Coluna B, dia 31/07

Música de menina

É, sim, música de menina. Isso mesmo. Se não gosta, sinto muito. Quer dar uma de machão e dizer que é coisa de mulherzinha? Vá em frente. Mas é bom que você tenha em mente que há muita coisa boa dentro deste universo musical feminino, aliás, um universo que este colunista não se cansa de explorar. A música pop feminina tem outro cheiro, outro sabor, cores mais vivas, empolga de uma maneira diferente. Os dois exemplos que a Coluna B traz hoje são apenas uma pequena parte do que podemos chamar de música de menina, mas que, no fundo, não tem nada a ver com isso. É música pop feita com cuidado, com brilhantismo, e o último a escutar essas coisas lindas aqui embaixo é mulher do padre. Tá falado.

Sia – We Are Born
Não chega a ser uma transformação, mas nota-se um ar diferente nas músicas de Sia em seu novo disco, “We Are Born”. Sopra pro lado dela atualmente um vento sul do pop que não há como disfarçar. Sia adocicou o seu mundo, deixou-o mais suave, como se saísse o sol e não mais anoitecesse em sua vida. E, pelo que parece, ela não está mesmo preocupada em esconder de ninguém essa fase que leva um bocado do lado sexy de Madonna e um tanto do estilo brincalhão de Cindy Lauper, além de colocar aqui e ali uma fagulha quase infantil, como em “Stop Trying”, que inclusive termina com uma voz de criança surgindo do nada, não esconde de ninguém. E não é apenas neste seu quinto disco de estúdio que a cantora australiana exacerba o jeitão popular. Sia também teve em 2010 a incumbência de produzir algumas faixas de “Bionic”, o último disco de Christina Aguilera, acredite se quiser. E o que pode ser mais pop do que isso?

“We Are Born” pode não ser tão pop quanto um disco de Britney Spears, mas traz alguns exemplos da utilização correta desta veia para se compor um grande disco, diversificado, bonito e extremamente divertido. Repare o refrão de “Bring Night”, cheio de oh oh ohs: trata-se de um exemplo clássico, além do teclado que permeia toda a canção, deixando aquele comentado toque infantil ainda mais evidente. “Oh Father” fecha o álbum com incríveis semelhanças com as inspiradas baladas das melhores fases de Madonna, não apenas por sua temática familiar, mas principalmente na forma como Sia canta e coloca as notas uma a uma, lado a lado, antes de paradas estratégicas. “Never Gonna Leave Me”, “I’m In Here” e “Clap Your Hands” são tão músicas de festa quanto a já mais conhecida “You’ve Changed”, primeiro single do disco, e todas elas têm lá o seu toque de Cindy Lauper, algumas deixando ainda mais evidente um sotaque oitentista nesta nova fase da australiana. “Be Good To Me” é bonita, tem uma tensão dramática leve e o vocal enviesado pelo grave que deixam Sia bem próxima à supracitada Aguilera. Completam o quadro de delícias desta nova Sia as ótimas “Big Girl Little Girl”, dançante e empolgante, e “Cloud”, uma moderna e bem encaixada faixa que destaca a bela voz da cantora. Se “We Are Born” é assim tão bom, culpe os novos ventos que sopram para o lado de Sia. Ela merece.

The Pipettes – “Earth vs The Pipettes”
Elas chegaram com a velocidade de um furacão. Soprando música pop grudenta para tudo quanto é lado, as meninas do grupo The Pipettes fizeram todo mundo se chacoalhar há quatro anos com um delicioso disco de apresentação, “We Are The Pipettes”. Mas esse furacão também espalhou sujeira mundo afora e desde aquela época a banda já mudou de formação umas quatrocentas vezes. Seguindo à risca, o Pipettes que ouvimos agora em “Earth vs The Pipettes”, o tão aguardado segundo disco, não é o mesmo que arrebatou o indie pop em 2006. Agora, comandam o show Gwenno Saunders (única remanescente da época do primeiro álbum), sua irmã Ani Saunders e Beth Mburu-Bowie, mas isso não significa que a festa tenha acabado.

Se “Earth vs The Pipettes” não tem a quantidade inacreditável de hits que o primeiro disco continha, a mesma vibração pop descarada que fez todo mundo se apaixonar anteriormente ainda se faz presente. Há uma sensibilidade retrô cuidadosamente depositada em cada nota de “Our Love Was Saved By Spacemen”, bem como um frescor de novidade que coloca “Thank You” na rota das canções mais bacanas destes últimos dias. Os vestidinhos de bolinha também não deixaram a banda, e continuam a formar o cenário de canções como as dançantes “Call Me”, “Stop the Music” e “I Need a Little Time”, a esperta “I Vibe U”, a graciosa “Ain’t No Talkin'” ou a bonita “From Today”. Por mais que sejam músicas bacanas, não há em “Earth vs The Pipettes” nenhuma grandiosidade do perfect pop como “Pull Shapes” ou “Your Kisses Are Wasted On Me”, hits matadores do primeiro disco. O furacão The Pipettes enfraqueceu um pouquinho, mas continua vivo e jogando delícias pop retrô pelos ares. Pegue-as, se puder.

Notinhas

Os melhores discos de 2010 (até agora)
De vez em quando, algum empolgado com o ano musical manda essa: uma lista de melhores do ano em julho. Desta vez, as listas vieram de grandes veículos, como a revista Spin e o MySpace. Não há números, mas sim discos que agradaram desde o começo do ano. Para a Spin, discos como “The Monitor” do Titus Andronicus, “Odd Blood” do Yeasayer, “Congratulations” do MGMT, “Maya” da M.I.A., “Love and the Opposite” da Tracey Thorn e “Cosmogramma” do Flying Lotus, estão entre os melhores do ano. Já o MySpace também destacou “Plastic Beach” do Gorillaz, “Sea Of Cowards” do The Dead Weather, “This Is Happening” do LCD Soundsystem, “Archandroid” da Janelle Monáe, “Contra” do Vampire Weekend, “Forgiveness Rock Record” do Broken Social Scene, “Broken Bells” do Broken Bells, “Sisterworld” do Liars, e “High Violet” do The National. E aí, gostou?

Shows capixabas
Vitória vai vivendo um período praticamente inédito de bons shows nacionais. A esperta produtora Antimofo trouxe o Autoramas ontem e traz o Mombojó, com elogiadíssimo disco novo, dia 13 de agosto. Quer mais? Lovefoxx, vocalista do CSS, faz DJ set na festa Cabaret, também da Antimofo, dia 4 de setembro. Nesse meio tempo, mais exatamente dia 7 de agosto, ainda teremos Otto levando seu lindo disco para o Teatro do SESI. Ta bom?

Shows no Brasil
Bon Jovi em São Paulo, no estádio do Morumbi: ingressos vão de 160 a 600 reais. tem coragem? /// O SWU confirmou várias atrações para a tenda eletrônica. Entre eles, Gui Boratto, Sander Kleinenberg, The Twelves e Nick Warren. Na parte de bandas,  além dos sofríveis Jota Quest e Capital Inicial, e também um Cavalera Conspiracy pra agradar os metaleiros, devem vir os imperdíveis Queens of the Stone Age e Rage Against the Machine. /// Um novo festival no segundo semestre se forma: o Fourfest chegou trazendo a confirmação do ótimo Caribou para outubro, em São Paulo, e ainda vão confirmar mais uma banda internacional. Aguardemos. /// O Planeta Terra está se transformando no melhor festival dos últimos tempos. Smashing Pumpkins, Pavement, Of Montreal e o incrível Yeasayer são as próximas confirmações dos organizadores. Nos vemos lá em novembro, sem dúvidas.

Todo mundo tem que ouvir
Finalmente, o Arcade Fire está novamente presente nas nossas playlists. “The Suburbs”, terceiro álbum do coletivo canadense, vazou na semana passada e já assombra com suas dezesseis lindas canções, como “Rococo”, “We Used To Wait”, “Month Of May”, “Ready To Start” e “Deep Blue”, entre outras. Um álbum obrigatório.

Playlist
Deftones – Beauty School
Rosie and Me – Darkest Horse
Keane – Your Love
Nina Becker – Lá e Cá
Admiral Radley – Sunburn Kids
Boston Tea Party – Zero One
Gem Club – Acid and Everything
Do Amor – Homem Bicho
Wildbirds & Peacedrums – Fight For Me
Isobel Campbell & Mark Lanegan – No Place to Fall

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