Coluna B, dia 5/12

O Brasil sabe ser pop

Um tempo atrás, em uma discussão pacífica com um tio querido que, na época, estava produzindo um evento no interior do Estado, escutei que o grupo Roupa Nova era um dos poucos que realmente prestavam no Brasil. Discordei com veemência, mas ainda ouvi que hoje em dia nenhuma banda pop tem boas músicas como eles. Imediatamente listei uma meia dúzia de grupos novos que possuem um trabalho de destaque e que poderiam, em um futuro próximo e com o apoio que um grupo veterano como Roupa Nova recebe, estourar em qualquer canto do país. Resultado: meu interlocutor não conhecia nenhuma delas e manteve sua opinião intacta.

Com todo o respeito, esta coluna e a da semana que vem, quando falarei de mais novos e excelentes artistas nacionais, são dedicadas ao meu tio. A ele e a tantos outros que ignoram, mesmo sem querer, a nova geração da música brasileira. Nomes que surgem a cada dia, despertando o país de um sono pesado – aditivado por uma ressaca do rock nacional que há tempos não leva para o mainstream a qualidade que tem escondida em seu circuito alternativo. Hoje, os exemplos ficam apenas em um estado: Pernambuco, com Cidadão Instigado, Lulina e Otto. E você, caro produtor de espetáculos, abra os olhos. Em pouco tempo você pode estar correndo atrás de um desses nomes.

Cidadão Instigado
Um grupo como o Cidadão Instigado é capaz de encher qualquer casa de espetáculos do país. Pelo menos, a julgar pela qualidade musical da banda e pelo grande disco “Uhuuu!”, o terceiro da carreira do grupo de Fortaleza. Criado pelo guitarrista Fernando Catatau, o grupo tem um lado brega bem aflorado e faz um som bastante acessível, contando com belos arranjos de guitarra, alguns toques regionalistas e uma influência palpável do rock anos 70, gringo e nacional. As melodias de “Dói” e “Doido”, por exemplo, são acachapantes, cheias de suíngue e com palhetadas firmes. Enquanto isso, “Homem Velho” e “Como As Luzes” se deixam envolver pelo lado brega do grupo, mas mantendo-se divertidas o tempo todo. “O Cabeção” é espacial e criativa, já “Deus É Uma Viagem” é mesmo uma viagem, ligeiramente melancólica, que ganha aparato de metais e corais a certa altura, calibrando-a como uma das mais marcantes de um disco que merece ser ouvido por mais e mais pessoas.

Lulina
Se o mundo fosse um lugar justo, Lulina seria a cantora mais badalada do Brasil hoje, enfrentando de peito aberto toda essa geração de neo-sambistas de longos vestidos floridos e vozes empostadas. Mas Lulina tem um mundo próprio, o qual habita sozinha e de onde tira toda a matéria-prima necessária para tecer pequenas preciosidades do cancioneiro nacional atual. Em seu primeiro disco, “Cristalina”, a cantora de Recife, atualmente morando em São Paulo, recuperou diversas faixas de seus intermináveis EPs produzidos ao longo do tempo e regravou 17 faixas, deixando apenas uma, a irônica “Meu Príncipe”, para estrear no disco novo. A forma única de compor de Lulina, quando aborda desde assuntos fofinhos, como na suave “A Margarida”, passando por lindas declarações de amor como em “Nós”, até doenças esquisitas, como quando fala sobre bolhas na pleura em “Blebs”, é seu grande trunfo. Ela retrata tão bem esse universo paralelo que fica impossível não se ver lá por alguns momentos, observando minhocas malucas, ETs que sangram, paulistas com sotaques carregados ou o comediante Jerry Lewis, que recebe uma homenagem curiosa. O olhar de Lulina sobre o reveillon em “Bosta Nova” é uma boa forma de exemplificar como essa sensacional artista consegue fazer grandes letras, melodias de chorar e criar climas irresistíveis. Se o nosso mundo fosse o delicioso mundo de Lulina, tudo seria mais estranho e bonito.

Otto
Nunca fui lá muito fã de Otto. Escutava ressabiado suas canções, gostava de alguma coisa ali, outra aqui, mas me acostumei a não ver muita graça no cantor pernambucano. Até o dia em que me disseram que “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos” era o disco que todo mundo sempre esperou que Otto gravasse. A prometida criativdade em misturar seu forte lado regional com um pop sem vergonha e um rock elegante, que antes permanecia apenas na promessa, torna-se imediatamente realidade por aqui. As participações de Céu e Julieta Venegas ajudam a colocar Otto nos trilhos, deixando até sua percussão mais pontual – “Filha” é uma emocionante mostra disso, além da ótima “Janaína”, da temperada “Crua” e da tristonha “Lágrimas Negras”. Dizem as más línguas que a potente injeção de melancolia que faz de “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos” o melhor dos quatro discos de Otto foi dada pela separação do cantor e da atriz Alessandra Negrini. Se for assim, foi mal, Otto, mas tomara que você tome outros chutes na bunda. Tá fazendo bem.

Notinhas

Novidades pipocam
Ah, 2010. Se tudo se confirmar, o ano que vem vai ser uma profusão inacreditável de bandas gringas por aqui – pequenos festivais, atrações inesperadas, grupos enormes e nomes iniciantes, tudo o que você pensar. A novidade é a presença do Guns n’ Roses na América do Sul entre março e abril. Quem diria, Axl por aqui novamente. A outra história, soprada pelo blog Popload, é que o U2 vem mesmo – só não se sabe ainda quando. As opções são abril e novembro (no Chile, já se sopra a data em abril, mas sem certezas). Eles se juntam a Metallica, Coldplay, Franz Ferdinand, Gossip e Bat For Lashes, atrações já confirmadas. Vai ser fácil não. Todo mundo com a mão no bolso!

Mais discos
Para quem acha que estamos em dezembro de 2009, aviso logo que 2010 começou faz tempo. Pergunte para Spoon, que lança “Transference” em 18 de janeiro? Pergunte também para o Black Rebel Motorcycle Club, que anuncia trabalho novo para março, ou para o Keane, que vai lançar um EP com oito músicas em maio. Já para a Zooey Deschanel, deixa que eu pergunto, porque o She & Him já anunciou seu “Volume Two” para o começo do ano. Há também novidades vindo do Shout Out Louds (fevereiro), Goldfrapp (março) e New Young Pony Club (também em março). Ah, infelizmente o Babyshambles também planeja disco novo, para quem os suporta (não contem comigo). Mas a maior expectativa fica mesmo por conta do aguardadíssimo terceiro álbum do Arcade Fire, ainda sem data, mas já com fila de espera (conte comigo).

Todo mundo tem que ouvir
Não entendo como demorei tanto para escutar o Dead Man’s Bones. Quanto tempo perdido! O disco de estreia, auto-intitulado, é uma das obras mais sensacionais deste ano.
Para quem não sabe, esta é a banda do ótimo ator Ryan Goslin, com participação de um coral de crianças enfiados em uma atmosfera de filme de terror. Sacou? O Dead Man’s Bones é simplesmente genial. Corre que dá.

Playlist
Animal Collective – Bleeding
Zemaria – Any Distance
Washed Out – Hold Out
A Fine Frenzy – Wish You Well
Toro y Moi – Low Shoulder
The Watson Twins – The Brave Ones
Jacuzzi Boys – Island Avenue
Banda Gentileza – O Estopim
Why? – These Hands
Dirty Projectors – Stillness is the Move

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s