Coluna B, dia 20/03

Um presente do acaso

Às vezes, o acaso dá resultados que a gente nunca iria imaginar. Veja o caso do She & Him. M. Ward é um músico conhecido no meio musical por suas belas melodias folk, o talento invejável com o violão nas mãos e uma mania imperdoável de construir canções simples e que grudam imediatamente na cabeça de quem ouve. Em um dia qualquer de 2007, em um set de filmagem, ele encontrou com a atriz Zooey Deschanel pela primeira vez. Assim, meio por acaso. Para ele, tratava-se apenas de uma atriz não muito conhecida esperando a hora de desabrochar, trazendo olhos azuis faiscantes e um jeitinho meigo de menina do interior que guarda algum segredo.

A moça realmente escondia alguma coisa. E resolveu mostrar para Ward, músico que admirava há tempos, o que pouca gente sabia: ela escrevia letras de música e cantava. Após uma pequena bateria de e-mails, telefonemas e encontros, o acaso que os uniu naquele momento no set de filmagem serviu também para impulsionar os dois a montar uma dupla. Em franca decolagem na carreira de atriz, Zooey, que já foi estrela de clipe do Offspring nos anos 90, agora adicionava ao seu currículo uma dupla musical: She & Him. Não tardou para que o primeiro disco, com composições dela e alguns covers, achasse ouvidos atentos para receber elogios. “Volume One” saiu em 2008 e, ao seu jeito, conquistou o mundo.

A doçura das músicas do She & Him pedia um retorno. Não dava pra ficar apenas em uma colaboração bissexta, aquilo precisava virar algo real. Os dois começaram a excursionar juntos e ganharam ainda mais moral. Enquanto isso, Deschanel e Ward se destacavam também individualmente. Ela fez um filme de M. Night Shyamalan (péssimo, apesar da boa presença dela) e o sucesso indie “500 Dias Com Ela”, ele formou o supergrupo Monsters of Folk com outros expoentes do estilo. “Volume Two” era questão de tempo – tempo na atribulada agenda dos dois.

Finalmente o disco chegou ao alcance de todos. O segundo trabalho do duo está sendo lançado em datas diferentes em vários lugares do globo, mas já vazou na internet, que é o que nos interessa neste momento. Repetindo a fórmula vencedora do primeiro álbum, mais uma vez temos um punhado de canções singelas e melodiosas escritas por Deschanel e arranjadas por Ward, que também assina a produção. Os acentos country e folk da dupla continuam aflorados, e nota-se isso principalmente na escolha de covers de NBQR e Skeeter Davis, mas cada vez mais o pop os atrai. As deliciosas “Thieves” e “In The Sun”, que abrem o disco, são tão aconchegantes que a sensação é de estar revivendo algo saboroso da infância. “Home” também traz essa sensação, com a voz de Zooey nos envolvendo como um cobertor de veludo, assim como a sagaz “Lingering Still”.

Entre os outros destaques do disco temos “I’m Gonna Make It Better”, um rock estilo anos 60, com guitarras derretidas por todo o percurso, a romântica “Me And You”, com arranjos tão suaves que em alguns momentos chegam a comover de verdade, e a fofa “Brand New Shoes”. Fechando a bolachinha, pelo nome já dá pra sacar qual é de “If You Can’t Sleep”: uma espécie de cantiga de ninar. Use-a em caso de insônia: a voz da atual senhora Ben Gibbard, acompanhada por um coral de “uhs”, funciona como um elixir que fará você adormecer lentamente. E se por acaso você sonhar com aqueles olhos azuis novamente, não vai ser por acaso. Acaso, mesmo, foi a bendita hora em que Ward e Deschanel se encontraram e resolveram criar o She & Him para fazer o mundo sorrir mais um pouquinho.

Notinhas

South By Southwest: um sonho
Por cinco dias, de 17 a 21 de março, a cidade americana de Austin, no Texas, reúne a maior concentração de bandas novas e cabeças pensantes que interessam para o futuro da música (além do cinema, da internet e da cultura pop como um todo). O festival South By Southwest recebe mais de 1400 bandas, que se espalham por cerca de oitenta bares, clubs, lojas e até igrejas da cidade. Tudo que você ouviu no ano passado (exemplo: Broken Social Scene), está ouvindo este ano (exemplo: The XX) e vai ouvir ano que vem (exemplo: The Drums) está em Austin, inclusive uma série de bandas brasileiras. As bandas fazem diversos shows – há grupos que tocam quatro, cinco vezes por dia – e, não raro, fecham contratos interessantíssimos por lá, enquanto as novidades do cinema, da mundo online e da indústria da cultura são discutidas em concorridíssimos painéis. Por que eu estou falando isso tudo? Porque eu gostaria muito de estar lá agora.

Variadas
Ainda não é oficial, mas corre forte e rápido o boato de que o Passion Pit viria ao Brasil para tocar no festival que o Gossip ignorou. A possibilidade de ter os caras aqui em maio ou julho anima esta coluna. /// Morreu essa semana Alex Chilton, a alma do grupo Big Star, que influenciou milhares de artistas desde o final dos anos 60. Eu não conhecia o trabalho da banda até procurar saber o porquê de tanta comoção com a morte do cara. Foi então que eu descobri que o Big Star era tipo um Radiohead (pelo menos no que diz respeito à beleza e melancolia das músicas) do seu tempo. Aí, sim, entendi o tamanho da perda. /// Essa semana o Móveis Coloniais de Acaju estreou uma seção em seu site onde colocará músicas à revelia, todas tiradas de momentos de descontração dos ensaios. E a banda começou muito bem, com uma cover sensacional de “Do You Realize?”, do Flaming Lips. Vale a pena ficar atento às novas atualizações dos caras. ///  E Jack White, que essa semana teve de sair em defesa da companheira de banda, Meg, por causa de críticas ao estilo, digamos, econômico de tocar bateria, está se preparando para arrumar mais uma parceria esquisita: Jay Z gravou com o guitarrista nas últimas semanas. O que sairá dessa colaboração, é esperar pra ver.

Todo mundo tem que ouvir
Uma das bandas mais procuradas neste South By Southwest é, sem dúvidas, a californiana Local Natives. O motivo não poderia ser mais óbvio: a bela estreia dos caras.
“Gorilla Manor” foi lançado no final do ano passado, colocando o Local Natives sob os holofotes com toda justiça. Um disco pulsante, adornado com ótimos riffs de guitarra e percussão criativa, Vale a pena ouvir,

Playlist
Zola Jesus – Night
Gorillaz – Some Kind of Monster
Fanfarlo – Fire Escape
Frightened Rabbit – Swin Until You Can’t See Land
Here We Go Magic – Casual
Delphic – Halcyon
Bad Religion – The Answer
Big Star – Thank You Friends
Massive Attack – Saturday Come Slow
Lady Gaga – Telephone

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