El Disparo de Pinilla

A história do que poderia ter sido. 

Brasil, um, Chile, um. 119 minutos, o último da prorrogação.

– Pinilla entra pela ponta esquerda. Alexis passa, ele toca, Alexis devolve, bela tabelinha. Pinilla, na entrada da área, se livra da marcação, bate forte no alto, e é gol!
O locutor emudece de desespero. Não há mais o que dizer.

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Gol do Chile, um balaço de fora da área do camisa 9. O atacante comemora demais, corre sem destino, mal sabe onde está. Todos do time chileno, inclusive os reservas e a comissão técnica, se jogam sobre o jogador. O estádio se cala. Os jogadores brasileiros se olham, incrédulos. Julio César busca a bola no fundo das redes e dá uma bica para o meio de campo, desolado. Os canarinhos metem as mãos na cintura, sobre o rosto ou atrás da cabeça e aguardam que os jogadores do Chile terminem suas comemorações, como se mais nada pudesse ser feito. E não pode mesmo.

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A bola volta ao meio de campo. A torcida ainda está em estado de choque. Alguns choram baixinho, outros custam a acreditar. Ninguém emite um pio sequer. Os chilenos retomam seu campo, Pinilla ainda não sabe bem como agir. É difícil acreditar no que acabou de acontecer. O juiz não perde tempo e, tão logo a bola volta a rolar, apita o fim da partida. O Brasil, anfitrião da competição, país do futebol, está eliminado da Copa do Mundo nas oitavas de final. E a culpa é toda dele. Um chute perfeito, no ângulo do goleirão famoso. O melhor chute da sua vida.

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Os jogadores todos correm em direção a Pinilla. Abraços, tapas na cabeça e na bunda, beijos estalados no rosto, e de repente todo o estádio está vendo o camisa nove ser jogado para cima por seus companheiros aos gritos de Chi-chi-chi-, Le-le-le. É a glória, o Chile chega a uma quarta-de-final de Copa do Mundo eliminando um dos maiores rivais, o todo-poderoso-dono-da-casa, e tudo por causa dele. Enquanto é arremessado para o ar, o atacante olha para o céu e vê uma leve chuva que começa a cair. Ao mesmo tempo, seus olhos se fecham em êxtase. Ele é o herói.

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Os olhos de Pinilla se abrem com uma preguiça dolorosa. Um sol exemplar enfia seus raios através da imensa janela que ocupa quase toda a parede do quarto e atinge em cheio seu rosto. Ainda pesquisando mentalmente onde está e como foi parar ali, o rapaz leva as mãos ao rosto e se estapeia de leve, buscando acordar. Demora um pouco para perceber a mulher nua ao seu lado, em sono profundo, e se admira ao perceber como seu corpo é perfeito. Devagar tudo vai voltando: as lembranças da noite, as dores nas coxas pelo esforço extra da prorrogação, o sentimento intransmissível de ter feito história, o troféu de melhor em campo da Fifa. Em pé, em frente à janela, ele vê lá embaixo, na entrada do hotel, uma horda de torcedores de camisetas vermelhas, ensandecidos. O sonho não acabou.

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Assim que adentra o restaurante para o café da manhã, alguém grita: “É o Pinilla!”. Uma carregadíssima salva de palmas é executada, com o vigor de quem vê um deus passar pela porta. Sem graça, acena para os presentes, une as mãos à frente do peito em sinal de agradecimento e procura a mesa mais próxima. Nem bem se senta e a moça que estava em sua cama passa ao seu lado, senta em outra mesa e remete a ele uma piscadela. Em seguida, dois ou três garçons, era difícil dar certeza com tantas mãos sobrevoando seu espaço aéreo, começam a oferecer todo o tipo de comida: bolos, queijos, sucos diversos, pães, presuntos inteiros, frutas, ovos mexidos com bacon, chás, café com leite, e ao final um jornal brasileiro, onde se lia, em letras garrafais: MORTOS POR PINILLA.

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Lá fora, a torcida continua irredutível: só sai dali quando o astro da noite anterior comparecer para fotos e autógrafos. Cansado, mas curioso com o novo tratamento, ele desce. Enquanto o elevador viaja rumo ao térreo, ele lembra da época em que jogava aqui mesmo no Brasil. De tempos em tempos era xingado por torcedores do lado de fora do hotel do Vasco da Gama, time pelo qual atuou e foi mandado embora sem deixar muita saudade. A situação era bem parecida: seu nome era um dos mais gritados, mas, ao invés de um autógrafo e uma foto como lembrança, os torcedores queriam seu sangue e transforma-lo em apenas uma vaga lembrança ruim na história do clube.
“El Disparo de Pinilla”. É a frase que mais se ouve em qualquer corredor do hotel. Depois de atender a todos os torcedores, o jogador recebe uma massagem especial – de graça, oferecida por um outro chileno que está hospedado no mesmo hotel, quando recebe uma ligação: é seu agente, berrando mil elogios, escancarando todo seu amor e comunicando que já havia recebido, até aquela hora da tarde, quase dez sondagens a respeito do seu passe e do seu destino depois da Copa. Pinilla balança a cabeça, experimentando uma sensação completamente inédita em sua vida. Nada daquilo parecia verdade.

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Entre uma massagem e outra, o verde do gramado do Mineirão passeia de volta em sua memória. A maciez da chuteira acertando a bola, o goleiro saltando no vazio, o cheiro de suor do seu marcador, o barulho da rede sendo estufada ante o silêncio do mundo, que parou de respirar para que nada atrapalhasse o caminho daquela bola. E, tão logo retoma a realidade, já se perde novamente em tentar adivinhar qual seria seu futuro. Um time da Itália, talvez? Ou algum ali do meio da tabela da Espanha, quem sabe? No Brasil sabe que as portas estariam fechadas, e se diverte com a ideia.

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Uma pressão mais forte no músculo dos ombros faz com que retome um pouco a realidade. Seria titular na próxima partida da Copa? Passariam para as semifinais? Tão logo se levanta da maca de massagem e sai porta afora, onde descobre o mais alto dirigente da federação de futebol chilena o esperando com um charuto e duas moças belíssimas, Pinilla percebe que pouco importava se jogaria ou não, se receberia propostas ou não. O que havia de ser feito estava feito. A história já trazia PINILLA  escrito em maiúsculas exageradas em suas páginas, e aquele meio palmo que separou a sua bola da trave é onde ele vai viver para todo o sempre.
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O que sobrou de 2014

Pronto, 2014 acabou. Ano puxado, que passou mais rápido do que deveria, mas que deixou pra trás coisas boas pra contar sua história pra gente. E o que vai aqui embaixo é a minha versão disso em relação à música.

Fazer listinha de melhores do ano, para mim, já é mais tradicional do que Papai Noel de barba branca e roupa vermelha no Natal. Mas esse ano, em vez de ranquear os melhores, vou apenas juntar todo mundo em uma grande lista de coisas bacanas que ouvi em 2014 (ok, pra não dizer que fugi da raia, pra mim o grande disco do ano é “This Is All Yours”, do Alt-J, hehe, e o resto é história). Pelo que dá pra sacar na aí embaixo, pra mim 2014 foi fraco no hip hop, forte para as mulheres do indie/freak folk e cheio de bandas esquisitinhas. Não sei vocês, mas eu to bem feliz com isso. Baita ano, 2014, vai na fé.

Melhores discos de 2014 (em ordem alfabética):
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Adult Jazz – Gists Is
Angel Olsen – Burn Your Fire For No Witness
Alt-J – This Is All Yours
Caribou – Our Love
Chet Faker – Built On Glass
Cloud Boat – Model Of You
FKA Twigs – LP1
Jenny Lewis – The Voyager
Jose James – While You Were Sleeping
Jungle – Jungle
Kele – Trick
Lake Street Dive – Bad Self Portraits
Lucas Santtana – Sobre Noites e Dias
Mø – No Mythologies To Follow
Museum of Love – Museum Of Love
Perfume Genius – Too Bright
Russian Red – Agent Cooper
Sharon Van Etten – Are We There
Sohn – Tremors
Sondre Lerche – Please
Spoon – They Want My Soul
The War On Drugs – Lost In The Dream
Torres – Torres
TV On The Radio – Seeds
Twin Peaks – Wild Onion
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E tem também aquelas coisas que não saíram do meu fone de ouvido esse ano, mas que foram lançadas no ano passado. Atrasado, mas nem tanto, vai.
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Bons discos de 2013 que só ouvi em 2014:
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Laura Marling – Once I Was An Eagle
Courtney Barnett – The Double EP: A Sea of Split Peas
Blaenavon – Koso EP
Wardell – Brother/Sister EP
Majical Cloudz – Impersonator
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E as músicas que eu mais escutei em 2014 – fora de ordem, mas onipresentes.
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PLAYLIST – 14 MÚSICAS PRA 2014
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Lake Street Dive e demais conexões

*Texto feito a pedido da New Gents e publicado no site http://www.newgents.com.br em 15 de agosto de 2014.

O negócio é a química da conexão. Como as coisas se juntam, a maneira como são uma coisa quando separadas e uma outra coisa quando adjacentes. E a transformação que se dá aos nossos olhos – e ouvidos – é pura magia. É unir pontos que se insinuam para lados opostos e, a partir disso, expandir o resultado. Soa matemático, mas é da vida, e é ainda mais da música.  É assim com o grupo de Boston Lake Street Dive.

Radicados no sassaricante Brooklyn, para onde vão 12 de 10 bandas indie que aspiram alguma coisa nos Estados Unidos, o quarteto busca na dinâmica da conexão o que expõe. A começar pelo estilo musical. Jazz? Tem. Soul, também. Há também espaço para o folk, para o rock setentista e para o pop dos anos 60. Tudo isso com uma linguagem moderna, na velocidade certa, com o ritmo que cabe perfeitamente no nosso dia a dia. Se essa conexão lhe parece um pouco desconexa, por favor, aperte o play em algum dos três discos da banda e deixe-se levar – com destaque para o mais recente lançamento, “Bad Self Portraits”, particularmente minha porta de entrada para esse universo de junções.

Outro exemplo de conexão poderosa é facilmente descoberto com uma análise rápida nos integrantes – principalmente em uma apresentação ao vivo, como foi o caso naquela deliciosa noite de 2 de maio, no Whelan’s, em Dublin. Um baterista falante, de ritmos inesperados e mãos sagazes: check. Uma baixista habilidosa, empunhando seu baixo acústico com temperamento suave e dedos imparáveis: check. Um guitarrista de riffs fáceis e conquistadores, que vez ou outra empunha o trompete e dá nova cara para as músicas: check. Todos fazendo backing vocals com precisão tremenda para uma vocalista cheia de carisma, com voz perfeita, cantando com as mãos na cintura e rebolado em dia para uma platéia que não conseguia desviar o olhar: ok, check. Todos têm óbvio talento musical e estão ensaiadinhos, mas vão além com um detalhe especial: um charme incontrolável.

Toda essa química faz com que o público, mesmo com aquela animação controlada típica dos entusiastas europeus, não consiga segurar os quadris nas canções mais animadas e arrebente em palmas e gritinhos ao fim de cada ato. Dá pra entender. Não há mesmo como se discutir com as leis da natureza, e todas essas conexões de personalidade e sinapses musicais tornam o Lake Street Dive uma banda para ser observada bem de perto, com cuidado e atenção. Ah, e não esqueça seus sapatos de dança e o espírito leve. Você vai fazer bom uso deles, pode acreditar.

Gabriel Garcia Marquez, uma dose de ópio no café

*Texto publicado anteriormente na fanpage do blog, facebook.com/misquilinas.

Eu precisava de um nome. Só um nome. Mas aquilo parecia me custar muito. Criar a partir do nada um nome para algo que me seria tão presente, para onde eu sempre voltaria, para um organismo que eu precisaria alimentar por tanto tempo. Não é fácil. Nunca é.

Resolvi pedir ajuda ao mestre. O expediente era manjado, mas funciona. Busquei um de seus livros na estante. O meu preferido. Bati o martelo: as primeiras palavras da página randômica que eu abrir vão dar nome ao projeto. Pronto, seria isso e nada mais.

Enfiei os dedos entre as folhas amareladas do clássico “Cem Anos de Solidão” e abri em uma página qualquer, que não lembro o número, e nem fiz questão de decorar. Foi certeiro. Não seria tão perfeito se eu tivesse buscado entre as tantas frases algo que falasse diretamente comigo.

As primeiras palavras da página eram “uma dose de ópio no café”. E, naquele momento, eu me dei conta de que com Garcia Marquez é sempre assim: qualquer parte de seus escritos, com ou sem lógica, dentro ou fora de contexto, é magia pura. As histórias, os personagens, as frases e a forma única como faz uso das palavras, é coisa de mágico.

Por motivos justos, o tal nome foi encurtado para “Ópio no Café” (ainda que, no coração, tenha permanecido o original, sem cortes), e foi usado para denominar uma coluna semanal de textos que escrevi por mais ou menos seis anos na saudosa Revista Paradoxo.

Eu precisava apenas de um nome, mas não teve um dia, nem uma única postagem de texto, que eu não pensasse em Gabriel Garcia Marquez ao colocar um ponto final em qualquer um daqueles bolinhos de parágrafos. O fantástico mestre, sempre uma dose generosa de ópio no cafezinho da minha vida.

À grande beleza

* Texto publicado originalmente na fanpage do blog, facebook.com/misquilinas.

Pé ante pé, passos firmes e desenhados com ponta fina, ela parecia ter escolhido a Rua Carmo de Carvalho como passarela definitiva da vida. Era esguia e clara, os cabelos loiros quase completamente descoloridos, escorrendo abaixo dos ombros com parcimônia, como se fosse tudo montado e ensaiado à exaustão. Talvez fosse, mas provavelmente era apenas o caimento natural, como parecia também ser tudo que fazia naquele curto espaço. Trazia à mão uma bolsa preta de couro, nada muito exagerado, construindo um belo conjunto com sua camiseta branca e a calça jeans mais pro azul do céu da noite que do mar da tarde. E ia, segura, sem parar.

Mal olhava para o lado. Quando o fazia, era com uma graça que poderia derreter alascas inteiros. A segurança dos seus passos era uma óbvia referência à própria beleza e à consciência do que seu caminhar significa em uma cidade violenta como essa, com um clima opressivo como esse, embaixo de uma luz do sol imperativa como essa. Andava pela rua como se construísse com as próprias pegadas um novo caminho dentro do caminho, onde só ela poderia passar, do qual seria a única dona, uma capitania que nada teria de hereditária, já que nunca poderia ser de qualquer outra pessoa que não dela, portadora solitária de tais poderes especiais.

Eram quase duas da tarde de uma terça e a Carmo de Carvalho havia sido fechada para aquele desfile. Os carros deixaram de funcionar seus motores roucos, as bicicletas não mais rodavam a correia pela coroa, os chinelos dos trabalhadores da construção civil se recusavam a tirar o peito do chão. Os únicos movimentos realizados naqueles parcos metros de chão acinzentado vinham dela e das árvores que, com a anuência da brisa salvadora, batiam palmas tímidas para o rolezinho encantado da menina. Era mesmo uma cena de cinema, daquelas que a gente vê na grande tela e fica se perguntando se existe a possibilidade de acontecer na vida real.

Existe, sim.

E a certeza da existência fica ainda mais forte quando nos damos conta de que nada é assim, tão imaculado, tão eterno. Pois, quando na esquina da qual a moça cada vez mais se aproximava com seu gingado (in)voluntário passa o ônibus que ela tomaria em seguida, tudo muda. Ao ver o coletivo curvando há bons metros de caminhada, provavelmente sendo guiado por um motorista apressado, como são todos eles, a bela loira de cabelos quase descoloridos e caminhar desenhado com ponta fina chuta para longe a graça e se mete num sprint de 50 metros com fôlego olímpico.

Os braços que antes bailavam em harmonia com as pernas agora balançam para cima com o destempero que só o desespero da pressa é capaz de forjar. Ela corre com jeito de menina desajeitada, como se tivesse crescido mais de um lado do que do outro, joelhos enormes golpeando o ar, gritando pela misericórdia do chofer. De repente, os motores dos carros voltam a tossir em descompasso, as bicicletas passam correndo sobre seus aros, as chinelas se arrastam novamente no terreno empoeirado. O vento para, o tempo volta a andar. Estamos livres do feitiço, a Carmo de Carvalho é viva de novo. Eu sorrio por dentro com essa anedota da vida. A grande beleza não resiste nem a um ônibus perdido.

O tempo passa rápido, né?

Faz algum tempo que eu abandonei esse espaço para abrir outro, todo metido, com um .com no final.

Acontece que aquele lá precisava pagar todo mês. E eu não queria mais fazer isso. Simples, né. Meio mão-de-vaca, também. Mas, e daí?

Então acho que vou voltar a atualizar esse aqui, porque essa onda de postar só no facebook (onde mantenho meu facebook.com/misquilinas) não é lá muito animador. Aliás, o facebook é cada dia menos atraente pra mim. Então, voltemos.

Uma maquiagenzinha nessa cara branca dele deve dar uma melhorada.

Será que vai?

Alô!? 2011, é você!?

Quer dizer que o ano começou e nada de post novo por aqui?
Que vergonha.
Mentira, é por um bom motivo.
Um novo Misquilinas está sendo preparado para muito em breve. Mais breve do que você imagina.
Novo layout, novas seções, e até novo endereço.

Aguarde só mais um pouquinho, porque 2011 tá doido pra começar por aqui.

A casa agradece a paciência.
Até já.
:)

Coluna B, dia 11/12

Onde você esteve em 2010?

Um longo ano. 2010 começa a acabar, ainda que lentamente, e a gente vai olhando pra trás e percebendo quanta coisa aconteceu. Além de uma imensa quantidade de shows internacionais (2010 foi provavelmente o ano mais agitado nesse quesito na história do País), os lançamentos de discos também superaram qualquer expectativa. Novos álbuns de bandas já conhecidas chegaram com força, e muitos novos grupos conseguiram furar a bolha do hype para se destacar de verdade no mundo da música. Se você esteve ligado no que acontecia no planeta Terra neste ano, deve ter ao menos raspado de leve nas estreias dos ingleses Dinosaur Pile-Up e dos neo-zelandeses The Naked and Famous. Se não conhecia ainda, leia o que a Coluna B tem a dizer e localiza-se em 2010. Mas seja rápido, o ano já está acabando.

Dinosaur Pile-Up – Growing Pains

Formada há três anos, o Dinaosaur Pile-Up nada mais é que a resposta dos anos 2000 ao fenômeno grunge, movimento que saiu de Seattle para ganhar o mundo em meados de 1990. Quando falo em “resposta”, quero dizer um reflexo, um resultado do que todo aquele mundo de guitarras berrentas, gritos esporrentos e climão de chuva ininterrupta lá fora causou na juventude que hoje resolve pegar um instrumento nas mãos, chamar os amigos e montar uma banda de rock. Aliás, as palavras de Matt Bigland, vocalista e frontman do Dinosaur Pile-Up, para a BBC são esclarecedoras sobre sua ambição: “eu quero que a molecada fique como nós ficamos quando vimos Dave Grohl detonar o T in the Park”, afirma, referindo-se a um grande festival inglês. Se um dia Kurt Cobain fez isso influenciado pelo que o Pixies esfregava na sua cara, por que Bigland e seus amigos não poderiam fazer o mesmo?

E fizeram. Nota-se uma influência extremamente poderosa de bandas da época, mas com um molho que só um grupo formado por essa molecada que vivenciou plenamente a passagem dos anos 90 pro novo século é capaz de assimilar. Há não o dedo, mas uma pesadíssima mão de Foo Fighters por todo o repertório de “Growing Pains”, estreia do trio em disco, assim como fortes influências de Nirvana, The Hives, Mudhoney e Pixies. Tudo isso com uma pegada guitarreira grossa, um vocal perfeito para músicas do estilo, linhas de baixo que resolvem qualquer problema que surgir e uma bateria que combina potência e apuro técnico. Essa combinação dá muito certo, e coloca o Dinosaur Pile-Up com uma das grandes revelações das bandas de rock, aquele rock de verdade, dos últimos anos. Mas não se confunda, não estou falando de 1994.

The Naked and Famous – Passive Me, Aggressive You

Lembro de ter visto o nome dessa banda em algum post do Twitter: The Naked and Famous. Achei curioso. Na sequência, o nome do disco: “Passive Me, Aggressive You”. Sério, uma combinação de nomes tão boa assim não pode dar errado, foi o que pensei no minuto seguinte, quando já havia começado o download do disco. Sem pesquisa alguma em sites ou blogs especializados – fui pelo nome, ou pelos nomes, arriscando perder uma meia hora da minha vida escutando pura besteirada ou ganhar mais uma banda bacana na minha playlist. O resultado foi essa belíssima surpresa vinda da Nova Zelândia. O Naked and Famous tem Alisa Xayalith e Thom Powers como as cabeças pensantes do grupo, que ganha e perde componentes conforme necessário em estúdio e em apresentações ao vivo. Após lançar alguns singles e EPs nos últimos dois anos, a banda estreou com o delicioso “Passive Me, Aggressive You”, que tem a cara da geração que o fez nascer, com as referências que essa turma absorve tão bem e reproduz com tanta propriedade.

Há um lado shoegaze que é replicado nos riffs de guitarra que se derramam pelas músicas, como dá pra sacar bem em “All of This” e “Punching In A Dream”, mas o Naked and Famous vai muito além disso. A ensolarada “Young Blood”, primeiro single e o hit da banda, mete o dream pop na parada e ganha a simpatia pelo refrão grudento. “The Sun” tem uma cara mais amarrada, jeitão enigmático de ir se mostrando devagarzinho, até chegar o momento certo para deixar cair a máscara, algo que “Girls Like You” segue quando cresce a cada segundo, até estourar em um final inspirador. Direto de Auckland, essa bela surpresa reforça a minha crença de que essas coincidências da vida estão aí para nos guiar até o que realmente vale a pena. Mas já era de se esperar que a combinação de nomes The Naked and Famous + Passive Me, Aggressive You fosse dar muito certo. E deu.

Notinhas

2011 já está fervendo

Parece brincadeira, mas a coisa é séria. Mal saímos de um segundo semestre absurdamente cheio de grandes shows internacionais, e já vem o primeiro semestre de 2011 abalando geral. É tanta coisa que mal dá pra acreditar. Além da Amy Winehouse, que todo mundo já sabe que vem, estão confirmados Vampire Weekend, Two Door Cinema Club, MGMT, Janelle Monáe, Mayer Hawthorne e The Horrors para final de janeiro, começo de fevereiro. Mais: LCD Soundsystem para o segundo mês do ano está certíssimo, e março trará ao Brasil o renovado Alice In Chains em festival imperdível, o Crue Fest, promovido e estrelado pelo Mötley Crue e que ainda colocará no palco o Black Rebel Motorcycle Club. Ainda há boataria colocando Strokes, Arcade Fire, Sonic Youth, Marina and the Diamonds, Gorillaz e até o sumido Tears For Fears na América do Sul também no primeiro semestre. Isso sem falar em U2 com abertura do gigante Muse já em fevereiro. E sem contar a entrada do Coldplay no Rock In Rio, lá em setembro. Gente, aonde vamos parar?

Várias

Sabe quem voltou? O System of a Down, depois de um bom período em hiato, marcou mais de dez shows para o verão europeu. E, se bobear, a gente ainda vê os caras por aqui. Acorda, Rock In Rio! /// O Portishead está em estúdio. Sem data pra sair, mas preparando o quarto disco da banda. Tomara que não demorem quinze anos de novo, né. /// Outro com disco a caminho, o Strokes revelou que jogou o material inicial de gravação todo na lixeira e recomeçou a fazer suas canções até chegar nas dez ideais que verão a luz do dia ainda neste primeiro semestre de 2011. Não é à toa que demorou tanto pra sair. /// Noah and the Whale, Coldplay e Editors também estão com discos novos em construção. Ano que vem promete muitas novidades. /// Hoje rola o terceiro Smoke Island Festival, no Ilhacústico, com diversos DJs e as bandas Trepax, Joe Zee, Audiomindz, Zemaria e The 666 Order. Só o fino. Imperdível.

Todo mundo tem que ouvir

Um verdadeiro clássico. É assim que o recém-lançado “My Beautiful Dark Twisted Fantasy”, quinto disco de Kanye West, vem sendo encarado. E com toda justiça. Um álbum impressionante, que deve elevar de uma vez por todas o americano ególatra como um dos maiores rappers da história. Obrigatório.

Playlist

The Decemberists – Coocoon
Marcelo Jeneci – Tempestade
Patty Moon – The Raven
Tim Kasher – A Grown Man
Daft Punk – End of Life
Best Coast – Wish He Was You
Iron & Wine – Summer In Savannah
Pulp – Commom People
Damien Rice – Cannonball
Sex Bob-Omb – We Are Sex Bob-Omb

Misquitape, a mixtape do Misquilinas

Não muda, nunca vai mudar. Talvez a única coisa inevitável nessa vida, o fim sempre chega. Tudo acaba. “Tudo passa”, bem disse Marcelo Camelo em uma de suas melhores músicas solo. Não há para onde fugir. Então, como não temos muito o que fazer além de esperá-lo chegar, o jeito é ir se divertindo. Esta quarta Misquitape, a mixtape do Misquilinas, propõe algumas canções para acompanhar mais um dos inevitáveis fins – o de 2010. Há por aqui canções que mudaram o curso do ano, como de Kanye West, The Naked and Famous e The National; outras de discos que só chegam ano que vem, como Patty Moon, Iron & Wine e the Decemberists, e outras variadas, tão imperdíveis quanto. Para aguardar mais um fim escutando “The End Again”, a nova Misquitape, é só clicar na capa abaixo e fazer o download.

Tracklist:

1 – Longwave – Best Kept Secret
2 – The Decemberists – Down By The Water
3 – The National – Bloodbuzz Ohio (Acoustic Live)
4 – Nouvelle Vague & Coeur de Pirate
5 – Winterpills – Feed the Spider
6 – the Phantom Band – O
7 – Kanye West – Hell of a Life
8 – Best Coast – Something in the Way
9 – Bárbara Eugênia – O Oposto do Osso
10 – Tim Kasher – Cold Love
11 – Iron & Wine – Walking Far From Home
12 – The Naked And Famous – Punching In A Dream
13 – Portugal the Man – Children
14 – Patty Moon – Mimi and Me

Coluna B, dia 27/11

O maior fim de semana do mundo

São Paulo, dias 20 e 21 de novembro de 2010. Existe alguma coisa no ar dessa cidade que faz tudo parecer diferente, e eu não estou falando da poluição. É como se estivéssemos no centro de tudo. Sabe como é, as coisas acontecendo, e a gente fazendo parte disso. No dia 20, um sábado quente, mas sem muito sol, aconteceu no Playcenter o mais legal festival do país. O Planeta Terra Festival não é o maior, mas certamente é o mais bem organizado, mais bem localizado na cidade e com uma formação tão certeira, tão equilibrada, que ficou difícil dizer qual foi o melhor show. A mistura da novíssima música pop com velhos nomes do indie rock colocou 30 mil pessoas entre montanhas-russas, carrinhos bate-bate e a Monga para assistir ao extrato do que melhor acontece na música hoje.

Escolhi começar a festa com o Holger e seu animadíssimo set, que deixa os indies paulistas em polvorosa, mas logo pulei para o imperdível show do Of Montreal, cheio de bichinhos e teatrinhos esquisitos. O som grooveado dos americanos eram um bom preparo para o melhor show do festival, que viria a seguir. Empolgados, os caras do Yeasayer começaram errando o nome da cidade (“hello, Buenos Aires!”), mas logo pagaram a dívida com uma bela apresentação. O grave estouradão fazia com que a gente não conseguisse não pular com as músicas, então o melhor foi se entregar de uma vez à loucura de faixas como “O.N.E.” e “Ambling Alp”. Lindo de se ver. Na sequência, troquei o esforçado Mika por umas cervejas a mais e peguei algumas músicas do animadíssimo show do Passion Pit (deu até pena de sair no meio). Lá no palco principal, o Phoenix entrava para fazer um show irregular, com ótimos momentos e passagens de dar sono. Apesar dos hits, o melhor foi mesmo ver o vocalista Thomas Mars nadando na galera no final de tudo. Uma cena marcannte.

Peguei algumas músicas do ótimo show do Hot Chip, mas corri mesmo para ver a maior celebração indie que já fui: o Pavement entrou no palco daquele jeito, visual largado, climão de quem está fazendo uma jam na garagem de casa. Aquela desafinação camarada, a microfonia e os berros de guitarra, tudo parecia perfeito para aquela noite. A seleção deliciosa de hits que os anos 90 não nos deixam esquecer foi um belo presente da trupe de Stephen Malkmus, bem diferente da pasmaceira exagerada que o Smashing Pumpkins tentou nos fazer engolir. O grande mérito de Billy Corgan foi ter trazido uma baixista tão bonita, porque o resto do show pouco prestou. Cabia a mim terminar de maneira gloriosa esse festival tão bacana, então fugi para ver o Girl Talk armar uma grande festa na despedida do Planeta Terra, no Indie Stage. Aquela turma em cima do palco, com direito ao pequeno gafanhoto André Paste fazendo reverência ao mestre dos mashups, tornou tudo mais divertido, mas infelizmente o Planeta Terra Festival 2010 chegava ao fim, e o dia seguinte reservava novas grandes emoções.

Domingo, 21 de novembro. Dia de ver um Beatle. Ainda com as pernas doendo de quase 12h de shows do Planeta Terra, caminhar até o Morumbi não era nada agradável. Mas o que a gente não faz por Paul McCartney? A chance de ver o autor da maioria das músicas que a gente canta desde criança lá em cima do palco, pertinho da gente, é simplesmente imperdível. Quase 70 mil pessoas enchiam o estádio quando o músico inglês entrou no palco com seu blazer azul e entoando “Venus and Mars”. Paul dividiu seu setlist entre canções dos Beatles, incluindo algumas que nem eram suas, e faixas de seus discos solo, mas todas as canções, sem exceção, foram cantadas pelo público. E é bom que se diga: clichês à parte, cantar o “naaaa, na, na, na na na, naaaa” de “Hey Jude” acompanhado de McCartney e sua banda não tem preço. Particularmente, me emocionei muito com a versão de “Something”, uma bela homenagem de Paul a George Harrison (que é, além de tudo, uma das mais incríveis canções dos Beatles), com a fofura tristonha de “Blackbird”, as memórias implícitas de “The Long And Winding Road”, a poesia simples e tão linda de “Yesterday” e a energia explosiva de “Live And Let Die”, uma cacetada com direito a fogos de artifício e tudo mais. Um espetáculo completo, liderado por um showman de quase 70 anos que poderia ser o mais babaca dos seres humanos, mas prefere ser apenas um gênio simpático e alegre por poder fazer o que tanto ama.

E, assim, com mais uma caminhada deixando o Morumbi rumo a mais um atraso de voos no aeroporto, terminava o maior de todos os fins de semana do mundo. Dois dias em que estivemos inseridos no que de mais sensacional acontece no planeta musical. Um fim de semana para não esquecermos, jamais.

Notinhas

E o Beady Eye?

Se você não sabe o que esse nome significa, fique ligado porque em breve deve ouvir falar bastante dele. Trata-se do Oasis sem Noel Gallagher, com Liam nos vocais e todo o resto da banda mantido. Acontece que os caras estão começando a soltar músicas novas – e outras novidades também. A primeira faixa divulgada, “Bring The Light”, puxa as coisas para o rock dos anos 50, com direito a coro feminino e tudo mais. A segunda, “Sons of Stage”, um cover do World of Twist, é na verdade um b-side, mas já leva o Beady Eye mais perto do que um dia foi o Oasis. Liam em grande forma, cantando como se não houvesse amanhã. Mas há, sim, um belo horizonte para o Beady Eye, que começa a fazer apresentações ao vivo em março de 2011.

Várias

Se você não se lembra, por incrível que pareça, a semana passada em São Paulo não teve “apenas” Planeta Terra e Paul McCartney. The Raveonettes, Stereophonics, The Mummies, Calvin Harris, Lou Reed e Scissor Sisters também estiveram por lá, além do Kevin Costner, o ator, que tocou com sua banda folk. Que demais, hein? /// O Arcade Fire lançou essa semana o clipe de “The Suburbs”. A direção da intrigante história é do talentosíssimo Spike Jonze. Vale a pena assistir. /// Amy Winehouse teve seus shows confirmados no Brasil. E a facada é séria: os preços variam de R$ 180 a absurdos R$ 700 reais. Mais caro que ver um Beatle. Acho que a Coluna B vai passar essa… /// Neste sábado, este colunista promove a festa “Lucky!” no Teacher’s Pub, com discotecagens deste que vos escreve e os DJs Rotiv, Suricate e Bad Little Fingers. A partir das 23h.

Todo mundo tem que ouvir

Li por aí que o Elton John tinha lançado disco novo. Resolvi baixar. E gostei. O ícone inglês, que já teve dias de rock star, se uniu ao histórico Leon Russel e gravou “The Union”, um belo registro, cheio de blues nas veias. Acredite, vale a conferida.

Playlist

School Of Seven Bells – I L U
Scarlet Youth – Between Summer and Spring
The Hot Toddies – Matt Skiba Sandwich
Bárbara Eugênia – Agradecimentos
Metric – Gold Guns Girls
Queens of the Stone Age – Goin’ Out West
Of Montreal – Sex Karma
Paul McCartney – Maybe I’m Amazed
The Concretes – All Day
Wolf Gang – Lions In Cages

Coluna B, dia 20/11

Não deu

É curioso falar de discos que a gente não gostou. Com a enorme oferta diária de álbuns hoje em dia, a seleção, muito natural, força o ouvinte a desencanar rapidinho do que não curtiu e partir feroz para buscar novidades mais agradáveis. Acumulamos novos discos bons, novas boas experiências, e esquecemos completamente dos fraquinhos. Voltar ao material descartado, aquele que não deixou uma fagulha na sua cabeça nem grudou nadica de nada na sua mente, é uma tarefa árdua. Principalmente quando esses discos geraram expectativa, são de bandas que costumamos gostar e nos frustraram. É o caso dos álbuns lançados este ano pelos ótimos Interpol, Klaxons e Antony and the Johnsons. Sim, são ótimos, mas esse ano, amigos, não deu.

Interpol – Interpol

Perder um membro da banda nunca é fácil. Balança a montagem natural das coisas, desestabiliza o ambiente e faz tudo parecer um pouco estranho. Essa poderia ser a explicação para o fraco desempenho do Interpol neste disco homônimo, já que o baixista Carlos D, um dos fundadores da banda, deixou o grupo há poucos meses. Mas seria falsa: Carlos D ainda gravou “Interpol” antes de buscar novos ares (sua saída ocorreu de maneira amigável, é bom que se diga). Então, como se explica um álbum tão sem graça, tão enfadonho como esse? Bom, talvez não seja preciso explicação alguma. A grande verdade é que o grupo novaiorquino já vinha em uma descendente. Se “Turn On The Bright Lights” e “Antics” conseguem praticamente empatar no quesito imensa qualidade musical, “Our Love To Admire”, que ainda é um disco muito bom, já deixava lá no fundo a sensação de que alguma coisa estava ruindo dentro do Interpol. Três anos de silêncio e o Interpol retorna com um disco apenas mediano, muito abaixo do que a gente sabe que a banda pode render. Há aqui e ali boas canções, como a forte dupla “Lights” e “Barricade”, que guarda semelhança com a boa época do grupo, e “Succes”, que abre bem o álbum. Mas, infelizmente, as outras sete faixas não conseguem sustentar a mesma qualidade, e “Interpol” falha irremediavelmente.

Klaxons – Surfing The Void

O segundo disco da carreira do Klaxons tinha tudo pra dar certo. Os caras praticamente inventaram um novo rótulo, a new rave, fizeram o mundo inteiro dançar com singles de grande porte, como “Atlantis to Interzone” e “Gravity’s Rainbow”, e confeccionaram uma das capas de disco mais sensacionais deste ano, com um gato vestido de astronauta. Mas, na hora de mostrar trabalho, os ingleses escorregaram. A demora em colocar novo material na rua já era comentada por todos. Dizem que o Klaxons fez um álbum completinho, não gostou, jogou tudo fora e começou outro do zero. Ninguém confirma, nem desmente, mas esse atraso surtiu um efeito “Chinese Democracy” na banda – afinal, todos sabemos, a velocidade dos acontecimentos neste século faz com que um ano pareça dez. Quando chegou aos ouvidos do mundo, “Surfing The Void” parecia… deslocado. Como falam por aí, as músicas são tão 2008 que, aparentemente, não combinaram bem com 2010. Como não poderia deixar de ser, o álbum não é uma derrota completa. As faixas “Surfing The Void”, “Flashover” e “Echoes” são um caldo, lembrando aquele Klaxons divertido, aquele Klaxons moleque que arrebatou todo mundo com “Myths Of The Near Future”, em 2007. Mas ficam muito aquém do que se espera de uma banda que tinha a cara da sua geração, o cheiro de leite com pêra envolvendo o ar, e agora parece mais mofada do que um pão de forma com dois meses de idade.

Antony and the Johnsons – Swanlights

Antony Hegarty tem uma das mais belas vozes da nova música. Inimitável, é ao mesmo tempo grave e delicada, unindo uma afinação impressionante a uma sensação de fragilidade crônica. Sua figura andrógina reforça esses sentimenos, e chega a confundir quem não conhece Antony. Com sua banda, os Johnsons, o inglês radicado em Nova Iorque foi responsável por um dos mais incríveis discos deste século, o sensível “I Am A Bird Now”, lançado em 2005. Depois dele, minha relação com o músico se tornou esquisita. “The Crying Light”, que saiu ano passado, não me conquistou. Para mim, é um disco aquém das possibilidade do músico. A esperança estava depositada em “Swanlights”, quarto álbum de sua carreira. Antes dele, o EP “Thank You For Your Love” deixava no ar boas possibilidades, mas eu continuava desconfiando. Quando o disco finalmente chegou, fui com avidez para a primeira audição e… não bateu. Vocês sabem, um disco precisa “bater”, precisa despertar alguma coisa. E nada. Não acredito que “Swanlights”, que vem sendo bastante elogiado, inclusive, seja um álbum ruim. Aqui, como costuma-se dizer em final de namoro, o problema sou eu. Por algum motivo qualquer, não assimilei a mensagem de Antony. Pode ser que daqui a quatro ou cinco meses eu volte fazendo mea culpa e colocando o disco em um altar – coisa que fiz com “I Am A Bird Now”, que também só me ganhou, e aí foi pra valer, seis meses depois. Pode ser. Mas, para agora, a única coisa que tenho para dizer a Antony e seus Johnsons é: amigos, me desculpem, mas não deu.

Notinhas

Várias

O ótimo site Rock n’ Beats (www.rocknbeats.com.br) aproveitou a vinda de Paul McCartney para o Brasil e organizou uma coletânea com músicas do beatle tocadas por artistas nacionais, como Apanhador Só, Wannabe Jalva, Sabonetes, Tulipa Ruiz e outros. O disquinho levou o nome de “Indie On The Run”. Dá uma sacada lá no site e ouça. /// O Rock In Rio 2011 começa a anunciar suas presenças ilustres. Depois de começar com Metallica, a organização confirmou a presença de Red Hot Chili Peppers e Snow Patrol. Fala-se que o Coldplay deve ser o headliner de um dos dias do esquema, mas não há nada confirmado ainda. /// O Strokes finalmente terrminou seu novo disco, foi o que Julian Casablancas comentou via Twitter dia desses. Mas, sobre o lançamento, ainda não há nada oficial. Que enrolação, hein!? /// Adele, cantora inglesa que chamou a atenção do mundo com sua bela voz, prepara sua volta para fevereiro de 2011. O primeiro single, a bela “Rolling In The Deep”, já tem clipe e promete um grande disco.

Coluna B em São Paulo

Neste fim de semana, este colunista está em São Paulo para acompanhar dois dos maiores eventos musicais-culturais do ano: o Planeta Terra Festival, que rola hoje, e o show do beatle Paul McCartney, que rola amanhã (há ainda outro, na segunda). No festival, que rola no parque Playcenter, uma bela quantidade de atrações imperdíveis: Yeasayer, Phoenix, Pavement, Girl Talk, Hurtmold, Passion Pit, Smashing Pumpkins, Of Montreal, Holger, Hot Chip, Novos Paulistas, Mika, Empire of the Sun, Mombojó e República. Já no domingo, uma atração que vale por muitas, na provável última turnê interncional de Macca. Morumbi completamente tomado, certamente um dos eventos mais importante deste novo século. E, na semana que vem, você pode ler sobre tudo isso aqui na Coluna B. Aguarde.

Todo mundo tem que ouvir

Depois de um bom tempo de espera, com várias músicas lançadas com sucesso na internet, finalmente Cee-Lo Green deixou seu novo disco encontrar nossos ouvidos. “The Lady Killer” é uma bela seleção de canção que destacam a poderosa voz do cantor americano, destaque desde seus tempos de Gnarls Barkley. Ouça a bolachinha.

Playlist

Hot Toddies – Boys On Bikes
Girl Talk – Let It Out
Longwave – Best Kept Secret
Nouvelle Vague & Soko – Sandy Sandy
Belle and Sebastian – Come On Sister
Delay Trees – 4:45 AM
Winterpills – Hallway (The Top Of The Velvety Stairs)
Dinosaur Pile-Up – Broken Knee
Yann Tiersen – Palestine
Bad Religion – The Devil In Stitches

Coluna B, dia 6/11

Warpaint, banda de garotas

Garotas, garotas e mais garotas. São quatro delas, de tipos diferentes. Uma loira, outra morena, algumas bonitas, outras nem tanto, todas talentosas, donas de um estilo verdadeiro, que se deixam entrecortar por grandes canções mesmo com pouca bagagem. Elas são as donas do Warpaint, grupo que está finalmente dando material mais consistente àqueles que já vislumbravam ali uma boa adição ao seu playlist diário pelos singles soltos no ar e o EP “Exquisite Corpse”, lançado em 2008 com uma formação ligeiramente diferente da atual – já fizeram parte da banda desde a atriz Shannyn Sossamon até o ex-guitarrista do Red Hot Chili Peppers, Josh Klinghoffer. “The Fool”, incensaada estreia do Warpaint, foi lançado oficialmente no final de outubro, e já flutuava pelas páginas de download na internet há alguns meses. Com as músicas na nossa frente, e de olho na atual formação, esse grupo de quatro meninas poderosas, que fogem naturalmente do clichê de garotas que têm banda de rock, nos leva diretamente à pergunta: qual será o segredo delas? O que as difere das outras?

A resposta não é fácil, nem chega perto de ser óbvia, mas a principal suspeita recai sobre uma característica muito importante: a audácia. Poucas meninas seriam capazes de empunhar uma guitarra e abrir uma música com um fraseado tão sorumbático quanto o de “Warpaint”, a segunda canção do álbum. O dedilhado, ao mesmo tempo suave e amedrontador, é a cara do que o Tool faz de vez em quando em seus álbuns geniais. Um forte acento grunge nos envia aos anos 90 no começo da faixa, liberando depois o espaço para que a baixista Jenny Lee Lindberg, as guitarristas Emily Kokal e Theresa Wayman (as três também cantam) e a baterista e tecladista Stella Mozgawa deixem fluir uma jam session bonita de se ouvir. Uma bela apresentação para uma banda que costumava fazer turnê com The Xx, Vampire Weekend, Yeasayer e Black Heart Procession e que tem em seu disco muitas outras belezas refinadas como essa.

Trata-se de um disco bonito, acima de tudo. Normal, não é. Faixas que ultrapassam os cinco minutos e misturam exageros dramáticos e melodias contidas são o que mais se encontra em “The Fool”. Estruturas pouco convencionais também estão por todo o disco, o que nos faz perceber que o Warpaint é um Foals de saias. Aquela beleza esquisita da banda de Yannis Philippakis, que emociona porque não conseguimos distinguir de onde vem a pancada – só a sentimos, lá no fundo -, está presente em músicas como a envolvente “Shadows”, a singela “Baby” ou a quebrada “Set Your Arms Down”. Reverbs e ecos se misturam, embolando a nossa percepção do que é e do que não é orgânico no som das meninas. A cada entrada desavisada de uma guitarra ou de uma percussão intrometida, flutuamos um pouco mais em direção ao sol engrecido que parece construir uma paisagem feita por encomenda para essas belas vozes femininas. Climão pós-punk forte, aquela coisinha escura do Joy Division, do Cure e do Echo and the Bunnymen dando oi na porta de cada música, é outro detalhe interessante do Warpaint. De onde essas garotas, que se conheceram ainda na infância, tiraram essas referências todas e misturaram tão bem, eu não sei. E espero nunca saber. É o que as difere das outras, mas prefiro que continuem tendo seus segredos.

Notinhas

A volta do Death Cab For Cutie

Ben Gibbard deu uma sumida. Também, pudera, o rapaz, líder do cultuado Death Cab For Cutie, teve que cumprir a difícil missão de se casar com a atriz e cantora Zooey Deschanel, a namoradinha dos indies. Só agora, um bom tempo depois, é que o sortudo anda mostrando a cara novamente. Gibbard conversou com a revista Spin e revelou seus planos com o DCFC: disco novo no primeiro semestre de 2011. Mas não será um disco qualquer. O sucessor de “Narrow Stairs” vai ter, segundo o compositor de todas as faixas, muito menos guitarras que o normal: “estamos em um momento de teclados vintage, e o som do disco novo deve seguir essa paleta”, afirmou. Seria um híbrido de DCFC com Postal Service, seu projeto paralelo? Vai saber. Seja com teclados, com guitarras ou até sem instrumento algum, a espera pelo novo disco do Death Cab For Cutie está apenas começando.

Várias

Essa semana, o grupo americano The Decemberists anunciou seu disco novo, “The King Is Dead”, para o dia 18 de janeiro (ou seja, em breve estará pipocando pela internet) e fez mais: revelou a participação de Peter Buck (R.E.M.) no trabalho e colocou para download gratuito a faixa “Down By The Water”, primeiro single do disco. Já deu pra sentir que vem aí um álbum bem puxado para o pop. /// O Mogwai anunciou seu próximo álbum, ao qual deu o singelo nome “Hardcore Will Never Die, But You Will”. Precisa dizer mais alguma coisa? /// Mais um festival chega a São Paulo. A Halls, sim, aquela bala, anunciou que fará um festival no dia 4 de dezembro, e já confirmou a primeira atração: a revelação indie The Temper Trap. Belo nome, só nos resta aguardar por outros tão bons assim. /// Aliás, nem preciso dizer nada sobre o Lou Reed, que vem tocar em São Paulo simplesmente nos dias 20 e 21 de novembro, dias de Planeta Terra Festival e Paul McCartney, respectivamente. São Paulo = Londres? /// Ah, claro, e tem Roxette no Brasil em abril próximo. Preparado para voltar no tempo?

Todo mundo tem que ouvir

E tá de novo a Zola Jesus por aí. A mocinha Nika Roza Danilova, 21 anos e mais conhecida por Zola Jesus, lançou mais um EP, “Valusia”. Nem preciso dizer que as quatro músicas lançadas por ela são lindas, esquisitas e imperdíveis. Corre.

Playlist

Of Montreal – Famine Affair
Antony and the Johnsons – The Spirit Was Gone
Keane – A Bad Dream
Shannon Wright – Violent Colors
The Pains Of Being Pure At Heart – Heart In Your Heartbreak
Cee-Lo Green – It’s Ok
Aberfeldy – If I Were A Joiner
Nina Becker – Não Me Diga Adeus
Sufjan Stevens – Decatur
Brian Ferry – Shameless

Coluna B, dia 30/10

Quem aguenta Sufjan Stevens?

Gênios e chatos, quem são eles? Quem eles pensam que são? Quem é quem nessa corda-bamba da arte, quem parece menos ser o que realmente é? Quem ilude, quem impressiona? Quem chateia, quem arrebata? Há milhares e milhares de anos, o homem confunde excepcionais por malas, e malas por excepcionais. Ninguém sabe onde fica essa chavinha que se vira pra um lado e pro outro para passar a genialidade para um ser humano. Vire pra cá, isso: você será medíocre, fará de tudo para se sobressair e comerá poeira, apenas. Agora vire pra lá, pronto: você mal precisará se esforçar pra deixar no mundo uma marca indelével, fará sempre mais. Nós sabemos muito bem quem pode e quem não pode mudar o mundo. E, ainda assim, por vezes confundimos chatos por gênios (e vice-versa). Metido nessa confusão por quem o escuta por aí e por quem gosta de analisar de tudo, um músico americano se vê em uma sinuca de bico: seria Sufjan Stevens um qualquer ou um notável? Para ser mais direto, afinal: quem tem saco para o Sufjan Stevens?

Aos trinta e cinco anos, esse caucasiano de Detroit, dono de uma figura de semblante calmo e introspectivo, colocou na praça dois novos discos e soltou uma bomba: em entrevista ao site Pitchfork, revelou estar com uma gravíssima e pouco conhecida doença, que o deixou debilitado por meses e meses. Segundo ele, um vírus afetou seu sistema nervoso e o fez perder completamente o controle sobre seus movimentos e atos. Stevens não disse se já está curado, muito menos se a sua doença tem alguma relação com os discos que lançou este ano – a saber, “All Delighted People”, o nono, e “The Age of Adz”, o décimo de sua atribulada carreira. Pela internet, pipocaram pessoas lamentando a frágil saúde do rapaz, e outras dando pouca ou nenhuma importância à notícia. Para o primeiro time, Sufjan é um dos mais enigmáticos e talentosos músicos da nova geração americana, um multiinstrumentista dono de uma bela voz e de muita criatividade para criar canções pouco óbvias. Para o segundo time, ele não passa de mais um artista meia-boca que não faria diferença pra ninguém, um grande galhofeiro insuportavelmente chato.

Faço parte do primeiro time, mas compreendo as rabugices do segundo. Conheci o trabalho de Sufjan Stevens em 2005, quando o disco “Illinoise” estourou no mundo todo. Trata-se de um dos mais fantásticos álbuns deste século, não tenho a menor dúvida, e parte de um projeto curioso: o artista disse que iria compor um disco inteiro para cada estado americano (“Michigan”, de 2003, havia sido o primeiro da tal série – antes disso, Stevens havia lançado o folk “A Sun Came”, em 2000, e o eletrônico “Enjoy Your Rabbit”, em 2001. Faz parte de sua discografia ainda o belo “Seven Swans”, de 2004). É claro que isso não aconteceu. Em 2006, ele lançou “The Avalanche”, um álbum de sobras de “Illinoise”, e “Songs For Christimas”, uma caixa de cinco discos só com músicas natalinas. Sumido por um tempo, provavelmente por causa de sua misteriosa doença, Stevens reapareceu em 2009 com “The BQE”, uma espécie de trilha sonora temática de um filme que ninguém viu e teria sido escrito e dirigido por ele mesmo. Foi uma longa espera até que, de surpresa, o EP de oito músicas “All Delighted People” ganhasse vida e chegasse aos ouvidos do mundo. Sem avisos prévios, sem notícias do que estava por vir, o maluco e visionário havia voltado.

Daí parto eu para dar o braço a torcer. A grande verdade é que, sim, é preciso ter saco para o Sufjan Stevens. É preciso abrir a cabeça, querer se deixar levar por suas ideias pouco convencionais. “Enjoy Your Rabbit” é enjoado, assim como sua versão em arranjos de cordas, “Run Rabbit Run”, lançado anos depois. “The BQE” também faz pouco sentido se você não estiver a fim de se entregar às viagens de Stevens. “Michigan”, “A Sun Came” e “All Delighted People” têm seus momentos, mas dá pra viver a vida inteira sem escutar uma música sequer de qualquer um desses álbuns. Aí o cara faz um grande disco, “Illinoise”, e depois some por aí, deixando “Chicago” e “John Wayne Gacy Jr.” reverberando por anos, vendo sua fama de grande talento da arte moderna crescer, crescer, sem fazer nada para que ela realmente ganhe vida. É. Para quem quer, Sufjan Stevens pode ser um dos artistas mais malas dos últimos tempos.

É nesse momento que eu volto para o meu time de origem e torno a defender o rapaz. Tente fazer uma imersão em sua carreira. Sente-se, coloque um bom fone de ouvido e deixe a música passear de um lado ao outro. Poucos artistas são capazes de fazer isso por você, e cá está um deles Em “The Age of Adz”, seu mais novo álbum, o músico viaja para tudo quanto é canto. Usa guitarras, abusa de orquestrações, permite ecos e repetições, deixa a eletrônica entrar sem medo e usa até Auto-Tune, aquele processador de áudio que deixa todas as vozes, da pior à melhor, com o mesmo efeito de cantor de hip hop. Sim, há uma faixa de 25 minutos, e isso poderia servir para o segundo time formar mais um argumento. Mas ela é, na verdade, muitas músicas em uma só, incríveis releituras de uma mesma partitura. Há no disco algumas canções que não figurariam na minha lista pessoal de melhores canções do cara, mas também temos a impressionante “Age of Adz”, que chega a emocionar de tão completa, tão rica, tão desavergonhada de seguir caminhos pouco comuns. Um refrão mágico, melodias que ninguém imita, oito minutos de cordas, corais, metais, barulhos esquisitos, o límpido vocal de Sufjan e tudo o que uma música sua tem o direito e o dever de ter. Assim como ela, “Now That I’m Older”, “I Want To Be Well”, “Vesuvius”, “I Walked” e “Get Real Get Right” são cheias de grandes momentos, passagens que jogam holofotes sobre a genialidade de Stevens, sua invejável noção musical. Quem tem saco para Sufjan Stevens é capaz de escutar canções memoráveis, gemas pop que fogem da normalidade e caem direto na lista de incríveis manifestações artísticas. É verdade, é preciso paciência para gostar dele. É preciso querer. Mas o segredo é que vale muito a pena.

Notinhas

Circuito off-Festival pega fogo

Se você é uma das pessoas que vai se deslocar até São Paulo nas próximas semanas para comparecer aos intermináveis shows e festivais de música que acontecem na cidade, fique ligado no que acontece fora do festival. Vários artistas que farão show na cidade também se apresentam no formato DJ set em clubes da cidade. Se liga só: Calvin Harris, atração maior do Exxxperience, que rola dia 14/11 em Itu, está agendado para fazer um set esperto no Hot Hot, no centro, dia 18 de novembro. Já o Hot Chip, que toca no Planeta Terra dia 20, sai de lá direto para a D-Edge, onde faz set no after party oficial do festival. Kevin Barnes, vocalista do Of Montreal, é outro que deve colocar seu projeto solo DJ List Christee em algum clube após sua apresentação no Planeta Terra. Parece que o americano toca no Glória, em data a ser definida. Imperdível.

Várias

O mundo está perdido. Ou está finalmente entrando nos eixos? Não sei, o fato é que o U2 convocou o produtor indie Danger Mouse (Gnarls Barkley, Broken Bells) para trabalhar em seu próximo disco. Eles já têm 12 faixas e esperam lançar o disco no primeiro semestre de 2011. /// Sam Bean vai finalmente lançar seu primeiro disco do Iron & Wine por uma grande gravadora. Contratado pela Warner, o americano prepara “Kiss Each Other Clean” para janeiro de 2011, e promete um disco mais pop, “radio friendly”, como definiu em entrevista à Spin. O álbum foi produzido por Brian Deck e tem a participação de Dave Sitek (TVOTR, Maximum Balloon). /// Quem também promete novidades é o Foo Fighters. Dave Grohl anunciou que o próximo disco, que chega ao mundo nos primeiros meses de 2011, vai ser produzido por Butch Vig (de “Nevermind”) e terá participação especial de Krist Novoselic, ex-baixista do Nirvana. Grohl ainda disse que será o mais pesado de todos os álbuns do FF. Aguardemos.

Todo mundo tem que ouvir

Apesar de ter feito um show baseado em seus sucessos passados, o Kings of Leon esteve no Brasil para o festival SWU com um disco recém-lançado: “Come Around Sundown” é o quinto álbum da carreira da banda, e já denota certa maturidade com um tracklist equilibrado, coeso e bem sincero. Vale a pena conferir.

Playlist

Holger – Beaver
Bad Religion – Ad Hominem
Queens of the Stone Age – Burn the Witch
Maximum Balloon – Shakedown
Nina Becker – Lá e Cá
Warpaint – Bees
Aberfeldy – Play The Music Loud
Engineers – Twenty Paces
Mary Gauthier – Goodbye
Celardoor – Legacy

Coluna B, dia 23/10

Lembra?

Lembra do Razorlight? Aquela banda meio britânica, meio sueca, que teve um grande single, “America”, e depois desapareceu. Lembrou? Se a resposta for não, tudo bem, não se culpe. Eu também gostaria de não me lembrar, porque o grupo não faz a menor falta na vida de ninguém (apesar de continuar na ativa e estar preparando um novo disco). Feliz foi Andy Burrows, que de burro só tem o nome. O ex-baterista do Razorlight saiu a tempo de não se sujar demais na falta de graça de sua banda e montou um novo projeto chamado I Am Arrows, que é dez vezes mais legal que o anterior. Esperto, Burrows pulou da cadeirinha da bateria para o microfone principal, empunhou guitarra e violão e colocou na praça este ano o saboroso “Sun Comes Up Again”, primeiro trabalho da nova banda que conta ainda com seu irmão Ben Burrows, os também irmãos Adam e Ben Chetwood e Nick Hill.

Onze dias após se desligar do Razorlight, Andy assinou contrato com a Universal Records para gravar um disco com o I Am Arrows. A sagacidade do músico se explica nas quatorze faixas de sua estreia, um pop ensolarado, aberto a todos os ouvidos, dos mais sensíveis aos menos exigentes, completamente dado às maravilhas da escrita descompromissada, feliz, verdadeira. Burrows não inventou a roda, não deu novas cores a um planeta cinzento, não tirou coelho algum da cartola. Seu mérito é tão somente fazer bem feito algo que, quando realizado com tal qualidade, pode ser tão prazeroso quanto uma grande criação cheia de ineditismo. Isso é música pop. Saiba como reconhecê-la: a cavalgada dos violões em “Battle For Hearts & Minds”, a batida sacolejante de “Green Grass” e seu refrão hipnotizante, a vontade de abraçar alguém que “Bruises” e “You’ve Found Love” dão, o piano mágico que chora em “Monsters Dash” e nos carrega diretamente para a bela “No Wonder”, a letra em que todo mundo se vê retratado de “Another Picture Of You”, a leveza dos arranjos de “Far Enough Away”, a diversão intrínseca que envolve “The Us” e tudo que diz respeito a “Nice Try”, uma das músicas mais legais desse ano, desde seu começo de calmaria, os backing vocals, o refrão bonitão, enfim, tudo mesmo. Há todo um ar anos 70 que ronda “Sun Comes Up Again” e faz com que a gente tenha certeza absoluta que o Andy Burrows fez mesmo a escolha certa ao começar o I Am Arrows. Obrigado, Razorlight.

Agora, me conta: você se lembra do Snow Patrol, certo? Essa tenho certeza que sim, uma das melhores bandas farofas (digo isso com todo carinho) do rock atual, veio fazer show no Brasil na semana passada e tudo mais. Pois o senhor Gary Lightbody também deu uma fugida de sua banda de origem para criar um outro projeto, chamado Tired Pony. Calma, o Snow Patrol continua vivinho da silva, é só um grupo paralelo. Aliás, mais do que isso, é um supergrupo paralelo. Encantado com a música country, Lightbody resolveu chamar alguns camaradas para formar a nova banda e tocar o estilo, e não economizou na qualidade dos membros. Começaram com ele Iain Archer, cantor irlandês e letrista de alguns bons sucessos do Snow Patrol, Jacknife Lee, produtor famoso que já trabalhou com U2, Bloc Party, R.E.M., Snow Patrol, Weezer e muitos outros, e Richard Colburn, baterista de uma banda que algumas pessoas conhecem por aí, chamada Belle and Sebastian. Apesar do elenco estrelado, Lightbody ainda não estava satisfeito e resolveu ousar na próxima contratação. Foi quando anunciou o reforço de Peter Buck, sensacional guitarrista do R.E.M. e dito pelo vocalista do Snow Patrol como um de seus heróis de toda a vida.

O supergrupo recebeu a mão de Jacknife Lee também na produção de seu primeiro disco, “The Place We Ran From” – nome que, aliás, diz um bocado sobre a disposição de Lightbody de fugir do que ele mesmo chama de “seu próprio sistema”. O álbum foi gravado em apenas uma semana, em Portland (EUA), e traz em seu âmago a face empoeirada da música americana de raiz, algo que permeia cada nota do disco. Ainda que não tenha gerado um disco sensacional, a união de forças tão inspiradoras para formar o Tired Pony foi capaz de colocar ao menos um punhadinho de grandes canções nos nossos ouvidos sedentos. A empolgante “Poin Me At Lost Islands” recebe uma bela cota de violões e se assenta muito bem com a voz de Lightbody e alguns instrumentos de corda. “Held In The Arms of Your Words”, assim como “That Silver Necklace”, caminha em um terreno projetado para o folk, com batidinha relaxante e poucos desafios a oferecer. “Northwestern Skies” é constantemente alvejada por notas tristonhas, deixando por aí um ar de misteriosa. Já “Dead American Writers” foge dos traquejos country e soa como um lado B do Snow Patrol. Vale lembrar que o Tired Pony também recebeu contribuições valiosíssimas, como da dupla do She & Him, Zooey Deschanel e M. Ward, na melancólica “Get On The Road”, e Tom Smith, ótimo vocalista do Editors, que emprestou sua voz para a belíssima “The Good Book”, um dos destaques do disco.

Quando percebemos que “The Place We Ran From” não passa de um álbum apenas bom, agradecemos aos céus que Gary Lightbody não tenha feito como Andy Burrows, que chutou sua banda pra longe e formou outra. Tanto Snow Patrol quanto R.E.M. e Belle and Sebastian ainda têm muito o que fazer por nós. Mas, agora, ao lado do I Am Arrows, e não do Razorlight.

Notinhas

Novidades de 2011

Na boca de novembro, como estamos, é impossível não começar a pensar no que teremos o prazer de escutar no ano que vem – e, pra ser bem realista, já daqui a algumas semanas, quando os vazamentos começarem. Há uma boa lista de discos certos para 2011, e alguns artistas começaram a dar as caras já. Um deles é o sumido Red Hot Chili Peppers, que anunciou novo álbum, já sem John Frusciante mas com produção do mago Rick Rubin, para março. O U2, para quem curte, é outro que promete álbum para os primeiros meses do ano que vem, assim como o Beastie Boys. Caminhando um pouco mais para o indie, temos The Pains of Being Pure At Heart, Cold War Kids, Juliette Lewis e até o The Last Shadow Puppets, projeto do vocalista do Arctic Monkeys, Alex Turner, todos pensando em um 2011 mais bonito pra você.

Paul McCartney no Brasil

Não foi fácil. Uma verdadeira luta, com direito a pequenas rasteiras, choro, ranger de dentes e muita força de vontade para conseguir. Mas, no final, os recompensados ficarão felizes. Nas últimas semanas, uma batalha para conseguir assistir aos show de Sir Paul McCartney em São Paulo foi a notícia principal no mundo da música nacional. No Twitter, muitos desesperados praguejavam sua falta de sucesso na empreitada. Mas a Coluna B conseguiu, via irmão mais velho esperto, e estará lá para acompanhar o que possivelmente será a última turnê internacional, pelo menos a cantos selvagens como o Brasil, do Beatle mais querido de todos (eu sei, há controvérsias). Um segundo show foi aberto, e seus ingressos voaram com a mesma velocidade do primeiro. Por isso e por todo o resto, tenho a certeza de que estaremos (os poucos que conseguiram, é claro) diante de um momento sublime e histórico.

Todo mundo tem que ouvir

Da mesma forma que assombrou o mundo (pelo menos o meu) no começo do ano passado com o disco “Checkmate Savage”, o grupo escocês The Phantom Band voltou a aparecer: de surpresa. “The Wants”, segundo trabalho da banda, foi lançado há poucas semanas. Não chega à qualidade sensacional do primeiro, mas é impossível de se ignorar. Ouça.

Playlist

Os Pontos Negros – Se o Variações Fosse Meu Barbeiro
Plaumtree – Scott Pilgrim
Rene Hell – Walking In Tune
Sub Luna – A Distance Between
Warpaint – Undertow
Jenny and Johnny – My Pet Snakes
Japandroids – Lucifer’s Symphony
Delay Trees – In February
Nikola Sarcevic – Tro
The Mars Volta – Eriatarka

Coluna B, dia 16/10

SWU, um festival de momentos

Três dias inteiros dedicados a uma única coisa: curtir como nunca um festival de música. Itu, no interior de São Paulo, foi palco do SWU (Starts With U), evento de proporções grandiosas que aconteceu de 9 a 11 de outubro, em uma fazenda da cidade. Tão cheio de bandas quanto de polêmicas, o que deu o tom do festival foi mesmo a sucessão de momentos – bons e ruins. Uma enxurrada de sensações se atropelavam, enquanto mais de 165 mil pessoas se acotovelavam por um lugar mais próximo de suas bandas preferidas (e mais quentinho, a Fazenda Maeda é gelada). E lá estava a Coluna B, atenta a tudo para trazer para você os melhores (e piores) momentos do SWU.

Momento “me tira daqui”
O show do Rage Against The Machine foi caos puro. Tudo começou com uma estrela vermelha tomando o telão vagarosamente, enquanto uma sirene deixava todo mundo apreensivo. Assim que o primeiro riff de “Testify” explodiu das caixas de som, o mundo se tornou um lugar mais alucinado. A poderosa voz de Zach de la Rocha parecia incitar a violência. Empurra-empurra. Celulares perdidos pelo chão. Rodas de mosh. Cerveja jogada pro alto. Tudo o que um show do Rage merecia ter. Ainda que eu quase tenha sido pisoteado, foi épico.

Momento “haja paciência”
Levar duas horas para sair do SWU no primeiro dia não foi fácil. Ainda bem que o problema foi solucionado, e no segundo e terceiro dia foi infinitamente mais fácil deixar o local.

Momento “dei mole!”
Mallu Magalhães, CSS, Josh Rouse, Aeroplane, Mombojó e Bomba Estéreo estão entre as atrações que eu dei o vacilo de perder, seja porque escolho alguma outra coisa no horário, ou porque cheguei atrasado. Mas, acima de qualquer outro, o momento “dei mole” fica por conta do show do Otto, que aconteceu no mesmo horário do Dave Matthews Band, e foi considerado por muitos uma das melhores atrações do festival.

Momento “colírio”
Joss Stone não precisava falar nada. Quieta, ela já ganhava a atenção de qualquer um que tivesse vista para o telão. Que mulher linda! Já o seu show, bem, não faria diferença se estivesse no “mudo”.

Momento “conversa pra boi dormir”
O papo de sustentabilidade, que envolveu o festival, vira conversinha à toa quando notamos diversas formas de desrespeitar as pessoas que estavam no SWU. Desde a turma do camping até as pessoas que queriam se alimentar depois dos shows, o sofrimento foi eterno. Antes de se preocupar com o meio ambiente, o SWU precisa cuidar melhor das pessoas que vão ao festival.

Momento “eu já sabia”
Eu não tinha a menor dúvida de que chegaria aqui após a maratona de shows e diria que o Queens of the Stone Age havia sido o melhor show. Apesar de encurtado em meia hora por causa de um atraso por problemas técnicos, o set list perfeito e a indisfarçável animação de Josh Homme fizeram dele o melhor show do SWU.

Momento “Brasil-sil-sil”
A qualidade dos shows nacionais no SWU foi marcante e uma belíssima prova do quanto a música (indie?) brasileira tem evoluído. Começando pela abertura dos palcos principais com o Black Drawing Chalks, quando as pessoas se surpreendiam por eles serem brasileiros, passando pelas ótimas apresentações de Tulipa Ruiz, Cidadão Instigado, The Twelves, Macaco Bong, B Negão e os Seletores de Frequência e chegando ao sensacional show do Los Hermanos, muito melhor do que aquele do Just A Fest, com o Radiohead. Quem diria, em um festival de grandes atrações gringas, a nova música brasileira foi um dos maiores destaques.

Momento “aumenta o som!”
Regina Spektor sofreu com um som mulambo, raquítico em sua apresentação no SWU. Sua música sensível, fina, ficava quase inaudível por causa do som baixo. A tenda eletrônica sufocava a voz e o piano da cantora russa-americana. De vez em quando, víamos ela apontando o indicador para cima, pedindo que aumentassem seu volume. Uma pena.

Momento “cabeça fundida”
Um dos shows mais incríveis do festival foi o do Mars Volta. Cinco músicas em uma hora, com muita viagem, improvisação, jam e dancinhas de seus protagonistas. Uma aula de guitarra com Omar Rodriguez-Lopez. “Cicatriz ESP” foi antológico. Um show para fundir a cabeça de qualquer cidadão apaixonado por música.

Momento “surpresa!”
Ainda que muitos esperassem que elas fossem a decepção do festival, Incubus e Kings of Leon fizeram bons shows. O KoL animou a plateia, diferente do que se vê em shows transmitidos pela TV. Já o Incubus enfileirou velhos sucessos, da época em que ainda era uma banda relevante no cenário mundial.

Momento “me acorda quando acabar”
Dignos de nota, o show do MSTRKRFT, muito esperado por diversos fãs, foi fraquíssimo. Uma das decepções do festival.

Momento “naquele tempo…”
Pixies, Sublime With Rome, Yo La Tengo e Cavalera Conspiracy fizeram shows para quem sente saudades. O Pixies, meio em rotação lenta por conta da idade e da pouca animação de Black Francis e comparsas, ainda animou muita gente com diversos hits barulhentos antes da tortura com o Linkin Park (a qual nem me dei o trabalho de assistir). O Sublime apenas emulou o que um dia já foi sucesso, encaixando bem como a trilha sonora inofensiva de um lindo fim de tarde em Itu – o mesmo fez o Yo La Tengo, talvez com um pouquinho mais de sucesso, apesar dos fãs de Linkin Park vaiarem a banda por não entenderem o que é uma guitarra bem tocada. Já os irmãos Cavalera, Max e Igor (me recuso a escrever o nome dele cheio de frescuras), metiam músicas e mais músicas do Sepultura, uma atrás da outra, levando um bocado de pessoas ao delírio.

Misquitape, a mixtape do Misquilinas

Você sente falta do que foi um dia? Tem saudade de um tempo que nunca mais vai voltar? Ou sente alívio por ter se transformado em algo melhor? Não importa. O que faz você ser o que é hoje é o que você fez ontem.
Não, esta não é uma mixtape saudosista. Pelo contrário. É um olhar pra frente, queixo erguido e vontade de ultrapassar as barreiras que ainda não foram ultrapassadas. O sentimento de homenagear o que fomos é só mais uma maneira de deixar o passado pra trás e começar a caminhar para o futuro. “What We Were”, a terceira Misquitape, a mixtape do Misquilinas, está pronta para o que vier. Para baixar, basta clicar na capa abaixo.

Tracklist:

1 – Sufjan Stevens – Chicago
2 – Bad Religion – Won’t Somebody
3 – Soundtrack Of Our Lives – Sister Surround
4 – Cee-Lo Green – Fuck You
5 – Rotiv vs Arcade Fire –  Sprawl 3.0
6 – Kings Of Leon – Radioactive
7 – Rosie and Me – Bonfires
8 – Lestics – Travessia
9 – The Rosewood Thieves – Cold In The Country
10 – celladoor – YY
11 – Kaki King – Spit It Back In Your Mouth
12 – School Of Seven Bells – Windstorm
13 – Maximum Balloon feat. Theophilus London – Groove Me
14 – Aberfeldy – In Denial