Coluna B, dia 21/11

 

Musa inspirada

Eu tenho um caso de amor platônico com uma cantora americana. Como já dá pra entender pela palavra platônico, ela não sabe de nada. Mas tenho certeza que, no fundo, sente as vibrações que emanam quando ouço suas músicas. Norah Jones é a minha musa inspiradora, e me dá extrema alegria poder falar dela em uma coluna que costuma se fixar mais em artistas alternativos. Principalmente porque essa moça se bandeia cada vez mais para o pop, e com uma qualidade musical simplesmente incrível.
Fã incondicional da cantora desde 2002, quando Jones chegou ao mundo com um clássico imediato, “Come Away With Me”, segui seus passos sem pestanejar na época do maravilhoso “Feels Like Home”, meu preferido entre todos de sua discografia. Continuei na cola da novaiorquina quando se uniu a amigos no projeto paralelo The Little Willies e ao lançar o belo, mas não tão empolgante, “Not Too Late”, já em 2007. Estava lá também, de ouvidos apurados, quando ela formou a banda de indie rock El Madmo. Posso dizer que vi Norah Jones crescer.

É por isso que seu novo álbum, “The Fall”, em pouco tempo já me é tão especial. A musa que tanto me inspira está, ela também, inspirada. Após três discos em que levava o jazz para o lado pop da força, misturando o estilo de Billie Holiday e Bill Evans ao de Elton John e Aimee Mann, a impressão é que ela se permitiu carregar nas cores mais vibrantes. Jones já havia dado mostras ao longo da carreira de que não fica acomodada com a fama. Se alguém tinha dúvida disso, a troca constante do piano pela guitarra neste quarto disco serve bem mostrar essa qualidade.

A mudança começa quando Jones termina seu relacionamento com o namorado e antigo parceiro de composição, Lee Alexander (será que agora eu tenho chance?). A cantora decide então experimentar com novos colaboradores. Para a produção, convocou Jacquire King, que já havia trabalhado com o Kings of Leon, Modest Mouse e Tom Waits. Para ajudar nas composições, vieram o cantor Ryan Adams e Will Sheff, vocalista do ótimo Okkervil River, junto ao antigo amigo Jesse Harris. Ainda assim, a cantora continua com seu lado compositora bastante afiado e assina quase todas as faixas deste variado “The Fall”.

Aqui, o termo “baladas matadoras” parece ter sido cunhado especialmente para a linda “I Wouldn’t Need You”, em rotação lenta, com pianos ocasionais e uma letra triste e cortante de tão real, ou a suave “You’ve Ruined Me”, outra de letra que amassa o coração na mão e joga longe. Adams é co-autor da bela “Light as a Feather”, enquanto Sheff está creditado junto com a cantora na climática “Stuck”, um dos destaques do álbum com suas belas guitarras. Mas é Jones quem assina sozinha a emblemática “Chasing Pirates”, que abre o álbum mostrando a nova direção que tomaria dali pra frente. Também é dela “It’s Gonna Be”, que, apesar da veia roqueira, consegue manter sua indelével marca d’água impressa, e as tocantes “December”, “Back To Manhattan” e “Man of the Hour”, econômicas nos arranjos, mas extremamente generosas no sentimento.

Difícil não citar todas as músicas que fazem de “The Fall” um dos mais deliciosos discos desta cantora que, com mudanças ou sem mudanças, vai ter sempre um cantinho no meu coração. Norah Jones, minha musa inspiradora, receba novamente minhas vibrações.

notinhas

Melhores da década
Na internet, a nova onda é fazer listas de melhores da primeira década deste novo século. A Pitchfork fez uma, que achei bastante justa, há alguns meses, outras pipocaram aqui e ali. Agora foi a vez da NME, um dos mais tradicionais veículos de música pop do Reino Unido, divulgar sua lista. Polêmica, claro. Primeiro, por trazer “Is This It”, dos Strokes, na primeira colocação. É um discaço, claro, e mudou o rumo do rock no começo do século, mas um disco ser muito importante não significa ser o melhor. Mas o grande trauma da lista da NME, pra mim, é a presença de “Up the Bracket”, do Libertines, na segunda posição. Veja bem, se um disco do LIBERTINES é o segundo melhor da década, acho que eu passei os últimos dez anos em coma. Só isso.

Várias
Então tá falado: o grande Gossip, que cometeu um dos mais deliciosos discos de 2009, “Music For Men”, vem ao Brasil também no começo do ano que vem. Nada a declarar, só que quero muito estar lá. /// O Oasis (menos Noel) vai seguir em frente com outro nome, liderados por Liam. Quem acha que vai dar errado, levanta a mão. /// Já estão na internet os B-sides do single de “Cornerstone”, do Arctic Monkeys. /// Metallica confirma oficialmente sua vinda ao país: dia 28 (Porto Alegre) e 30 (SP) de janeiro. E cadê o Alice in Chains? /// Hoje, alguns amigos estarão no The Killers em São Paulo. Alguém me acorda quando eles forem embora? /// Sabe quem também aparece no Brasil, mas em dezembro? O ótimo The Whitest Boy Alive. Dia 11 no Rio e 12 em São Paulo, quem puder, compareça que é bom.

Todo mundo tem que ouvir
A grande parada desta sensacional Banda Gentileza é o seguinte: não há estilo musical que se imponha à qualidade do som desses curitibanos. Os caras passeiam por tudo e saem ilesos.
Se você estava com saudade do Los Hermanos, procure por “Banda Gentileza”, um excelente álbum de estreia, e pare de chorar as barbas derramadas. Você ainda vai ouvir falar muito desses caras.

Playlist
Beach House – Silver Soul

Clare and the Reasons – Wake Up (You Sleepy Head)

Mew – New TerrainLulina – Mi Gostar Musga

The Swell Season – Back Broke

Washed Out – Feel It All Around

Aroldo Sampaio – Bossa Quase Nova

Demontré – Money Talks

St. Vincent – Actor Out Of Work

Days of the New – Enemy

 

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