Coluna B, dia 31/10

Primeiras impressões
.
Opiniões mudam. Isso é certo. Talvez seja por isso que resolvi escrever hoje sobre um disco que, diferente do que faço normalmente, mal ouvi. Costumo escutar o álbum sobre o qual escrevo por dias a fio, observando os detalhes, tentando entender o que há por trás dele, quais foram as ideias que levaram o artista a chegar àquele resultado final. Mas desta vez, não. Preferi dar uma paletada de cara. Falar de minhas primeiras impressões sobre este trabalho só prova que a máxima “a primeira impressão é a que fica” não funciona com a música. Tudo muda.
.
Eu mesmo estou cansado de mudar de opinião sobre artistas. Quer ter uma ideia? Já odiei Los Hermanos, hoje acho a melhor banda do Brasil. Já simpatizei com Creed, hoje tenho profunda vergonha disso. Já achei Antony and the Johnsons um saco, hoje acho lindo. As coisas mudam, ainda bem. Mas, como será que vou sentir “Phazers For The Young” daqui a um mês? O aguardado disco solo do vocalista do Strokes, Julian Casablancas, acabou de vazar na internet e eu acabei de baixá-lo. Já havia escutado “11th Dimension” e achado sensacional, o que abriu a minha expectativa para um grande disco.
.
Mas, dias depois, foi a vez de “River of Breaklights”, faixa pouco empolgante, escapulir para a rede. Confesso que dei uma murchada, comecei a temer por um disco fraco. E nada do álbum completo vazar – o lançamento estava marcado para este fim de semana na Europa e nos EUA.
.
Finalmente nas minhas mãos, posso afirmar com a segurança de quem já o escutou duas vezes e meia que “Phazers” não fica nem lá e nem cá. Não é aquela maravilha toda de “11th Dimension”, nem é tão mediano quanto “River of Breaklights”. São apenas oito faixas, o que contribui para uma assimilação mais veloz da minha parte, e muita diversão, sem dúvida. Casablancas não esquece sua banda por completo, mas consegue se afastar dela ao dar aos sintetizadores o papel principal nesta peça. Ainda que a estrutura das canções solo do stroke lembrem um bocado sua banda, assim como as linhas de guitarra e a levada urgente de algumas delas, a sonoridade oitentista impressa na cara das músicas consegue isolar o trabalho do vocalista para bem longe do caminho que conhecemos.
.
A própria “11th Dimension” chega a ser bastante surpreendente. É como se o New Order tivesse comprado o passe de Julian para ser vocalista de sua banda em um disco de pop dançante para boates. E é isso que faz dela uma canção tão esquisita e genial. A balada “4 Chords of the Apocalypse”, com seu jeitão de música de ninar para o fim do mundo, me faz ter medo do futuro. Ela dá um pouco de sono, mas de uma maneira boa, relaxante, com a voz de bêbado de Casablancas sendo engolida por guitarras malucas que vêm e vão e barulhos dissonantes. À primeira vista, “Out of the Blue” parece ter sido criada para ser um country moderninho, mas quando entrou em estúdio o produtor Jason Lader deu um tapa na faixa e a colocou como uma música brega divertida. Aliás, este parece ser um forte conceito para o disco todo: um trabalho que beira o brega, quase kitsch, mas com alta dose de diversão
.
Veja também “Ludlow St”. A batida desconexa e fora de tempo parece ter sido pescada em idas a shows do Radiohead, mas o arranjo de ukelele, com direito a solo longo e ligeiramente engraçado em meio a jogos de teclado, dá uma cara muito mais estranha à faixa. Uma coisa mais experimental, pode-se dizer, um contraste à sua sucessora, “River of Breaklights”, que investe na velocidade da levada e na repetição de seu refrão pra tentar arrumar um lugarzinho pra grudar na cabeça. “Glass” vai ao psicodélico sem medo. Parece ser, de longe, a faixa mais séria de “Phazers For the Young”, feita como se o resto do disco fosse um treino para chegar a ela. Tem batida próximo ao trip hop no começo, depois ganha uma cara de Strokes em baixa velocidade. Aliás, “Left & Right in the Dark” também segue um pouco este caminho, já que é provavelmente a que mais se assemelha ao som que o Strokes passou a comandar a partir do ano 2000, com o incrível “Is This It”.
.
Casablancas coloca a reta “Tourist” para fechar a conta, e acho que até entendo. Como iniciou o disco se levando pouco a sério, tendendo ao kitsch sem medo e apenas preocupado em divertir sua plateia com o jeitão bêbado-oitentista, resolveu mostrar que pode ser também homenzinho sério, compenetrado, quase um executivo. É claro que eu estou falando isso tudo da boca pra fora, com apenas algumas poucas horas de convivência com “Phazers For the Young”. Julian Casablancas fez um álbum que tem lá sua complexidade e merece ser ouvido com mais calma, mais atenção, menos desespero. Mas confesso que fiquei satisfeito com a experiência. E, como eu já previa, já vejo o disco ligeiramente diferente de quando comecei a escrever – estou até gostando um pouco mais de “River of Breaklights”, veja só. Vai saber o que eu vou achar dele daqui a um mês.
.
Notinhas
.
Shows
O Faith No More já está na América do Sul. A banda de Mike Patton já iniciou seu rolê pelo continente com um show inesquecível de 22 músicas em Lima, no Peru, e deixou um gostinho de inveja na boca de quem não vai aos shows do Brasil, como eu. Droga. /// Parece que a turnê sulamericana do Metallica em 2010 está começando a se desenhar. Segundo o blog Popload, a banda de James Hetfield e cia. vai desembarcar no Brasil para três shows já em janeiro, talvez pegando o começo de fevereiro. /// Os ingressos para os shows do Franz Ferdinand no Brasil já estão à venda, e este colunista já garantiu o dele. Mas atente para uma coisa: apenas o Rio de Janeiro vai ter um show apenas com pista e um só preço de ingresso. /// Já para os shows do Coldplay (abertura de Bat For Lashes), que começam a vender entradas a partir do dia 7, tratem de quebrar o cofrinho: em SP, o mais barato custa 160 reais. No Rio, R$ 250. Chora.
.
Novidades musicais para 2010
O ano de 2010 será mais um ano de Arcade Fire. Os caras já estão preparando um lançamento cheio de mistérios para o ano que vem, com direito a jogos de senhas e mensagens ocultas, como foi feito com “Neon Bible”. Aguardemos. /// E o ano que vem já bomba também para o Los Campesinos, que anunciam o lançamento de mais um disco, “Romance is Boring”, para 1 de fevereiro. Mas duas músicas já podem ser ouvidas pelo MySpace. /// Segundo o MTJ!, quem também dá as caras em 2010 é o Good Shoes, que andava sumido. A garotada inglesa lança “No Hope No Future” no dia 18 de janeiro. /// Quem também estava sumidão mas volta a figurar por aí é o ótimo Cold War Kids. Os caras lançam em janeiro o EP “Behave Yourself”, e tá com cara de ser imperdível. /// Pra acabar: o Beach House também lança, em 26 de janeiro, seu novo disco: “Teen Dream”. Imperdível.
.
Todo mundo tem que ouvir
Os protagonistas do filme “Once” formam na vida real um duo chamado The Swell Season. Sabia? Não? Então fique ligado, porque os dois acabaram de lançar o segundo disco, “Strict Joy”.
E se você gostou do filme, e principalmente da trilha sonora, não pode nem pensar em perder o novo álbum de Glen Hansard e Markéta Irglová. Lindo, doce, cheio de belas canções. Imperdível.
.
Playlist
Atlas Sound – Ruben
Lake – Madagascar
Momo – Se Você Vem
LCD Soundsystem – Bye Bye Bayou
Florence + The Machine – You’ve Got the Love (The XX remix)
Demontré – Broken Halo
Juliet Lewis – Terra Incognita
Inara George – Right As Wrong
Devendra Banhart – Chin Chin & Muck Muck
Girls – Lust For Life
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s