Coluna B, dia 13/03

Sobre Laura e Charlotte

Conheci Laura ouvindo música. Já faz algum tempo, para ser honesto. Era uma tarde qualquer do ano de 2006, eu estava em casa, escutando pela primeira vez o novo single do Decemberists, “Yankee Bayonet (I Will Be Home Then)”, do disco “The Crane Wife”. De repente, Laura entrou derrubando tudo, quebrando expectativas, mostrando-se por completo, e fiquei imediatamente atordoado. Não sabia de quem era aquela bela voz, tão melodiosa e direta, que fazia participação na nova faixa da banda de Colin Meloy. Pesquisei na internet para finalmente conhecer de verdade Laura Veirs, cantora americana de carreira já bem longa. Agora, Veirs acaba de lançar seu sétimo disco de inéditas, o adorável “July Flame”.

Vejo na foto aquela figura frágil, cabelo de mexas claras escorridas pelo ombro, olhar perdido por trás de duas lentes de óculos com armação arredondada, e tenho vontade de cantar junto com ela. Ainda bem que há uma faixa como a animada “Summer Is The Champion” por aqui, com seus arranjos de sopro e metal, ideal pra acompanhar nas palmas e no gogó. Mas “July Flame” caminha mesmo por caminhos mais sossegados, deixando-se levar por belos números de cordas e dedilhados de violão que vão crescendo, crescendo até serem impossíveis de se ignorar. Todo o sentimento que permeia canções como “Sleeper In The Valley”, “Make Something Good”, “July Flame” ou “Life Is Good Blues” escorre ouvido adentro naturalmente, tornando inevitável nos ouvintes uma imitação genuína (se é que existe alguma imitação que seja genuína) daquele olhar perdido que Laura Veirs nos lança.

Diferente de “Saltbreakers”, seu festivo último disco lançado há três anos, “July Flame” é mais terno, nem um pouco apressado, quase sonhador. Mas uma coisa nunca há de mudar: o cuidado com a beleza dos detalhes, mesmo os menores, é uma característica que percebi em Laura desde que a conheci naquela tarde fatídica.

Já Charlotte conheci no cinema. O filme que fui assistir se chamava “21 Gramas”, de Alejandro González Iñárritu. Naquele dia a vi pela primeira vez, mas só fui descobrir que era filha de gente famosa em 2006 (que ano!), depois de já me encontrar encantado por “5:55”, seu primeiro disco de verdade (ela havia lançado, ao lado do pai Serge Gainsbourg, um álbum em 1986). Variando entre papéis no cinema e ótimos trabalhos musicais, a moça me conquistou finalmente com esse lindíssimo “IRM”, um dos melhores discos que ouvi em 2010. É perceptível como Charlotte Gainsbourg agora está solta. Está na cara, nos versos, na impostação da voz. Aproximando-se dos quarenta anos, a inglesa/francesa parece tocar seus projetos ao sabor dos ventos mediterrâneos, sem pressa de estar no filme do momento, sem pretensão de fazer a obra musical definitiva, e conseguindo resultados sensacionais com isso.

Enquanto filmava o perturbador “Anticristo”, do dinamarquês Lars Von Trier, a área de escape para Gainsbourg era o processo de feitura de “IRM”. Composto em sua maioria e produzido pelo inquieto Beck, algo que dá pra sentir sem dificuldade nos sulcos que cada música traz, este novo trabalho se coloca perfeitamente dentro do pop contemporâneo. O toque de midas do músico faz com que a voz de Charlotte seja como uma cortina, que vez ou outra se abre para que os arranjos ensolarados de Beck invadam o ambiente, enquanto em outras faz questão de encerrar lá dentro uma melancolia doce, dileta. O disco também serviu para que ela exorcizasse os demônios do grave acidente que sofreu quando esquiava em 2007 – IRM é a sigla francesa para “imagens de ressonância magnética”.

Nota-se o dedo de Beck em todos os cantos do álbum: na dramaticidade de “La Collectionneuse”, que traz Gainsbourg e seu francês sensual quase sussurrado, no rock contido de “Greenwich Mean Time”, na beleza derramada por toda extensão de “Time Of The Assassins”, no majestoso arranjo pop da sensacional “Heaven Can Wait”, ou na estranheza aconchegante da faixa “IRM”. Mais do que o dedo do produtor, percebe-se mesmo que Charlotte Gainsbourg está de bem com a vida, fazendo o que gosta, da maneira que prefere. Uma artista em plena forma, tomando suas próprias decisões e se beneficiando disso.

Notinhas

Várias
Cat Power, que ia fazer show apenas na Virada Cultural Paulista, no interior de São Paulo, já tá transformando sua vinda em uma turnê. Após confirmar presença na capital, a moça descerá até Porto Alegre para um show. E mais datas podem pintar por aí. /// Quem duvidava do poder do Strokes pode começar a rever sua posição. Segundo o vocalista Julian Casablancas, em entrevista ao Chicago Tribune, a banda vem recebendo as maiores ofertas para shows desde que começaram. Casablancas ainda completou dizendo-se feliz com a situação, já que muita gente achava que a banda era apenas um hype e que nunca duraria tempo o bastante pra se tornar realmente grande. Quem pensava isso, sinto dizer, quebrou a cara. /// Mais uma música de “Congratulations”, novo álbum do MGMT que sai em breve, vazou. A faixa se chama “Flash Delirium” e é tão esquisita, mas tão estranha, que fica até boa. Tente ouvir. /// Diz-se em Vitória que há boas possibilidades da bombada banda curitibana Copacabana Club fazer show na cidade nas próximas semanas. A Coluna B dará mais detalhes, assim que eles existirem.

Todo mundo tem que ouvir
Há, finalmente, um ótimo motivo para sorrir no rock. O trio californiano Black Rebel Motorcycle Club está de volta com disco inédito.
O decentíssimo “Beat The Devil’s Tattoo” acabou de sair, trazendo o clássico rock de pegada da banda com uma força que há muito não se via por aí. Ouve que vale a pena.

Playlist
French Cowboy – Sun
The National – Terrible Love
Jimi Hendrix – Bleeding Heart
Yeasayer – O.N.E.
The Cripple and the Tramp – See You Again
MGMT – Flash Delirium
Local Natives – Sticky Thread
She & Him – In The Sun
Shy Child – Disconnected
Johnny Cash – For The Good Times

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