Coluna B, dia 06/02

Electro rock: ontem e hoje
Olhe para o palco. A formação da banda traz um sujeito na bateria, outro no baixo, outro na guitarra. Ah, claro, esqueci da menina do teclado, do sintetizador que o guitarrista também toca, das programações eletrônicas que surgem de vez em quando e do casal da percussão que também toca harpa e xilofone. Como é? Que banda é essa? Quem são esses seres? Ora, são uma banda normal dos dias de hoje: de electro rock. É claro que toda essa gente pode ser substituída num piscar de olhos por um só computador a acompanhar um par de malucos. Regra não há, o importante é como soa esse indie rock que se misturou com o eletrônico e que nunca mais voltará ao normal.

Para os ingleses do Hot Chip, por exemplo, a hora é de olhar para trás. A banda que mudou o cenário do electro indie com dois discos indispensáveis na discoteca deste novo século, “The Warning” (2006) e “Made in the Dark” (2008), resolveu ela mesma cambiar tudo o que já havia feito. O mais novo lançamento da banda, “One Life Stand”, pega carona no Delorean de Marty McFly e vai direto para 1992. De lá, o vocalista, guitarrista-que-toca-sintetizador e principal compositor da banda, Alexis Taylor, trouxe as linhas melódicas que enchem o álbum de canções com cara de velhas, mas cheias de charme. Pode-se dizer que o Hot Chip resolveu tirar um bocado do peso do som, trocando as densas linhas de baixo por batidinhas inofensivas, desligando o botão do “dance sem parar” e dando partida no estilo “música para relaxar”.

É tudo uma questão de ponto de vista. Os críticos que não curtiram “One Life Stand” reclamam justamente do sossego que o novo trabalho dos ingleses traz. Já este colunista gosta justamente desta parte. Não tenho como reclamar do estilão lo-fi de faixas como a bela “Alley Cats”, com seus beats discretos e harmonia relaxante, ou a sensacional “Take It In”, com suas melodias vocais enchendo um caminhão de sons. O álbum também traz algumas viagens sonoras, como os seis minutos de “Slush”, a repetitiva (mas agradável) “Hand Me Down Your Love” e os quase sussurros de “Keep Quiet”, e não foge das pistas com a psicodélica “We Have Love”, ou com a ótima faixa-título, primeiro single do quarto disco do grupo. Mas tudo isso traz uma ambientação anos 90 irresistível, que não deixa de ser mais uma prova de que a tal década está preparando seu revival com todo poder.

Com o Delphic, a história é diferente. Ano passado, eles eram o futuro. Hoje, são um presente muito mais real do que você pode imaginar. Assim como a velocidade dos beats de suas canções dançantes, a banda decolou com a velocidade de um raio do anonimato para o pré-estrelato. Tido como uma das apostas da poderosa rádio BBC para 2010, os novatos de Manchester deram seus primeiros passos com um single sensacional, lançado em abril de 2009. “Counterpoint” já trazia uma sensação refrescante, como se todos que a ouvissem dançassem imediatamente, sem chance de controlar o próprio corpo. Era apenas um ótimo petisco para “Acolyte”, álbum de estreia da banda, produzido pelo prolífico DJ e produtor inglês Ewan Pearson.

O rock eletrônico frenético do Delphic é abarrotado de nuances, com camadas e mais camadas de batidas, sintetizadores e distorções de guitarra se entrelaçando ao redor de melodias plenamente assoviáveis. Algumas faixas são preciosidades que há muito não apareciam pelo indie eletrônico, como a poderosa “This Momentary”, de refrão inesquecível, a contagiante “Doubt” ou a bela faixa-título, uma patada no pé do ouvido. Ainda que seja de Manchester e traga um pouco do clima das bandas de lá por baixo da colcha eletrônica, o trio algumas vezes lembra o som do Klaxons, como na ótima “Halcyon”. Para o Delphic, o futuro não mais existe – apenas o hoje. E é ali que eles vão ficar, por um bom tempo.

Notinhas

Novos discos
Estão a caminho algumas novidades de bandas que não dá pra deixar pra lá. Bate uma empolgação só de imaginar que Them Crooked Vultures, Strokes e The Dead Weather já estão programando o lançamento de seus próximos discos? Então saca só: o Strokes avisou via site oficial que seu novo disco sai esse ano com produção de Joe Chicarelli; Jack White comentou sobre o novo do Dead Weather citando um som mais blues e pesado que nunca, e dando o mês de abril para a chegada do rebento; já os integrantes do Vultures, em diferentes entrevistas, garantiram que sai disco novo em 2010, porque eles estão se sentindo como iniciantes em sua primeira banda. Maravilha? Então aí vem mais: em entrevista à Pitchfork, Kevin Drew falou sobre o novo do Broken Social Scene, que sai ainda esse ano, lotado de participações especialíssimas, como de praxe. Que venham!

Várias
“Volume Two”, novo disco do She & Him, ganhou uma capa fofíssima desenhada pela própria Zooey Deschanel, e vai sair aqui no Brasil pelo selo LAB 344, dia 23 de março. /// O Placebo é mais uma banda a tocar no Brasil neste primeiro semestre. O grupo vem pra cá em abril. /// Essa foi a semana dos boatos esquisitos. O primeiro eu li por aí: um grande festival brasileiro, recém-extinto, estaria se arrumando para voltar com força total. Eu ouvi Tim Festival? O segundo eu ouvi por aí: o Guns n’ Roses, que faz turnê no país em março, teria chance de tocar aqui em Vitória. Será? Eu duvido. /// E Lost voltou com força total. Está assistindo? Se não, lamento muito. Os dois primeiros episódios, para variar, mudou tudo na série. Sensacional é apelido. Corre pra ver.

Todo mundo tem que ouvir
A dupla australiana Agnes Kain surgiu em 2006 com o belíssimo disco “Keep Walking Or I’ll Kill You” e, do mesmo jeito que surgiu, do nada, desapareceu sem dar mais notícias.
De repente, aparece a notícia de que “Across the Ocean Grey”, o segundo álbum deles, já saiu. Em outubro! Um indie folk bonito que só, mais contemplativo que o anterior, e também indispensável.

Playlist
Surfer Blood – Swin
Lindstrom & Christabelle – Baby Can’t Stop
Seabear – Cold Summer
Spoon – Written in Reverse
Retribution Gospel Choir – ’68 Comeback
Charlotte Gainsbourg – VanitiesComaneci – On My PathFour Tet – Love CryEverybody Was in the French Resistance… Now! – Coal DiggerLe Sang Song – The One

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