Coluna B, dia 12/12

O Brasil sabe ser pop – parte 2
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Peço licença para continuar o assunto de semana passada. Para quem não leu, explico em linhas gerais: no último sábado comentei aqui sobre a falta de renovação da música brasileira no mainstream – para o grande público, a excelente nova safra de bandas e artistas nacionais simplesmente não existe. Roupa Nova, O Rappa, Jota Quest e afins continuam carregando uma bandeira escorraçada do pop rock nacional como se fossem mártires de um mercado falido, e isso não é culpa deles. Aproveitei o espaço para apresentar os pernambucanos Lulina, Otto (esse já velho conhecido) e Cidadão Instigado. Hoje a gente desce até Curitiba.

É de lá, do sul do país, que saiu a grande revelação nacional de 2009. Quando falei deles aqui algumas colunas atrás, citei que era uma banda ideal para os órfãos do Los Hermanos. Eu não menti. Assim como a sensacional banda carioca, que marcou época como o último grande grupo a surgir no país com autoridade bastante para ser indie e pop na mesma canção, a Banda Gentileza também consegue se sobressair por colocar em suas músicas uma mistura excelente de música regional, como o samba e a viola caipira, com ritmos universais, como o indie rock. Para completar, há nas faixas de “Banda Gentileza”, disco de estreia dos curitibanos produzido pelo músico e DJ Plinio Profeta, uma alegria incontida que os aproxima muito dos dois primeiros álbuns do Los Hermanos.

Honesta e extremamente coerente com sua filosofia liberal, a Banda Gentileza distribuiu seu primeiro disco na raça. Através de um perfil no Twitter, Heitor Humberto, Diego Perin, Artur Lipori, Tetê Fontoura, Emílio Mercuri e Diogo Fernandes (que se dividem entre os instrumentos básicos de uma banda de rock e outros como concertina, saxofone, viola caipira, cavaquinho, trompete, violino e ukelele) divulgaram um link para que seus seguidores baixassem o álbum de graça. No primeiro mês, 1.300 downloads foram feitos. Os elogios choviam de todos s lados, e não era à toa. Há também no som do grupo um incrível senso de gentileza para com os artefatos que são usados para compor sua personalidade musical. Aqui, pandeiro e guitarra têm a mesma importância. O “lalalá” que move refrões possui a mesma cadência de frases de efeito como “o que você faz não me diz respeito mais, mas desrespeitou”, presente na lindíssima “Coracion”, que abre o disco.

Ganham destaque imediato os arranjos criativos que a banda imprime em todas as músicas, das mais simples às mais rebuscadas. Do baixo saem linhas pulsantes, as guitarras e os violões estão sempre se encontrando, os instrumentos “convidados” vez ou outra roubam a cena, como o ukelele e a viola na ótima “Teu Capricho, Meu Despacho”. As muitas e variadas referências que os componentes trazem dão um tempero irresistível ao disco. A melódica e afiada música do leste europeu está presente com força em “Afinal de Contas” com sua troça de violinos, e em “O Indecrifrável Mistério de Jorge Tadeu”, faixa sensacional que recebe metais e pegada que lembram o Los Hermanos, recebendo ainda uma pitada de breguice com a intrigante citação a Reginaldo Rossi. O samba é artigo principal na deliciosa “Preguiça”, um hino maravilhoso à boa vida, e na animada “Maior Com Sétima”, que esmiuça o processo de composição da banda com bom humor invejável.

Se você quer algo com os dois pés no rock, preste atenção na dançante “Pseudo Eu”, com suas guitarras abusadas, acompanhamento no trompete e bateria salpicada, em “Sintonia”, de riffs poderosos e levada reggaeira, e na bonitinha “Pia do Prédio”, toda suingada. Se prefere a calmaria da música caipira, a curiosa “Sempre Quase” (que lembra o sumido Supercordas), de letra engraçadinha, é a melhor pedida. Outras que lembram a banda de Amarante e Camelo são a potente “33B”, com um belo jogo entre vocal e backing vocal, e a bela “O Estopim”, cheia de grandes momentos espalhados pela canção.

Com um disco de estreia tão bom, a Banda Gentileza me dá esperança de um futuro extremamente promissor para abanda – e, naturalmente, para a música pop nacional. A música nacional está em um ótimo momento, só não vê (ou ouve) quem não quer.

Notinhas

Portishead pela anistia
Portishead lançou uma nova faixa na última quinta em parceria com a Anistia Internacional. A data não foi ocasional: 10 de dezembro foi o dia internacional dos direitos humanos. A música “Chase The Tear”, de uma batida urgente e abafada, em contraste com a voz deliciosamente lamuriosa de Beth Gibbons, está disponível para download no site http://www.7digital.com/portisheadamnesty .

Novidades
O Massive Attack parece ser mais um nome para o mês de março de 2010 no Brasil. Pelo menos no Chile eles já estão confirmados. /// Aliás, março também marca a volta do She & Him, mas apenas em disco. A dupla da musa Zooey Deschanel anunciou seu “Volume 2”, com participação de Tilly and the Wall e inclusão duas covers, para o dia 23/03. Aguardemos. /// Já o Arcade Fire jogou um baldinho de água fria na turma ao avisar que seu disco deve sair apenas no fim do ano que vem. Oh, Deus. /// “Primary Colours”, do Horrors, foi escolhido o melhor disco de 2009 pela revista inglesa NME. E, segundo lugar ficou a estreia do XX, e em terceiro “It’s Blitz!”, do Yeah Yeah Yeahs. Uma lista honesta, até. /// Aproveito para dizer que, a partir da semana que vem, a Coluna B começa a divulgar suas listas de melhores do ano. Não perca.

Todo mundo tem que ouvir
O Animal Collective lançou em janeiro um dos discos do ano: “Merriweather Post Pavilion”. Não satisfeitos, fizeram agora o favor de lançar um dos EPs do ano.
O disquinho “Fall Be Kind” vem com apenas cinco faixas, mas parecem ter sido selecionadas com cuidado irreal. Mais um lançamento sensacional do Animal Collective.

Playlist
Death Cab For Cutie – Meet Me On The Equinox
Biffy Clyro – That Golden Rule
La Roux – Bulletproof
Wild Beasts – Hooting and Howling
Holger – WarHealth – Die Slow
Lulina – Subtexto
Otto – Lágrimas Negras
Lily Allen – The Fear
Memory Tapes – Bicycle

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