Coluna B, dia 21/08

Obs: Hoje, dia 26 de agosto, é aniversário oficial da Coluna B. Foi nesse mesmo dia 26, mas de 2006, que a primeira edição foi publicada. Neste sábado, uma coluna especial vai comemorar o aniversário, e, quem sabe, se tudo der certo, veremos no futuro, etc, role uma festinha pra marcar a data.


Defina o indefinível


Indefinível. Existe melhor classificação que essa? Certamente, para os suecos Wildbirds and Peacedrums, não. O leitor, que vez ou outra lê essas humildes linhas e não entende patavina (será que patavina também é uma palavra esquisita?) do que está sendo dito aqui, já deve estar pensando: outra daquelas bandas complicadas. É. Mas e não é essa a graça da vida, descomplicar as coisas? Nada que vem fácil dá tanto prazer quanto o que a gente se esforça um pouquinho pra ter. E talvez a nossa luta nem seja assim tão árdua, afinal, o próprio nome da banda já pode ser uma dica valiosa do que vamos encontrar: uma poderosíssima voz feminina (Wildbirds = pássaros selvagens), de deixar a Beth Gibbons do Portishead com uma pulga atrás da orelha, e arranjos de percussão acachapantes (Peacedrums = batuques da paz), de deixar o resto do Portsihead de cabelo em pé. É, vocês perceberam, tem um bocado de Portishead no Wildbirds and Peacedrums. E isso não pode ser nada além de um grande elogio.

Mas, vamos lá, concordo que música não foi feita para ser explicada, e sim para ser degustada – sem pressa ou preconceitos, deixando o prazer encher nossos ouvidos, o pé flutuar vagarosamente, a cabeça se abrir como uma cebola do Outback para receber o molho musical. Bom, esqueça a parte da cebola, isso que dá escrever com fome. Voltando ao Wildbirds and Peacedrums, seu terceiro disco, “Rivers”, recém-lançado, é algo para ser admirado daquela forma que falei: devagar. É de uma beleza pouco usual, recebe dotes africanos nas batidas alucinadas, destaca-se com melodias nada menos que exóticas. Nada é normal, ainda que por vezes pareça simples. O vocal de Mariam Wallentin é multifacetado, pode soar ligeiramente feliz em uma música, e completamente melancólico e instrospectivo na seguinte, sem parecer que alguma coisa está errada – pelo contrário, faz todo o sentido quando colocamos em perspectiva todo o intrincado conjunto sonoro que a dupla despeja em cada canção. Aliás, é bom que seja dito, o Wildbirds and Peacedrums é formado por um duo, um “casal-casado”, que não deve mesmo ser nada convencional. Pode até ser esquisito perceber que aquele mutirão de instrumentos, coros, passagens e intervenções é todo coordenado por apenas duas pessoas, que dormem juntos quando a noite chega, que um dia assinaram um papel afirmando que, sim, aceitavam o outro como marido e mulher. Imagino Andreas Werliin chegando em casa com uma sacola de pães quentinhos, leite fresco e um tambor africano gigantesco nas costas. “Querida, cheguei”, e Mariam o receberia de avental e guitarra havaiana pendurados no pescoço.

Normais não devem ser, ainda bem. Ninguém com o pensamento “dentro da caixa” conseguiria construir uma canção tão arrebatadora quanto “Fight For Me”, praticamente uma instalação de arte sonora. Não dá pra dizer de onde vêm as vozes, de onde saem tantas batidas diferentes. Não mais que de repente, baquetas se chocam atrás do bumbo onipresente. Corais masculinos e femininos se degladiam em um embate enlouquecedor, marcam sílabas especiais, entram como backing vocal quando ninguém esperava. Tudo isso e muito mais para formar uma das mais belas músicas de 2010. São quatro minutos e meio de sustos e sorrisos furtivos. Desde o começo sorumbático, com a linda “Bleed Like There Was No Other Flood” (olha esse nome!), “Rivers” leva muito a sério o ato de surpreender, de maravilhar o ouvinte. É assim o tempo todo, a cada faixa. A incerteza dos caminhos parece ser a tônica da estrutura musical da dupla, indo quase sempre por onde não prevemos. “The Wave” tem um quê de bossa nova que eu nunca poderia imaginar encontrar aqui. Estranha, parece motorista iniciante: acelera e freia repentinamente, sem muita coordenação aparente, mas acaba por ser fazer uma das mais bonitas canções deste álbum. Outro destaque absoluto é “The Lake”, que parece ter percussão feita com panelas e baldes, mas dá vontade de chorar de tão incomum. Já “The Drop” vai pelo caminho mais simples possível para uma banda nada simples como o Wildbirds and Peacedrums, e quase, mas quase mesmo, dá pra ser chamada de baladinha pop. Mas, a cada pancada que estoura nos nossos tímpanos, a tentação de reduzí-la a apenas essa simplória definição perde mais um tentáculo.

A voluptuosa “The Course” vai crescendo, subindo a ladeira com muita sensualidade na voz de Mariam, e chega ao ápice nas curtas repetições do refrão. A forma poética como sua melodia- base deságua em um caldaloso final é atordoante, de tão bonito. Com a assustadora “Under Land and Over Sea”, que parece ter sido eliminada da trilha de um filme de suspense por ser amedrontadora demais, voltamos à baila de comparações com o Portishead. Não dá pra ignorar a semelhança com a banda de Bristol, que vai do clima esfumaçado da canção, quase a capela, acompanhada apenas por um coro de tensões variadas e cordas tão discretas que quase não se percebe, ao tom de voz que Wallentin utiliza aqui. A marcante percussão de “Peeling Off The Layers”, algo muito próximo à bateria de um exército de zumbis famintos, também nos remete a canções do Portishead, mais precisamente a “Machine Gun”, do disco “Third”. Apesar de ser completamente diferente. Entendeu? Completam esse discaço as não menos belas “Tiny Boles In This World”, arrastada e fantasmagórica, e “The Well”, que tem em sua malha eletrônica alguma proximidade com as viagens alucinógenas do Animal Collective.

Depois de algumas audições de “Rivers”, chega-se à conclusão que não se trata de um disco indefinível. Nada disso, eu estava rigorosamente enganado. A lição que fica é a seguinte: é muito mais divertido e prazeroso escutar as músicas do Wildbirds and Peacedrums do que tentar definí-lo. Se tentei fazê-lo hoje, aqui e agora, foi apenas para que você, leitor, possa ter o imenso gozo de conhecer melhor essa banda e esse disco. Afinal, música não foi feita para ser explicada, e sim para ser degustada. Lambuze-se.

Notinhas

Ainda sobre shows

E segue a incrível saga dos shows internacionais do segundo semestre brasileiro. A impressão que dá é que metade das bandas dos EUA e Europa vão baixar aqui no Brasil até o final do ano. O New Model Army toca em São Paulo nos dias 17 e 18 de setembro, e os ingressos já estão sendo vendidos. O SWU tratou de confirmar mais algumas atrações. Ninguém menos do que Mars Volta vem para Itu, além do “brasileiro-internacional” CSS (ah, tem a Joss Stone também, mas essa vale mais a pena assistir no mudo). Falando em bandas nacionais, o SWU anunciou O Teatro Mágico, Gloria e o imperdível Black Drawing Chalks. E o festival começa a ficar bom de verdade. Quem também vem para shows em São Paulo e Porto Alegre é o Ok Go, que faz mais clipes legais do que músicas boas, mas mesmo assim deve valer a pena dar uma espiadinha. Em novembro, além do Planeta Terra, o Scissor Sisters aparece por São Paulo, no dia 22, e o UMF, festival de eletrônica, vai trazer Fatboy Slim, Moby, Carl Cox e, quem sabe, Chemical Brothers. Já para o começo de 2011, a nova sensação do pop, Janelle Monáe, está sendo esperada para um festival que deve contar com o Mayer Howthorne também.

Rock in Rio

É claro que pode dar certo, é óbvio que pode se transformar em um grande marco da história da música nesse país. Dinheiro pra isso, eles têm. Mas, pra mim, o Rock in Rio 2011 já começou errado. O novo clipe do famoso jingle da festa traz uma série de pessoas que não sabem nem porque foram convidadas. Nem falo de Pitty e Ivete Sangalo, essas estão em evidência, lançam discos, fazem shows, goste ou não. Mas Toni Garrido, Sandra de Sá, Ivo Meirelles, Frejat, vocalistas de Jota Quest e Capital Inicial, e o Tico Santa cruz (!), o que diabos eles estão fazendo ali? E o saxofonista do Kid Abelha, meu Deus! O Ed Motta e a Tiê, como eles caíram de para-quedas dentro de um estúdio? Deu uma vergonha alheia que vou te contar. Espero que seja apenas um começo com o pé esquerdo e que tudo mude depois. Uma marca poderosa como o Rock in Rio merece muito mais. E pode ir muito além da raspa da música pop brasileira dos anos 90.

Todo mundo tem que ouvir

Há algumas semanas, um link rodou a internet avisando que se tratava do novo disco do of Montreal, “False Priest”. Que nada, era falso. Mas, semana passada, finalmente o verdadeiro novo disco dos americanos vazou. E que bela surpresa: ainda naquela loucura característica, a banda volta em ótima forma. Corre pro download.

Playlist

Arcade Fire – Wasted Hours
of Montreal – Casualty of You
Steget – Magiskt
Seaber – Warm Blood
Them Bird Things – Northern Curve
Maximum Balloon – Groove Me (feat Theophilus London)
Isobel Campbell & Mark Lanegan – Eyes of Green
Radiohead – Sulk
Bluebell – What’s On?
Nina Becker – Lágrimas Negras

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