Coluna B, dia 23/10

Lembra?

Lembra do Razorlight? Aquela banda meio britânica, meio sueca, que teve um grande single, “America”, e depois desapareceu. Lembrou? Se a resposta for não, tudo bem, não se culpe. Eu também gostaria de não me lembrar, porque o grupo não faz a menor falta na vida de ninguém (apesar de continuar na ativa e estar preparando um novo disco). Feliz foi Andy Burrows, que de burro só tem o nome. O ex-baterista do Razorlight saiu a tempo de não se sujar demais na falta de graça de sua banda e montou um novo projeto chamado I Am Arrows, que é dez vezes mais legal que o anterior. Esperto, Burrows pulou da cadeirinha da bateria para o microfone principal, empunhou guitarra e violão e colocou na praça este ano o saboroso “Sun Comes Up Again”, primeiro trabalho da nova banda que conta ainda com seu irmão Ben Burrows, os também irmãos Adam e Ben Chetwood e Nick Hill.

Onze dias após se desligar do Razorlight, Andy assinou contrato com a Universal Records para gravar um disco com o I Am Arrows. A sagacidade do músico se explica nas quatorze faixas de sua estreia, um pop ensolarado, aberto a todos os ouvidos, dos mais sensíveis aos menos exigentes, completamente dado às maravilhas da escrita descompromissada, feliz, verdadeira. Burrows não inventou a roda, não deu novas cores a um planeta cinzento, não tirou coelho algum da cartola. Seu mérito é tão somente fazer bem feito algo que, quando realizado com tal qualidade, pode ser tão prazeroso quanto uma grande criação cheia de ineditismo. Isso é música pop. Saiba como reconhecê-la: a cavalgada dos violões em “Battle For Hearts & Minds”, a batida sacolejante de “Green Grass” e seu refrão hipnotizante, a vontade de abraçar alguém que “Bruises” e “You’ve Found Love” dão, o piano mágico que chora em “Monsters Dash” e nos carrega diretamente para a bela “No Wonder”, a letra em que todo mundo se vê retratado de “Another Picture Of You”, a leveza dos arranjos de “Far Enough Away”, a diversão intrínseca que envolve “The Us” e tudo que diz respeito a “Nice Try”, uma das músicas mais legais desse ano, desde seu começo de calmaria, os backing vocals, o refrão bonitão, enfim, tudo mesmo. Há todo um ar anos 70 que ronda “Sun Comes Up Again” e faz com que a gente tenha certeza absoluta que o Andy Burrows fez mesmo a escolha certa ao começar o I Am Arrows. Obrigado, Razorlight.

Agora, me conta: você se lembra do Snow Patrol, certo? Essa tenho certeza que sim, uma das melhores bandas farofas (digo isso com todo carinho) do rock atual, veio fazer show no Brasil na semana passada e tudo mais. Pois o senhor Gary Lightbody também deu uma fugida de sua banda de origem para criar um outro projeto, chamado Tired Pony. Calma, o Snow Patrol continua vivinho da silva, é só um grupo paralelo. Aliás, mais do que isso, é um supergrupo paralelo. Encantado com a música country, Lightbody resolveu chamar alguns camaradas para formar a nova banda e tocar o estilo, e não economizou na qualidade dos membros. Começaram com ele Iain Archer, cantor irlandês e letrista de alguns bons sucessos do Snow Patrol, Jacknife Lee, produtor famoso que já trabalhou com U2, Bloc Party, R.E.M., Snow Patrol, Weezer e muitos outros, e Richard Colburn, baterista de uma banda que algumas pessoas conhecem por aí, chamada Belle and Sebastian. Apesar do elenco estrelado, Lightbody ainda não estava satisfeito e resolveu ousar na próxima contratação. Foi quando anunciou o reforço de Peter Buck, sensacional guitarrista do R.E.M. e dito pelo vocalista do Snow Patrol como um de seus heróis de toda a vida.

O supergrupo recebeu a mão de Jacknife Lee também na produção de seu primeiro disco, “The Place We Ran From” – nome que, aliás, diz um bocado sobre a disposição de Lightbody de fugir do que ele mesmo chama de “seu próprio sistema”. O álbum foi gravado em apenas uma semana, em Portland (EUA), e traz em seu âmago a face empoeirada da música americana de raiz, algo que permeia cada nota do disco. Ainda que não tenha gerado um disco sensacional, a união de forças tão inspiradoras para formar o Tired Pony foi capaz de colocar ao menos um punhadinho de grandes canções nos nossos ouvidos sedentos. A empolgante “Poin Me At Lost Islands” recebe uma bela cota de violões e se assenta muito bem com a voz de Lightbody e alguns instrumentos de corda. “Held In The Arms of Your Words”, assim como “That Silver Necklace”, caminha em um terreno projetado para o folk, com batidinha relaxante e poucos desafios a oferecer. “Northwestern Skies” é constantemente alvejada por notas tristonhas, deixando por aí um ar de misteriosa. Já “Dead American Writers” foge dos traquejos country e soa como um lado B do Snow Patrol. Vale lembrar que o Tired Pony também recebeu contribuições valiosíssimas, como da dupla do She & Him, Zooey Deschanel e M. Ward, na melancólica “Get On The Road”, e Tom Smith, ótimo vocalista do Editors, que emprestou sua voz para a belíssima “The Good Book”, um dos destaques do disco.

Quando percebemos que “The Place We Ran From” não passa de um álbum apenas bom, agradecemos aos céus que Gary Lightbody não tenha feito como Andy Burrows, que chutou sua banda pra longe e formou outra. Tanto Snow Patrol quanto R.E.M. e Belle and Sebastian ainda têm muito o que fazer por nós. Mas, agora, ao lado do I Am Arrows, e não do Razorlight.

Notinhas

Novidades de 2011

Na boca de novembro, como estamos, é impossível não começar a pensar no que teremos o prazer de escutar no ano que vem – e, pra ser bem realista, já daqui a algumas semanas, quando os vazamentos começarem. Há uma boa lista de discos certos para 2011, e alguns artistas começaram a dar as caras já. Um deles é o sumido Red Hot Chili Peppers, que anunciou novo álbum, já sem John Frusciante mas com produção do mago Rick Rubin, para março. O U2, para quem curte, é outro que promete álbum para os primeiros meses do ano que vem, assim como o Beastie Boys. Caminhando um pouco mais para o indie, temos The Pains of Being Pure At Heart, Cold War Kids, Juliette Lewis e até o The Last Shadow Puppets, projeto do vocalista do Arctic Monkeys, Alex Turner, todos pensando em um 2011 mais bonito pra você.

Paul McCartney no Brasil

Não foi fácil. Uma verdadeira luta, com direito a pequenas rasteiras, choro, ranger de dentes e muita força de vontade para conseguir. Mas, no final, os recompensados ficarão felizes. Nas últimas semanas, uma batalha para conseguir assistir aos show de Sir Paul McCartney em São Paulo foi a notícia principal no mundo da música nacional. No Twitter, muitos desesperados praguejavam sua falta de sucesso na empreitada. Mas a Coluna B conseguiu, via irmão mais velho esperto, e estará lá para acompanhar o que possivelmente será a última turnê internacional, pelo menos a cantos selvagens como o Brasil, do Beatle mais querido de todos (eu sei, há controvérsias). Um segundo show foi aberto, e seus ingressos voaram com a mesma velocidade do primeiro. Por isso e por todo o resto, tenho a certeza de que estaremos (os poucos que conseguiram, é claro) diante de um momento sublime e histórico.

Todo mundo tem que ouvir

Da mesma forma que assombrou o mundo (pelo menos o meu) no começo do ano passado com o disco “Checkmate Savage”, o grupo escocês The Phantom Band voltou a aparecer: de surpresa. “The Wants”, segundo trabalho da banda, foi lançado há poucas semanas. Não chega à qualidade sensacional do primeiro, mas é impossível de se ignorar. Ouça.

Playlist

Os Pontos Negros – Se o Variações Fosse Meu Barbeiro
Plaumtree – Scott Pilgrim
Rene Hell – Walking In Tune
Sub Luna – A Distance Between
Warpaint – Undertow
Jenny and Johnny – My Pet Snakes
Japandroids – Lucifer’s Symphony
Delay Trees – In February
Nikola Sarcevic – Tro
The Mars Volta – Eriatarka

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