cheias de balanço para vozes que dominam o cenário musical americano. Abrir com a incrível “Groove Me”, música funkeada que entra forte na briga pelo posto de canção do ano, é dar um passo de campeão. Com a voz dominadora de Theophilus London, a nova sensação da música negra americana, a faixa é poderosa, funciona em casa, na pista, no carro, no céu e até no inferno. Ao lado de Holly Miranda em “The Lesson”, Sitek joga confetes para o trip hop e mete tons angelicais por toda canção. Seus companheiros de TVOTR também participam da festa. Tunde Adebimpe canta a ótima “Absence of Light”, que poderia muito bem ter saído do último disco da banda deles, “Dear Science”, enquanto Kyp Malone empresta sua voz tão característica à quebrada “Shakedown”, um soul totalmente anacrônico.

O time é fechado por uma turma de respeito. A voz sempre clássica de David Byrne está em “Apartment Wrestling”, fortemente influenciada pelos anos 80, desde a forma de cantar até às bases eletrônicas; Katrina Ford, figurinha fácil nos discos da banda de Sitek, volta a empunhar o microfone na empolgante “Young Love”, segunda faixa do disco, e uma das que funcionam bem para pistas de dança; Karen O, pupila do homem forte do Maximum Balloon em todas as produções do cara para o YYYs, também se apresenta ao mestre para colocar sua inegável vibração na faixa “Communion”. Yukimi Nagano e seu Little Dragon ajudam o guitarrista a construir a sólida “If You Return”, de memorável refrão, enquanto Aku Orraca-Tetteh, do Dragons of Zynth (outra banda produzida por Sitek, em 2007), assume os vocais da bela pancada “Tiger”, primeiro single do disco, com direito a videoclipe e tudo mais, e Ambrosia Parsley fecha a conta dando um show com sua voz doce em “Pink Bricks”, uma balada tão bonita quanto esquisita, como é de praxe de Sitek.

Do começo ao fim, “Maximum Balloon” acerta no tom da mistura de rock sujo, eletrônico inspirado e um robusto soul, enfiando grandes peças vocais onde elas realmente merecem estar. Ainda assim, não dá pra dizer que é um disco que supera os álbuns da banda principal de seu criador. Melhor assim. Um bom spin-off, por melhor que seja, não foi feito para desbancar o seu originário, e sim para somar na história geral.

Notinhas

SWU: chegou a hora

A Coluna B desta semana já está sendo fechada diretamente de São Paulo, onde se prepara para começar hoje os trabalhos no festival SWU (e aproveitou para acompanhar na última quarta o show metade bem bom, metade vergonha alheia do Bon Jovi – pelo menos a banda ainda tem fôlego para mandar seus hits eternos em plena forma). Queens of the Stone Age, The Mars Volta, Rage Against the Machine, Los Hermanos, Regina Spektor, Kings of Leon, Pixies, Mutantes, Incubus. CSS, Tiësto, Yo La Tengo, Dave Matthews Band, The Twelves, The Apples In Stereo, Josh Rouse, Mallu Magalhães, Cidadão Instigado, Otto, Autoramas, Mombojó, Tulipa Ruiz, Letuce, Macaco Bong, Lucas Santtana e mais algumas dezenas de atrações. São quatorze horas de música, em cada um dos três dias de festival. Tudo isso você vai ficar sabendo sábado que vem, em uma coluna mais do que especial.

Várias

Tristeza indie em Minas Gerais. O show do suo francês Air, que aconteceria em Belo Horizonte dia 15 de outubro, foi cancelado porque quase ninguém quis comprar os ingressos antecipadamente. Agora, a banda toca apenas em São Paulo, Rio e Porto Alegre. /// A Banda Gentileza andou tocando em shows duas músicas novas, bem boas, mas já deu um certo banho de água fria na galera. Segundo Heitor, frontman, avisou que só tem disco novo em 2012. /// Cat Power se prepara para trazer à tona mais um álbum. Agora não apenas como cantora: Chan Marshall avisou que vai tocar todos os instrumentos no seu novo disco. Só falta uma data de lançamento, né, gata? /// Após as fraquíssimas vendas (e críticas também, diga-se de passagem) de “Congratulations”, último disco do MGMT, a dupla reclama que a gravadora não está dando liberdade criativa ao grupo para o terceiro disco. Alguém acha isso estranho? Eu. não. /// Se você estava doido para ouvir o novo disco do Death Cab For Cutie, assim como eu, pode sentar e esperar. Segundo Chris Walla, guitarrista da banda, ainda falta muito trabalho para que o álbum veja a luz do dia.

Todo mundo tem que ouvir

Ele está de volta. O grande, o inimitável, o absoluto, o gênio louco, Sufjan Stevens. Após abandonar seu projeto de fazer um disco sobre cada estado dos EUA (cinquenta discos? Ok, Sufjan, senta lá), o músico saiu-se com “The Age of Adz”, bela peça musical cheia de suas famosas viagens sonoras. Audição obrigatória.

Playlist

I Am Arrows – The Us
Lestics – Elevação
Kings of Leon – Pony Up
Aberfeldy – In Denial
Kaki King – Death Head
Ben Folds with Nick Hornby – Doc Pomus
Engineers – Nach House
Avassaladores x MSTRKRFT – Sou Foda x Heartbreaker (André Paste Mashup)
Holly Miranda – Forest Green, Oh Forest Green
Sub Luna – When We Did Rejoice

Coluna B, dia 02/10

Escócia, um país fofo

Se você é um leitor atento da Coluna B, vai se lembrar deste título de algum lugar. E aí, lembrou? Não, né? Tudo bem, acho que nem a minha mãe vai saber porque esse título é familiar (ou pelo menos deveria ser). Mas, como um colunista bonzinho (e realista) que sou, explico: “Escócia, um país fofo”, foi o título usado na primeira Coluna B, a inesquecível estreia, há pouco mais de quatro anos atrás. Abri os trabalhos aqui no Caderno 2 de A Gazeta em 2006 falando sobre as bandas de indie pop escocesas, dando destaque a duas delas que estão entre as minhas preferidas de toda a vida: Belle and Sebastian e Aberfeldy. E por que será que resolvi colocar o mesmo título na coluna de hoje? Simples: em pleno segundo ano de 2010, as duas bandas chegaram com discos novos depois de um bom tempo sem gravar.

Em fevereiro de 2006, o Belle and Sebastian lançou “The Life Pursuit”, seu último disco de inéditas. O trabalho fez grande barulho na mídia, mas desde lá pouco se ouviu da banda de Stuart Murdoch – uma coletânea ao vivo dos estúdios da BBC e o projeto God Help the Girl deram um certo alívio aos fãs mais desesperados, mas a sede por material novo era gigante. A já tão famosa fofura do grupo, que se apresenta no Brasil em novembro (dia 10 em São Paulo e dia 12 no Rio), está mais calibrada do que nunca em “Write About Love”, oitavo álbum da carreira, que chega com participações especialíssimas da musa Norah Jones (outra que vem fazer show no Brasil em novembro) e da atriz britânica Carey Mulligan.

O início de tudo, com a bela “I Didn’t See It Coming”, já mostra que este é mais um belo exemplar da suavidade melódica da banda. Os vocais masculinos e femininos que se revezam com tanta graça estão espalhados por quase todas as faixas, ganhando status de nobreza na melancólica “Calculating Bimbo” e em “Little Lou, Ugly Jack, Prophet John”, canção a que Norah Jones empresta sua voz deliciosa e faz dela a melhor do disco. O B&S faz sonhar na lindíssima “Read The Blessed Pages”, toda levada em dedilhados amargurados e uma flautinha safada, e dá uma animadinha com a divertida “I Want The World To Stop”, com a açucarada “The Ghost of Rockschool” e nas alegres “I Can See Your Future” e “Sunday’s Pretty Icons”, que fecham o disco com o astral lá em cima. A surpresa de “Write About Love” fica mesmo com a participação de Carey Mulligan na faixa-título, mostrando que seu talento não se restringe à atuação em cinema.

Se o Belle and Sebastian gera comoção por mais um disco lançado, com direito a presenças ilustres e tudo mais, o mesmo não acontece com o Aberfeldy. Infelizmente, porque a banda merece ser mais conhecida. Assim como o B&S, o Aberfeldy também é escocês (mas de Edimburgo, enquanto o B&S é de Glasgow) e também havia lançado seu último disco nos idos de 2006 – mais precisamente, “Do Whatever Turns You On”, segundo disco do grupo, saiu em julho daquele ano. Com ou sem burburinho, quem conhece e gosta da banda comemorou a chegada de “Somewhere To Jump From”, lançado oficialmente, mas de maneira bem discreta, em agosto. Convenhamos, quatro anos é um período bastante longo para aguardar notícias de uma banda que gostamos muito. A impressão que dava era de que o Aberfeldy havia desistido de lançar novo material: MySpace às moscas, nenhuma notícia sobre nada. Mas o terceiro álbum dos loirinhos é uma ótima surpresa.

Isso fica muito evidente quando ouvimos uma faixa como “In Denial”. Praticamente toda acústica, trabalhada cuidadosamente para emocionar com a forma como a melodia passeia pelos nossos ouvidos, ela se destaca como uma das mais bonitas do disco. Mas o tom de “Somewhere To Jump From”, apesar de ter baladinhas como a faixa-título, a bonitinha “Play The Music Loud” e a fofa “Wendy”, é de pura diversão. A abertura com “Claire” e o clássico tecladinho do Aberfeldy são uma preparação para o que vem a seguir. Há referências diversas, como o country (descarada em “California, West Lothian”, nas entrelinhas do violão de “Mean of Misery” e dando um certo charme a “If I Were A Joiner”) e o pop inglês dos anos 80 (presente em todo o álbum, mas especialmente em “Lisa Marie”), e as harmonias vocais sempre tão caras à banda (preste atenção nas vozes de “Malcom”, “Turn The Record Over” e “Talk Me Round”). Dá pra dizer que “Somewhere To Jump From” do Aberfeldy reúne grandes canções pop, assim como o excelente “Write About Love” do Belle and Sebastian. Mas é impossível deixar de registrar que, quatro anos depois, cá estamos nós falando dessas bandas escocesas fofas que nunca podem deixar de existir. Torçamos para que elas não demorem mais quatro anos para voltar novamente,

Notinhas

E os shows continuam chegando

Semana que vem rola finalmente o SWU, festival que vai reunir bandas como Queens of the Stone Age, Mars Volta, Los Hermanos, Regina Spektor, Pixies, entre outros, em uma fazenda em Itu, interior de São Paulo. Mas as confirmações de atrações gringas por aqui não param. Paulo McCartney confirmou sua presença em terras brasileiras em novembro. A turnê Up and Coming passa por Porto Alegre dia 7 e por São Paulo nos dias 21 e 22. Por enquanto, as datas são essas. Quem também vem é a minha musa querida Norah Jones. A americana toca em Curitiba dia 12, em São Paulo (de graça, no Parque da Independência) dia 14, no Rio dia 16 e em Porto Alegre dia 18, tudo novembro, mesmo mês que o Belle and Sebastian também vem – mas isso vocês já sabem, né.

Várias

A passagem de Brad Mehldau pelo Brasil está sendo sensacional. Segundo relatos, o pianista que enfia Nirvana, Radiohead e Beatles em seu repertório como se fosse a coisa mais natural do mundo deixou todo mundo embasbacado por aqui. Pena que não trouxeram o cara pra Vitória. /// Outra passagem que mexeu com São Paulo doi a do Dinosaur Jr. Além dos dois shows esgotados no club Comitê, os caras tocaram à tarde em uma pracinha de skatistas, embaixo de uma tenda. Quão sensacional isso é? /// Fiquem ligados: a qualquer momento um novo disco do Radiohead pode pipocar por aí. Os caras tão dando dica atrás de dica a respeito de material novo que estaria pintando por aí. /// Falando em disco novo, quem realmente está perto de lançar um é o R.E.M. Os caras já terminaram de gravá-lo, mas a bolachinha só deve sair mesmo ano que vem.

Todo mundo tem que ouvir

No ano em que completa 30 primaveras, a mais clássica das bandas punks do mundo, Bad Religion, lançou um disco novo. E um disco muito bom, diga-se de passagem. “The Dissent of Man” tem algumas faixas sensacionais, como “The Day That The Earth Stalled”, “The Resist Stance”, “The Devil In Stitches”, etc. Tome uma ótima decisão e ouça.

Playlist

Tulipa Ruiz – Do Amor
Paul McCartney – Every Night
Engineers – Twenty Paces
The Phantom Band – The None Of One
Mary Gauthier – March 11, 1962
Patti Smith – Till Victory
Low Sea – All Summer
Tricky – Bristol To London
Celladoor – Legacy
The Chapin Sisters – Palm Tree

Coluna B, dia 25/09

Leia o livro, veja o filme, ouça o disco

Este é Scott Pilgrim. Vinte e poucos anos e quase nada na cabeça. Passa os dias entre ouvir música, dormir mais do que a cama, andar sem rumo pela cidade, sonhar com garotas improváveis como Ramona Flowers, tocar baixo na sua banda Sex Bob-Omb e falar besteira aos quatro ventos. Scott Pilgrim é você, sou eu, ou pelo menos fomos um dia. Um retrato fidedigno do jovem do século 21, que tem tanta coisa à disposição que mal sabe como administrar tudo e fazer bom uso desse vasto arsenal. Scott Pilgrim é um moleque normal, mas é, acima de tudo, um fenômeno pop. O personagem, criado pelo quadrinista canadense Brian Lee O’Malley, é o protagonista de uma série de livros de quadrinhos que ganhou fama no mundo todo pela acentuada veia pop, as intermináveis referências ao universo cultural e por seu humor indefectível. A deliciosa série “Scott Pilgrim”, que saiu em seis volumes no exterior entre 2004 e 2010, veio para o Brasil este ano dividida em em três volumes, e o seu segundo número está prestes a ganhar as lojas pela Cia dos Quadrinhos, divisão da Companhia das Letras.

É, só existe um pequeno problema de datas que não combinam. “Scott Pilgrim Contra O Mundo”, o filme baseado na série de quadrinhos, já saiu nos EUA e na Europa e vem para o Brasil no final de outubro (pro Espírito Santo, só Deus sabe), muito antes do terceiro e último volume do livro sair por aqui (a Cia das Letras prevê o lançamento apenas para o começo do ano que vem). O jeito vai ser ler o terceiro volume já sabendo do final da história, porque não há a menor possibilidade de alguém perder o longa dirigido por Edgar Wright, que terá Michael Cera (astro de Juno) no papel de Scott Pilgrim e Mary Elizabeth Winstead como Ramona Flowers, namorada de Pilgrim e ex-namorada dos caras com quem Scott precisa lutar para ter o amor de sua amada. A mistura das linguagens de quadrinho, videogame e cinema de ação, com cortes velozes, muita música e computação gráfica misturada com filmagens comuns, deu muito o que falar na mídia e gerou um enorme burburinho nas mídias sociais, fazendo a expectativa para a chegada do filme se tornar quase insuportável. Apesar de tudo, essa histeria não se traduziu em números: “Scott Pilgrim Contra O Mundo” foi um fracasso de bilheteria nos EUA.

Quem conhece o mínimo sobre cinema sabe que ir mal nas vendas de ingresso está milhas e milhas distante de significar que o filme é uma porcaria. E nem dá para ser, com a trilha sonora sensacional que foi montada para ele. Já disponível para download nos melhores blogs, sites e torrents, o disco “Scott Pilgrim vs The World OST” traz as dezenove músicas usadas na versão de cinema que conta a história da vidinha de Pilgrim. Os nomes envolvidos diretamente com a produção do material musical podem dar uma ideia da qualidade da trilha: Nigel Godrich, produtor do Radiohead, Dan the Automator, Beck e as bandas canadenses Metric e Broken Social Scene, além do cultuado arranjador e compositor David Campbell, estão completamente envolvidos com o processo. O rock é o principal produto explorado aqui, seja nas músicas incidentais, nas temáticas ou mesmo nas canções produzidas para as bandas do próprio filme, que são totalmente inspiradas no punk faça-você-mesmo.

Para compor as músicas da Sex Bob-Omb, grupo em que Scott Pilgrim toca contrabaixo, foi convocado ninguém menos que Beck. O americano compôs as quatro canções da banda (boa parte das letras já existiam), mas colocou os próprios atores cantando. “We Are Sex Bob-Omb” é uma cacetada punk, completamente suja, com distorção em tudo quanto é canto, enquanto “Garbage Truck” tem uma pegada mais próxima do Weezer, mas com a guitarra estourando as caixas de som. “Threshold” é das mais divertidas – veloz e infestada de barulhos variados, microfonias e riffs rasgados, com uma pegada mais punk 70’s, bem como “Summertime”, que lembra bastante algumas faixas do próprio Beck e é a mais suave, ainda que não abandone de maneira alguma as distorções podres. Beck ainda contribui com a baladinha “Ramona”, homenagem à namorada de Pilgrim, em duas versões, a normal e a acústica.

As canções da banda concorrente de Scott, a Crash and the Boys, ficaram a cargo dos incríveis Broken Social Scene, que compuseram a vinheta “I’m So Sad, So Very, Very Sad”, de treze segundos, e a porrada punk imunda e espevitada “We Hate You Please Die”. O BSS tanbém colocou na trilha a doce “Anthems For A Seventeen Year Old Girl”, homenagem à ex de Scott, a oriental Knives. A outra banda do filme, The Clash at Demonhead, que é fã do Metric na história, recebeu colaboração da banda de Emily Haines, que ainda liberou a faixa “Black Sheep” para o disco. Ajudam a dar um sabor especial ao som original do longa bandas como T-Rex, com sua saborosa “Teenage Dream”, The Rolling Stones, com a suingada “Under My Thumb”, Frank Black, vocalista do Pixies, com a ótima “I Heard Ramona Sing”, Black Lips com a frenética “O Katrina!”, Blood Red Shoes com a ótima “It’s Getting Boring By The Sea”, a clássica Beachwood Sparks com “By Your Side”, The Bluetones com a balada “Sleazy Bed Track”, Brian Lebarton com uma versão 8-bit de “Threshold” e, finalmente, o Plumtree com a faixa “Scott Pilgrim”.

A história de Scott Pilgrim é a história de uma geração inteira, e esse passeio pelas várias mídias e formas de arte que a envolvem acabou se mostrando uma viagem deliciosa. Leia o livro, veja o filme e ouça o disco. Scott Pilgrim vai se transformar no seu novo herói. Meu, ele já é.

Notinhas

60 Cariocas Empolgados

Parece coisa de filme, mas é real. Quando ficaram sabendo que o grupo sueco Miike Snow, que faria shows no país, não ia mais tocar no Rio porque os organizadores alegaram “falta de público”, um grupo de cariocas se organizou em tempo recorde, vendeu cotas de participação para pessoas normais como se fossem patrocínios e conseguiram levar o grupo de “Animal” para show na cidade – o evento ocorreu na última segunda e, dizem, valeu a pena todo o esforço. Não satisfeitos, o mesmo bonde carioca se uniu mais uma vez essa semana para viabilizar um projeto um pouco maior: incluir uma data no Rio de Janeiro para a pequena turnê que o Belle and Sebastian vai fazer no Brasil em novembro. Se para o Miike Snow sessenta pessoas pagando duzentos reais era o necessário, no caso do B&S eles precisariam de 280 “compradores” das tais cotas. Resultado: em apenas 35 horas, todo o montante estava vendido. Agora, resta aguardar a confirmação das datas do grupo escocês e comemorar. No Rio, a união faz a força e organiza shows.

Discos novos à vista

O Black Lips anunciou que deve lançar seu próximo disco em janeiro ou fevereiro de 2011, com produção do bombado Mark Ronson. Segundo o guitarrista Cole Alexander, “este álbum deve ser mais comercial”. Tem gente querendo ganhar dinheiro aí, hein. /// Outra banda preparando disco novo é o Fleet Foxes, grupo de folk que arrebatou o mundo da música em 2008. Existem chances do disco, que já acabou de ser gravado, ser lançado ainda esse ano. /// O incrível grupo paulistano Lestics também colocou disco novo no mercado. “Aos Abutres” está disponível para download no site da banda http://www.lestics.com.br e vale muito a pena. /// Duffy, escocesa que fez sucesso com seu disco de estreia, “Rockferry”, está de volta em novembro com mais um disco. “Endlessly” foi todo escrito junto com Albert Hammond, sim, o pai do guitarrista do Strokes, Albert Hammond Jr. /// Após quinze anos, o Gang of Four finalmente volta a gravar um disco inédito. “Content” sai em janeiro. Aguardemos.

Todo mundo tem que ouvir

E quem não gosta de escrever sobre o amor? O Belle and Sebastian gosta, e muito. Aliás, mais do que gostar, eles sabem fazê-lo muito bem, como provaram em “Write About Love”, novo disco do grupo escocês. O álbum, que acabou de vazar essa semana na internet, traz onze deliciosas faixas, com direito a dueto com a musa Norah Jones e a atriz Carey Mulligan. Imperdível.

Playlist

Lestics – Travessia
Paul McCartney – The Lovely Linda
Ben Folds & Nick Hornby – Saskia Hamilton
Maximum Balloon feat. Kyp Malone – Shakedown
Low Sea – All Summer
Get Cape. Wear Cape. Fly – The Plot
Grinderman – Heathen Child
Dominant Legs – About My Girls
Boston Spaceships – I See You Coming
Black Mountain – Old Fangs

Coluna B, dia 18/09

Para eles, o outro lado.

Então você acha que conhece um certo artista. Tem certeza das referências que ele usou em sua carreira, pensa que já dá até pra prever como seria um novo disco, os novos singles, os shows do ano que vem. Vai nessa. Ainda bem que a arte não é afeita a essa previsibilidade toda. Não é nada menos que intrigante ser surpreendido por uma mudança de direcionamento daquele artista que você achava já ter certeza do próximo passo. E isso, tanto Nina Becker quanto o Bombay Bicycle Club fizeram muito bem.

Nina é carioca, e você já deve ter visto seu belo e delgado rosto em algum lugar por aí, principalmente nos shows da Orquestra Imperial, da qual faz parte dividindo os vocais com a cantora e atriz Thalma de Freitas e outros expoentes da novíssima cena musical carioca. Lá, em cima do palco, entre sambas, marchinhas e boleros, Nina faz o tipo menina doce, sempre com uma dancinha tão tímida quanto sedutora e dando aquele belo tostão de sua voz sabor maracujá. Por anos e anos, esperou-se um trabalho solo da carioca. Eis que 2010 traz finalmente o fim desta espera. E em dobro. Nina lançou logo dois álbuns de uma vez: o melancólico “Azul”, em que surge praticamente sozinha, acompanhada apenas por violão e uma ou outra percussão; e “Vermelho”, um pouco mais quente, mas não menos introspectivo, gravado ao vivo em estúdio em quatro dias com o grupo Do Amor segurando o instrumental.

Devemos agradecer Nina Becker por não ter se deixado levar pela facilidade de repetir a fórmula de sucesso com seu grupo. O ar melancólico, dos dias nublados e pensativos embaixo de um edredon pesado, parece ter sido feito sob medida para a moça. Cheio de pausas e silêncios, de sussurros e dedilhados suaves, “Azul” traz como destaques o sambinha tristonho “Não Me Diga Adeus”, a bela “Não Tema”, que lembra muito a fase “Sou” de Marcelo Camelo, “Samba-jambo”, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, a sensível “Ela Adora” e “Dans Ton Ilê”, cantada em francês e com o cello de Moreno Veloso cortando o coração pela metade. Se “Azul” tem o jeito deliciosamente mole e preguiçoso de quem acabou de acordar às onze da manhã de um belo domingo ensolarado, “Vermelho” tem a cara de quem ainda não foi dormir no sábado. Com um som recheado pelos ótimos músicos do grupo Do Amor, que também eram banda de apoio de Caetano Veloso, Nina envolve suas canções em elementos reais, palpáveis, mesmo nas mais lentas baladas, como a bonitinha “Volte Sempre”, “Madrugada Branca”, que semeia beleza e lembra Marisa Monte, a lindíssima “Lágrimas Negras” e a melancólica “Do Avesso”. Quando flerta com o rock, Nina também se dá muito bem, e mostra belo entrosamento com a banda de apoio, como na agradável “Toc Toc”, nas viajandonas “Tropical Poliéster” e “De Amor e Paz”, e em “Superluxo”, de veia pop saltada no talo e com arranjos que lembram a melhor fase do Los Hermanos.

Para ter uma percepção de como “Azul” e “Vermelho” são duas obras que se complementam pelas linguagens diferentes para formar uma fotografia completa de Nina Becker, a cantora colocou duas canções figurando em ambos os discos. “Lá e Cá”, uma de suas mais belas canções, é minimalista em “Azul”, quase some entre os amplos e perturbadores silêncios da faixa. Já em “Vermelho”, ela ganha o acompanhamento de uma percussão leve e violões um pouco mais assanhados. “Janela”, por sua vez, tem a malemolência carioca no sangue de “Vermelho”, enquanto é sufocada até o limite com a economia de instrumentos e empolgação em sua versão “Azul”, ganhando arranjos de sopro e metais que deixariam Chico Buarque orgulhoso. Em seu dois-em-um solo, Nina consegue ser muito diferente de quando está no palco com a Orquestra Imperial, abrindo o peito na nossa frente para que vejamos não aquela figura que samba em câmera lenta em cima do palco, mas as verdadeiras cores da sua alma.

No caso do Bombay Bicycle Club, o estranhamento foi ainda maior para mim. Tenho uma historinha particular com esses ingleses. Certa vez, há bons anos atrás, recebi de um amigo uma faixa da banda. Frenética, bateria comendo solta, velocidade de riffs e tudo o mais que fez a fama de Franz Ferdinand, Kooks, Arctic Monkeys e afins. Gostei de cara, mas demorei para ter contato com um disco completo deles. Quando finalmente veio parar na minha mão, percebi ali um potencial verdadeiro para que se tornassem grandes. Pouco mais de um ano depois, vejo na internet um segundo disco dos caras. Baixei correndo, nem sabia de sua existência. Esse álbum era “Flaws”, e, ao ouvir, pensei: “o que aconteceu com essa banda?”. Tudo havia mudado. Esqueça a velocidade de outrora, nem pense nas guitarras estridentes que chamaram sua atenção antes. “Flaws” é todo acústico, com a melhor definição de folk que posso dar a partir de algum disco de 2010. E, sem dúvidas, “Flaws” é simplesmente maravilhoso.

Impressionante como o Bombay Bicycle Club conseguiu fazer uma mudança tão grande de direcionamento artítstico e sair ainda mais bem vistos dessa virada. Com uma sensibilidade aterradora, canções como “Leaving Blues”, “Jewel” e “Fairtale Lullaby” transportam o lirismo simples do Iron & Wine para o coração do rock inglês. Dedilhados cuidadosos, vozes que pouco alteram o tom e melodias de doer nos ossos de tão bonitas e bem trabalhadas fazem de “Flaws” uma das maiores surpresas do ano. Há ecos do sagaz tato pop de Sufjan Stevens em faixas como “My God” e “Many Ways”, respigam aqui e ali molhos de bossa nova, principalmente na combinação violão + vozes sussurradas de “Dust On The Ground” e a faixa-título “Flaws”, e há tempo para uma saborosa influência country nas sensacionais “Rinse Me Down” e “Ivy & Gold”. Tudo muito bem armado, sem deixar a impressão de que estão mexendo onde não deviam. Para Nina Becker e o Bombay Bicycle Club, retirar as máscaras era importante para uma afirmação artística completa. E deu certo. Para eles, o outro lado é realmente mais bonito.

Notinhas

Dos festivais

Na última semana, os dois maiores festivais do segundo semestre brasileiro divulgaram sua escalação completa, com horários, ordem de shows e tudo mais a que temos direito. O SWU, que acontece no feriado de outubro (9, 10 e 11) vai colocar dois palcos principais, um ao lado do outro, fazendo com que um show comece assim que o outro, do palco ao lado, terminar. E os espectadores só perdem alguma atração principal se quiserem ver as bandas do palco Oi Novo Som e na tenda Heineken de música eletrônica. Já o Planeta Terra Festival, que rola em 20 de novembro, manteve o esquema Palco Principal x Palco Indie com alguns conflitos de horário. Os principais devem ser Phoenix vs Passion Pit e Pavement vs Hot Chip. Yeasayer ganha de goleada de Mika (meu camarada Gustavo que me perdoe), e a festa enlouquecedora do Girl Talk no Palco Indie vai me fazer perder uma boa parte do carequinha Billy Corgan e seu costurado Smashing Pumpkins. Que venham os festivais.

Novos discos, e outros nem tão novos

O Coldplay, que andava mostrando material novo em shows por aí, avisou que só tem disco novo ano que vem. segundo o site Coldplaying. Parece que as músicas ainda estão longe de ficarem prontas. Sem pressa, amigos. /// O ótimo quarteto londrino Fujiya & Miyagi está prestes a lançar seu quarto disco. Ele se chamará “Ventriloquizzin” e deve sair entre o fim de 2010 e começo de 2011. O primeiro single, “Sixteen Shades of Black & Blue”, excelente, já tá disponível na internet. /// A bela Fiona Apple, sumida que só ela, é outra que prepara sua volta para o começo do ano que vem. O quarto disco da cantora deve sair nos primeiros meses de 2011. /// Paul McCartney, que vem para o Brasil fazer shows em novembro, vai relançar um de seus melhores discos pós-Beatles, “Band on the Run”, lançado com o Wings. A edição comemorativa é toda remasterizada e virá em três discos e mais um DVD. Imperdível.

Todo mundo tem que ouvir

E eis que, essa semana, chega uma das melhores notícias dos últimos tempos: sumido desde 2006, o Aberfeldy, um dos personagens principais da primeiríssima Coluna B, está de volta com seu terceiro disco. “Somewhere To Jump From” é leve, melódico e imperdível. Corre pro download.

Playlist

Celladoor – Daria’s Dream
Band of Horses – Older
Smoke Fairies – Devil In My Mind
The Naked and Famous – The Source
Beta Radio – Borderline
Serj Tankian – Disowned Inc
Maximum Balloon + Karen O – Communion
Sunset – Early Morning
Palbomen – Secrets
Black Mountain – Buried by the Blues

Coluna B, dia 11/09

Espírito Livre

Diga adeus às amarras. Você agora vai poder fazer o que quiser, da forma que preferir. Ouça, crie, componha, toque, escolha, ajude, trace, recue, faça como quiser. Um espírito livre responde apenas a si mesmo, às suas necessidades internas, aos anseios e inquietudes que ele mesmo produz dentro de si. Esse é o perfil dos artistas que a Coluna B vai apresentar agora, em uma pequena e rápida volta ao mundo. Direto da Austrália, os new hippies do Tame Impala arregaçam as mangas e sacam da cartola um belo disco de estreia. Dividindo-se entre os EUA e a Escócia vem uma dupla que, vez ou outra, se junta pra fazer um disquinho comum, mas sempre saem com um pequeno clássico nas mãos: Isobel Campbell e Mark Lanegan. Tamém americana, a cantora, compositora, dançarina e o que mais você quiser, Janelle Monáe, é a nova sensação da música pop americana justamente por não ser convencional. Pelo jeito, o tal do espírito livre faz um bem danado na hora de fazer música.

Tame Impala – Innerspeaker

No começo, era o Dee Dee Dums. Esse era o nome da banda de blues e jazz de Kevin Parker, vocalista do Tame Impala. Ela foi o ponto de partida do grupo atual, que está junto desde 2007 e só agora, em 2010, chegou ao primeiro álbum. O Dee Dee Dums tinha uma particularidade: misturava jazz e blues com rock psicodélico. Para chegar ao som pós-hippie do Tame Impala, foi preciso apenas aumentar o tom de psicodelia e carregar nas cores brilhantes para construir “Innerspeaker”, excelente estreia dos australianos. A banda deslizou para o rock psicodélico mais tradicional, com vocal cheio de efeitos, muitas guitarras lo-fi barulhentas, uma bateria sempre vibrante e linhas de baixo encaracoladas, e construiu seu próprio estilo a partir daí, colocando-se à frente das simplórias emulações de bandas dos anos 60 e 70. Apesar da boa voz de Parker, que lembra até a de John Lennon, é a força dos instrumentos e a incrível habilidade musical da garotada australiana que eleva o Tame Impala à condição de uma das grandes surpresas de 2010. A introdução de “Jeremy’s Storm”, bela peça instrumental, deixa um gostinho do que a banda mais sabe fazer. “Expectation”, com mais de seis minutos, e “Runaway, Houses, City, Clouds”, beirando os oito minutos, exploram o formato e sugam nossa atenção por toda a longa duração das canções. Há uma chegada forte no pop com as ótimas “Solitude Is Bliss” e “Desire Be Desire Go”, ou uma viagem sem volta aos primórdios do rock psicodélico com “Lucidity”. Neste sensacional “Innerspeaker”, o que vale é a liberdade criativa, de espírito, de caminhos. E tome psicodelia para a vida toda.

Isobel Campbell & Mark Lanegan – Hawk

Ela já foi vocalista de uma legendária banda de indie pop. Ele começou a carreira como cantor de um dos grupos seminais do grunge de Seattle. Aos poucos, ela se desvencilhou da imagem do Belle & Sebastian, que deixou em 2002, e garantiu para si a liberdade de realizar seus próprios projetos da maneira que bem entender. Já ele rodou e ainda roda o mundo, seja sozinho, com o Screaming Trees, como convidado em bandas dos outros ou com projetos que cria sem parar. De início, ninguém pensaria que a fofa e delicada Isobel Campbell teria algo a ver com Mark Lanegan, dono de uma das vozes mais fortes e marcantes do rock. Mas a união deu muito certo, e os dois já estão no seu terceiro disco. “Hawk” traz toda a fineza das composições da escocesa, com sua voz suave, quase infantil, se embrenhando no áspero vocal de Lanegan. A sensação é de que, a qualquer momento, o americano vai deixar sair um berro de rasgar a garganta, deixando Isobel com cara de assustada. Mas, calma, isso não acontece. É justamente o estilo contido de Lanegan que dá graça a essa união inesperada. É claro, os arranjos variados ajudam e muito a dar cor ao trabalho da dupla. Há o pop lânguido que Isobel aprendeu com seus ex-companheiros, como nas bonitas “Sunrise”, “We Die And See Beauty Reign”. Quando descambam para o rock, seja com pegada de blues como em “Come Undone”, misturado ao country como na incrível “Snake Song”, ou nas poderosas “Hawk”, “Get Behind Me” e “Lately”, cheias de sotaques setentistas, o duo se sai tão bem quanto nos momentos em que se aproxima do folk – “Time of the Season”, “No Place To Fall” e “Eyes of Green” mostram isso muito bem. A liberdade conquistada por Mark Lanegan e Isobel Campbell foi essencial para que “Hawk” pudesse soar tão sem limites. Poder usar suas referências da forma como preferir é uma grande demonstração de espírito livre.

Janelle Monáe – The ArchAndroid

Praticamente uma adolescente, Janelle Monáe se mudou de Kansas City para Nova Iorque determinada a ser uma artista da Broadway. Entre estudos e testes, Monáe foi lentamente se fixando apenas na música. Depois que conheceu Big Boi (Outkast), deslanchou como cantora e daí para ser contratada pela Bad Boy Records, selo de Sean “P. Diddy” Combs, foi um pulinho. Mas, apesar das amizades e da relação de trabalho com grandes nomes do hip hop, engana-se quem pensa que a moça se contenta em ficar apenas nesse estilo. “The ArchAndroid”, álbum de estreia da americana (ela havia lançado apenas um EP, em 2007, chamado “Metropolis: Suite I”), é um dos mais elogiados discos deste ano, e o motivo é bem simples: Janelle vai do erudito ao pop rasgado em questão de segundos, e o faz sempre com muita propriedade e talento. A passagem de um estilo para outro por vezes é sutil, tão normal como uma rua começa quando a outra acaba, e em outras é como uma pancada no pé da orelha, se assemelhando a uma viagem no tempo com turbulências pelo caminho. Ainda assim, as mudanças nunca soam forçadas ou desnecessárias, e sim caminhos escolhidos com cuidado, correndo riscos à revelia dos perigos que tais mudanças podem trazer. Veja, por exemplo, a mudança de “Sir Greendown”, suave como uma balada dos anos 60, para “Cold War”, frenética peça que funciona tanto em uma cena de filme de ação quanto numa pista de dança abarrotada. “Oh Maker” poderia ser uma canção dos Beatles, ou de Simon & Garfunkel, e a sua sucessora no álbum, “Come Alive (The War Of The Roses)”, tem uma pegada rocker alucinada que lembra My Brightest Diamond, de uma forma esquisita e bonita. Janelle Monáe percorre caminhos inacreditáveis nas 18 canções de “The ArchAndroid”, utilizando todo o tipo de arranjos possíveis para tornar a audição do disco uma verdadeira experiência libertária. Libere seus ouvidos e liberte-se.

Notinhas

O SWU avança

Algumas semanas atrás, eu disse por aqui que o SWU começava a se tornar um festival imperdível. Pois é, acho que ele já chegou nessa categoria, finalmente. Depois da confirmação do Queens of the Stone Age, atração mega, os produtores vagarosamente adicionam ilustres representantes da música brasileira ao festival. O mais importante é o Los Hermanos, que vai aproveitar a reunião para shows no Nordeste e aparecer por lá também. Mas não fica só nisso. Mallu Magalhães, Macaco Bong, Cidadão Instigado, Superguidis, Volver, Autoramas, BNegão e Os Seletores de Frequência, CSS e Black Drawing Chalks também estão escalados. O festival também promete alguns nomes internacionais da cena indie para completar as escalações dos palcos menores: o Apples in Stereo é um dos que estão para ser confirmados. Para a tenda eletrônica, o SWU anunciou seus 21 nomes essa semana. Serão oito atrações no dia 9, sete no dia 10 e seis no dia 11, com nomes como Erol Alkan, Gui Boratto, Mixhell, The Twelves, Nick Warren e o imperdível MSTRKRFT. Já ficou imperdível.

Várias

O lindíssimo “Bitte Orca”, sétimo disco do Dirty Projectors, vai ganhar uma edição de luxo. A novidade será um segundo disco, com apresentações acústicas, b-sides e covers. Se o disco simples já é aquela coisa toda, essa nova edição dupla vai ser sensacional. /// 17 de setembro é dia de ver o Ok Go em São Paulo. Os caras vêm tocar no VMB, premiação da MTV (aliás, você já votou na banda Zemaria para melhor grupo de eletrônica? Se não, entre no site da MTV e faça isso agora!), e depois fazem shows em SP e Porto Alegre. Ingressos já à venda. /// Outro show sensacional, Miike Snow vai ao Rio, a SP, Porto Alegre e Recife também no final deste mês, e também com os ingressos já à venda. /// Quer mais shows por aqui? Massive Attack se apresenta no país em novembro – dia 15 em BH e dia 16 em SP. Haja dinheiro! /// Feist está gravando novo disco. A canadense se mudou para uma mansão do século 19 em Paris para sair de lá com o sucessor de “The Reminder”, de 2007, embaixo do braço. Finalmente. /// Agora, o mais importante: Paul McCartney vem ao Brasil. Ainda sem confirmação oficial, mas com notícias vindas do Chile e da Argentina, lugares onde o beatle também tocará, os ventos sopram alguma data em novembro para as apresentações em São Paulo e Rio, talvez Brasília. Em breve, mais notícias por aqui.

Todo mundo tem que ouvir

O Klaxons andou ensaiando a sua volta por algum tempo, mas só agora eles realmente colocaram pra fora o que estava guardado desde 2006. “Surfing The Void” é o segundo disco da banda inglesa, e vazou há poucas semanas na internet. Se é bom? Baixe e tire suas próprias conclusões.

Playlist

Cee-Lo – Fuck You
Nina Becker – Ela Adora
João Brasil – Cerol no VCR (The XX vs Bonde do Tigrão)
Magic Kids – Hey Boy
Matthew dear – Shortwave
Zola Jesus – Trust Me
Cellardoor – YY
Fellini – Alcatraz Song
I Am Arrows – Nice Try
The Weepies – Hard To Please

Coluna B, dia 28/08

Especial: Os melhores discos dos quatro anos de Coluna B

No dia 26 de agosto de 2006, ocupando toda a última página do Caderno Dois de A Gazeta, uma coluna versava, cheia de “pra-quê-isso”, sobre as bandas indie de pop rock da Escócia. Com o simpático título de “Escócia, uma país fofo”, a Coluna B estreava no jornal falando sobre Aberfeldy, uísque, Belle & Sebastian, kilt, Camera Obscura e outros esquemas variados. Hoje, quatro anos depois, cá estamos, firmes atrás das novidades musicais para passar para você, leitor, todo santo sábado. Mas, eu me pergunto, e talvez vocês também se perguntem: quais os melhores discos que já passaram pela Coluna B? Resolvi então trazê-los de volta para comemorar nosso aniversário. Se você esteve em outra galáxia nos últimos quatro anos, se prepare: vem aí a nata da música moderna. Se esteve aqui, lendo a Coluna B sempre, de vez em quando ou quase nunca, não há muitas surpresas. Mas música, quando é boa de verdade, não cansa jamais.

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In Rainbows – Radiohead (2007)

No mercado, marcou história com um sistema inédito: o comprador escolhia quanto queria pagar pelo disco. Já na música, é o melhor e mais belo disco do Radiohead desde o histórico “Ok Computer”.

Neon Bible – Arcade Fire (2007)

Se músicas como “My Body Is A Cage”, “Intervention” e “Ocean of Noise” não significam nada para você, posso afirmar sem medo que existe uma lacuna a ser preenchida na sua vida. Ainda é tempo.

The Xx – The Xx (2009)

Quatro ingleses de pouco mais de vinte anos despontam do nada um disco envolvente, que certamente ajudará a definir o som da segunda década deste século

The Suburbs – Arcade Fire (2010)

É, o Arcade Fire de novo. Outro trabalho sensacional, desta vez menos dark, mais rápido e totalmente voltado para o passado da vida calma nos subúrbios canadenses. Outra obra-prima.

Dear Science – TV on the Radio (2008)

Quem disse que o rock nunca se renova? Com um trabalho inspiradíssimo, variando entre muitas pancadas e alguns afagos gentis, ninguém foi mais contundente em 2008 do que esses novaiorquinos.

The Trials of Van Occupanther – Midlake (2006)

O Midlake assombrou o mundo com esse disco. Cordas, pausas, melodias finas e uma música que ficaria na memória para todo o sempre, “Roscoe”.

Back to Black – Amy Winehouse (2007)

Hoje, Amy é mais conhecida pelas besteiras que arrola pela vida. Mas, lá pelos idos de 2007, ela despontou com esse disco pelo talento incrível e canções sensacionais. Fique com essa parte.

Everything All the Time – Band of Horses (2006)

A estreia do Band of Horses foi além do que qualquer um poderia esperar. O estilo sulista do grupo, combinando voz suave e melodias puxadas pro country, conquistou muitos fãs.

Third – Portishead (2008)

A esperança de finalmente ouvir de novo a voz de Beth Gibbons nunca esmoreceu. E, quando “Third” chegou, onze anos após o disco anterior, percebemos que valeu a pena aguardar.

Odd Blood – Yeasayer (2010)

Tudo que você gostaria de ouvir de uma banda esquisita, dançante, sensível e vanguardista está aqui. O segundo disco dos americanos é bom do começo ao fim, sem tirar uma vírgula.

Checkmate Savage – The Phantom Band (2009)

Os escoceses começaram a carreira mostrando porque o rock é um estilo imortal. Muitas ideias na cabeça e guitarra, baixo, bateria e teclado nas mãos. Pronto, um discaço.

Armchair Apocrypha – Andrew Bird (2007)

Violinista, o americano Andrew Bird cantou a vida de maneira muito singular, abusando das cordas e da sensacional tendência a fazer belíssimas melodias. Campeão.

Through the Windowpane – Guillemots (2006)

O disco que lançou o Guillemots prometia uma carreira brilhante. “Trains To Brazil” se tornou um clássico, “Made Up Love Song #43” virou hino. O resto é história.

Favorite Worst Nightmare – Arctic Monkeys (2007)

Molecada boa que já tinha deixado todo mundo de ouvidos aguçados na estreia, os ingleses mostraram com esse segundo disco que estavam longe de ser apenas mais uma banda no mundo.

High Violet – The National (2010)

Não há aqui uma só canção que não nos deixe impressionado em algum momento. Seja a voz poética de Berninger, os arranjos carregados ou as letras mundanas, tudo funciona perfeitamente bem.

“9 Sonhos” e “Les Tics” – Lestics (2007)

Discos irmãos, filhos dos mesmos pais: o Lestics, banda paulistana que se esmera na produção de canções de belezas infinitas, com letras interessantes e arranjos simples e belos. Imperdível.

I Love Your Glasses – Russian Red (2008)
Uma surpresa muito gratificante, encontrada perdida em um blog de Barcelona. Essa espanhola, que canta em inglês com um sotaque adorável, é talento puro.

Fall Down – CALLmeKAT (2009)

Direto da Noruega, essa cantora fascinada por gatas (até na hora de escolher um cover, como “The Love Cats”, do Cure) brinca com barulhinhos, miados e melodias irresistíveis.

Happy Hollow – Cursive (2006)

Frenético, pesado, completamente imprevisível. Do nada, explodem metais por todos os lados, guitarras barulhentas se debulham, e então o ritmo é quebrado novamente. Um disco lindo.

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Recebem menção honrosa (mas mereciam mesmo é uma nova página só pra eles) os incríveis Bitte Orca – Dirty Projectors (2009), Sou – Marcelo Camelo (2008), Vanguart – Vanguart (2007), Volume 1 – She & Him (2008), Wolfgang Amadeus Phoenix – Phoenix (2009). Someone to Drive Me Home – The Long Blondes (2006), Efêmera – Tulipa Ruiz (2010).

Coluna B, dia 21/08

Obs: Hoje, dia 26 de agosto, é aniversário oficial da Coluna B. Foi nesse mesmo dia 26, mas de 2006, que a primeira edição foi publicada. Neste sábado, uma coluna especial vai comemorar o aniversário, e, quem sabe, se tudo der certo, veremos no futuro, etc, role uma festinha pra marcar a data.


Defina o indefinível


Indefinível. Existe melhor classificação que essa? Certamente, para os suecos Wildbirds and Peacedrums, não. O leitor, que vez ou outra lê essas humildes linhas e não entende patavina (será que patavina também é uma palavra esquisita?) do que está sendo dito aqui, já deve estar pensando: outra daquelas bandas complicadas. É. Mas e não é essa a graça da vida, descomplicar as coisas? Nada que vem fácil dá tanto prazer quanto o que a gente se esforça um pouquinho pra ter. E talvez a nossa luta nem seja assim tão árdua, afinal, o próprio nome da banda já pode ser uma dica valiosa do que vamos encontrar: uma poderosíssima voz feminina (Wildbirds = pássaros selvagens), de deixar a Beth Gibbons do Portishead com uma pulga atrás da orelha, e arranjos de percussão acachapantes (Peacedrums = batuques da paz), de deixar o resto do Portsihead de cabelo em pé. É, vocês perceberam, tem um bocado de Portishead no Wildbirds and Peacedrums. E isso não pode ser nada além de um grande elogio.

Mas, vamos lá, concordo que música não foi feita para ser explicada, e sim para ser degustada – sem pressa ou preconceitos, deixando o prazer encher nossos ouvidos, o pé flutuar vagarosamente, a cabeça se abrir como uma cebola do Outback para receber o molho musical. Bom, esqueça a parte da cebola, isso que dá escrever com fome. Voltando ao Wildbirds and Peacedrums, seu terceiro disco, “Rivers”, recém-lançado, é algo para ser admirado daquela forma que falei: devagar. É de uma beleza pouco usual, recebe dotes africanos nas batidas alucinadas, destaca-se com melodias nada menos que exóticas. Nada é normal, ainda que por vezes pareça simples. O vocal de Mariam Wallentin é multifacetado, pode soar ligeiramente feliz em uma música, e completamente melancólico e instrospectivo na seguinte, sem parecer que alguma coisa está errada – pelo contrário, faz todo o sentido quando colocamos em perspectiva todo o intrincado conjunto sonoro que a dupla despeja em cada canção. Aliás, é bom que seja dito, o Wildbirds and Peacedrums é formado por um duo, um “casal-casado”, que não deve mesmo ser nada convencional. Pode até ser esquisito perceber que aquele mutirão de instrumentos, coros, passagens e intervenções é todo coordenado por apenas duas pessoas, que dormem juntos quando a noite chega, que um dia assinaram um papel afirmando que, sim, aceitavam o outro como marido e mulher. Imagino Andreas Werliin chegando em casa com uma sacola de pães quentinhos, leite fresco e um tambor africano gigantesco nas costas. “Querida, cheguei”, e Mariam o receberia de avental e guitarra havaiana pendurados no pescoço.

Normais não devem ser, ainda bem. Ninguém com o pensamento “dentro da caixa” conseguiria construir uma canção tão arrebatadora quanto “Fight For Me”, praticamente uma instalação de arte sonora. Não dá pra dizer de onde vêm as vozes, de onde saem tantas batidas diferentes. Não mais que de repente, baquetas se chocam atrás do bumbo onipresente. Corais masculinos e femininos se degladiam em um embate enlouquecedor, marcam sílabas especiais, entram como backing vocal quando ninguém esperava. Tudo isso e muito mais para formar uma das mais belas músicas de 2010. São quatro minutos e meio de sustos e sorrisos furtivos. Desde o começo sorumbático, com a linda “Bleed Like There Was No Other Flood” (olha esse nome!), “Rivers” leva muito a sério o ato de surpreender, de maravilhar o ouvinte. É assim o tempo todo, a cada faixa. A incerteza dos caminhos parece ser a tônica da estrutura musical da dupla, indo quase sempre por onde não prevemos. “The Wave” tem um quê de bossa nova que eu nunca poderia imaginar encontrar aqui. Estranha, parece motorista iniciante: acelera e freia repentinamente, sem muita coordenação aparente, mas acaba por ser fazer uma das mais bonitas canções deste álbum. Outro destaque absoluto é “The Lake”, que parece ter percussão feita com panelas e baldes, mas dá vontade de chorar de tão incomum. Já “The Drop” vai pelo caminho mais simples possível para uma banda nada simples como o Wildbirds and Peacedrums, e quase, mas quase mesmo, dá pra ser chamada de baladinha pop. Mas, a cada pancada que estoura nos nossos tímpanos, a tentação de reduzí-la a apenas essa simplória definição perde mais um tentáculo.

A voluptuosa “The Course” vai crescendo, subindo a ladeira com muita sensualidade na voz de Mariam, e chega ao ápice nas curtas repetições do refrão. A forma poética como sua melodia- base deságua em um caldaloso final é atordoante, de tão bonito. Com a assustadora “Under Land and Over Sea”, que parece ter sido eliminada da trilha de um filme de suspense por ser amedrontadora demais, voltamos à baila de comparações com o Portishead. Não dá pra ignorar a semelhança com a banda de Bristol, que vai do clima esfumaçado da canção, quase a capela, acompanhada apenas por um coro de tensões variadas e cordas tão discretas que quase não se percebe, ao tom de voz que Wallentin utiliza aqui. A marcante percussão de “Peeling Off The Layers”, algo muito próximo à bateria de um exército de zumbis famintos, também nos remete a canções do Portishead, mais precisamente a “Machine Gun”, do disco “Third”. Apesar de ser completamente diferente. Entendeu? Completam esse discaço as não menos belas “Tiny Boles In This World”, arrastada e fantasmagórica, e “The Well”, que tem em sua malha eletrônica alguma proximidade com as viagens alucinógenas do Animal Collective.

Depois de algumas audições de “Rivers”, chega-se à conclusão que não se trata de um disco indefinível. Nada disso, eu estava rigorosamente enganado. A lição que fica é a seguinte: é muito mais divertido e prazeroso escutar as músicas do Wildbirds and Peacedrums do que tentar definí-lo. Se tentei fazê-lo hoje, aqui e agora, foi apenas para que você, leitor, possa ter o imenso gozo de conhecer melhor essa banda e esse disco. Afinal, música não foi feita para ser explicada, e sim para ser degustada. Lambuze-se.

Notinhas

Ainda sobre shows

E segue a incrível saga dos shows internacionais do segundo semestre brasileiro. A impressão que dá é que metade das bandas dos EUA e Europa vão baixar aqui no Brasil até o final do ano. O New Model Army toca em São Paulo nos dias 17 e 18 de setembro, e os ingressos já estão sendo vendidos. O SWU tratou de confirmar mais algumas atrações. Ninguém menos do que Mars Volta vem para Itu, além do “brasileiro-internacional” CSS (ah, tem a Joss Stone também, mas essa vale mais a pena assistir no mudo). Falando em bandas nacionais, o SWU anunciou O Teatro Mágico, Gloria e o imperdível Black Drawing Chalks. E o festival começa a ficar bom de verdade. Quem também vem para shows em São Paulo e Porto Alegre é o Ok Go, que faz mais clipes legais do que músicas boas, mas mesmo assim deve valer a pena dar uma espiadinha. Em novembro, além do Planeta Terra, o Scissor Sisters aparece por São Paulo, no dia 22, e o UMF, festival de eletrônica, vai trazer Fatboy Slim, Moby, Carl Cox e, quem sabe, Chemical Brothers. Já para o começo de 2011, a nova sensação do pop, Janelle Monáe, está sendo esperada para um festival que deve contar com o Mayer Howthorne também.

Rock in Rio

É claro que pode dar certo, é óbvio que pode se transformar em um grande marco da história da música nesse país. Dinheiro pra isso, eles têm. Mas, pra mim, o Rock in Rio 2011 já começou errado. O novo clipe do famoso jingle da festa traz uma série de pessoas que não sabem nem porque foram convidadas. Nem falo de Pitty e Ivete Sangalo, essas estão em evidência, lançam discos, fazem shows, goste ou não. Mas Toni Garrido, Sandra de Sá, Ivo Meirelles, Frejat, vocalistas de Jota Quest e Capital Inicial, e o Tico Santa cruz (!), o que diabos eles estão fazendo ali? E o saxofonista do Kid Abelha, meu Deus! O Ed Motta e a Tiê, como eles caíram de para-quedas dentro de um estúdio? Deu uma vergonha alheia que vou te contar. Espero que seja apenas um começo com o pé esquerdo e que tudo mude depois. Uma marca poderosa como o Rock in Rio merece muito mais. E pode ir muito além da raspa da música pop brasileira dos anos 90.

Todo mundo tem que ouvir

Há algumas semanas, um link rodou a internet avisando que se tratava do novo disco do of Montreal, “False Priest”. Que nada, era falso. Mas, semana passada, finalmente o verdadeiro novo disco dos americanos vazou. E que bela surpresa: ainda naquela loucura característica, a banda volta em ótima forma. Corre pro download.

Playlist

Arcade Fire – Wasted Hours
of Montreal – Casualty of You
Steget – Magiskt
Seaber – Warm Blood
Them Bird Things – Northern Curve
Maximum Balloon – Groove Me (feat Theophilus London)
Isobel Campbell & Mark Lanegan – Eyes of Green
Radiohead – Sulk
Bluebell – What’s On?
Nina Becker – Lágrimas Negras

Coluna B, dia 14/08

Diferentes e imperdíveis

O que você prefere ouvir? Um som limpo, onde se percebe todos os detalhes, até o mais ínfimo ruído? Ou uma onda sonora disforme, cheia de barulhos, rasgada com ritmos que não primam pela correção? Há lugar para todos os tipos de som, é este o meu veredicto. A Coluna B de hoje comprova essa teoria com duas bandas que apresentam formas sonoras completamente diferentes. O Gem Club, detalhista até o fim dos dias, preocupado com a limpidez de suas canções, e o Best Coast, que parece tocar com os captadores sonoros cobertos por pesados edredons enquanto ao lado do microfone um liquidificador se debulha em rodopios. Não são melhores, nem piores – apenas diferentes, e imperdíveis.

Gem Club – Acid and Everything

A primeira impressão fica grudada na cabeça: belíssimas canções esculpidas em diamante à base de piano, cobertas por um clima etéreo sem precedentes. Como um sonho suave, um voo sem rumo por imensas cadeias de montanhas, nos deixamos carregar por cada nota que se alinhava com as seguintes. As cordas entram em ação e têm o mesmo efeito que um beijo leve e demorado, um braço que se entrelaça no outro, um cheiro repentino de nuca fresca. A voz cobre os arranjos como um lençol leve envolve um corpo que se deita, aquecendo não mais que o necessário, protegendo com delicadeza.

Parece ser assim que o Gem Club quer que percebamos “Acid and Everything”, EP de estreia do duo americano formado por Christopher Barnes e Kristen Drymala. E que estreia. Seis canções que primam pela perfeição. Aqui nada sobra, nada falta, e em nenhum momento notamos qualquer superficialidade. Não dá pra dizer que temos uma grande variedade de temas e caminhos, é verdade, mas a forma como a música do Gem Club se derrama pelas nossas mãos, escorrendo entre os dedos e gotejando calmamente na nossa imaginação tem um pouco (ou um tudo) de magia. “Acid and Everything”, não me engano, é um dos registros mais inspiradores deste ano. E, mesmo depois de diversas audições, a primeira impressão continua verdadeira.

Best Coast – Crazy For You

O Best Coast é uma surpresa. Pode não ser pra você, que acompanha o dia a dia da música indie com lupa especializada e faro de detetive, mas é uma verdadeira surpresa em si. Olhe atentamente para eles, veja a face enigmática da vocalista Bethany Cosentino, ouça os aparentemente desleixados EPs da banda, e me diga: você achou, desde o começo, que o Best Coast ia pegar todo mundo pelo pé, como pegou? Tinha alguma ideia de que esses californianos iam se tornar um dos símbolos desse revival dos anos 90 que começa a dar as caras por aí? Seja sincero. Falando por mim, quando baixei alguns de seus divertidos EPs, nem imaginava que eles seriam tão falados agora, com direito a participação em campanha da All Star e tudo mais.

Mas é essa a realidade depois que “Crazy For You”, disco de estreia da turma, chegou aos ouvidos do mundo. Ficou difícil não encontrar um pouquinho de Best Coast em tudo que se vê nos blogs e sites especializados. O estilão “surf music encontra o rock lo-fi ordinário embolado com a doçura do pop anos 60”, deixando ruídos e ganidos de guitarra vazarem para dentro de nossos cérebros aos borbotões, é irresistível. Pequenas delícias como “Boyfriend”, já um hit de tamanho considerável no verão americano e europeu, as fofinhas apimentadas “The End” e “Goodbye”, a joydivisiana “Honey” ou a tristonha “When I’m With You” são de fazer qualquer moleque espinhento se apaixonar pela voz lânguida de Cosentino e sua cara de quem acabou de acordar de ressaca. E, mesmo com esse som abafado, com o jeitão de quem já passou das cinco da manhã acordado, você ainda vai querer me convencer que o Best Coast não tem nada de surpresa? É, sim, uma gratíssima surpresa.

Notinhas

Várias

Shirley Manson, lembra dela?, deu as caras novamente com uma música nova lançada diretamente no Facebook. “Pretty Horses” vai fazer parte de seu novo álbum solo, e é bem bonita. Meio folk, nada a ver com o que a ruivinha fazia no Garbage. Procure e ouça. /// Outra moça que apareceu com carreira solo foi Kathryn Calder, uma das muitas pessoas que fazem parte do New Pornographers. O disco de Calder, ao contrário do de Manson, já está disponível por aí e se chama “Are You My Mother?”. Vale a pena escutar. /// Falando em disco novo, o Klaxons viu seis músicas de seu próximo trabalho, “Surfing The Void”, vazar em qualidade ruim na internet. Desta vez, fui mais forte do que nunca e não baixei as faixas – algo que já tinha feito com uma versão em péssima qualidade do mais recente e ainda inédito disco do Interpol. Vou segurar a curiosidade. Aguenta, coração!

O Brasil em shows

E continuam as especulações e confirmações sobre shows de grandes bandas internacionais no Brasil. O blog Popload temperou a semana com duas notícias sobre duas bandas imensas. A respeito do Queens of The Stone Age, disse que se encontrou com Josh Homme, que teria lhe confirmado a presença no Brasil dia 11 de outubro (SWU!). Sobre o Arcade Fire, o blog comentou que uma fonte teria revelado que a grande banda canadense estaria fechando contrato para vir ao Brasil em breve, A data flutua entre outubro (SWU?), novembro, caso atrasem um pouco a turnê européia (Planeta Terra?), ou dezembro/janeiro, quando seriam atrações de um tal festival desconhecido que estaria trazendo Amy Winehouse ao Brasil. Respostas em breve. Até o fechamento da coluna, nenhum desses boatos foram confirmados.

Todo mundo tem que ouvir

Nina Becker é uma das cantoras mais agradáveis da nova geração, mas deixava uma lacuna escancarada por não ter um disco pra chamar de seu. mas a bela carioca resolveu isso com sobras: “Azul” e “Vermelho” são os dois álbuns da moça, lançados ao mesmo tempo, e que estão dando sopa por aí. Difícil escolher o mais bonito.

Playlist

Antony and the Johnsons – My Lord My Love
Land Of Talk – Quarry Himns
Arcade Fire – Month Of May
Nina Becker – Janela
Bluebell – Dull Routine
Annuals – Springtime
Them Bird Things – Underground
Kathryn Calder – Castor and Pollux
The Xx – VCR (Baile Funk Remix by André Paste)
Silje Nes – The Card House

Coluna B, dia 07/08

Uma obra de arte chamada “The Suburbs”

O mundo hoje está dividido em dois. De um lado, aqueles que se apaixonaram por “The Suburbs”, o terceiro e recém-chegado disco do Arcade Fire. Do outro estão as pessoas que dizem ter gostado muito do disco, mas na verdade não curtiram tanto assim. Em rápida observação desse fenômeno esquisito, mas tão humano, dá pra entender perfeitamente os dois tipos de comportamento. Convenhamos, não é fácil virar as costas para uma das bandas mais bem sucedidas do rock anos 2000. O Arcade Fire não é um grupinho qualquer que lança umas músicas por aí de vez em quando e pronto, acabou. A chegada de novas canções da banda é um acontecimento verdadeiramente digno de nota, análises profundas e noites insones de audição desenfreada. Suas composições são cheias de contextos, significados e camadas, levam a música de volta ao panteão da arte ao mesmo tempo em que são pop, próximas a públicos variados. Há no Arcade Fire tudo o que uma banda precisa para ser resumida como incomparável. E aí, quando os caras lançam um novo disco, você vai ter coragem de dizer que achou ruim?

Por um breve (muito breve) momento, eu tive. As minhas primeiras audições de “The Suburbs” foram, no mínimo, conturbadas. De cara, sentenciei que não havia conseguido gostar de quase nada. Longo, com dezesseis faixas, uma hora e vinte de duração… o disco não me “pegou” de primeira. Logo vi que estava errado e aprendi com meu próprio erro. Não que eu precisasse desta situação para descobrir, mas é bom que se diga que escutar Arcade Fire é uma experiência diferente, para a qual precisamos delegar algo indispensável: tempo. Expressões artísticas tão ricas merecem um tempo de assentamento, de deglutição, e só então podemos dar um veredicto de coração. E, nem preciso dizer, “The Suburbs” cresceu absurdamente com o tempo. De uma hora pra outra, me vi completamente apegado às canções do álbum, como as incríveis “Modern Man” e “Wasted Hours”. Mesmo assim, não fujo de acrescentar que este é o menos fenomenal álbum da carreira de três da banda canadense. É difícil concorrer com registros históricos como “Funeral” (2004) e “Neon Bible” (2007). E, ainda assim, afirmo com lucidez indiscutível que “The Suburbs” é melhor do que 98% do que foi lançado este ano no mundo todo.

Escutando o que o Arcade Fire tem a dizer neste ano de 2010, podemos perceber que Win Butler, vocalista, guitarrista e principal compositor da banda, está passando por um momento delicado. É muito clara a sensação de que as esperanças do rapaz estão sendo despedaçadas, dia após dia. A saudade dos tempos em que o peso de ser um rockstar ainda era apenas um sonho, e não uma impactante realidade, está espalhada por todo o disco, entornando o caldo desde o seu conceito inicial, os subúrbios de Montreal onde o jovem (e, curiosamente, americano) Win, hoje com 30 anos, crescera. Saudoso, ele permeia as letras com citações de seus tempos de adolescente, sem contar a incrível paleta de cores oitentistas que tinge toda a malha sonora do terceiro disco do Arcade Fire.

É devagar, quando conseguimos observar “The Suburbs” como um complexo elemento único, que nos damos conta das infinitas cadeias de momentos marcantes deste álbum. Passamos por um portal quando escutamos a embasbacante faixa-título, e depois não conseguimos mais desgrudar o ouvido das caixinhas de som. O trio “Ready To Start”, “Modern Man” e “Rococo” está fácil no rol das grandes músicas da carreira do septeto. “Empty Room” é vasta e algo frenética, já trazendo a bela voz de Régine Chassagne à frente. Em seguida temos a bonita “City With No Children”, também cheia de conceito, e a suíte “Half Light I” e “Half Light II (No Celebration)”, sensacional. O dedilhado de guitarra que dá início a “Suburban War”, uma das melhores canções do disco, é de cortar o coração em cem pedaços simétricos. A décima faixa é a frenética da vez: “Month of May” lembra Queens of the Stone Age e só confirma a tendência à genialidade desta banda absolutamente fantástica. Para dar uma quebrada no clima que se forma com essa pancada no pé da orelha, a próxima música é a mais delicada balada do disco, “Wasted Hours”, com um refrão tão doce e melancólico quanto o é sua letra – veja só este verso do refrão: “wasted hours that you made new, and turned into a life that we can live”. A seguir, “Deep Blue” desce o dedo no piano e faz Butler sacar seu falsete para construir uma belíssima canção de amor por um tempo que não volta mais: a década de 90. Ele ainda pede que você deixe seu celular ou seu laptop de lado por um instante e vá curtir o que há de mais selvagem no mundo. Ok, conselho seguido. Quando chegamos a “We Used To Wait”, entendemos porque o Arcade Fire é o que é. Uma aula de música, casamento perfeito de melodia matadora e letras instigantes, tudo sob arranjo simples e bem cortado. Linda. Vamos sentindo o fim daquele gosto especial de um grande disco quando a segunda suíte nos atinge de vez. “Sprawl (Flatland)” é triste e arrastada, quase erudita, enquanto a viciante “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)” vem encharcada de brilhos oitentistas. Para fechar essa obra de arte, uma reprise diluída em água fresca da faixa-título acalma os ânimos e nos lembra de que, como diria Win Butler, os bons momentos ficaram para trás. É hora de recomeçar a ouvir, tudo de novo, e assim sucessivamente, por um bom tempo.

O Arcade Fire é uma banda grandiosa, como poucas sabem (ou conseguem) ser, e é preciso tempo e paciência para que tudo vire prazer puro. Assim como as melhores obras de arte, nada é de graça, tudo precisa ser medido, pensado, sentido. É claro que, mesmo que tenha dedicado um bom tempo ao disco, você tem todo o direito de não gostar de “The Suburbs”. Mas também vou entender se você continuar dizendo por aí que gostou, só pra não ficar pra trás. Não é nada fácil desprezar uma banda como o Arcade Fire. Só peço uma coisa: enquanto você pensa se confessa ou não que não gostou do disco, ouça mais um pouquinho. Pode fazer toda a diferença, assim como fez para mim.

Notinhas

Mais shows no Brasil

O negócio tá pegando fogo. Impressionante a quantidade de artistas e bandas, bons e ruins, que estão vindo para o país no segundo semestre. O Planeta Terra Festival, que já começou a vender ingressos, confirmou Empire Of The Sun, Passion Pit e Mika em sua escalação, fechando a bela conta de atrações internacionais. A Coluna B já está confirmada no festival, claro. /// Para o SWU, além da confirmação do Avenged Sevenfold (tem quem goste), fala-se muito em Yo La Tengo, Chemical Brothers, Jay-Z e Cypress Hill. O Festival de Alegre dos festivais de bandas internacionais no Brasil, como bem definiu um amigo da coluna, continua trazendo os anos 90 em peso. /// O Natura About Us, outro que rola em outubro, divulgou que trará Snow Patrol, Jamiroquai e Bajofond, além do já anunciado Air. Que beleza, hein!? /// Amy Winehouse estaria confirmada no Brasil em janeiro, principalmente para tocar no… Festival de Salvador (???). Deus nos ajude.

Los Hermanos: a volta?

Essa semana marcou a confirmação da mini-turnê que o grupo cariocas Los Hermanos vai fazer pelo Nordeste. Camelo, Amarante, Barba e Medina dão uma parada nas suas carreiras-solo para tocar dia 15 de outubro em Recife, 16 em Fortaleza e 17 em Salvador. Até aí, tudo bem. Mas a Coluna B ficou sabendo por fonte confiabilíssima que a banda cogita um retorno com disco novo e tudo mais já para o ano que vem. Segundo a fonte, algumas negociações entre os integrantes estariam atrasando a confirmação da volta definitiva da banda, muito por conta de compromissos já assumidos. Mas é bom se acostumar: o Los Hermanos está mais perto do que nunca de acabar com o tão falado “hiato por tempo indefinido”.

Todo mundo tem que ouvir

Sabe essas bandas fofas, mas tão fofas que a gente se sente meio criança, querendo repetir a música uma, duas, dez vezes? Então você já sabe um pouco do Magic Kids.

Bem ao estilo de Belle & Sebastian e Aberfeldy, os americanos lançaram “Memphis”, disco de estreia, e despedaçaram corações mundo afora. Ouça agora.

Playlist

Bigott – I’m Little Retarded
Citay – Tugboat
Teen Daze – Shine On You Crazy White Cap
Steget – Bara Nu
Paul McCartney – Picaso’s Last Words (Drink To Me)
Nina Becker – Do Avesso
Yeasayer – I Remember
Lost In The Trees – Fireplace
Stop Play Moon – Take It All
The Walkmen – Follow The Leader

Coluna B, dia 31/07

Música de menina

É, sim, música de menina. Isso mesmo. Se não gosta, sinto muito. Quer dar uma de machão e dizer que é coisa de mulherzinha? Vá em frente. Mas é bom que você tenha em mente que há muita coisa boa dentro deste universo musical feminino, aliás, um universo que este colunista não se cansa de explorar. A música pop feminina tem outro cheiro, outro sabor, cores mais vivas, empolga de uma maneira diferente. Os dois exemplos que a Coluna B traz hoje são apenas uma pequena parte do que podemos chamar de música de menina, mas que, no fundo, não tem nada a ver com isso. É música pop feita com cuidado, com brilhantismo, e o último a escutar essas coisas lindas aqui embaixo é mulher do padre. Tá falado.

Sia – We Are Born
Não chega a ser uma transformação, mas nota-se um ar diferente nas músicas de Sia em seu novo disco, “We Are Born”. Sopra pro lado dela atualmente um vento sul do pop que não há como disfarçar. Sia adocicou o seu mundo, deixou-o mais suave, como se saísse o sol e não mais anoitecesse em sua vida. E, pelo que parece, ela não está mesmo preocupada em esconder de ninguém essa fase que leva um bocado do lado sexy de Madonna e um tanto do estilo brincalhão de Cindy Lauper, além de colocar aqui e ali uma fagulha quase infantil, como em “Stop Trying”, que inclusive termina com uma voz de criança surgindo do nada, não esconde de ninguém. E não é apenas neste seu quinto disco de estúdio que a cantora australiana exacerba o jeitão popular. Sia também teve em 2010 a incumbência de produzir algumas faixas de “Bionic”, o último disco de Christina Aguilera, acredite se quiser. E o que pode ser mais pop do que isso?

“We Are Born” pode não ser tão pop quanto um disco de Britney Spears, mas traz alguns exemplos da utilização correta desta veia para se compor um grande disco, diversificado, bonito e extremamente divertido. Repare o refrão de “Bring Night”, cheio de oh oh ohs: trata-se de um exemplo clássico, além do teclado que permeia toda a canção, deixando aquele comentado toque infantil ainda mais evidente. “Oh Father” fecha o álbum com incríveis semelhanças com as inspiradas baladas das melhores fases de Madonna, não apenas por sua temática familiar, mas principalmente na forma como Sia canta e coloca as notas uma a uma, lado a lado, antes de paradas estratégicas. “Never Gonna Leave Me”, “I’m In Here” e “Clap Your Hands” são tão músicas de festa quanto a já mais conhecida “You’ve Changed”, primeiro single do disco, e todas elas têm lá o seu toque de Cindy Lauper, algumas deixando ainda mais evidente um sotaque oitentista nesta nova fase da australiana. “Be Good To Me” é bonita, tem uma tensão dramática leve e o vocal enviesado pelo grave que deixam Sia bem próxima à supracitada Aguilera. Completam o quadro de delícias desta nova Sia as ótimas “Big Girl Little Girl”, dançante e empolgante, e “Cloud”, uma moderna e bem encaixada faixa que destaca a bela voz da cantora. Se “We Are Born” é assim tão bom, culpe os novos ventos que sopram para o lado de Sia. Ela merece.

The Pipettes – “Earth vs The Pipettes”
Elas chegaram com a velocidade de um furacão. Soprando música pop grudenta para tudo quanto é lado, as meninas do grupo The Pipettes fizeram todo mundo se chacoalhar há quatro anos com um delicioso disco de apresentação, “We Are The Pipettes”. Mas esse furacão também espalhou sujeira mundo afora e desde aquela época a banda já mudou de formação umas quatrocentas vezes. Seguindo à risca, o Pipettes que ouvimos agora em “Earth vs The Pipettes”, o tão aguardado segundo disco, não é o mesmo que arrebatou o indie pop em 2006. Agora, comandam o show Gwenno Saunders (única remanescente da época do primeiro álbum), sua irmã Ani Saunders e Beth Mburu-Bowie, mas isso não significa que a festa tenha acabado.

Se “Earth vs The Pipettes” não tem a quantidade inacreditável de hits que o primeiro disco continha, a mesma vibração pop descarada que fez todo mundo se apaixonar anteriormente ainda se faz presente. Há uma sensibilidade retrô cuidadosamente depositada em cada nota de “Our Love Was Saved By Spacemen”, bem como um frescor de novidade que coloca “Thank You” na rota das canções mais bacanas destes últimos dias. Os vestidinhos de bolinha também não deixaram a banda, e continuam a formar o cenário de canções como as dançantes “Call Me”, “Stop the Music” e “I Need a Little Time”, a esperta “I Vibe U”, a graciosa “Ain’t No Talkin'” ou a bonita “From Today”. Por mais que sejam músicas bacanas, não há em “Earth vs The Pipettes” nenhuma grandiosidade do perfect pop como “Pull Shapes” ou “Your Kisses Are Wasted On Me”, hits matadores do primeiro disco. O furacão The Pipettes enfraqueceu um pouquinho, mas continua vivo e jogando delícias pop retrô pelos ares. Pegue-as, se puder.

Notinhas

Os melhores discos de 2010 (até agora)
De vez em quando, algum empolgado com o ano musical manda essa: uma lista de melhores do ano em julho. Desta vez, as listas vieram de grandes veículos, como a revista Spin e o MySpace. Não há números, mas sim discos que agradaram desde o começo do ano. Para a Spin, discos como “The Monitor” do Titus Andronicus, “Odd Blood” do Yeasayer, “Congratulations” do MGMT, “Maya” da M.I.A., “Love and the Opposite” da Tracey Thorn e “Cosmogramma” do Flying Lotus, estão entre os melhores do ano. Já o MySpace também destacou “Plastic Beach” do Gorillaz, “Sea Of Cowards” do The Dead Weather, “This Is Happening” do LCD Soundsystem, “Archandroid” da Janelle Monáe, “Contra” do Vampire Weekend, “Forgiveness Rock Record” do Broken Social Scene, “Broken Bells” do Broken Bells, “Sisterworld” do Liars, e “High Violet” do The National. E aí, gostou?

Shows capixabas
Vitória vai vivendo um período praticamente inédito de bons shows nacionais. A esperta produtora Antimofo trouxe o Autoramas ontem e traz o Mombojó, com elogiadíssimo disco novo, dia 13 de agosto. Quer mais? Lovefoxx, vocalista do CSS, faz DJ set na festa Cabaret, também da Antimofo, dia 4 de setembro. Nesse meio tempo, mais exatamente dia 7 de agosto, ainda teremos Otto levando seu lindo disco para o Teatro do SESI. Ta bom?

Shows no Brasil
Bon Jovi em São Paulo, no estádio do Morumbi: ingressos vão de 160 a 600 reais. tem coragem? /// O SWU confirmou várias atrações para a tenda eletrônica. Entre eles, Gui Boratto, Sander Kleinenberg, The Twelves e Nick Warren. Na parte de bandas,  além dos sofríveis Jota Quest e Capital Inicial, e também um Cavalera Conspiracy pra agradar os metaleiros, devem vir os imperdíveis Queens of the Stone Age e Rage Against the Machine. /// Um novo festival no segundo semestre se forma: o Fourfest chegou trazendo a confirmação do ótimo Caribou para outubro, em São Paulo, e ainda vão confirmar mais uma banda internacional. Aguardemos. /// O Planeta Terra está se transformando no melhor festival dos últimos tempos. Smashing Pumpkins, Pavement, Of Montreal e o incrível Yeasayer são as próximas confirmações dos organizadores. Nos vemos lá em novembro, sem dúvidas.

Todo mundo tem que ouvir
Finalmente, o Arcade Fire está novamente presente nas nossas playlists. “The Suburbs”, terceiro álbum do coletivo canadense, vazou na semana passada e já assombra com suas dezesseis lindas canções, como “Rococo”, “We Used To Wait”, “Month Of May”, “Ready To Start” e “Deep Blue”, entre outras. Um álbum obrigatório.

Playlist
Deftones – Beauty School
Rosie and Me – Darkest Horse
Keane – Your Love
Nina Becker – Lá e Cá
Admiral Radley – Sunburn Kids
Boston Tea Party – Zero One
Gem Club – Acid and Everything
Do Amor – Homem Bicho
Wildbirds & Peacedrums – Fight For Me
Isobel Campbell & Mark Lanegan – No Place to Fall

Coluna B, dia 17/07

Nova geração

Há tanto o que se ouvir neste mundo! Às vezes ficamos presos em esquemas repetitivos e não nos damos conta da variedade de boas canções que estão por aí. Hoje a Coluna B apresenta duas novidades que podem fazer com que você deixe aqueles seus discos dos anos 70 na gaveta por um tempo: Twin Sister e The Drums. Senta e ouve, amizade.

Twin Sister – Color Your Life
Música de sonho. Acho que essa é uma boa forma de tentar traduzir em palavras o que faz o quinteto norte-americano Twin Sister. De sonho porque não é desse mundo: é de um outro, mais matreiro; de sonho porque tem efeitos que a gente desconhece; de sonho porque tem cara de trilha sonora de filme amalucado, cenário esfumaçado, protagonista com cara de doida correndo não se sabe de quê, nem para onde. Engatinhando na carreira enquanto lança apenas seu segundo EP, o lindo “Color Your Life”, o grupo mostra a contribuição que pode dar além da música e coloca em seu site as trilhas de suas faixas para download e encoraja o público para que faça remixes com elas, já que todas as músicas estão sob uma licença não-comercial do Creative Commons.

Nada mal para quem procura matéria-prima de qualidade para novas peças de colagem musical. Faixas como a magistral “Mik & Honey”, que vai de um extremo a outro em poucos minutos, ou “The Other Side of Your Face”, que abre o EP se derretendo por mais de sete minutos entre camadas e mais camadas de melodias adoráveis, são sensacionais em sua forma original, mas poderiam resultar em grandes remixes. A mistura de barulhinhos eletrônicos com batidas suaves e vocais como confissões de amor ao pé do ouvido criam atmosferas surreais que podem se transformar em qualquer coisa. Os sonhos também têm a ver com possibilidades infinitas, afinal. Sonhar com um mundo livre de amarras e burocracias, onde a criatividade é o principal combustível da alma, é o que o Twin Sister deseja. A música de sonho, para começar, eles já fazem, e muito bem.

The Drums – The Drums
É tosquinho, mas é legal. Tem aquele jeitinho largado, jeans sujo e franja esquisita, mas faz melodias que a gente passa dias assoviando sem perceber. O tênis Converse está arrebentado pelo tempo, moldando-se ao todo como um conjunto perfeito do desleixo calculado, mas a veia experimental salta quando os primeiros acordes flutuam pelo ambiente. Molecada boa é assim, tem cara de que não vai dar em nada, mas, quando menos se espera, descobre-se todo o talento escondido sob a pesada camada de maquiagem. Essa descrição poderia servir para dezenas de bandas deste novo rock que emergiu na primeira década deste século, de Strokes a Franz Ferdinand, passando por Libertines e Black Rebel Motorcycle Club, mas se encaixa perfeitamente com o quarteto novaiorquino The Drums, os novos queridinhos da cena indie.

Alçados a uma das grandes promessas de 2010 por especialistas em uma pesquisada realizada pela BBC de Londres, a banda chega finalmente ao seu disco de estreia, “The Drums”, após ver seu primeiro EP ser recebido com festa ano passado. Com fortes influências de bandas britânicas como Smiths e Joy Division, além de trazerem em seu DNA um bocado da cena punk de Nova Iorque nos anos 70, o Drums viu suas doze músicas sobre a alegria do verão e a tristeza de uma vida solitária serem comemoradas por críticos de todo o mundo. O pop de guitarras em cores vivas faz de “Let’s Go Surfing” e “Best Friend” pérolas do cenário atual. “Down By The Water” se deixa derreter em uma balada cinzenta, enquanto “We Tried” e “Me and the Moon” são viagens confortáveis e saborosas ao pop dos anos 80. Há por todo “The Drums” uma saborosa corrente de melodias, levadas e riffs que nos prendem inexplicavelmente. Ou talvez não seja assim tão difícil de explicar: é o tipo de som que leva o bastão do rock dos anos 2000 um pouquinho mais adiante.

Notinhas

Shows no Brasil
A coisa anda esquentando por aqui. Enquanto crescem os boatos de Queens of the Stone Age e Pavement no Planeta Terra Festival, em novembro, aumenta também a possibilidade do SWU anunciar o Rage Agains the Machine para outubro, algo que já vem sendo ventilado faz tempo. No caminho, outros nomes ganham força para tocar por aqui: Miike Snow, um dos mais badalados grupos indie da atualidade, traz da Suécia seu ótimo show em setembro, direto para Rio, São Paulo e Porto Alegre; o californiano She Wants Revenge, com seu rock obscuro, também desce para o Brasil no mesmo mês, para apresentações em São Paulo e em Brasília. O nono mês do ano também é aquele que deve receber o Dinosaur Jr. no país. Tá bom ou quer mais?

Vários
O Intrepol continua vagarosamente mostrando o que há de bom em seu novo disco, que deve sair em setembro. Mas eu nem diria que é tão bom assim: “Barricade”, a nova faixa liberada pela banda, não é lá tão empolgante. Será que esse disco novo vai prestar? /// E o Oasis, vai voltar? Noel Gallagher está gravando o seu disco, que deverá ser lançado como se fora um disco do Oasis, com exatamente a mesma banda com que tocava antes. Até Liam, seu irmão com quem anda brigado, tem comparecido às gravações. Será que volta? /// Laura Marling, Mumford & Sons e Dharohar Project estão prestes a lançar um projeto com temas indianos que promete ser bem bacana. O coletivo já colocou duas faixas na internet e deu pra sacar que vale a pena aguardar pelo disquinho. /// Quem também está perto de lançar novidades é o Los Campesinos. A banda escocesa chega no dia 19 com o EP “A|ll’s Well That Ends”, com quatro canções ao melhor estilo fofo e barulhento. Fiquem ligados.

Todo mundo tem que ouvir
O Best Coast, que já vinha sendo comentadíssimo quando ainda nem tinha disco lançado, agora está mais do que bombada. Com o lançamento de seu álbum de estreia, “Crazy For You”, a dupla californiana ganhou destaque nos blogs do mundo com seu disco de canções ensolaradas e marcantes. Corre pro download.

Playlist
Soundpool – Makes No Sense
Chief – Your Direction
Bombay Bicycle Club – Word by Word
Tulipa Ruiz – Às Vezes
Jamaica – By The Numbers
Brendon Boyd – The Wild Trapeze
Boston Tea Party – Lately
Fyfe Dangerfield – Barricades
Janelle Monae – Cold War
Mombojó – Amigo do Tempo

Coluna B, dia 10/07

Novidades antigas

Novidades. Se tem uma coisa que a Coluna B gosta de falar sobre, é isso. Bandas novas, que acabaram de sair da garagem dos pais – algumas que, mesmo abrindo shows para grandes nomes, ainda não têm nem disco lançado – são assuntos preferidos deste espaço. Mas hoje vamos fazer um pouquinho diferente. Os dois discos mostrados aqui são de grupos que já estão na estrada faz tempo, mas que ainda não receberam os devidos créditos por suas carreiras brilhantes. Estarão aqui hoje o grupo canadense Stars, que chega ao seu quinto disco em mais de dez anos de carreira, e o Teenage Fanclub, direto de Glasgow, mais de vinte anos de estrada e chegando ao décimo disco sem perder a compostura.

Stars – The Five Ghosts
Demorou cinco longos anos (que passarem voando, pra dizer a verdade), mas o Stars finalmente lançou um outro disco arrebatador: “The Five Ghosts”. Após o estrondoso “Set Yourself On Fire”, de 2005, o coletivo canadense não conseguiu repetir o sucesso de seus álbuns anteriores e deixou um amargo gosto de decepção com o mediano “In Our Bedroom After The War”, de 2007. Eu, apaixonado por canções como  “Your Ex-Lover Is Dead”, “What I’m Trying To Say”, “Reunion”, “One More Night” e “Calendar Girl”, do discaço de cinco anos atrás, me vi perdido no meio de um monte de canções que, estranhamente, não me diziam nada – deixei “In Our Bedroom…” passar como se deixa ir embora um amor que nunca teria chances de dar certo. Eu sabia que o Stars ia voltar a me conquistar.

Foi só escutar o início calmo e cheio de sentimentos de “Dead Hearts”, a faixa número um de “The Five Ghosts”, para ter certeza que essa hora chegou. A partir deste belíssimo começo, encontro-me novamente com um grande disco do Stars de Amy Millan, Torquil Campbell, Evan Cranley, Chris Seligman e Pat McGee (todos também membros do Broken Social Scene), e vou me redescobrindo fã da banda a cada música que se segue no player. “The Passenger” tem uma pegada esperta, envolvendo os nossos sentidos para o refrão matador em que Millan dá mais um tostãozinho de sua voz de sonho, “He Dreams He’s Awake” tem na crescente tensão seu maior predicado, “Changes” é fofa, saborosa, vai nos ganhando devagarzinho e fazendo a gente cantar junto sem nem perceber. A doce “The Last Song Ever Written”, a arrebitada “How Much More” e a sorumbática “Winter Bones” fecham esse retorno do Stars ao cantinho do meu coração de onde ele nunca deveria ter saído. Demorou, mas voltou.

Teenage Fanclub – Shadows
É incrível imaginar que uma banda tão boa quanto o Teenage Fanclub, com mais de vinte anos de uma carreira quase irretocável, de grandes discos, chega ao seu décimo lançamento sem a metade do reconhecimento que merecia. Fica um sentimento próximo da revolta saber que outros grupos, que não mereceriam dois minutos de atenção se o mundo fosse justo, conseguem fazer com que a banda escocesa seja ignorada por tanta gente. Na ativa desde 1989, a banda dos compositores Gerard Love, Raymond McGinley e Norman Blake lançou este ano “Shadows”, que pode ser colocado sem nenhuma dor na consciência ao lado de grandes trabalhos da carreira do grupo, como os ótimos “Grand Prix” (1995), “Songs From Northern Britain” (1997), “Man-Made” (2005) e o grande clássico intocável, “Bandwagonesque”, que completa vinte anos em 2011. E, mesmo com tudo isso, ainda tem muita gente que não conhece o Teenage Fanclub. Está na hora de mudar essa situação de uma vez por todas. Meu conselho: comece por “Shadows”.

Mais do que isso, comece pela encantadora “Baby Lee”. São singelos quatro minutos e meio, tão viciantes que não dá pra escutar a faixa apenas uma vez – a repetição é quase instantânea – e nos remete à clássica “The Concept”, do disco de 1991. Trata-se de uma declaração de amor ao melhor estilo romântico desesperado, como dá pra perceber em um dos versos da canção: “Baby Lee I’m only trying to remind you/they had me in mind when they designed you”. Coisa linda de se ouvir. Agora, passe para sua sequência natural, a melancólica “The Fall”, desenhada sobre violões e uma dose cavalar de doçura. Já está de queixo caído? Se ainda não, apresento as influências de Big Star, Beach Boys e The Kinks e Neil Young, presenças poderosas em faixas como a deliciosa “Shock and Awe”, com uma belíssima linha de guitarras e melodias vocais absurdamente graciosas; a intimista “Dark Clouds”, embalada ao som de piano, bateria e violinos, bonita e relaxante; “The Back of My Mind”, que deixa um aroma de Smiths pelo ar com os dedilhados de Blake e McGinley; ou “Sometimes I Don’t Believe in Anything”, pérola que abre o álbum e já mostra o quão ensolarado pode ser o pop construído pelo Teenage Fanclub. E se você ainda não conhece, faça-me o favor de corrigir essa falha o mais rápido possível.

Notinhas

Queens of the Stone Age
Depois de um bom tempo ocupado com projetos paralelos, como o incrível Them Crooked Vultures, o músico Josh Homme finalmente voltou a falar sobre o QOTSA. E as notícias muito nos interessam: o ruivo está pensando em um novo disco, um novo formato de show e apresentações no Brasil ainda este ano. Ainda não está confirmado, mas o novo boato da internet é que a banda de Homme estará em um desses festivais que abundam no segundo semestre nacional. O chute é que os caras fechariam o Planeta Terra Festival. Será? Já sobre um novo trabalho, ele afirmou já ter ideias sobre como o disco soaria, e que certamente vai ser mais agitado do que seu último trabalho, “Era Vulgaris”. E sobre o novo formato de shows, Homme disse ter vontade de fazer uma série de apresentações onde tocaria um disco da banda, inteirinho, por noite. Seria sensacional, com toda certeza, e a gente espera para ver se esse formato também chegaria por aqui.

Várias
O Belle & Sebastian praticamente confirmou sua presença no Planeta Terra. Segundo o blog Popload, um agente da banda afirmou que eles estarão no Brasil para um festival que rola em novembro, em São Paulo. Alguma outra ideia de onde seria? /// Quem também pode estar com data marcada para vir novamente ao país é o Pearl Jam. Segundo o São Paulo Futebol Clube (sim, o time!), o grupo de Eddie Vedder vem em novembro tocar no Morumbi, o que ajudaria a injetar grana para que o clube reforme o estádio e o coloque dentro dos que serão usados para a disputa da copa de 2014. E mais: Rush, Black Eyed Peas e Bon Jovi também estariam confirmados. Além deles, Lady GaGa e U2 são possibilidades. /// O Daft Punk ainda não confirmou, mas as chances de seu novo trabalho, a trilha sonora da continuação de “Tron”, saírem em novembro são grandes. /// O Ting Tings já está com seu segundo disco pronto. O trabalho se chamará “Kunst” e ainda não tem data para sair, mas, segundo a banda, deverá ser um pouco mais sombrio do que o primeiro álbum. /// Peter Buck, guitarrista do R.E.M., vai participar do novo disco do Decemberists. Ele participou de três faixas, compondo e tocando, do disco que sairá em fevereiro de 2011,

Todo mundo tem que ouvir
O Mates of State você conhece já não é de hoje. Mas as músicas pelas quais a dupla Jason Hammel e Kori Gardner suspiram você não conhecia antes de ouvir “Crushes”, o disco de covers que o casal americano lançou. Corra para o download e escute versões deles para The Mars Volta, Tom Waits, Belle & Sebastian e muito mais.

Playlist
Rox – Do As I Say
Tame Impala – Solitude Is Bliss
Japandroids – Sex and Dying in High Society
Mombojó – Aumenta o Volume
Gold Panda – Rush Job
Tulipa Ruiz – Só Sei Dançar Com Você
Black Drawing Chalks – Red Love
NERD – Hot n’ Fun (Yeasayer remix)
!!! – AM/FM
Nevilton – Singela

Coluna B, dia 3/07

Poligamia musical

Tenho certeza que a minha musa, minha grande paixão (infelizmente platônica), Norah Jones, não vai ficar com ciúmes. Ela precisa entender: meu coração musical não é monogâmico. Não tem como dizer que amo apenas Norah. Há uma infinidade de cantoras, compositoras e musicistas de talentos irrefreáveis, e, sem pensar demais, já posso enumerar um bocado delas pra mostrar como fica impossível ser de um só: Annie Clark (St. Vincent), Katrine Ottosen (CALLmeKAT), Lourdes Hernández (Russian Red), Chan Marshall (Cat Power), Natasha Khan (Bat For Lashes), além de Céu, Jenny Lewis, Emiliana Torrini, Isobel Campbell, Lulina, Regina Spektor, Mallu Magalhães, Aimee Mann, Jenny Owen Youngs, Patti Smith, Feist, as Lauras Marling, Jansen e Veirs, Deradoorian e uma centena de outras. Meu coração é grande, sim, e quanto mais gente que vale a pena, mais ele se esgarça para recebê-las com todo carinho.

Lissie, por exemplo, foi amor à primeira vista. Quando avistei a capa de seu disco de estreia, “Catching A Tiger”, já tive certeza de que estava ali um álbum que deveria ser devidamente baixado, escutado e, posteriormente, venerado. Sim, mesmo antes de escutar a loirinha americana, nascida com muita propriedade na cidade de Rock Island, eu já tinha certeza que ia dar em alguma coisa. Meus instintos nunca estiveram tão corretos. Com uma voz incrível, límpida, direta e bonita até dizer chega, Lissie ainda se resguarda atrás de grandes composições pop, que recebem poderosas influências do folk, do rock e do country a todo momento. Nascida Elisabeth Maurus há 29 anos, ela está creditada em todas as faixas de seu disco, algumas sozinha e em outras com uma série de parceiros diferentes, entre eles o compositor e músico inglês Ed Harcourt, que também produziu seu disco ao lado de Jacquire King, Bill Reynolds e Julian Emery.

Após escutar as quatorze canções de “Catching A Tiger” (a versão original do disco contém apenas doze, as outras duas vêm na versão estendida vendida apenas no iTunes), fiquei tentado a ouvir também seus EPs anteriores, “Lissie” (2007) e “Why You Runnin'” (2009), como se precisasse ter certeza de que estava apaixonado. E, bem, eu realmente estava. O álbum “Catching A Tiger” é certamente um dos mais legais deste ano. Variado, criativo e certeiro, assumidamente pop, traz uma série de faixas empolgantes, onde cada uma delas poderia ser escolhida como single. “In Sleep” foi feita para tocar em rádios, com um refrão chiclete de matar. “Oh Mississipi” é uma linda balada de piano e voz, remetendo aos antigos hinos gospel. “Record Collector” tem na imprevisibilidade o seu forte. A voz sexy de Lissie soa como um convite à paixão irreversível em “Worried About”, “When I’m Alone” e em “This Much I Know”. Oh, Lissie, não faz isso comigo…

Com Tulipa Ruiz a coisa foi mais cadenciada. Talvez inspirado no tipo de música que ela faz, menos urgente, mais jeitosinha, a mineira radicada em São Paulo foi me conquistando aos poucos. Paqueramos desde que ouvi pela primeira vez uma música sua, avulsa, em um desses blogs que nos inspiram e informam diariamente. Em pouco tempo fui atrás de seu disco, o delicioso “Efêmera”, e aí já começamos um namorico. Confesso que demorei um pouco para me deixar levar pelos encantos de Tulipa – mais por teimosia própria do que tudo, já que suas canções são simplesmente fantásticas – mas quando me vi envolvido por sua voz mágica, não pude fazer mais nada. Acompanhada de diversos amigos em participações especiais, entre eles Céu, Kassin, Thalma de Freitas, Tatá Aeroplano, seu pai, Luís Chagas, e seu irmão, Gustavo Ruiz, que produz o disco, a cantora mostra o quanto vale em cada faixa de “Efêmera”.

Tulipa é doce como só sabem ser as mulheres que conhecem a melhor forma de deixar alguém apaixonado. Escolada, ela deixa um acento tropicalista em várias de suas canções, utilizando sua porção Gal Costa com habilidade impressionante. Ao mesmo tempo, consegue se soltar até caber perfeitamente no balaio das grandes cantoras contemporâneas, nacionais e internacionais. A divertida “Às vezes”, que fez em parceria com o pai, é o primeiro destaque com uma interpretação inspiradíssima da cantora e arranjos riquíssimos. “A Ordem Das Árvores” tem um refrão tão gracioso que é impossível não cantá-lo novamente mesmo quando a música acaba. “Pedrinho” tem a nobreza da loucura no seu DNA, e prova isso na estrutura brilhantemente desengonçada. Outras faixas tão bacanas quanto, como a delicada “Do Amor”, a graciosa “Efêmera” ou a vanguardista “Aqui”, nos preparam para a lindíssima “Só Sei Dançar Com Você”, que fecha o disco de maneira fenomenal e me faz, a cada nova audição, ficar ainda mais apaixonado por Tulipa. Que a Norah Jones não leia isso.

Notinhas

Agenda lotada
O segundo semestre de shows nacionais está começando a ficar com a agenda lotada. Segundo o blog Popload, estão acertando a presença por aqui mais algumas bandas internacionais. O Fuck Buttons, eletrônico indie de primeira categoria, vem a São Paulo no dia 12 de agosto. Para o SWU, festival que vem sendo chamado de Woodstock brasileiro e rola em outubro em Itu, o Sublime, banda de ska que explodiu nos anos 90, está “teoricamente” confirmado. Já o Air, dupla francesa estilosa, vem para o festival da Natura, que também rola em outubro. Também em outubro, mês cheio, Bon Jovi deve armar seu show circular no país. E, uma vez mais em outubro, o Echo & the Bunnymen, que já é quase brasileiro de tanto que baixa aqui, faz apresentações em São Paulo e BH.

Várias
O novo grupo de Richard Ashcroft, ex-vocalista do Verve, se chama RPA & United Nations of Sound. Acredite. E o primeiro disco, “United Nations of Sound”, chega às lojas ainda em julho. Será que o disco vai soar tão imbecil quanto o nome da banda? Tomara que não. /// O EP da Björk com o Dirty Projectors, “Mount Wittenberg Orca”, já vazou e tá facinho na internet. E vale a pena: harmonias vocais inspiradíssimas. Procure e ouça. /// Aliás, Björk também estará presente no novo disco do Antony and the Johnsons, “Swanlights”, que chegará às lojas no dia 11 de outubro. /// Cee-Lo, vocalista do Gnarls Barkley que está prestes a lançar disco solo, fez um cover de “No One’s Gonna Love You”, do Band of Horses. A faixa entrará no seu álbum, “Lady Killer”, e ganhou um clipe muito bonito. Vale a pena procurar por aí. /// Thom Yorke e Jonny Greenwood surpreenderam o Glastonbury, o maior festival do mundo, com uma apresentação surpresa. Yorke entrou no palco Pyramid sorrateiramente, começou o set com músicas de seu trabalho solo e depois, pra delírio dos presentes, o guitarrista do Radiohead adentrou o palco e se juntou ao vocalista. Dizem que foi algo épico.

Todo mundo tem que ouvir
Sia está de volta. Depois de um disco mediano, a cantora australiana gravou o ótimo “We Are Born”, seu quinto disco, que consegue rivalizar em qualidade com o terceiro, o excelente “Colour The Small One”. Vale a pena o download.

Playlist
Jack White – Fly Farm Blues
Rosie and Me – Bonfires
The Rolling Stones – Let It Loose
Dirty Projectors + Björk – No Embrace
Mates of State – Son Et Lumiere (Mars Volta cover)
Best Coast – Make You Mine
Stars – Dead Hearts
Kele – Rise
Michael Landau, Robben Ford, Jimmy Haslip & Gary Novak – Who Do You Think You Are
Arcade Fire – Wake Up