Coluna B, dia 6/03

Londres por um dia
O Rio de Janeiro, aquele que todo mundo diz que continua lindo, teve seu dia de capital inglesa no último domingo. Todos os elementos para se passar por uma Londres estavam aguçados naquele dia 28 de fevereiro. Em pleno verão de um país tropical, a temperatura se aproximava dos vinte graus (sim, para um capixaba cachoeirense, no Rio, pode-se dizer que estava quase frio), uma chuva fina cortava o céu, trazendo certa melancolia ao Sambódromo, um cenário tão acostumado com os raios de sol rasgando todos os cantos. Em um palco amplo, montado no final do percurso do carnaval carioca, ouvia-se a língua inglesa com sotaque da terra da Rainha. Não estávamos em Londres, mas até que parecia.

O evento era imperdível. Pela terceira vez, o Coldplay vinha ao Brasil – desta vez, trazidos pelo sucesso de um de seus melhores discos, “Viva La Vida or Death And All His Friends”, trabalho produzido por Brian Eno e que deu uma guinada na carreira de Chris Martin e seus amigos. A tiracolo, o grupo inglês, que já vendeu mais de 50 milhões de discos ao redor do mundo, trouxe para a abertura o incrível Bat For Lashes, projeto da bela Natasha Khan. Para dar uma face brasileira à festa, a organização convocou o ótimo grupo cuiabano Vanguart para iniciar os trabalhos. A escalação competentíssima prometia. E a promessa foi cumprida.

A chuva chegou ao Sambódromo junto com os fãs. Assim que os portões foram abertos, São Pedro ligou o chuveirinho. Inicialmente tímida, logo os pingos grossos começaram a acertar a cabeça do público como mísseis teleguiados. Foi quando os primeiros acordes do Vanguart encheram o ar. Se a pista não estava lotada ainda, pelo menos foi extremamente receptiva com o grupo brasileiro. Entre um e outro hit, o vocalista Hélio Flanders agradecia a participação da galera e pedia maior presença de grupos nacionais nesse tipo de evento. Fez bem, seu discurso ganhou a aprovação popular. Mas, ao final do show do Vanguart, acabava aí os poucos vestígios de Brasil naquela noite londrina: a seguir, Natasha Khan e sua banda quase toda feminina entraram em campo para mostrar com quanto talento se faz um grande show. O vestido florido e a simpatia da líder do grupo foram o primeiro golpe do Bat For Lashes para vencer aquela batalha entre uma banda e um público que não a conhece. O capítulo seguinte foi escrito com as lindas músicas de seus dois discos, “Fur and Gold” (2007) e “Two Suns” (2009).

O encantamento com a esmerada interpretação da moça (meio inglesa, meio paquistanesa) de voz deliciosa e sorriso fácil fez com que o show de abertura fosse dos mais agradáveis. A chuva não dava trégua, mas mesmo assim o Coldplay, ao som de Danúbio Azul, entrou no palco para histeria total dos presentes. Os gritos só foram abafados pelas primeiras notas de “Life In Technicolor”, mas voltariam a dar as caras nas próximas três canções, “Violet Hill”, “Clocks” e “In My Place”, quando ficava difícil ouvir a voz de Chris Martin com aquele povo todo cantando como se não houvesse amanhã. Ainda que não tenha trazido o seu palco principal para o Brasil, o secundário estava lindo, com telões em HD, bolas gigantes e muita luz que compunham o cenário perfeito. Mas foi em “Yellow” que o show de produção realmente começou: dezenas de bolas amarelas gigantes foram jogadas em direção ao público, formando um espetáculo visual de arrepiar os cabelos da nuca.

Martin, seus pulinhos esquisitos e sua afetação cômica lideravam os olhares, mas o grupo todo participava ativamente da apresentação. Mesmo com chuva, em duas oportunidades a banda desceu do palco e foi tocar em pequenos palcos armados no meio da galera, um do lado direito, outro do lado esquerdo. E foi em um desses, há mais ou menos três metros de onde eu estava, que tocaram a lindíssima “Shiver”, em versão acústica – outras faixas, como “Talk” e “The Hardest Part”, também ganharam versões diferentes ao vivo. Quando foi a vez de “Viva La Vida”, luzes e borboletas de papel espalharam-se por todo o Sambódromo de forma emocionante. Uma superprodução que ainda ganharia fogos de artifício, principalmente no final, após dois “bis” que trouxeram as indispensáveis “Politik”, “Lovers in Japan” e “The Scientist” com direito a alucinantes projeções nos telões do palco. “Life In Technicolor II” fechou o set list de um dos shows mais bonitos que já vi. Ao final, caminhando pelo Sambódromo vazio e molhado, com um vento frio e uma chuva espessa que em nada lembravam o clima de verão de dias antes, a sensação era de que o Rio de Janeiro tinha sido um pouquinho Londres naquelas últimas horas. E eu não tenho nada a reclamar disso.

Notinhas

Áudio e vídeo
Na última semana, algumas bandas lançaram clipes que merecem destaque por aqui. Pra começar, o Foals deu as caras novamente com um vídeo sensacional para seu novo single, a também sensacional balada (!!!) “Spanish Sahara” – e o clipe se passa… no gelo. Outra bela banda que chegou cheia de história foi o Gorillaz, com o divertido vídeo de “Stylo”, primeiro single de “Plastic Beach”, com participação de Bruce Willis dando tiro em todo mundo. Completando o trio, o excelente jj, da Suécia, mandou muito bem com o clipe de “Let Go”, música de trabalho de “jj nº 3”, álbum a ser lançado semana que vem, mas que já está lindão na internet. Procure todos os clipes no YouTube e divirta-se.

Várias
Teve indie brasileiro famoso passando por poucas e boas no terremoto do Chile. Adriano Cintra e Lovefoxx, cérebro e alma do CSS, estavam na cidade para um DJ set e contaram, via Twitter, que estavam morrendo de medo. Que situação. /// James Murphy está fazendo um mistério danado sobre o próximo disco do LCD Soundsystem. Em um breve comentário no site da banda, revelou que o disco está pronto, finalmente. Data de lançamento? Até agora, nada. /// Mais dois shows adicionados neste super primeiro semestre: Nouvelle Vague e Jonathan Richman, ambos no Rio e em São Paulo, agora em abril. E a Cat Power, que ia tocar só no interior de São Paulo, colocou também uma data na capital: 25 de maio. /// Quem também avisou que vem é o Aerosmith, ainda sem data, mas certamente este ano. /// “Hear To Help”, álbum pró-Haiti a ser lançado nas próximas semanas, vai ter Julian Casablancas, Vampire Weekend, Beck, Grizzly Bear com a linda cover de “And I Was A Boy From School”, do Hot Chip, Of Montreal tocando “Take Me Out”, do Franz Ferdinand, ao vivo, e mais: Keane, Charlotte Gainsbourg, Air, Camera Obscura, Surfer Blood, Black Rebel Motorcycle Club e outros. Maravilha.

Todo mundo tem que ouvir
Depois de alguma enrolação, um fala daqui, ouve dali, finalmente o Pavement voltou a fazer shows. Esta é uma grande notícia.
Mas, melhor que isso, a banda lançou uma coletânea sensacional, chamada “Quarentine The Past”. Tudo o que você precisa está lá.

Playlist
The Drums – Best Friends
Rain Machine – New Last Name
Superpose – Sometimes
Black Rebel Motorcycle Club – Bad Blood
Portrait Painters – I Know How to Wait
Emma Pollock – Confessions
Hot Chip – I Feel Better
Yeasayer – I Remember
Owen Pallet – Lewis Takes Off His Shirt
Ok Go – This Too Shall Past

Anúncios

Um comentário sobre “Coluna B, dia 6/03

  1. Seu texto me deixou com uma “invejinha” bonita de sentir. Coldplay não é das minhas bandas preferidas, mas tem uma importância muito grande em uma fase que tive. Acho, aliás tenho certeza, que iria me arrepiar por completo. Enfim…
    beijo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s