Coluna B, dia 30/10

Quem aguenta Sufjan Stevens?

Gênios e chatos, quem são eles? Quem eles pensam que são? Quem é quem nessa corda-bamba da arte, quem parece menos ser o que realmente é? Quem ilude, quem impressiona? Quem chateia, quem arrebata? Há milhares e milhares de anos, o homem confunde excepcionais por malas, e malas por excepcionais. Ninguém sabe onde fica essa chavinha que se vira pra um lado e pro outro para passar a genialidade para um ser humano. Vire pra cá, isso: você será medíocre, fará de tudo para se sobressair e comerá poeira, apenas. Agora vire pra lá, pronto: você mal precisará se esforçar pra deixar no mundo uma marca indelével, fará sempre mais. Nós sabemos muito bem quem pode e quem não pode mudar o mundo. E, ainda assim, por vezes confundimos chatos por gênios (e vice-versa). Metido nessa confusão por quem o escuta por aí e por quem gosta de analisar de tudo, um músico americano se vê em uma sinuca de bico: seria Sufjan Stevens um qualquer ou um notável? Para ser mais direto, afinal: quem tem saco para o Sufjan Stevens?

Aos trinta e cinco anos, esse caucasiano de Detroit, dono de uma figura de semblante calmo e introspectivo, colocou na praça dois novos discos e soltou uma bomba: em entrevista ao site Pitchfork, revelou estar com uma gravíssima e pouco conhecida doença, que o deixou debilitado por meses e meses. Segundo ele, um vírus afetou seu sistema nervoso e o fez perder completamente o controle sobre seus movimentos e atos. Stevens não disse se já está curado, muito menos se a sua doença tem alguma relação com os discos que lançou este ano – a saber, “All Delighted People”, o nono, e “The Age of Adz”, o décimo de sua atribulada carreira. Pela internet, pipocaram pessoas lamentando a frágil saúde do rapaz, e outras dando pouca ou nenhuma importância à notícia. Para o primeiro time, Sufjan é um dos mais enigmáticos e talentosos músicos da nova geração americana, um multiinstrumentista dono de uma bela voz e de muita criatividade para criar canções pouco óbvias. Para o segundo time, ele não passa de mais um artista meia-boca que não faria diferença pra ninguém, um grande galhofeiro insuportavelmente chato.

Faço parte do primeiro time, mas compreendo as rabugices do segundo. Conheci o trabalho de Sufjan Stevens em 2005, quando o disco “Illinoise” estourou no mundo todo. Trata-se de um dos mais fantásticos álbuns deste século, não tenho a menor dúvida, e parte de um projeto curioso: o artista disse que iria compor um disco inteiro para cada estado americano (“Michigan”, de 2003, havia sido o primeiro da tal série – antes disso, Stevens havia lançado o folk “A Sun Came”, em 2000, e o eletrônico “Enjoy Your Rabbit”, em 2001. Faz parte de sua discografia ainda o belo “Seven Swans”, de 2004). É claro que isso não aconteceu. Em 2006, ele lançou “The Avalanche”, um álbum de sobras de “Illinoise”, e “Songs For Christimas”, uma caixa de cinco discos só com músicas natalinas. Sumido por um tempo, provavelmente por causa de sua misteriosa doença, Stevens reapareceu em 2009 com “The BQE”, uma espécie de trilha sonora temática de um filme que ninguém viu e teria sido escrito e dirigido por ele mesmo. Foi uma longa espera até que, de surpresa, o EP de oito músicas “All Delighted People” ganhasse vida e chegasse aos ouvidos do mundo. Sem avisos prévios, sem notícias do que estava por vir, o maluco e visionário havia voltado.

Daí parto eu para dar o braço a torcer. A grande verdade é que, sim, é preciso ter saco para o Sufjan Stevens. É preciso abrir a cabeça, querer se deixar levar por suas ideias pouco convencionais. “Enjoy Your Rabbit” é enjoado, assim como sua versão em arranjos de cordas, “Run Rabbit Run”, lançado anos depois. “The BQE” também faz pouco sentido se você não estiver a fim de se entregar às viagens de Stevens. “Michigan”, “A Sun Came” e “All Delighted People” têm seus momentos, mas dá pra viver a vida inteira sem escutar uma música sequer de qualquer um desses álbuns. Aí o cara faz um grande disco, “Illinoise”, e depois some por aí, deixando “Chicago” e “John Wayne Gacy Jr.” reverberando por anos, vendo sua fama de grande talento da arte moderna crescer, crescer, sem fazer nada para que ela realmente ganhe vida. É. Para quem quer, Sufjan Stevens pode ser um dos artistas mais malas dos últimos tempos.

É nesse momento que eu volto para o meu time de origem e torno a defender o rapaz. Tente fazer uma imersão em sua carreira. Sente-se, coloque um bom fone de ouvido e deixe a música passear de um lado ao outro. Poucos artistas são capazes de fazer isso por você, e cá está um deles Em “The Age of Adz”, seu mais novo álbum, o músico viaja para tudo quanto é canto. Usa guitarras, abusa de orquestrações, permite ecos e repetições, deixa a eletrônica entrar sem medo e usa até Auto-Tune, aquele processador de áudio que deixa todas as vozes, da pior à melhor, com o mesmo efeito de cantor de hip hop. Sim, há uma faixa de 25 minutos, e isso poderia servir para o segundo time formar mais um argumento. Mas ela é, na verdade, muitas músicas em uma só, incríveis releituras de uma mesma partitura. Há no disco algumas canções que não figurariam na minha lista pessoal de melhores canções do cara, mas também temos a impressionante “Age of Adz”, que chega a emocionar de tão completa, tão rica, tão desavergonhada de seguir caminhos pouco comuns. Um refrão mágico, melodias que ninguém imita, oito minutos de cordas, corais, metais, barulhos esquisitos, o límpido vocal de Sufjan e tudo o que uma música sua tem o direito e o dever de ter. Assim como ela, “Now That I’m Older”, “I Want To Be Well”, “Vesuvius”, “I Walked” e “Get Real Get Right” são cheias de grandes momentos, passagens que jogam holofotes sobre a genialidade de Stevens, sua invejável noção musical. Quem tem saco para Sufjan Stevens é capaz de escutar canções memoráveis, gemas pop que fogem da normalidade e caem direto na lista de incríveis manifestações artísticas. É verdade, é preciso paciência para gostar dele. É preciso querer. Mas o segredo é que vale muito a pena.

Notinhas

Circuito off-Festival pega fogo

Se você é uma das pessoas que vai se deslocar até São Paulo nas próximas semanas para comparecer aos intermináveis shows e festivais de música que acontecem na cidade, fique ligado no que acontece fora do festival. Vários artistas que farão show na cidade também se apresentam no formato DJ set em clubes da cidade. Se liga só: Calvin Harris, atração maior do Exxxperience, que rola dia 14/11 em Itu, está agendado para fazer um set esperto no Hot Hot, no centro, dia 18 de novembro. Já o Hot Chip, que toca no Planeta Terra dia 20, sai de lá direto para a D-Edge, onde faz set no after party oficial do festival. Kevin Barnes, vocalista do Of Montreal, é outro que deve colocar seu projeto solo DJ List Christee em algum clube após sua apresentação no Planeta Terra. Parece que o americano toca no Glória, em data a ser definida. Imperdível.

Várias

O mundo está perdido. Ou está finalmente entrando nos eixos? Não sei, o fato é que o U2 convocou o produtor indie Danger Mouse (Gnarls Barkley, Broken Bells) para trabalhar em seu próximo disco. Eles já têm 12 faixas e esperam lançar o disco no primeiro semestre de 2011. /// Sam Bean vai finalmente lançar seu primeiro disco do Iron & Wine por uma grande gravadora. Contratado pela Warner, o americano prepara “Kiss Each Other Clean” para janeiro de 2011, e promete um disco mais pop, “radio friendly”, como definiu em entrevista à Spin. O álbum foi produzido por Brian Deck e tem a participação de Dave Sitek (TVOTR, Maximum Balloon). /// Quem também promete novidades é o Foo Fighters. Dave Grohl anunciou que o próximo disco, que chega ao mundo nos primeiros meses de 2011, vai ser produzido por Butch Vig (de “Nevermind”) e terá participação especial de Krist Novoselic, ex-baixista do Nirvana. Grohl ainda disse que será o mais pesado de todos os álbuns do FF. Aguardemos.

Todo mundo tem que ouvir

Apesar de ter feito um show baseado em seus sucessos passados, o Kings of Leon esteve no Brasil para o festival SWU com um disco recém-lançado: “Come Around Sundown” é o quinto álbum da carreira da banda, e já denota certa maturidade com um tracklist equilibrado, coeso e bem sincero. Vale a pena conferir.

Playlist

Holger – Beaver
Bad Religion – Ad Hominem
Queens of the Stone Age – Burn the Witch
Maximum Balloon – Shakedown
Nina Becker – Lá e Cá
Warpaint – Bees
Aberfeldy – Play The Music Loud
Engineers – Twenty Paces
Mary Gauthier – Goodbye
Celardoor – Legacy

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2 comentários sobre “Coluna B, dia 30/10

  1. Comecei a ouvir o Sufjan Stevens pelo Illinoise dia desses e gostei bastante! Ainda não ouvi os outros.
    Fiquei muito curiosa agora pra saber que doença é essa que ele teve! hehehe!!!

  2. The two albums featured a wide range of arrangements, from orchestral to electronic. Song lengths were also extended; the track “Djohariah” from All Delighted People is 17 minutes long, while “Impossible Soul” from The Age of Adz is 25 minutes long. The albums also feature many styles from disco to folk .

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