Coluna B, dia 29/05

A música dos outros

Não sei bem o porquê, mas acho interessante juntar na mesma coluna dois discos que não têm nada a ver um com o outro, exceto por um detalhe qualquer, que eu faço questão de destacar. Talvez a ideia seja mesmo unir diferentes artistas em torno de algo em comum, dois projetos que, apesar de distintos, trazem alguma semelhança que merece ser comentada. Veja se os discos de hoje não são bons exemplos: o sombrio “American VI: Ain’t No Grave”, de Johnny Cash, e o feliz toda vida “Tribute to Famous People”, do Pomplamoose. Um já é mito, artista clássico da música americana. O outro, uma dupla de novíssimos músicos, geração que ainda vai saindo devagarzinho das fraldas. Em comum: tocar as músicas dos outros.

Acredito que não seja necessário falar muito de Johnny Cash. Ícone da música dos EUA, é considerado uma das vozes mais tradicionais daquele país. O “homem de preto”, como era chamado por sua mania de se vestir sempre em negro nos shows, faleceu em 2003, aos 71 anos, mas deixou um legado invejável. Em 1994, quando estava sem contrato de gravação em vigência, Cash foi convidado pelo produtor-gênio Rick Rubin para integrar seu selo, American Recordings, e logo se saiu com o belíssimo “American Recordings”, álbum contendo covers gravados na sala de sua casa, apenas com seu violão como companhia. Era o começo da festejadíssima era “American” de Cash, e um renascimento do artista já em idade avançada.

Muito doente, Cash lançou outros três discos da série antes de falecer. Em 2006 tivemos o póstumo “American V”, e só agora em 2010 “American VI” viu a luz do dia, lançado dias antes da data em que o artista completaria 78 anos. Sempre empunhando seu violão e destilando sua voz grave e pesada, Cash fazia música que tinha gosto de um passado que ninguém quer deixar pra trás. Canções como “Ain’t No Grave”, de Claude Ely, e “For The Good Times”, de Kris Kristofferson, trazem aquele cheiro de madeira antiga, como das casas de sítio, impregnado em cada nota. Para esta última investida na série American, Rubin buscou faixas antigas que fizessem sentido para o momento que o artista vivia. As versões sombrias do Man in Black para “A Satisfied Mind”, cantada por Porter Wagoner em 1955, e “Last Night I Had The Strangest Dream”, de Ed McCurdy, se unem a um cover de Elvis, “Aloha Oe”, e à única artista pop contemporânea contemplada no disco, Sheryl Crow, com a belíssima cover de “Redemption Day”.

Se Johnny Cash gravou seus covers quando já era um artista consagrado, podemos dizer que a história do Pomplamoose é inversamente proporcional. O duo, formado pelo casal de namorados multi-instrumentistas Jack Conte e Nataly Dawn, ganhou destaque na internet fazendo o que eles chamam de VideoSongs. Pra ser mais claro, eles filmam tudo o que gravam, com diferentes instrumentos, e editam um vídeo mostrando as filmagens de cada trecho na ordem em que aparecem na música. Para complementar a fofice da coisa toda, a dupla americana faz covers de músicas famosas, usando com sabedoria a vozinha suave de Nataly e arranjos com detalhes e barulhinhos para dar uma sensação de frescor e até um tantinho de infantilidade às canções. Quer saber? Funciona muito bem.

Depois de virarem celebridades no YouTube – estouraram com a cover de “Telephone”, da Lady Gaga -, o casal resolveu lançar algumas dessas músicas em um disquinho bem arrumadinho, “Tribute to Famous People”. E não existe regra para a fama das tais pessoas tributadas, vale da já citada Gaga a Earth, Wind and Fire, de Michael Jackson a The Chordettes, de Beyoncé a Nat King Cole. Aqui, a versão para “La Vie en Rose” parece coisa de Carla Bruni, com direito a acordeon e xilofone. “Single Ladies”, da senhora Jay Z, se encaixa muito bem como um jazz pop acompanhado constantemente por palminhas velozes. “I Don’t Wanna Miss A Thing”, do Aerosmith, soa como se Regina Spektor fosse a fã número um de Steven Tyler; a brilhante “My Favorite Things”, retirada do musical A Noviça Rebelde, fica simplesmente genial na versão do Pomplamoose; “Makin’ Out”, homenagem a Mark Owen, se torna uma deliciosa balada acústica; e, claro, “Telephone”, que aparece quase virginal, limpa, inocente.

Seja de famosos cantores mortos ou músicos iniciantes, com um sorriso no rosto ou com uma lágrima rolando dos olhos, o que importa para a coluna de hoje é que se toquem músicas dos outros. O resto a gente dá um jeito.

Notinhas

Músicas novas
Gente que muito me interessa, e tenho certeza que a vocês também, andou dando as caras essa semana com músicas novas. Pra começar, o genial Arcade Fire está de volta com novo single, além de ter anunciado o nome de seu próximo álbum (“The Suburbs”) e a data de lançamento (2 de agosto). As músicas novas se chamam “Month of May” e “The Suburbs”, e são simplesmente sensacionais. Quem também apresentou boa novidade foi o Klaxons, sumidões, com a empolgante, pesada e pop “Flashover”, canção que dá uma revigorada no som da banda e deve estar presente no disco “Surfing the Void”, segundo dos ingleses. O produtor Mark Ronson foi outro que apareceu na internet com faixa inédita. “Bang Bang Bang” foi gravada com o rapper Q-Tip e com a cantora MNDR, e vai estar presente no álbum “Record Collection”, que Ronson lança

Várias
Beady Eyes. Este é o novo nome do Oasis sem o Noel Gallagher. Liam vai seguir com grande parte dos integrantes do grupo, agora sob esse nomezinho esquisito. Se vai dar certo? Aí é outra história. /// Segundo o blog Popload, há uma ótima chance deste segundo semestre superar o primeiro no quesito “grandes shows em solo brasileiro”. Isso porque estão sendo cotados por aqui Belle and Sebastian (para o Planeta Terra Festival), Crystal Castles (show avulso) e Pixies, além do Rage Against the Machine e Foo Fighters (para o Woodstock Brasil ou Maquinária). E olha que o nome de Paul McCartney voltou a ser ventilado por aí, a respeito de uma turnê sulamericana. Já a baixa é a possível saída do Gorillaz do lineup do Planeta Terra. /// E o final de Lost? Gostou? Achou uma porcaria? Está se perguntando até agora sobre o Walt? Este colunista se emocionou demais com o final e achou tudo simplesmente sensacional. Concorda, discorda? E-mails para a coluna.

Todo mundo tem que ouvir
Modelo linda de morrer, Karen Elson era mais famosa por ter casado com Jack White a bordo de uma canoa, no Rio Amazonas.
Mas, agora que se lançou em uma carreira de cantora, com o belíssimo álbum de estreia “The Ghost Who Walks”, tudo pode mudar. E, se mudar, será merecido.

Playlist
Camera Obscura – My Maudlin Career
Foals – Miami
Teenage Fanclub – Dark Clouds
Janelle Monae – Oh, Maker
Kyte – Fear From Death
Gonjasufi – Ageing
The Black Keys – The Only One
Kaki King – Falling Day
The National – Little Faith
Wolf Parade – Ghost Pressure

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Um comentário sobre “Coluna B, dia 29/05

  1. Como eu sou fãzaço do Michael Jackson, conheci o Pomplamoose sem querer, enquanto procurava por um vídeo de Beat It. Foi uma grata surpresa vê-los na sua track list de algumas colunas atrás. Sabia que cedo ou tarde falaria sobre o duo.

    E a sua comparação de “I Don’t Wanna Miss a Thing” com a Regina Spektor foi muito feliz. Eu não poderia descrever o arranjo que eles fizeram de forma melhor.

    Mas a canção mais bem elaborada é mesmo “Telephone”. Aquela reharmonização, cheia de ataques em contra-tempo, deixou a música muito boa. Parece que foi feita para ser um sucesso da black music.

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