Coluna B, dia 25/09

Leia o livro, veja o filme, ouça o disco

Este é Scott Pilgrim. Vinte e poucos anos e quase nada na cabeça. Passa os dias entre ouvir música, dormir mais do que a cama, andar sem rumo pela cidade, sonhar com garotas improváveis como Ramona Flowers, tocar baixo na sua banda Sex Bob-Omb e falar besteira aos quatro ventos. Scott Pilgrim é você, sou eu, ou pelo menos fomos um dia. Um retrato fidedigno do jovem do século 21, que tem tanta coisa à disposição que mal sabe como administrar tudo e fazer bom uso desse vasto arsenal. Scott Pilgrim é um moleque normal, mas é, acima de tudo, um fenômeno pop. O personagem, criado pelo quadrinista canadense Brian Lee O’Malley, é o protagonista de uma série de livros de quadrinhos que ganhou fama no mundo todo pela acentuada veia pop, as intermináveis referências ao universo cultural e por seu humor indefectível. A deliciosa série “Scott Pilgrim”, que saiu em seis volumes no exterior entre 2004 e 2010, veio para o Brasil este ano dividida em em três volumes, e o seu segundo número está prestes a ganhar as lojas pela Cia dos Quadrinhos, divisão da Companhia das Letras.

É, só existe um pequeno problema de datas que não combinam. “Scott Pilgrim Contra O Mundo”, o filme baseado na série de quadrinhos, já saiu nos EUA e na Europa e vem para o Brasil no final de outubro (pro Espírito Santo, só Deus sabe), muito antes do terceiro e último volume do livro sair por aqui (a Cia das Letras prevê o lançamento apenas para o começo do ano que vem). O jeito vai ser ler o terceiro volume já sabendo do final da história, porque não há a menor possibilidade de alguém perder o longa dirigido por Edgar Wright, que terá Michael Cera (astro de Juno) no papel de Scott Pilgrim e Mary Elizabeth Winstead como Ramona Flowers, namorada de Pilgrim e ex-namorada dos caras com quem Scott precisa lutar para ter o amor de sua amada. A mistura das linguagens de quadrinho, videogame e cinema de ação, com cortes velozes, muita música e computação gráfica misturada com filmagens comuns, deu muito o que falar na mídia e gerou um enorme burburinho nas mídias sociais, fazendo a expectativa para a chegada do filme se tornar quase insuportável. Apesar de tudo, essa histeria não se traduziu em números: “Scott Pilgrim Contra O Mundo” foi um fracasso de bilheteria nos EUA.

Quem conhece o mínimo sobre cinema sabe que ir mal nas vendas de ingresso está milhas e milhas distante de significar que o filme é uma porcaria. E nem dá para ser, com a trilha sonora sensacional que foi montada para ele. Já disponível para download nos melhores blogs, sites e torrents, o disco “Scott Pilgrim vs The World OST” traz as dezenove músicas usadas na versão de cinema que conta a história da vidinha de Pilgrim. Os nomes envolvidos diretamente com a produção do material musical podem dar uma ideia da qualidade da trilha: Nigel Godrich, produtor do Radiohead, Dan the Automator, Beck e as bandas canadenses Metric e Broken Social Scene, além do cultuado arranjador e compositor David Campbell, estão completamente envolvidos com o processo. O rock é o principal produto explorado aqui, seja nas músicas incidentais, nas temáticas ou mesmo nas canções produzidas para as bandas do próprio filme, que são totalmente inspiradas no punk faça-você-mesmo.

Para compor as músicas da Sex Bob-Omb, grupo em que Scott Pilgrim toca contrabaixo, foi convocado ninguém menos que Beck. O americano compôs as quatro canções da banda (boa parte das letras já existiam), mas colocou os próprios atores cantando. “We Are Sex Bob-Omb” é uma cacetada punk, completamente suja, com distorção em tudo quanto é canto, enquanto “Garbage Truck” tem uma pegada mais próxima do Weezer, mas com a guitarra estourando as caixas de som. “Threshold” é das mais divertidas – veloz e infestada de barulhos variados, microfonias e riffs rasgados, com uma pegada mais punk 70’s, bem como “Summertime”, que lembra bastante algumas faixas do próprio Beck e é a mais suave, ainda que não abandone de maneira alguma as distorções podres. Beck ainda contribui com a baladinha “Ramona”, homenagem à namorada de Pilgrim, em duas versões, a normal e a acústica.

As canções da banda concorrente de Scott, a Crash and the Boys, ficaram a cargo dos incríveis Broken Social Scene, que compuseram a vinheta “I’m So Sad, So Very, Very Sad”, de treze segundos, e a porrada punk imunda e espevitada “We Hate You Please Die”. O BSS tanbém colocou na trilha a doce “Anthems For A Seventeen Year Old Girl”, homenagem à ex de Scott, a oriental Knives. A outra banda do filme, The Clash at Demonhead, que é fã do Metric na história, recebeu colaboração da banda de Emily Haines, que ainda liberou a faixa “Black Sheep” para o disco. Ajudam a dar um sabor especial ao som original do longa bandas como T-Rex, com sua saborosa “Teenage Dream”, The Rolling Stones, com a suingada “Under My Thumb”, Frank Black, vocalista do Pixies, com a ótima “I Heard Ramona Sing”, Black Lips com a frenética “O Katrina!”, Blood Red Shoes com a ótima “It’s Getting Boring By The Sea”, a clássica Beachwood Sparks com “By Your Side”, The Bluetones com a balada “Sleazy Bed Track”, Brian Lebarton com uma versão 8-bit de “Threshold” e, finalmente, o Plumtree com a faixa “Scott Pilgrim”.

A história de Scott Pilgrim é a história de uma geração inteira, e esse passeio pelas várias mídias e formas de arte que a envolvem acabou se mostrando uma viagem deliciosa. Leia o livro, veja o filme e ouça o disco. Scott Pilgrim vai se transformar no seu novo herói. Meu, ele já é.

Notinhas

60 Cariocas Empolgados

Parece coisa de filme, mas é real. Quando ficaram sabendo que o grupo sueco Miike Snow, que faria shows no país, não ia mais tocar no Rio porque os organizadores alegaram “falta de público”, um grupo de cariocas se organizou em tempo recorde, vendeu cotas de participação para pessoas normais como se fossem patrocínios e conseguiram levar o grupo de “Animal” para show na cidade – o evento ocorreu na última segunda e, dizem, valeu a pena todo o esforço. Não satisfeitos, o mesmo bonde carioca se uniu mais uma vez essa semana para viabilizar um projeto um pouco maior: incluir uma data no Rio de Janeiro para a pequena turnê que o Belle and Sebastian vai fazer no Brasil em novembro. Se para o Miike Snow sessenta pessoas pagando duzentos reais era o necessário, no caso do B&S eles precisariam de 280 “compradores” das tais cotas. Resultado: em apenas 35 horas, todo o montante estava vendido. Agora, resta aguardar a confirmação das datas do grupo escocês e comemorar. No Rio, a união faz a força e organiza shows.

Discos novos à vista

O Black Lips anunciou que deve lançar seu próximo disco em janeiro ou fevereiro de 2011, com produção do bombado Mark Ronson. Segundo o guitarrista Cole Alexander, “este álbum deve ser mais comercial”. Tem gente querendo ganhar dinheiro aí, hein. /// Outra banda preparando disco novo é o Fleet Foxes, grupo de folk que arrebatou o mundo da música em 2008. Existem chances do disco, que já acabou de ser gravado, ser lançado ainda esse ano. /// O incrível grupo paulistano Lestics também colocou disco novo no mercado. “Aos Abutres” está disponível para download no site da banda http://www.lestics.com.br e vale muito a pena. /// Duffy, escocesa que fez sucesso com seu disco de estreia, “Rockferry”, está de volta em novembro com mais um disco. “Endlessly” foi todo escrito junto com Albert Hammond, sim, o pai do guitarrista do Strokes, Albert Hammond Jr. /// Após quinze anos, o Gang of Four finalmente volta a gravar um disco inédito. “Content” sai em janeiro. Aguardemos.

Todo mundo tem que ouvir

E quem não gosta de escrever sobre o amor? O Belle and Sebastian gosta, e muito. Aliás, mais do que gostar, eles sabem fazê-lo muito bem, como provaram em “Write About Love”, novo disco do grupo escocês. O álbum, que acabou de vazar essa semana na internet, traz onze deliciosas faixas, com direito a dueto com a musa Norah Jones e a atriz Carey Mulligan. Imperdível.

Playlist

Lestics – Travessia
Paul McCartney – The Lovely Linda
Ben Folds & Nick Hornby – Saskia Hamilton
Maximum Balloon feat. Kyp Malone – Shakedown
Low Sea – All Summer
Get Cape. Wear Cape. Fly – The Plot
Grinderman – Heathen Child
Dominant Legs – About My Girls
Boston Spaceships – I See You Coming
Black Mountain – Old Fangs

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