Coluna B, dia 10/04

Quem tem medo do MGMT?
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O medo era intenso. Era real, batia na porta a cada nova notícia dada, a cada imagem que chegava aos nossos olhos, a cada informação que vazava. Por todos os cantos, as pessoas se perguntavam, ansiosas, pelo que estava por vir. Seria um sucesso? Seria um fracasso? Seria uma loucura? Um fenômeno? Uma vergonha? Ninguém sabia responder. Quando as primeiras faixas chegaram ao conhecimento de todos, a insegurança aumentou. O medo, consequência imediata, também. Afinal, o que seria do próximo disco do MGMT? Genial ou desprezível?

A fé existia baseada apenas em algo que já conhecemos: “Oracular Spetacular”, sensacional estreia de Ben Goldwasser e Andrew VanWyngarden, tido por muitos como um dos melhores discos desta década. Mas os sinais que recebíamos sobre o segundo disco da dupla eram de deixar receosos os mais inatingíveis otimistas da paróquia. A começar pela capa. Eu sei, “nunca julgue um livro pela capa”, certo? Mas a de “Congratulations” é possivelmente uma das mais ridículas da atualidade. Acima de tudo, feia. Mas todo mundo é capaz de suportar uma ilustração idiota caso o conteúdo seja excelente. E aí vieram as primeiras faixas…

Sejamos diretos e sinceros de uma vez: “Congratulations” não chega aos pés de “Oracular Spetacular”. Não há aqui nada que se compare ao trio de ferro do primeiro disco, as sensacionais “Kids”, “Time to Pretend” e “Electric Feel”. A psicodelia pop continua presente, mas nada que se compare à imensidão de seus principais hits, músicas que se tornaram maiores do que a própria banda, ganharam pernas, depois asas, depois foguetes nas costas e subiram até onde não mais se via a olho nu. Para gravar este novo álbum, o MGMT teve que descer de seu espaçoso palco no espaço sideral e tornar a olhar a vida nos olhos, calculando o que um tombo lá de cima poderia causar. A dica de VanWyngarden para a revista inglesa NME, em fevereiro deste ano, já mostrava isso: “(o novo disco) somos nós tentando lidar com a loucura que tem rolado desde o lançamento do nosso disco anterior”. Sai a banda que virou hype, voltam os moleques que sonhavam em ser estrelas, fazer algumas músicas, ganhar um dinheiro e arrumar modelos como esposas.

Aqui, a viagem ainda é o mais importante. Para quem já assistiu ao show do MGMT, para quem já viu os caras tocarem, a vibração quase hippie que colocam nas músicas, dá pra dizer que esse segundo álbum tem bem mais a cara da banda do que o primeiro. Psicodelia (com guitarra, baixo, bateria e muito teclado, claro) é a palavra chave de faixas como a mutante “Siberian Breaks”, que vai de marchinha a hard rock em segundos, a quebradeira “Flashing Delirium”, e “It’s Working”, que abre o disco como um rock clássico, mas depois vai deslizando para lugares menos comuns. Em algum ponto as coisas ficam modorrentas, o álbum parece não andar, a viagem se torna densa demais para ouvidos sóbrios, mas não há como negar a coragem da dupla do Brooklyn em nos enfiar goela abaixo as próprias fantasias, ao invés de simplesmente emular o que agradou o público no último disco. É por isso que dá pra dar moral para uma música como “Someone’s Missing”, apesar dela esbarrar na chatice.

Mas vá sem medo, caro leitor. “Congratulations” tem seus momentos de glória. Desarme-se, arrume um pouco de paciência. O disco pode demorar um pouco para bater, mas há algo na esquisitinha “Brian Eno” que a torna extremamente viciante, há detalhes em “Song For Dan Treacy” que a gente custa a pegar, mas sorri quando entende. Não se esquive da dupla que fecha a parada, a perturbadora instrumental “Lady Dada’s Nightmare” e a baladinha “Congratulations”. Ouve aí “I Found A Whistle”, que ela não morde nem nada. E, mais importante de tudo, esqueça tudo que o MGMT fez antes. Essa, sim, é a verdadeira face da banda. Se ela vai ser um sucesso ou um fracasso, só o tempo vai dizer.

Notinhas

Várias
Boatos diziam que o trio feminino The Pipettes tinha acabado. Bobagem. A banda já está com “Stop The Music” primeiro single e clipe do disco “Earth vs. The Pipettes”, nas ruas. /// Junho é o mês em que Kele Okereke, vocalista do Bloc Party, lança seu primeiro álbum solo. “The Boxer” vai fundo na música eletrônica e conta com produção de XXXChange, do Spank Rock. /// Quem também está em vias de lançar disco novo é o grupo canadense Stars. O quinto disco deles se chamará “The Five Ghosts” e sai no final de junho. Imperdível. ///  Marcelo Camelo está preparando seu segundo disco solo. Segundo o ex-Los Hermanos, o trabalho sai ainda esse ano e vai contar mais uma vez com o Hurtmold como banda de apoio. Vamos ficar de olho.

30 anos sem Ian Curtis
Peter Hook arrumou um jeito bacana de celebrar os 30 anos da morte de Ian Curtis. O ex-baixista do Joy Division chamou diversos convidados para tocar, de cabo a rabo, o disco “Unknown Pleasures”, histórico registro da histórica banda pós-punk inglesa. O evento acontece no dia 18 de maio. E tem mais. Hook vai excursionar com um espetáculo chamado “An Evening of Unknown Pleasures”, onde conversará com a plateia sobre a gravação do disco e segredos de bastidores, tocará faixas do disco e até material inédito. O projeto deve rodar o Reino Unido.

Todo mundo tem que ouvir
Quando Jakob Dylan resolveu sair em carreira solo com um disco de canções folk, só voz, violão e uma ou outra percussão para marcar, pensei: “fez a coisa certa”.
Ouvindo “Women and Country”, segundo disco solo do filho de Bob Dylam, agora um pouco mais voltado para o country, nota-se que certamente foi a melhor decisão de sua vida.

Playlist
Kyte – The Smoke Saves Lives
What Laura Says – Spoke
Arctic Monkeys – The Afternoon’s Hat
Big Star – Blue Moon
Exit Calm – Don’t Look Down
Hot Chip feat. Bonnie “Prince” Billy – I Feel Bonnie
Slash feat. Andrew Stockdale – By The Sword
Bonobo – El Toro
Dum Dum Girl – Yours Alone
Romulo Fróes – Destroço

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