Coluna B, dia 15/05

The National e o mundo ideal


Esta deveria ser a menor coluna que já escrevi na vida. Uma linha, talvez sem espaço nem para um jogo rápido de palavras, vírgulas e ponto. Coisa simples, direta, “pá pum”. Não caberia exclamação ao final da sentença, apenas um ponto final que expressaria toda a minha completa rendição a um disco que, vagarosamente, se mostrou um verdadeiro diamante, talhado com perfeição por uma banda extremamente talentosa. Se vivêssemos em um mundo justo e ideal, a minha coluna sobre “High Violet”, novo disco dos americanos The National, se resumiria à seguinte frase: “Um álbum simplesmente maravilhoso”.

Mas este não é o mundo em que gostaríamos de viver. É o único que tem. E, nele, a gente precisa saber se virar como dá. Gostaria muito de viver em um mundo em que a pressa não fosse regra, e sim exceção. Nesse universo utópico, o tempo correria mais devagar, as pessoas acreditariam mais nas outras. A boa música seria muito mais importante do que a pasmaceira arbitrária que entope as paradas pop hoje em dia, e cada novo disco não seria a salvação do rock, mas a certeza de que ele está longe, muito longe de morrer. Quem me dera se todas as bandas indies tivessem o talento para confeccionar um trabalho tão bem montado, tão acima da média, tão infestado de momentos maravilhosos quanto este quinto disco do National.

Diante da realidade que somos obrigados a encarar, só nos resta aproveitar o que há. E agradecer a sorte de ainda podermos escutar discos tão bonitos e bem cuidados quanto “High Violet”. Só é preciso que se ressalte: não é à toa. Nada é. Com uma carreira que soma mais de dez anos, o National já fez muito pela música alternativa atual. Se só agora é reconhecida como uma banda de exceção, a culpa é exclusivamente nossa. “Alligator” e “Boxer”, seus discos anteriores, são duas obras louváveis. Antes deles, mais dois discos e um EP formavam a base de uma discografia única. Seu quinto disco, lançado essa semana na Europa e nos EUA, consegue superar tudo que já foi feito por eles.

Comparada neste disco com ninguém menos do que o Radiohead, o National tem em sua formação familiar um grande trunfo. São duas duplas de irmãos, Aaron (guitarra, baixo e piano) e Bryce (guitarra) Dessner, Scott (baixo e guitarra) e Bryan (bateria) Devendorf, preparando o terreno para a voz de barítono de Matt Berninger. O entendimento entre as partes é indispensável para que a concepção de um disco tão denso e poderoso como “High Violet” aconteça, mas a banda é mais do que isso. O National vai além quando coloca violoncelos e violinos em uma passagem que uma banda comum colocaria um solo de guitarra qualquer. Mostram seu toque diferenciado quando a bateria criativa de Bryan Devendorf  se torna um dos destaques do disco. Provam que são sensacionais quando metem uma letra cinematográfica como a de “Conversation 16” e a transformam em uma das grandes músicas do disco.

Há muito mais em “Runaway”, com seu conjunto de cordas arremessadas à nossa frente, caminhando como se fora a mais bela marcha fúnebre já composta neste mundo. Há uma vida nova em “Terrible Love”, guiada por piano, baixo e ruidosas guitarras, e invadida por uma bateria ostensiva, baderneira, mas organizada com todo cuidado. Nota-se um outro nível de composição em “Bloodbuzz Ohio”, o incrível primeiro single do disco, de tirar o fôlego em qualquer parte e sob qualquer aspecto da canção. “Sorrow”, “Afraid of Anyone”, “England”, “Vanderlyle Crybaby Geeks”, todas soam como se subíssemos um degrau a mais na música que estamos acostumados a ouvir. Sem falsa modéstia, tenho a perfeita noção de que esta coluna não faz jus à qualidade de “High Violet”. Como falei lá em cima, em um mundo ideal, apenas uma frase curta e sem rodeios seria necessária para que você decidisse ouvir esse disco. Como ainda não vivemos em um mundo ideal, faça um bem a você mesmo: escute-o agora.

Notinhas

O que há de bom e de ruim pro Interpol
Há algumas semanas, o Interpol era só boas notícias. Primeiro, lançou a boa canção “Lights”, faixa que deve estar no novo álbum da banda e foi liberada para download no site do próprio grupo. Depois, veio contar que esse novo disco já está pronto, e tudo indica que será lançado até julho. Mas aí, a bomba: Carlos D, baixista e um dos formadores do Interpol, anunciou que está deixando o grupo. Alegando o velho clichê das diferenças criativas, o rapaz pediu o boné, mas deixou gravadas todas as linhas de baixo do novo disco, talvez como um brinde para os ex-colegas de grupo. Uma perda e tanto para o grupo novaiorquino.

Várias
O Rage Against the Machine está próximo de vir ao Brasil. A banda é cotada para tocar no Maquinária Festival, realizando o sonho de muita gente vindo fazer sua primeira turnê sulamericana. O festival é estimado para acontecer em outubro, na capital paulista. /// Enquanto isso, a equipe do Planeta Terra Festival, que rola em novembro, pergunta aos usuários de Twitter quem eles gostariam de ver no festival. Mas, ao que parece, pelo menos Gorillaz e Pavement são possibilidades palpáveis de estrelarem o line up. Já pensou? /// E o Green Day confirmou sua vinda ao Brasil em outubro. Mas, peraí, alguém ainda tem paciência pro Green Day? /// O novo filme da saga Twilight, “Eclipse”, traz mais uma vez uma bela turma na trilha sonora. Desta vez, Band of Horses, Florence and the Machine, Fanfarlo, Sia, Black Keys, Vampire Weekend (é claro) e até uma parceria inédita entre Beck e Bat For Lashes vão estar nos disquinhos dos vampiros. Pelo menos a trilha sonora presta.

Todo mundo tem que ouvir
O pop puro, sem os azedos do tempo, sem as fórmulas da moda, apenas sendo o que se espera de uma boa música pop: divertido.
Agradeça ao Lucky Soul e seu segundo disco, o saboroso “A Coming of Age”, porque eles são capazes de dar isso a você. Corre lá.

Playlist
Band of Horses – Compliments
Health – We Are Water
The Pains of Being Pure At Heart – Higher Than the Stars
Bonnie “Prince” Billy & the Cairo Gang – Teach Me To Bear You
The Morning Benders – Sleepin’ In
The Dead Weather – Blue Blood Blues
Ratatat – Mahalo
Jónsi – Grow Till Tall
Cellardoor – Legacy
LCD Soundsystem – You Wanted A Hit

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s