Coluna B, dia 11/09

Espírito Livre

Diga adeus às amarras. Você agora vai poder fazer o que quiser, da forma que preferir. Ouça, crie, componha, toque, escolha, ajude, trace, recue, faça como quiser. Um espírito livre responde apenas a si mesmo, às suas necessidades internas, aos anseios e inquietudes que ele mesmo produz dentro de si. Esse é o perfil dos artistas que a Coluna B vai apresentar agora, em uma pequena e rápida volta ao mundo. Direto da Austrália, os new hippies do Tame Impala arregaçam as mangas e sacam da cartola um belo disco de estreia. Dividindo-se entre os EUA e a Escócia vem uma dupla que, vez ou outra, se junta pra fazer um disquinho comum, mas sempre saem com um pequeno clássico nas mãos: Isobel Campbell e Mark Lanegan. Tamém americana, a cantora, compositora, dançarina e o que mais você quiser, Janelle Monáe, é a nova sensação da música pop americana justamente por não ser convencional. Pelo jeito, o tal do espírito livre faz um bem danado na hora de fazer música.

Tame Impala – Innerspeaker

No começo, era o Dee Dee Dums. Esse era o nome da banda de blues e jazz de Kevin Parker, vocalista do Tame Impala. Ela foi o ponto de partida do grupo atual, que está junto desde 2007 e só agora, em 2010, chegou ao primeiro álbum. O Dee Dee Dums tinha uma particularidade: misturava jazz e blues com rock psicodélico. Para chegar ao som pós-hippie do Tame Impala, foi preciso apenas aumentar o tom de psicodelia e carregar nas cores brilhantes para construir “Innerspeaker”, excelente estreia dos australianos. A banda deslizou para o rock psicodélico mais tradicional, com vocal cheio de efeitos, muitas guitarras lo-fi barulhentas, uma bateria sempre vibrante e linhas de baixo encaracoladas, e construiu seu próprio estilo a partir daí, colocando-se à frente das simplórias emulações de bandas dos anos 60 e 70. Apesar da boa voz de Parker, que lembra até a de John Lennon, é a força dos instrumentos e a incrível habilidade musical da garotada australiana que eleva o Tame Impala à condição de uma das grandes surpresas de 2010. A introdução de “Jeremy’s Storm”, bela peça instrumental, deixa um gostinho do que a banda mais sabe fazer. “Expectation”, com mais de seis minutos, e “Runaway, Houses, City, Clouds”, beirando os oito minutos, exploram o formato e sugam nossa atenção por toda a longa duração das canções. Há uma chegada forte no pop com as ótimas “Solitude Is Bliss” e “Desire Be Desire Go”, ou uma viagem sem volta aos primórdios do rock psicodélico com “Lucidity”. Neste sensacional “Innerspeaker”, o que vale é a liberdade criativa, de espírito, de caminhos. E tome psicodelia para a vida toda.

Isobel Campbell & Mark Lanegan – Hawk

Ela já foi vocalista de uma legendária banda de indie pop. Ele começou a carreira como cantor de um dos grupos seminais do grunge de Seattle. Aos poucos, ela se desvencilhou da imagem do Belle & Sebastian, que deixou em 2002, e garantiu para si a liberdade de realizar seus próprios projetos da maneira que bem entender. Já ele rodou e ainda roda o mundo, seja sozinho, com o Screaming Trees, como convidado em bandas dos outros ou com projetos que cria sem parar. De início, ninguém pensaria que a fofa e delicada Isobel Campbell teria algo a ver com Mark Lanegan, dono de uma das vozes mais fortes e marcantes do rock. Mas a união deu muito certo, e os dois já estão no seu terceiro disco. “Hawk” traz toda a fineza das composições da escocesa, com sua voz suave, quase infantil, se embrenhando no áspero vocal de Lanegan. A sensação é de que, a qualquer momento, o americano vai deixar sair um berro de rasgar a garganta, deixando Isobel com cara de assustada. Mas, calma, isso não acontece. É justamente o estilo contido de Lanegan que dá graça a essa união inesperada. É claro, os arranjos variados ajudam e muito a dar cor ao trabalho da dupla. Há o pop lânguido que Isobel aprendeu com seus ex-companheiros, como nas bonitas “Sunrise”, “We Die And See Beauty Reign”. Quando descambam para o rock, seja com pegada de blues como em “Come Undone”, misturado ao country como na incrível “Snake Song”, ou nas poderosas “Hawk”, “Get Behind Me” e “Lately”, cheias de sotaques setentistas, o duo se sai tão bem quanto nos momentos em que se aproxima do folk – “Time of the Season”, “No Place To Fall” e “Eyes of Green” mostram isso muito bem. A liberdade conquistada por Mark Lanegan e Isobel Campbell foi essencial para que “Hawk” pudesse soar tão sem limites. Poder usar suas referências da forma como preferir é uma grande demonstração de espírito livre.

Janelle Monáe – The ArchAndroid

Praticamente uma adolescente, Janelle Monáe se mudou de Kansas City para Nova Iorque determinada a ser uma artista da Broadway. Entre estudos e testes, Monáe foi lentamente se fixando apenas na música. Depois que conheceu Big Boi (Outkast), deslanchou como cantora e daí para ser contratada pela Bad Boy Records, selo de Sean “P. Diddy” Combs, foi um pulinho. Mas, apesar das amizades e da relação de trabalho com grandes nomes do hip hop, engana-se quem pensa que a moça se contenta em ficar apenas nesse estilo. “The ArchAndroid”, álbum de estreia da americana (ela havia lançado apenas um EP, em 2007, chamado “Metropolis: Suite I”), é um dos mais elogiados discos deste ano, e o motivo é bem simples: Janelle vai do erudito ao pop rasgado em questão de segundos, e o faz sempre com muita propriedade e talento. A passagem de um estilo para outro por vezes é sutil, tão normal como uma rua começa quando a outra acaba, e em outras é como uma pancada no pé da orelha, se assemelhando a uma viagem no tempo com turbulências pelo caminho. Ainda assim, as mudanças nunca soam forçadas ou desnecessárias, e sim caminhos escolhidos com cuidado, correndo riscos à revelia dos perigos que tais mudanças podem trazer. Veja, por exemplo, a mudança de “Sir Greendown”, suave como uma balada dos anos 60, para “Cold War”, frenética peça que funciona tanto em uma cena de filme de ação quanto numa pista de dança abarrotada. “Oh Maker” poderia ser uma canção dos Beatles, ou de Simon & Garfunkel, e a sua sucessora no álbum, “Come Alive (The War Of The Roses)”, tem uma pegada rocker alucinada que lembra My Brightest Diamond, de uma forma esquisita e bonita. Janelle Monáe percorre caminhos inacreditáveis nas 18 canções de “The ArchAndroid”, utilizando todo o tipo de arranjos possíveis para tornar a audição do disco uma verdadeira experiência libertária. Libere seus ouvidos e liberte-se.

Notinhas

O SWU avança

Algumas semanas atrás, eu disse por aqui que o SWU começava a se tornar um festival imperdível. Pois é, acho que ele já chegou nessa categoria, finalmente. Depois da confirmação do Queens of the Stone Age, atração mega, os produtores vagarosamente adicionam ilustres representantes da música brasileira ao festival. O mais importante é o Los Hermanos, que vai aproveitar a reunião para shows no Nordeste e aparecer por lá também. Mas não fica só nisso. Mallu Magalhães, Macaco Bong, Cidadão Instigado, Superguidis, Volver, Autoramas, BNegão e Os Seletores de Frequência, CSS e Black Drawing Chalks também estão escalados. O festival também promete alguns nomes internacionais da cena indie para completar as escalações dos palcos menores: o Apples in Stereo é um dos que estão para ser confirmados. Para a tenda eletrônica, o SWU anunciou seus 21 nomes essa semana. Serão oito atrações no dia 9, sete no dia 10 e seis no dia 11, com nomes como Erol Alkan, Gui Boratto, Mixhell, The Twelves, Nick Warren e o imperdível MSTRKRFT. Já ficou imperdível.

Várias

O lindíssimo “Bitte Orca”, sétimo disco do Dirty Projectors, vai ganhar uma edição de luxo. A novidade será um segundo disco, com apresentações acústicas, b-sides e covers. Se o disco simples já é aquela coisa toda, essa nova edição dupla vai ser sensacional. /// 17 de setembro é dia de ver o Ok Go em São Paulo. Os caras vêm tocar no VMB, premiação da MTV (aliás, você já votou na banda Zemaria para melhor grupo de eletrônica? Se não, entre no site da MTV e faça isso agora!), e depois fazem shows em SP e Porto Alegre. Ingressos já à venda. /// Outro show sensacional, Miike Snow vai ao Rio, a SP, Porto Alegre e Recife também no final deste mês, e também com os ingressos já à venda. /// Quer mais shows por aqui? Massive Attack se apresenta no país em novembro – dia 15 em BH e dia 16 em SP. Haja dinheiro! /// Feist está gravando novo disco. A canadense se mudou para uma mansão do século 19 em Paris para sair de lá com o sucessor de “The Reminder”, de 2007, embaixo do braço. Finalmente. /// Agora, o mais importante: Paul McCartney vem ao Brasil. Ainda sem confirmação oficial, mas com notícias vindas do Chile e da Argentina, lugares onde o beatle também tocará, os ventos sopram alguma data em novembro para as apresentações em São Paulo e Rio, talvez Brasília. Em breve, mais notícias por aqui.

Todo mundo tem que ouvir

O Klaxons andou ensaiando a sua volta por algum tempo, mas só agora eles realmente colocaram pra fora o que estava guardado desde 2006. “Surfing The Void” é o segundo disco da banda inglesa, e vazou há poucas semanas na internet. Se é bom? Baixe e tire suas próprias conclusões.

Playlist

Cee-Lo – Fuck You
Nina Becker – Ela Adora
João Brasil – Cerol no VCR (The XX vs Bonde do Tigrão)
Magic Kids – Hey Boy
Matthew dear – Shortwave
Zola Jesus – Trust Me
Cellardoor – YY
Fellini – Alcatraz Song
I Am Arrows – Nice Try
The Weepies – Hard To Please

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