Coluna B, dia 12/06

Ame as guitarras

Acontece assim com quem é apaixonado por rock: você coloca o disco para tocar e a primeira coisa que te chama atenção é o grito desesperado de uma guitarra elétrica. Imediato, como se saíssem do instrumento poderosas rajadas de energia que pipocam direto no nosso cérebro. Esse som, por vezes quase metálico, em outras como um choro tímido de criança perdida na praia, nos carrega música adentro e transforma a audição em um passeio sem volta. Para esses apaixonados, hoje a Coluna B traz um pouco sobre duas bandas que levam esse lance de guitarras muito a sério: The Black Keys e Medications.

Pra começar a falar sobre o Medications, é preciso entender suas origens. Devin Ocampo e Chad Molter, dupla titular da banda, têm um caso de amor eterno. Tocam juntos desde os tempos de escola, trocando instrumentos, experiências e composições como se pertencessem um ao outro (não há nenhuma conotação sexual aqui, ok?). Em 1997, formaram o intrigante Faraquet, que até 2001 trouxe ao rock uma complexidade ímpar. Assim que o antigo grupo se desfez, os dois americanos se uniram novamente para formar o Medications, suavizando um pouco mais o esquema matemático de suas canções, mas mantendo em alta a paixão pelas belas e virtuosas patadas de guitarra. Em 2005, “Your Favorite People All In One Place” marcou a estreia da banda em gravações, tendo o talentoso e complicado Andy Becker como titular na bateria.

Após extensas turnês, Becker preferiu tentar novos caminhos. Ocampo e Molter estavam mais uma vez sozinhos, mas não reclamaram. Arregaçaram as mangas e compuseram o sensacional “Completely Removed”, lançado no último mês de abril. Já em estúdio, a dupla contou com a providencial participação de Mark Cisneros na bateria e teclados. Neste segundo disco, o Medications resolveu dar às guitarras caminhos variados, mas sempre impressionantes. Os riffs construídos por Ocampo são tão certeiros que as estruturas quebradas das músicas fazem todo sentido. Ouve-se por toda parte ecos de acid jazz, como na avassaladora “Kilometers and Smiles”; influências do blues, como em “Seasons”, com seu jeitão de música de banda de Seattle; do math rock, como em “Home Is Where We Are”; e até do blue-grass, como na divertida “Long Day”. Há tempo ainda para o que mais se aproxima de uma baladinha pop, a bonita “Postcards”, e uma homenagem ao nosso país, na lamuriosa “Brasil ’07”. E em todas as faixas é a guitarra quem comanda as ações.

O mesmo pode ser dito de “Brothers”, sexto disco do duo americano The Black Keys. É Dan Auerbach destruindo tudo na guitarra, e Patrick Carney acompanhando o ritmo atrás de sua bateria fabulosa. Há aqui e ali comparações com o White Stripes, e não dá pra dizer que são absurdas porque ambas as bandas trazem dois integrantes, um usando baquetas, o outro cordas, e fazem rock com uma pegada de blues. Mas, enquanto o Stripes é mais performático e às vezes até exagerado, o Black Keys usa o equilíbrio a seu favor. Os riffs de Auerbach são de chorar, mas a forma como conduz suas composições é que merece grande destaque. Mais próximo do blues do que muito músico do Mississipi, o grupo de Ohio retorna em “Brothers” para um esquema ainda mais enraizado ao meterem as próprias mãos na produção, já que o ótimo “Attack & Release”, álbum anterior, permitiu uma experimentação maior ao unir a dupla ao produtor Danger Mouse – que produziu neste novo disco o primeiro single, “Tighten Up”.

O fenomenal “Brothers” é o sexto disco do Black Keys em nove anos de banda, e o terceiro a bordo da Nonesuch Records, selo da Warner. Lançado no final de maio, o álbum alcançou o terceiro lugar da lista da Billboard ao vender mais de 73 mil unidades na primeira semana, dando à banda sua melhor performance em vendas da carreira. O bom momento monetário se deve ao grande momento musical de Auerbach e Carney. Após trabalhos solos, os dois uniram forças para retirar de “Brothers” o que o Black Keys tem de melhor. Faixas deliciosas, como as suingadas “Too Afraid To Love You” e “The Go Getter”, as espevitadas “Howlin’ For You” e “Tighten Up”, as lentinhas “Unknow Brother” e “These Days”, ou as blueseiras “Black Mud” e “Everlasting Light” unem letras cheias de significados a arranjos inventivos e que soam como se uma big band acompanhasse a dupla. Com discos como “Brothers”, não me admira que músicos da altura de Robert Plant, Thom Yorke e Josh Homme sejam fãs da banda. Para quem ama o rock de guitarras no volume máximo, é impossível não se apaixonar por Black Keys ou Medications. Junte-se a esse fã-clube.

Notinhas

Várias
Phil Selway, sensacional baterista do Radiohead, trocou as baquetas pela palheta e vai lançar um disco solo em que canta e toca violão. “Familial” chega às lojas no final de agosto e conta com participação de músicos do Wilco e do Soul Coughing na banda. ///   O Strokes voltou aos palcos após quatro anos. Mas não teve nenhuma grandiosidade na jogada. Tocando em um pequeno bar londrino, o grupo se auto-denominou “Venison” para enganar os mais afoitos. Não adiantou nada, teve gente pagando até 500 libras pelos escassos ingressos. /// O Interpol, que recentemente sofreu a baixa de um de seus integrantes, o baixista Carlos D., anunciou seu substituto: David Pajo, músico que acompanhava o ótimo Yeah Yeah Yeahs em suas apresentações ao vivo.

E o Woodstock?
O festival Woodstock foi confirmado, mas não deve mais acontecer. Como? É, mais ou menos isso. O que andam falando é que o festival foi confirmado para os dias 9, 10 e 11 de outubro, em uma fazenda em Itu, cidade do interior de São Paulo. Fala-se ainda em Pixeis, Rage Against the Machine, Incubus e Linkin Park como confirmados, e possibilidades abertas com Pearl Jam, Foo Fighters e outros. Mas sob o nome Woodstock, mesmo, não deve rolar. Segundo consta, os proprietários da marca não querem que o nome seja usado. Maquinária, que já foi o nome usado no ano passado pelos mesmos produtores, deve ser a alcunha utilizada. Mas, segundo Eduardo Fischer, dono da empresa que está organizando a festa, tudo isso acima não passa de mera especulação. Qual será a verdade nisso tudo?

Todo mundo tem que ouvir
Aos 20 anos, o que esperar de uma banda? Bem, talvez um dos melhores discos de sua carreira. É o que andam dizendo de “Shadows”, décimo disco do Teenage Fanclub.
O registro, saboroso em seus mínimos detalhes, traz a banda de ânimo renovado após cinco anos sem gravar. E o trabalho vale a pena.

Playlist
The Pipettes – Call Me
French Horn Rebellion vs Database – Beaches and Friends (The Twelves Radio Edit)
Tulipa Ruiz – Às Vezes
Rox – Oh My
Mates of State – Second Hand News
The Magic Numbers – Sound of Something
The Strokes – Soma
Bad Religion – Faith Alone
Japandroids – Younger Us
Girls – Lust For Life

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