Coluna B, dia 18/09

Para eles, o outro lado.

Então você acha que conhece um certo artista. Tem certeza das referências que ele usou em sua carreira, pensa que já dá até pra prever como seria um novo disco, os novos singles, os shows do ano que vem. Vai nessa. Ainda bem que a arte não é afeita a essa previsibilidade toda. Não é nada menos que intrigante ser surpreendido por uma mudança de direcionamento daquele artista que você achava já ter certeza do próximo passo. E isso, tanto Nina Becker quanto o Bombay Bicycle Club fizeram muito bem.

Nina é carioca, e você já deve ter visto seu belo e delgado rosto em algum lugar por aí, principalmente nos shows da Orquestra Imperial, da qual faz parte dividindo os vocais com a cantora e atriz Thalma de Freitas e outros expoentes da novíssima cena musical carioca. Lá, em cima do palco, entre sambas, marchinhas e boleros, Nina faz o tipo menina doce, sempre com uma dancinha tão tímida quanto sedutora e dando aquele belo tostão de sua voz sabor maracujá. Por anos e anos, esperou-se um trabalho solo da carioca. Eis que 2010 traz finalmente o fim desta espera. E em dobro. Nina lançou logo dois álbuns de uma vez: o melancólico “Azul”, em que surge praticamente sozinha, acompanhada apenas por violão e uma ou outra percussão; e “Vermelho”, um pouco mais quente, mas não menos introspectivo, gravado ao vivo em estúdio em quatro dias com o grupo Do Amor segurando o instrumental.

Devemos agradecer Nina Becker por não ter se deixado levar pela facilidade de repetir a fórmula de sucesso com seu grupo. O ar melancólico, dos dias nublados e pensativos embaixo de um edredon pesado, parece ter sido feito sob medida para a moça. Cheio de pausas e silêncios, de sussurros e dedilhados suaves, “Azul” traz como destaques o sambinha tristonho “Não Me Diga Adeus”, a bela “Não Tema”, que lembra muito a fase “Sou” de Marcelo Camelo, “Samba-jambo”, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, a sensível “Ela Adora” e “Dans Ton Ilê”, cantada em francês e com o cello de Moreno Veloso cortando o coração pela metade. Se “Azul” tem o jeito deliciosamente mole e preguiçoso de quem acabou de acordar às onze da manhã de um belo domingo ensolarado, “Vermelho” tem a cara de quem ainda não foi dormir no sábado. Com um som recheado pelos ótimos músicos do grupo Do Amor, que também eram banda de apoio de Caetano Veloso, Nina envolve suas canções em elementos reais, palpáveis, mesmo nas mais lentas baladas, como a bonitinha “Volte Sempre”, “Madrugada Branca”, que semeia beleza e lembra Marisa Monte, a lindíssima “Lágrimas Negras” e a melancólica “Do Avesso”. Quando flerta com o rock, Nina também se dá muito bem, e mostra belo entrosamento com a banda de apoio, como na agradável “Toc Toc”, nas viajandonas “Tropical Poliéster” e “De Amor e Paz”, e em “Superluxo”, de veia pop saltada no talo e com arranjos que lembram a melhor fase do Los Hermanos.

Para ter uma percepção de como “Azul” e “Vermelho” são duas obras que se complementam pelas linguagens diferentes para formar uma fotografia completa de Nina Becker, a cantora colocou duas canções figurando em ambos os discos. “Lá e Cá”, uma de suas mais belas canções, é minimalista em “Azul”, quase some entre os amplos e perturbadores silêncios da faixa. Já em “Vermelho”, ela ganha o acompanhamento de uma percussão leve e violões um pouco mais assanhados. “Janela”, por sua vez, tem a malemolência carioca no sangue de “Vermelho”, enquanto é sufocada até o limite com a economia de instrumentos e empolgação em sua versão “Azul”, ganhando arranjos de sopro e metais que deixariam Chico Buarque orgulhoso. Em seu dois-em-um solo, Nina consegue ser muito diferente de quando está no palco com a Orquestra Imperial, abrindo o peito na nossa frente para que vejamos não aquela figura que samba em câmera lenta em cima do palco, mas as verdadeiras cores da sua alma.

No caso do Bombay Bicycle Club, o estranhamento foi ainda maior para mim. Tenho uma historinha particular com esses ingleses. Certa vez, há bons anos atrás, recebi de um amigo uma faixa da banda. Frenética, bateria comendo solta, velocidade de riffs e tudo o mais que fez a fama de Franz Ferdinand, Kooks, Arctic Monkeys e afins. Gostei de cara, mas demorei para ter contato com um disco completo deles. Quando finalmente veio parar na minha mão, percebi ali um potencial verdadeiro para que se tornassem grandes. Pouco mais de um ano depois, vejo na internet um segundo disco dos caras. Baixei correndo, nem sabia de sua existência. Esse álbum era “Flaws”, e, ao ouvir, pensei: “o que aconteceu com essa banda?”. Tudo havia mudado. Esqueça a velocidade de outrora, nem pense nas guitarras estridentes que chamaram sua atenção antes. “Flaws” é todo acústico, com a melhor definição de folk que posso dar a partir de algum disco de 2010. E, sem dúvidas, “Flaws” é simplesmente maravilhoso.

Impressionante como o Bombay Bicycle Club conseguiu fazer uma mudança tão grande de direcionamento artítstico e sair ainda mais bem vistos dessa virada. Com uma sensibilidade aterradora, canções como “Leaving Blues”, “Jewel” e “Fairtale Lullaby” transportam o lirismo simples do Iron & Wine para o coração do rock inglês. Dedilhados cuidadosos, vozes que pouco alteram o tom e melodias de doer nos ossos de tão bonitas e bem trabalhadas fazem de “Flaws” uma das maiores surpresas do ano. Há ecos do sagaz tato pop de Sufjan Stevens em faixas como “My God” e “Many Ways”, respigam aqui e ali molhos de bossa nova, principalmente na combinação violão + vozes sussurradas de “Dust On The Ground” e a faixa-título “Flaws”, e há tempo para uma saborosa influência country nas sensacionais “Rinse Me Down” e “Ivy & Gold”. Tudo muito bem armado, sem deixar a impressão de que estão mexendo onde não deviam. Para Nina Becker e o Bombay Bicycle Club, retirar as máscaras era importante para uma afirmação artística completa. E deu certo. Para eles, o outro lado é realmente mais bonito.

Notinhas

Dos festivais

Na última semana, os dois maiores festivais do segundo semestre brasileiro divulgaram sua escalação completa, com horários, ordem de shows e tudo mais a que temos direito. O SWU, que acontece no feriado de outubro (9, 10 e 11) vai colocar dois palcos principais, um ao lado do outro, fazendo com que um show comece assim que o outro, do palco ao lado, terminar. E os espectadores só perdem alguma atração principal se quiserem ver as bandas do palco Oi Novo Som e na tenda Heineken de música eletrônica. Já o Planeta Terra Festival, que rola em 20 de novembro, manteve o esquema Palco Principal x Palco Indie com alguns conflitos de horário. Os principais devem ser Phoenix vs Passion Pit e Pavement vs Hot Chip. Yeasayer ganha de goleada de Mika (meu camarada Gustavo que me perdoe), e a festa enlouquecedora do Girl Talk no Palco Indie vai me fazer perder uma boa parte do carequinha Billy Corgan e seu costurado Smashing Pumpkins. Que venham os festivais.

Novos discos, e outros nem tão novos

O Coldplay, que andava mostrando material novo em shows por aí, avisou que só tem disco novo ano que vem. segundo o site Coldplaying. Parece que as músicas ainda estão longe de ficarem prontas. Sem pressa, amigos. /// O ótimo quarteto londrino Fujiya & Miyagi está prestes a lançar seu quarto disco. Ele se chamará “Ventriloquizzin” e deve sair entre o fim de 2010 e começo de 2011. O primeiro single, “Sixteen Shades of Black & Blue”, excelente, já tá disponível na internet. /// A bela Fiona Apple, sumida que só ela, é outra que prepara sua volta para o começo do ano que vem. O quarto disco da cantora deve sair nos primeiros meses de 2011. /// Paul McCartney, que vem para o Brasil fazer shows em novembro, vai relançar um de seus melhores discos pós-Beatles, “Band on the Run”, lançado com o Wings. A edição comemorativa é toda remasterizada e virá em três discos e mais um DVD. Imperdível.

Todo mundo tem que ouvir

E eis que, essa semana, chega uma das melhores notícias dos últimos tempos: sumido desde 2006, o Aberfeldy, um dos personagens principais da primeiríssima Coluna B, está de volta com seu terceiro disco. “Somewhere To Jump From” é leve, melódico e imperdível. Corre pro download.

Playlist

Celladoor – Daria’s Dream
Band of Horses – Older
Smoke Fairies – Devil In My Mind
The Naked and Famous – The Source
Beta Radio – Borderline
Serj Tankian – Disowned Inc
Maximum Balloon + Karen O – Communion
Sunset – Early Morning
Palbomen – Secrets
Black Mountain – Buried by the Blues

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