Coluna B, dia 3/07

Poligamia musical

Tenho certeza que a minha musa, minha grande paixão (infelizmente platônica), Norah Jones, não vai ficar com ciúmes. Ela precisa entender: meu coração musical não é monogâmico. Não tem como dizer que amo apenas Norah. Há uma infinidade de cantoras, compositoras e musicistas de talentos irrefreáveis, e, sem pensar demais, já posso enumerar um bocado delas pra mostrar como fica impossível ser de um só: Annie Clark (St. Vincent), Katrine Ottosen (CALLmeKAT), Lourdes Hernández (Russian Red), Chan Marshall (Cat Power), Natasha Khan (Bat For Lashes), além de Céu, Jenny Lewis, Emiliana Torrini, Isobel Campbell, Lulina, Regina Spektor, Mallu Magalhães, Aimee Mann, Jenny Owen Youngs, Patti Smith, Feist, as Lauras Marling, Jansen e Veirs, Deradoorian e uma centena de outras. Meu coração é grande, sim, e quanto mais gente que vale a pena, mais ele se esgarça para recebê-las com todo carinho.

Lissie, por exemplo, foi amor à primeira vista. Quando avistei a capa de seu disco de estreia, “Catching A Tiger”, já tive certeza de que estava ali um álbum que deveria ser devidamente baixado, escutado e, posteriormente, venerado. Sim, mesmo antes de escutar a loirinha americana, nascida com muita propriedade na cidade de Rock Island, eu já tinha certeza que ia dar em alguma coisa. Meus instintos nunca estiveram tão corretos. Com uma voz incrível, límpida, direta e bonita até dizer chega, Lissie ainda se resguarda atrás de grandes composições pop, que recebem poderosas influências do folk, do rock e do country a todo momento. Nascida Elisabeth Maurus há 29 anos, ela está creditada em todas as faixas de seu disco, algumas sozinha e em outras com uma série de parceiros diferentes, entre eles o compositor e músico inglês Ed Harcourt, que também produziu seu disco ao lado de Jacquire King, Bill Reynolds e Julian Emery.

Após escutar as quatorze canções de “Catching A Tiger” (a versão original do disco contém apenas doze, as outras duas vêm na versão estendida vendida apenas no iTunes), fiquei tentado a ouvir também seus EPs anteriores, “Lissie” (2007) e “Why You Runnin'” (2009), como se precisasse ter certeza de que estava apaixonado. E, bem, eu realmente estava. O álbum “Catching A Tiger” é certamente um dos mais legais deste ano. Variado, criativo e certeiro, assumidamente pop, traz uma série de faixas empolgantes, onde cada uma delas poderia ser escolhida como single. “In Sleep” foi feita para tocar em rádios, com um refrão chiclete de matar. “Oh Mississipi” é uma linda balada de piano e voz, remetendo aos antigos hinos gospel. “Record Collector” tem na imprevisibilidade o seu forte. A voz sexy de Lissie soa como um convite à paixão irreversível em “Worried About”, “When I’m Alone” e em “This Much I Know”. Oh, Lissie, não faz isso comigo…

Com Tulipa Ruiz a coisa foi mais cadenciada. Talvez inspirado no tipo de música que ela faz, menos urgente, mais jeitosinha, a mineira radicada em São Paulo foi me conquistando aos poucos. Paqueramos desde que ouvi pela primeira vez uma música sua, avulsa, em um desses blogs que nos inspiram e informam diariamente. Em pouco tempo fui atrás de seu disco, o delicioso “Efêmera”, e aí já começamos um namorico. Confesso que demorei um pouco para me deixar levar pelos encantos de Tulipa – mais por teimosia própria do que tudo, já que suas canções são simplesmente fantásticas – mas quando me vi envolvido por sua voz mágica, não pude fazer mais nada. Acompanhada de diversos amigos em participações especiais, entre eles Céu, Kassin, Thalma de Freitas, Tatá Aeroplano, seu pai, Luís Chagas, e seu irmão, Gustavo Ruiz, que produz o disco, a cantora mostra o quanto vale em cada faixa de “Efêmera”.

Tulipa é doce como só sabem ser as mulheres que conhecem a melhor forma de deixar alguém apaixonado. Escolada, ela deixa um acento tropicalista em várias de suas canções, utilizando sua porção Gal Costa com habilidade impressionante. Ao mesmo tempo, consegue se soltar até caber perfeitamente no balaio das grandes cantoras contemporâneas, nacionais e internacionais. A divertida “Às vezes”, que fez em parceria com o pai, é o primeiro destaque com uma interpretação inspiradíssima da cantora e arranjos riquíssimos. “A Ordem Das Árvores” tem um refrão tão gracioso que é impossível não cantá-lo novamente mesmo quando a música acaba. “Pedrinho” tem a nobreza da loucura no seu DNA, e prova isso na estrutura brilhantemente desengonçada. Outras faixas tão bacanas quanto, como a delicada “Do Amor”, a graciosa “Efêmera” ou a vanguardista “Aqui”, nos preparam para a lindíssima “Só Sei Dançar Com Você”, que fecha o disco de maneira fenomenal e me faz, a cada nova audição, ficar ainda mais apaixonado por Tulipa. Que a Norah Jones não leia isso.

Notinhas

Agenda lotada
O segundo semestre de shows nacionais está começando a ficar com a agenda lotada. Segundo o blog Popload, estão acertando a presença por aqui mais algumas bandas internacionais. O Fuck Buttons, eletrônico indie de primeira categoria, vem a São Paulo no dia 12 de agosto. Para o SWU, festival que vem sendo chamado de Woodstock brasileiro e rola em outubro em Itu, o Sublime, banda de ska que explodiu nos anos 90, está “teoricamente” confirmado. Já o Air, dupla francesa estilosa, vem para o festival da Natura, que também rola em outubro. Também em outubro, mês cheio, Bon Jovi deve armar seu show circular no país. E, uma vez mais em outubro, o Echo & the Bunnymen, que já é quase brasileiro de tanto que baixa aqui, faz apresentações em São Paulo e BH.

Várias
O novo grupo de Richard Ashcroft, ex-vocalista do Verve, se chama RPA & United Nations of Sound. Acredite. E o primeiro disco, “United Nations of Sound”, chega às lojas ainda em julho. Será que o disco vai soar tão imbecil quanto o nome da banda? Tomara que não. /// O EP da Björk com o Dirty Projectors, “Mount Wittenberg Orca”, já vazou e tá facinho na internet. E vale a pena: harmonias vocais inspiradíssimas. Procure e ouça. /// Aliás, Björk também estará presente no novo disco do Antony and the Johnsons, “Swanlights”, que chegará às lojas no dia 11 de outubro. /// Cee-Lo, vocalista do Gnarls Barkley que está prestes a lançar disco solo, fez um cover de “No One’s Gonna Love You”, do Band of Horses. A faixa entrará no seu álbum, “Lady Killer”, e ganhou um clipe muito bonito. Vale a pena procurar por aí. /// Thom Yorke e Jonny Greenwood surpreenderam o Glastonbury, o maior festival do mundo, com uma apresentação surpresa. Yorke entrou no palco Pyramid sorrateiramente, começou o set com músicas de seu trabalho solo e depois, pra delírio dos presentes, o guitarrista do Radiohead adentrou o palco e se juntou ao vocalista. Dizem que foi algo épico.

Todo mundo tem que ouvir
Sia está de volta. Depois de um disco mediano, a cantora australiana gravou o ótimo “We Are Born”, seu quinto disco, que consegue rivalizar em qualidade com o terceiro, o excelente “Colour The Small One”. Vale a pena o download.

Playlist
Jack White – Fly Farm Blues
Rosie and Me – Bonfires
The Rolling Stones – Let It Loose
Dirty Projectors + Björk – No Embrace
Mates of State – Son Et Lumiere (Mars Volta cover)
Best Coast – Make You Mine
Stars – Dead Hearts
Kele – Rise
Michael Landau, Robben Ford, Jimmy Haslip & Gary Novak – Who Do You Think You Are
Arcade Fire – Wake Up

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