El Disparo de Pinilla

A história do que poderia ter sido. 

Brasil, um, Chile, um. 119 minutos, o último da prorrogação.

– Pinilla entra pela ponta esquerda. Alexis passa, ele toca, Alexis devolve, bela tabelinha. Pinilla, na entrada da área, se livra da marcação, bate forte no alto, e é gol!
O locutor emudece de desespero. Não há mais o que dizer.

div>

Gol do Chile, um balaço de fora da área do camisa 9. O atacante comemora demais, corre sem destino, mal sabe onde está. Todos do time chileno, inclusive os reservas e a comissão técnica, se jogam sobre o jogador. O estádio se cala. Os jogadores brasileiros se olham, incrédulos. Julio César busca a bola no fundo das redes e dá uma bica para o meio de campo, desolado. Os canarinhos metem as mãos na cintura, sobre o rosto ou atrás da cabeça e aguardam que os jogadores do Chile terminem suas comemorações, como se mais nada pudesse ser feito. E não pode mesmo.

div>

A bola volta ao meio de campo. A torcida ainda está em estado de choque. Alguns choram baixinho, outros custam a acreditar. Ninguém emite um pio sequer. Os chilenos retomam seu campo, Pinilla ainda não sabe bem como agir. É difícil acreditar no que acabou de acontecer. O juiz não perde tempo e, tão logo a bola volta a rolar, apita o fim da partida. O Brasil, anfitrião da competição, país do futebol, está eliminado da Copa do Mundo nas oitavas de final. E a culpa é toda dele. Um chute perfeito, no ângulo do goleirão famoso. O melhor chute da sua vida.

div>

Os jogadores todos correm em direção a Pinilla. Abraços, tapas na cabeça e na bunda, beijos estalados no rosto, e de repente todo o estádio está vendo o camisa nove ser jogado para cima por seus companheiros aos gritos de Chi-chi-chi-, Le-le-le. É a glória, o Chile chega a uma quarta-de-final de Copa do Mundo eliminando um dos maiores rivais, o todo-poderoso-dono-da-casa, e tudo por causa dele. Enquanto é arremessado para o ar, o atacante olha para o céu e vê uma leve chuva que começa a cair. Ao mesmo tempo, seus olhos se fecham em êxtase. Ele é o herói.

div>

Os olhos de Pinilla se abrem com uma preguiça dolorosa. Um sol exemplar enfia seus raios através da imensa janela que ocupa quase toda a parede do quarto e atinge em cheio seu rosto. Ainda pesquisando mentalmente onde está e como foi parar ali, o rapaz leva as mãos ao rosto e se estapeia de leve, buscando acordar. Demora um pouco para perceber a mulher nua ao seu lado, em sono profundo, e se admira ao perceber como seu corpo é perfeito. Devagar tudo vai voltando: as lembranças da noite, as dores nas coxas pelo esforço extra da prorrogação, o sentimento intransmissível de ter feito história, o troféu de melhor em campo da Fifa. Em pé, em frente à janela, ele vê lá embaixo, na entrada do hotel, uma horda de torcedores de camisetas vermelhas, ensandecidos. O sonho não acabou.

div>

Assim que adentra o restaurante para o café da manhã, alguém grita: “É o Pinilla!”. Uma carregadíssima salva de palmas é executada, com o vigor de quem vê um deus passar pela porta. Sem graça, acena para os presentes, une as mãos à frente do peito em sinal de agradecimento e procura a mesa mais próxima. Nem bem se senta e a moça que estava em sua cama passa ao seu lado, senta em outra mesa e remete a ele uma piscadela. Em seguida, dois ou três garçons, era difícil dar certeza com tantas mãos sobrevoando seu espaço aéreo, começam a oferecer todo o tipo de comida: bolos, queijos, sucos diversos, pães, presuntos inteiros, frutas, ovos mexidos com bacon, chás, café com leite, e ao final um jornal brasileiro, onde se lia, em letras garrafais: MORTOS POR PINILLA.

div>

Lá fora, a torcida continua irredutível: só sai dali quando o astro da noite anterior comparecer para fotos e autógrafos. Cansado, mas curioso com o novo tratamento, ele desce. Enquanto o elevador viaja rumo ao térreo, ele lembra da época em que jogava aqui mesmo no Brasil. De tempos em tempos era xingado por torcedores do lado de fora do hotel do Vasco da Gama, time pelo qual atuou e foi mandado embora sem deixar muita saudade. A situação era bem parecida: seu nome era um dos mais gritados, mas, ao invés de um autógrafo e uma foto como lembrança, os torcedores queriam seu sangue e transforma-lo em apenas uma vaga lembrança ruim na história do clube.
“El Disparo de Pinilla”. É a frase que mais se ouve em qualquer corredor do hotel. Depois de atender a todos os torcedores, o jogador recebe uma massagem especial – de graça, oferecida por um outro chileno que está hospedado no mesmo hotel, quando recebe uma ligação: é seu agente, berrando mil elogios, escancarando todo seu amor e comunicando que já havia recebido, até aquela hora da tarde, quase dez sondagens a respeito do seu passe e do seu destino depois da Copa. Pinilla balança a cabeça, experimentando uma sensação completamente inédita em sua vida. Nada daquilo parecia verdade.

div>

Entre uma massagem e outra, o verde do gramado do Mineirão passeia de volta em sua memória. A maciez da chuteira acertando a bola, o goleiro saltando no vazio, o cheiro de suor do seu marcador, o barulho da rede sendo estufada ante o silêncio do mundo, que parou de respirar para que nada atrapalhasse o caminho daquela bola. E, tão logo retoma a realidade, já se perde novamente em tentar adivinhar qual seria seu futuro. Um time da Itália, talvez? Ou algum ali do meio da tabela da Espanha, quem sabe? No Brasil sabe que as portas estariam fechadas, e se diverte com a ideia.

div>

Uma pressão mais forte no músculo dos ombros faz com que retome um pouco a realidade. Seria titular na próxima partida da Copa? Passariam para as semifinais? Tão logo se levanta da maca de massagem e sai porta afora, onde descobre o mais alto dirigente da federação de futebol chilena o esperando com um charuto e duas moças belíssimas, Pinilla percebe que pouco importava se jogaria ou não, se receberia propostas ou não. O que havia de ser feito estava feito. A história já trazia PINILLA  escrito em maiúsculas exageradas em suas páginas, e aquele meio palmo que separou a sua bola da trave é onde ele vai viver para todo o sempre.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s