Coluna B, dia 1/05

Foals na escuridão

Era daquelas noites negras, tão escuras que mal se via o outro lado da rua. Mesmo com a iluminação farta dos postes, mesmo com as luzes das casas acesas, uma imensa e pesada sombra parecia levar para um buraco negro tudo o que desse um sinal de vida. Era uma noite chuvosa de abril, com nuvens indissolúveis que embrulhavam o mundo. Um som seco, como se fora o grunhido do silêncio se este fizesse mesmo algum ruído, passava por ali, entrando pelos ouvidos de quem quisesse escutar. A introdução de “Spanish Sahara” parece não existir, mas essa ausência de som ganha vida vagarosamente, como as gotas daquela chuva que insistia em cair lá fora. “Forget the horror here, leave it all down here, I’m the ghost in the back of your head” é tudo que Yannis Philippakis, vocalista do Foals, queria que você soubesse àquela hora.

A escuridão daquela noite não era coincidência. Horas antes, durante a tarde, “Total Life Forever”, segundo disco do Foals, havia vazado na internet quase um mês antes de seu lançamento oficial, no dia 10 de maio. E, diferente do que estávamos acostumados quando a banda surgiu e lançou “Antidotes”, seu primeiro trabalho, tudo que se relacionava com o novo disco tinha algo de sombrio. Quando o Foals apareceu no mundo da música, em 2007, pontos de exclamação espocaram em todos os cantos. Onde quer que tocavam seus singles de estreia, olhos arregalados e ouvidos em polvorosa surgiam, curiosos. A pergunta era: “quem diabos eram aqueles garotos ingleses esquisitos, com suas músicas enlouquecidas, de estruturas esmigalhadas, idas e vindas de melodias, ritmo frenético e refrões que pareciam criar uma relação de amor com quem os ouvisse?”. Agora, a pergunta é: “onde estão aqueles garotos no meio de todo esse breu?”.

A guitarra minimalista de “Blue Blood”, que abre o disco, é capaz de nos dar uma ideia dessa resposta: desta vez, o Foals está mergulhado na escuridão de sua própria mente. Delicada, envolvente, misteriosa, a faixa sopra uma brisa pesada. “Você tem sangue nas mãos, acho que é meu”, canta Yannis, para depois repetir no refrão o pedido “você mostrou para onde devo ir, me leve pra casa”. O novo som parece ter sido moldado cuidadosamente para mostrar quem é que manda na relação da banda com seu próprio trabalho. Longe de serem escravos do sucesso, já no segundo disco provaram que podem ir além do rock matemático que lhes foi incutido quando surgiram – termo no minimo engraçado, afinal, o que a matemática tem de exata o som do Foals tinha de inexato.

Dentro do mundo enegrecido que a banda passou a habitar, tudo pode fazer sentido. Naquela noite de abril – que tinha tudo para ser fria, mas não chegou nem perto disso – o tal “sentimento” que cantam na sensacional “This Orient”, possivelmente uma das mais belas canções lançadas esse ano, tinha sido cunhado para aquele momento. A faixa, que parece só crescer, sem parar, invadia a atmosfera com seus teclados deslocados, a bateria frenética e o coro do refrão que fala sobre o coração que faz o tal sentimento aflorar. Para “Total Life Forever”, o Foals se transformou em uma outra banda, criando canções com estruturas mais convencionais, ainda que continuem inventivos, como mostram na quebradiça “After Glow”, uma das poucas faixas onde pode-se traçar um paralelo com o que a banda fez no passado, e na misteriosa “Black Gold”, quando cantam que o futuro não é mais o que costumava ser. Sábias palavras.

A procura infinita do Foals por algum rastro de luz está impressa em cada canção do novo álbum. Está na sutileza do andamento da bela “Alabaster”, na harmonia desconexa dos arranjos de “What Remains”, na inegável veia pop que estoura e jorra graça pra todo lado em “Miami”, na fina psicodelia espalhada por “2 Trees”. Agora, a banda responde às perguntas sobre suas mudanças de direção com letras mais interessantes, melodias que deixam clara a intenção de conquistar mais o coração do que os pés de quem os ouve. Aliás, não se dança muito com “Total Life Forever”, é preciso que essa notícia fique evidente. Menos matemática, mais poesia – essa é a nova fórmula do Foals. E, naquela noite negra de abril, tão escura que mal se via o outro lado da rua, o mundo precisava mais de poesia do que de qualquer coisa que exista nessa vida.

Notinhas

O que há de novo nos grandes
As notícias sobre novidades de grandes bandas não param de chegar. Essa semana, alguns dos principais grupos de rock deram sinal de vida na internet. O Interpol liberou em seu site oficial uma música nova, a boa “Lights”. Segundo o blog Popload, a banda novaiorquina já tem disco pronto desde o ano passado, mas tá segurando o lançamento. Outro anúncio que rendeu notícias vem da turma de Dave Grohl: o Foo Fighters deve lançar um disco de inéditas no ano que vem. Quem afirmou foi o baterista Taylor Hawkins, que está com novo disco de seu projeto paralelo nas ruas. Pra fechar, Ben Gibbard, do Death Cab For Cutie, confirmou os planos de entrar em estúdio em junho para lançar no comecinho de 2011 o sétimo disco da banda.

Shows pelo Brasil
Sim, há mais novidades para a agenda de shows nacional. E tem muita coisa boa vindo por aí. Agora em maio, no dia 26, o We Have Band vai estrear um novo espaço em São Paulo. O WHB é uma banda nova que merece ser vista, atentem para isso. Em junho, o Popload Gig 3 vai trazer as bandas Girls e MEN, ambas americanas, para apresentações em São Paulo (10), Porto Alegre (11) e Rio (12). Já em outubro ou novembro, é o Pavement quem desce até a América do Sul. Os caras vêm em turnê e podem integrar o Planeta Terra Festival 2010, que foi confirmado essa semana para o dia 20 de novembro deste ano. Pode começar a guardar seu rico dinheirinho por aí.

Todo mundo tem que ouvir
Vou contar um segredo para vocês: o novo disco do grupo americano The National está tão bonito, mas tão bonito, que eu não vou falar mais nada dele por aqui. Vá ouvir e depois a gente conversa.

Playlist
Regina Spektor – No Surprises (Radiohead cover)
Robyn – Hang With Me
We Have Band – Hero Knows
The New Pornographers – Silver Jenny Dollar
The Golden Filter – Hide Me
Broken Social Scene – Forced To Love
Sleigh Bells – Tell’ Em
Sia – You’ve Changed
Laura Stevenson and the Cans – Nervous Rex
Disappears – Gone Completely

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