Coluna B, dia 28/11

Muito atrasada. #-/
A coluna da semana passada entra amanhã.

Química impecável

Pegue um músico de criatividade ilimitada que usa a guitarra como se fosse a continuação das suas mãos. Agora, cace por aí um baixista histórico, figurinha carimbada em qualquer lista de melhores de todos os tempos no instrumento. Pra completar, dê um jeito de arrumar um baterista sensacional, também um músico completo em todos os sentidos. Faça-os amigos, com prazer genuíno de tocar um com o outro. Junte todos em um estúdio, tranque-os lá até que saiam com um disco fenomenal em mãos, pesado, diferente, abusado. Um dos melhores do ano, sem dúvida.

É mais ou menos essa a fórmula do quase inacreditável Them Crooked Vultures. Josh Homme é líder, vocalista e guitarrista do Queens of the Stone Age (além do Desert Sessions, do Kyuss, etc), John Paul Jones foi baixista “apenas” do Led Zeppelin, uma das mais reverenciadas bandas do rock, e Dave Grohl foi baterista do Nirvana e é líder, vocalista e guitarrista do Foo Fighters. Sério, não parece uma combinação quase improvável? Mas não é. A união entre Homme e Grohl, na verdade, nem é nova. Os dois são amigos, já gravaram juntos no QOTSA e participaram de inúmeros projetos paralelos. As conexões começaram a se fechar quando Grohl tocou com Jones em alguns shows na Europa, fazendo participações especiais. E é claro que, para os dois mais jovens, tocar com uma lenda do rock é um prazer que não tem preço.

Como um grupo de amigos que resolve tirar um som no fim de semana, o Them Crooked Vultures surgiu e começou a decolar. A química era impecável. Gravar um disco não parecia nos planos dos três quando tudo se iniciou, mas mostrou-se algo absolutamente natural e necessário quando o encaixe do power trio se mostrou matador. Após alguns ensaios, os caras começaram a marcar shows de surpresa em que os ingressos se esgotavam em minutos. Montaram também um site e um perfil no twitter para revelar bem devagar como soariam as faixas de “Them Crooked Vultures”, álbum de treze incendiárias faixas lançado no mês passado. O mistério fez bem à banda. Poucos e mal gravados vídeos surgiam no YouTube, mas eram vistos por tanta gente que viravam hits imediatos.

Assim que liberaram em streaming o disco completo, a internet pegou fogo. Todo mundo estava ouvindo as guitarras pesadas de Homme ecoarem pelas faixas. O clima stoner de QOTSA, complementado com uma levada de rock setentista e as pancadas certeiras e desencontradas da bateria surtiam efeito. Hipnotizado, escutei sem parar o disco inteiro por quatro vezes seguidas. Não parei mais. A cada play, uma nova viagem se estabelecia. “Mind Eraser, No Chaser” me tirou do chão sem dificuldade – a levada quebrada se embrenhando em camadas e mais camadas de guitarras, os vocais de Homme e Grohl se encontrando no refrão, tudo fazia muito sentido. Eu flutuava. A sensacional “Scumbag Blues” (Led Zeppelin puro) me colocou em outra dimensão, por onde fiquei a visualizar pratos incandescentes e mulheres de biquini dançando com formigas gigantes. Viagem.

Era impossível me libertar. Nem que eu quisesse, conseguiria ignorar os solavancos tridimensionais de “Elephants”, uma das faixas mais impressionantes deste ano. “No One Loves Me & Neither Do I” abre o disco: suingada, bonitona, sensual, luxuosa – coisa de quem sabe fazer música boa. “Reptiles” busca as forças no heavy metal, “Gunman” é quase dançante, não fosse tão dark – e, por isso, diferente de tudo que já rolou. A dobradinha “New Fang” e “Dead End Friends” é metralhadora na cara, sangue voando, a violência musical que a gente precisa para viver, mas trazem melodias muito bem encaixadas para transformar o lobo em cordeiro. Sensacionais. Há ainda “Bandoliers”, em rotação mais lenta, a imensa “Warsaw, Or The First Breath You Take After You Give Up”, um blues de rosto desconfigurado, “Interlude With Ludes”, psicodélica, “Caligulove”, de teclados viajantes e refrão grudento, e muito mais. “Them Crooked Vultures” é uma pequena maravilha para quem gosta de rock pesado e não linear. Um presente para quem é fã de Homme, Grohl e Jones e, provavelmente, um presente deles para eles mesmos. Porque, ao final de tudo, a sensação é que eles se divertiram tanto ao fazer o disco quanto nós ao escutarmos.

Notinhas

Variantes
O Ringo chamou o Paul pra tocar no disco dele. Macca vai cantar e tocar baixo em umas duas faixas de “Y Not”, a ser lançado em janeiro de 2010. É o mais próximo que vamos chegar de uma reunião dos Beatles. /// O Belle & Sebastian deixou no site oficial uma pista de que um disco novo pode estar a caminho. Dedos cruzados. /// Sabe essa banda aí do lado, Them Crooked Vultures, que acabou de lançar o primeiro álbum? Então, eles já estão falando em lançar o segundo. “Agora que começamos, por quê parar?”, disse Homme ao jornal The Sun. Por mim, beleza. /// E lá vem a NME de novo, com outra lista cheia de opções esquisitas. Desta vez, as melhores canções da década. Em primeiro? “Crazy In Love” da Beyoncé. Posso parar ou continuo? Tá, então vai: em segundo, “Time To Pretend” do MGMT. Sério. São músicas boas, claro, mas para melhores da década tá complicado, né? Eu, hein.

Dos shows
Brett Anderson, ex-vocal do Suede, estará no país em janeiro. Em Curitiba e São Paulo, certamente. /// Da Ilustrada no Pop vem a notícia: estão em negociações para vir ao Brasil em 2010: U2, Green Day e Roger Waters. É mole? /// Shows imperdíveis que eu vou perder semana que vem: o sensacional Dirty Projectors, com abertura do Holger, em SP (dia 2), o fenomenal Macaco Bong, no Festival Música Livre, em Vitória (dia 4). Choro ou não choro? Se alguém puder fazer diferente de mim, por favor, não perca.

Todo mundo tem que ouvir
E o Beach House lançou o disco do ano… de 2010. Sim, a dupla americana marcou o lançamento de “Teen Dream” para janeiro próximo, mas o disco vazou faz tempo. Já falei aqui que eu amo a internet?
É claro que estou me adiantando ao dar a ele o título de melhor do ano que vem, mas o que há de músicas bonitas neste terceiro lançamento da banda, sinceramente, não é fácil. Audição obrigatória.

Playlist
Passion Pit – Little Secrets
Holger – War
Arctic Monkeys – Cornerstone
Dirty Projectors – Stillness is the Move
Lulina – 13 de junho
Atlas Sound – Quick Canal
Otto – Crua
Animal Collective – I Think I Can
Banda Gentileza – Afinal de Contas
Norah Jones – Back To Manhattan

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