Coluna B, dia 27/02

Spoon e o arrependimento

Um dos grandes arrependimentos das minhas idas a festivais de música, shows internacionais e afins foi ter feito uma escolha errada no Planeta Terra Festival de 2008. Naquele ano, os horários dos palcos Main Stage e Indie Stage faziam com que ótimas bandas “roubassem” um belo pedaço da apresentação de outros grandes grupos, tornando ligeiramente complicada a tarefa de escolher qual show assistir. Tomado por um irresponsável sentimento juvenil, que me foi inflado pela perigosa mistura de saudosismo, animação e álcool, fiquei tempo demais assistindo ao Offspring no palco principal. Muito mais do que deveria: no espaço indie, a excepcional banda americana Spoon destruía com um showzaço.

O Offspring começou por volta das 22h15. A banda, figura marcante da minha adolescência com um pé (às vezes até dois) no hardcore e que eu já havia visto ao vivo em 1999, iniciou o show com seus hits matadores dos anos 90. Enquanto alguns amigos se dirigiam para o galpão onde ficava o palco indie, eu, cego pela empolgação da minha trilha sonora da puberdade, fiquei para “ver mais uma”. 22h50, o show do Spoon já rolava há 20 minutos e eu lá, ainda agarrado pelas memórias de tempos que não voltam mais. Resultado: cheguei ao outro galpão para pegar pouco mais de vinte minutos do Spoon. E que beleza de apresentação! Logo de cara, já percebi o que havia perdido e um breve arrependimento me bateu.

Pensando no passado, agradeço pelo menos por uma coisa: lá em 2008, o Spoon ainda não tinha lançado “Transference”, sétimo disco dos americanos e um dos melhores da carreira da banda – e olha que a concorrência com os anteriores é ferrenha. O novo disco da banda americana saiu em janeiro e foi produzido pelos próprios componentes, capitaneados como sempre pelo vocalista e principal compositor da banda, Britt Daniel. Este trabalho coloca o Spoon em uma posição de total transparência de suas canções. Guitarra, teclado, baixo e bateria estão limpos em cada uma das onze faixas, mostrando como o marcante talento da banda é o verdadeiro responsável pelo incrível sucesso dos caras no território indie – aliás, pode-se dizer que o Spoon é A grande banda indie americana.

O estilo orgânico de “Transference” dá a impressão que a banda gravou tudo ao vivo, sem se preocupar demais com retoques, cortes e takes de apoio. É em faixas deliciosas como “Nobody Gets Me But You”, que esquece as estruturas clássicas da música pop e parece se deixar levar para onde a música deseja ir, ou “Out Go The Lights”, outra que tem vontade própria, flutuando sobre uma belíssima linha de baixo, que a banda mostra porque é tão respeitada – os músicos dão um verdadeiro show com seus instrumentos. Aliás, os excelentes arranjos são inspiradores, a ponto de fazer com que você se prenda em uma música até o fim sem deixar de prestar atenção em um riff sequer. A bem trabalhada “Got Nuffin” e a primeira faixa do álbum, “Before Destruction”, exercem esse poder hipnotizante com maestria.

Mas há muito mais neste sétimo disco do Spoon. Sem dúvidas, as melhores faixas são a empolgante “Trouble Comes Running”, curtinha mas cheia de grandes momentos; “Written In Reverse”, primeiro single do álbum e que ganhou um clipe bem bacana, tocado ao vivo, é deliciosa, daquelas pra cantar junto e dar o berro do refrão até acabar a voz; a suingada “The Mystery Zone” (e suas lindas linhas de baixo e de guitarra) torna simplesmente impossível a tarefa de não bater o pé no chão, as mãos na mesa e a cabeça no vento – vale até assoviar; “Goodnight Laura” é a balada que um disco como esse precisa ter: pouco mais de dois minutos com um leve toque de melancolia salpicada sobre piano e voz, e uma letra adorável. Misture essas faixas com “Who Makes Your Money” e “I Saw The Light” e pronto, aqui está um arrependido fã dando aleluia por “Transference” não ser da época em que o Spoon foi erroneamente deixado de lado pelo Offspring.

Notinhas

Abbey Road. Quer comprar?
Queria, porque agora já era. Depois de anunciar que colocaria à venda o mais famoso estúdio do mundo, Abbey Road, em Londres, a gravadora EMI voltou atrás. O motivo é óbvio: choveram reações contrárias à decisão da empresa. E falou-se de tudo: que Paul McCartney ia comprar o lugar, que a Inglaterra ia transformar o estúdio em patrimônio nacional… enfim, no final, nada aconteceu e o local onde os Beatles gravaram seus maiores sucessos vai continuar sendo da EMI.

Vários
O novo disco da banda The National vai sair em maio e traz participações de Sufjan Stevens e Bon Iver, veja só que beleza. /// Também vem aí em maior um novo álbum do The New Pornographers, “Together”. /// Boato forte manda o recado que muita gente estava querendo ouvir: Lady GaGa deve aparecer no Brasil em junho, com pelo menos dois shows. /// Enquanto o “Volume Two” do She & Him não vaza na internet, a banda libera uma música aqui, outra ali. “Thieves” está disponível pra ser ouvida na internet, e é mais uma belezinha que ajuda no crescimento da expectativa. /// Voltando a maio, é no dia dez desse mês que o Foals volta a lançar um disco: “Total Life Forever”. Aguardemos. /// Agora é oficial: a banda de Thom Yorke, que se chamava ???? (sim, quatro interrogações), agora recebe o nome de Atoms For Peace. Hum, preferia o outro. /// Este colunista estará no Rio de Janeiro amanhã, para conferir os shows de Vanguart, Bat For Lashes e Coldplay, e contar tudo para os leitores na semana que vem, beleza pura?

Todo mundo tem que ouvir
Joanna Newson deu uma sumida do cenário musical. Mal sabíamos que ela estava preparando “Have One On Me”, seu novo álbum.
Nada menos que um disco triplo: dezoito faixas ao todo, com canções de cinco, sete, nove minutos. Lindas, claro. Junte um bocado de paciência e ouça.

Playlist
Egyptian Hip Hop – Dust
Delphic – This Momentary
Golden State – Ordinary People
jj – You Know
Dirty Projectors – Ascending Melody
Portrait Painters – I My Mind
Jets to Brazil – Air Traffic Control
I’m From Barcelona – Nothing Like the Morning
Good Shoes – Then She Walks Away
Frightened Rabbit – Skip The Youth

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3 comentários sobre “Coluna B, dia 27/02

  1. até me vi ali!. Escolha errada de ver Iggy Pop mais do que o necessário. e perder o inicio do show do The Ting Tings. Quando cheguei lá, era tudo muito mais sensacional. Muito mais a minha cara. Mas enfim.. meu propósito inicial do planeta terra 2010 foi ver Maximo Park. e consegui. então to na vantagem ainda. =D.

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