Coluna B, dia 07/08

Uma obra de arte chamada “The Suburbs”

O mundo hoje está dividido em dois. De um lado, aqueles que se apaixonaram por “The Suburbs”, o terceiro e recém-chegado disco do Arcade Fire. Do outro estão as pessoas que dizem ter gostado muito do disco, mas na verdade não curtiram tanto assim. Em rápida observação desse fenômeno esquisito, mas tão humano, dá pra entender perfeitamente os dois tipos de comportamento. Convenhamos, não é fácil virar as costas para uma das bandas mais bem sucedidas do rock anos 2000. O Arcade Fire não é um grupinho qualquer que lança umas músicas por aí de vez em quando e pronto, acabou. A chegada de novas canções da banda é um acontecimento verdadeiramente digno de nota, análises profundas e noites insones de audição desenfreada. Suas composições são cheias de contextos, significados e camadas, levam a música de volta ao panteão da arte ao mesmo tempo em que são pop, próximas a públicos variados. Há no Arcade Fire tudo o que uma banda precisa para ser resumida como incomparável. E aí, quando os caras lançam um novo disco, você vai ter coragem de dizer que achou ruim?

Por um breve (muito breve) momento, eu tive. As minhas primeiras audições de “The Suburbs” foram, no mínimo, conturbadas. De cara, sentenciei que não havia conseguido gostar de quase nada. Longo, com dezesseis faixas, uma hora e vinte de duração… o disco não me “pegou” de primeira. Logo vi que estava errado e aprendi com meu próprio erro. Não que eu precisasse desta situação para descobrir, mas é bom que se diga que escutar Arcade Fire é uma experiência diferente, para a qual precisamos delegar algo indispensável: tempo. Expressões artísticas tão ricas merecem um tempo de assentamento, de deglutição, e só então podemos dar um veredicto de coração. E, nem preciso dizer, “The Suburbs” cresceu absurdamente com o tempo. De uma hora pra outra, me vi completamente apegado às canções do álbum, como as incríveis “Modern Man” e “Wasted Hours”. Mesmo assim, não fujo de acrescentar que este é o menos fenomenal álbum da carreira de três da banda canadense. É difícil concorrer com registros históricos como “Funeral” (2004) e “Neon Bible” (2007). E, ainda assim, afirmo com lucidez indiscutível que “The Suburbs” é melhor do que 98% do que foi lançado este ano no mundo todo.

Escutando o que o Arcade Fire tem a dizer neste ano de 2010, podemos perceber que Win Butler, vocalista, guitarrista e principal compositor da banda, está passando por um momento delicado. É muito clara a sensação de que as esperanças do rapaz estão sendo despedaçadas, dia após dia. A saudade dos tempos em que o peso de ser um rockstar ainda era apenas um sonho, e não uma impactante realidade, está espalhada por todo o disco, entornando o caldo desde o seu conceito inicial, os subúrbios de Montreal onde o jovem (e, curiosamente, americano) Win, hoje com 30 anos, crescera. Saudoso, ele permeia as letras com citações de seus tempos de adolescente, sem contar a incrível paleta de cores oitentistas que tinge toda a malha sonora do terceiro disco do Arcade Fire.

É devagar, quando conseguimos observar “The Suburbs” como um complexo elemento único, que nos damos conta das infinitas cadeias de momentos marcantes deste álbum. Passamos por um portal quando escutamos a embasbacante faixa-título, e depois não conseguimos mais desgrudar o ouvido das caixinhas de som. O trio “Ready To Start”, “Modern Man” e “Rococo” está fácil no rol das grandes músicas da carreira do septeto. “Empty Room” é vasta e algo frenética, já trazendo a bela voz de Régine Chassagne à frente. Em seguida temos a bonita “City With No Children”, também cheia de conceito, e a suíte “Half Light I” e “Half Light II (No Celebration)”, sensacional. O dedilhado de guitarra que dá início a “Suburban War”, uma das melhores canções do disco, é de cortar o coração em cem pedaços simétricos. A décima faixa é a frenética da vez: “Month of May” lembra Queens of the Stone Age e só confirma a tendência à genialidade desta banda absolutamente fantástica. Para dar uma quebrada no clima que se forma com essa pancada no pé da orelha, a próxima música é a mais delicada balada do disco, “Wasted Hours”, com um refrão tão doce e melancólico quanto o é sua letra – veja só este verso do refrão: “wasted hours that you made new, and turned into a life that we can live”. A seguir, “Deep Blue” desce o dedo no piano e faz Butler sacar seu falsete para construir uma belíssima canção de amor por um tempo que não volta mais: a década de 90. Ele ainda pede que você deixe seu celular ou seu laptop de lado por um instante e vá curtir o que há de mais selvagem no mundo. Ok, conselho seguido. Quando chegamos a “We Used To Wait”, entendemos porque o Arcade Fire é o que é. Uma aula de música, casamento perfeito de melodia matadora e letras instigantes, tudo sob arranjo simples e bem cortado. Linda. Vamos sentindo o fim daquele gosto especial de um grande disco quando a segunda suíte nos atinge de vez. “Sprawl (Flatland)” é triste e arrastada, quase erudita, enquanto a viciante “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)” vem encharcada de brilhos oitentistas. Para fechar essa obra de arte, uma reprise diluída em água fresca da faixa-título acalma os ânimos e nos lembra de que, como diria Win Butler, os bons momentos ficaram para trás. É hora de recomeçar a ouvir, tudo de novo, e assim sucessivamente, por um bom tempo.

O Arcade Fire é uma banda grandiosa, como poucas sabem (ou conseguem) ser, e é preciso tempo e paciência para que tudo vire prazer puro. Assim como as melhores obras de arte, nada é de graça, tudo precisa ser medido, pensado, sentido. É claro que, mesmo que tenha dedicado um bom tempo ao disco, você tem todo o direito de não gostar de “The Suburbs”. Mas também vou entender se você continuar dizendo por aí que gostou, só pra não ficar pra trás. Não é nada fácil desprezar uma banda como o Arcade Fire. Só peço uma coisa: enquanto você pensa se confessa ou não que não gostou do disco, ouça mais um pouquinho. Pode fazer toda a diferença, assim como fez para mim.

Notinhas

Mais shows no Brasil

O negócio tá pegando fogo. Impressionante a quantidade de artistas e bandas, bons e ruins, que estão vindo para o país no segundo semestre. O Planeta Terra Festival, que já começou a vender ingressos, confirmou Empire Of The Sun, Passion Pit e Mika em sua escalação, fechando a bela conta de atrações internacionais. A Coluna B já está confirmada no festival, claro. /// Para o SWU, além da confirmação do Avenged Sevenfold (tem quem goste), fala-se muito em Yo La Tengo, Chemical Brothers, Jay-Z e Cypress Hill. O Festival de Alegre dos festivais de bandas internacionais no Brasil, como bem definiu um amigo da coluna, continua trazendo os anos 90 em peso. /// O Natura About Us, outro que rola em outubro, divulgou que trará Snow Patrol, Jamiroquai e Bajofond, além do já anunciado Air. Que beleza, hein!? /// Amy Winehouse estaria confirmada no Brasil em janeiro, principalmente para tocar no… Festival de Salvador (???). Deus nos ajude.

Los Hermanos: a volta?

Essa semana marcou a confirmação da mini-turnê que o grupo cariocas Los Hermanos vai fazer pelo Nordeste. Camelo, Amarante, Barba e Medina dão uma parada nas suas carreiras-solo para tocar dia 15 de outubro em Recife, 16 em Fortaleza e 17 em Salvador. Até aí, tudo bem. Mas a Coluna B ficou sabendo por fonte confiabilíssima que a banda cogita um retorno com disco novo e tudo mais já para o ano que vem. Segundo a fonte, algumas negociações entre os integrantes estariam atrasando a confirmação da volta definitiva da banda, muito por conta de compromissos já assumidos. Mas é bom se acostumar: o Los Hermanos está mais perto do que nunca de acabar com o tão falado “hiato por tempo indefinido”.

Todo mundo tem que ouvir

Sabe essas bandas fofas, mas tão fofas que a gente se sente meio criança, querendo repetir a música uma, duas, dez vezes? Então você já sabe um pouco do Magic Kids.

Bem ao estilo de Belle & Sebastian e Aberfeldy, os americanos lançaram “Memphis”, disco de estreia, e despedaçaram corações mundo afora. Ouça agora.

Playlist

Bigott – I’m Little Retarded
Citay – Tugboat
Teen Daze – Shine On You Crazy White Cap
Steget – Bara Nu
Paul McCartney – Picaso’s Last Words (Drink To Me)
Nina Becker – Do Avesso
Yeasayer – I Remember
Lost In The Trees – Fireplace
Stop Play Moon – Take It All
The Walkmen – Follow The Leader

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