Coluna B, dia 24/10

Quando a beleza é esquecida

Nem vou tentar me desculpar. Prefiro não passar por este constrangimento público de assumir que, no afã de tentar falar sobre as melhores e mais importantes bandas do cenário alternativo musical, deixei pra trás algumas belezinhas doces e irresistíveis que ouvi regularmente nos últimos meses. Opa, acho que acabei de me entregar, não é? Não importa, chega de perder tempo. O que você precisa fazer neste momento é dar uma lida nessas linhas entupidas de culpa e correr para baixar cada um desses discos – se é que você não os ouve há tempos, assim como eu.
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Ramona Falls – Intuit
Considerado por muitos críticos especializados um dos discos mais belos deste ano, “Intuit” merecia mais espaço nesta coluna, sou obrigado a confessar. Mas, como trato deste universo musical tão efêmero e veloz, o mais justo que poderia fazer é dedicar-lhes algumas linhas antes que fosse tarde demais. Projeto paralelo do americano Brent Knopf, do Menomena, o Ramona Falls é o cara acompanhado de dezenas, sim, dezenas de músicos convidados – por volta de trinta, pra ser um pouco mais exato, mas nem tanto. Mas o som de “Intuit” não entrega essa cambada toda. Leve, primando pela beleza das melodias e com um estilo absolutamente casual, o conjunto de canções do Ramona Falls deixa entrar todos os tipos de instrumentos e efeitos possíveis, misturando piano com guitarras de pedais pesados, sopro, metais e vocais. Em alguns momentos lembra um pouco o Arcade Fire, como na belíssima “Russia”, em outros soa como um Wilco um pouco mais desajustado, como em “Salt Sack”. Mas, em todos os momentos, o Ramona Falls e sua estreia “Intuit” são absolutamente indispensáveis na sua discoteca de 2009.
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Ohbijou – Beacons
Ah, Canadá, por que você faz isso comigo? É tanta banda boa vindo desse lugar que fica difícil escolher uma pra representar as principais cidades de lá. Mas, tudo bem, digamos que, direto de Toronto, vem um dos grupos mais agradáveis da atualidade. Que voz tem essa moça, Casey Mecija! Ela consegue dar uma fofura quase palpável ao som do grupo, transportando os ouvintes para um lugar onde a mágica existe e sai das cordas vocais da menina. Aliás, foi ela quem começou toda a brincadeira, quando ainda era uma cantora em carreira solo dedicando-se à fria noite da cidade. Casey se juntou a uma trupe esperta, incluindo sua irmã Jennifer, e em 2004 o Ohbijou (até o nome é fofo, não?) começou sua caminhada, que já rendeu o disco de estreia, “Swift Feet For Troubling Times” (2006), e essa pérola irretocável chamada “Beacons”. Ouvir a voz de Mecija combinada às cordas de violino e violoncelo que embrulham com laço de fita boa parte das canções do álbum é um deleite. “Make it Gold”, “Into the Season”, “Black Ice” e “New Years” são apenas alguns dos momentos inesquecíveis que “Beacons” é capaz de oferecer a você. Obrigado, mais uma vez, Canadá.
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The Antlers – Hospice
Faz tanto, mas tanto tempo que eu baixei esse disco, que cheguei ao ponto de baixá-lo de novo, uns dois meses atrás, porque esqueci de ouvir. Que embaraçoso. Mas nada como um dia após o outro para que se fizesse justiça e essa banda do Brooklyn finalmente tivesse a atenção que merece no meu iPod. Sejamos sinceros, em um ano com tantos discos bonitos, essa coisa de louco que é “Hospice” (trocadilho intencional, envie suas reclamações para colunab@gmail.com) não pode ficar de fora de uma coluna simplesmente apaixonada por esse tipo de trabalho. O Antlers está em seu segundo disco – o primeiro, “In the Attic of the Universe”, é de 2007 – mas parece já saber direitinho a fórmula para tecer grandes canções, utilizando tanto a calmaria de vozes angelicais embebidas de eco quanto a barulheira infernal de guitarras aditivadas para compor suas melhores faixas. Um trio, que ao vivo ganha um baixista de apoio, o Antlers sabe como ir do céu ao inferno em poucos segundos. Como em um livro que se lê com a sede dos tarados pelos encontros das letras, “Hospice” começa com “Prologue” e termina com “Epilogue”, mas tem entre uma e outra faixa alguns lindos momentos. Melancolia rica, com belíssimas criações, instrumentação perfeita e vocal comedido. Uma obra-prima.
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The Rosewood Thieves – Rise and Shine
Nos idos do já distante 2008, não se falava em outra coisa no Piano’s, descolado e minúsculo bar de Manhattan: após dois lindíssimos EPs, o Rosewood Thieves tinha finalmente chegado a um disco cheio, um álbum, um LP, chamem como quiser. Da bar woman ao leão-de-chacará, do técnico de som ao primeiro da fila nos shows da banda, todos que acompanham a banda desde o início das atividades, em 2006, sorriam felizes com a novidade. Muitos quilômetros abaixo da Linha do Equador, um verdadeiro fã à distância seguia ignorando esse feito. E o ignorou até junho de 2009, quando tomou um susto ao perceber que a banda que acompanhava com tanto carinho já tinha lançado um disco há mais de um ano e ele não sabia. É claro que esse fã sou eu. Para terem uma noção, fiz minha querida amiga Milena Monteiro, que mora em NY, ir a um show dos Thieves lá no Piano’s e falar com eles que há ao menos um grande fã brasileiro da banda. Óbvio que me senti obrigado a escrever, nem que seja apenas um pouquinho, sobre essa delícia chamada “Rise and Shine”, ainda que ele tenha sido lançado em maio de 2008. O folk da banda continua afiadíssimo, com todas as referências de Bob Dylan e Beatles, todos os tecladinhos sensacionais da gatinha Mackenzie casando perfeitamente com o violão, a guitarra e a voz de Erick, seguidos de perto pela bela cozinha formada pela bateria e o baixo. E nada mais é necessário quando tudo isso combina e acaba em faixas como “When My Plane Lands” ou “Junkyard Julie”. É o Rosewood Thieves fazendo o que sabe de melhor: emocionar.
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Notinhas
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Será o fim?
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Na semana passada, a notícia que se espalhou é que o Bloc Party teria acabado. Enquanto uma galera no Twitter comemorava o suposto fim da banda, e eu não entendia por que as pessoas odeiam tanto o ótimo grupo do Kele Okereke, a verdade surgia à tona: a banda entrou em recesso e apenas o baterista disse que não sabia se ia voltar ou não. Mas nada está confirmado, ninguém declarou fim de banda nenhuma. Quer dizer, tirando os também ingleses do Rakes, que, esses sim, anunciaram o fim de suas atividades, por falta de motivação, segundo comunicado oficial. E me arrisco a dizer que, esses sim, não farão lá muito falta para a música. A banda tinha um ou outro hit legal pra pista, mas não era nada demais.
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Várias
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O Indie Rock Festival, sobre o qual comentei semana passada, arrumou um bom substituto para o Mombojó: a banda argentina El Mato a Un Policia Motorizado. Tomara que ninguém cancele até o dia do festival. /// Um novo festival, Smirnoff Experience, vai trazer alguém do Hot Chip pra um DJ set em Sampa, dia 28 de novembro. Topa chegar lá? /// O DJ canadense A-Trak fez um remix fantástico de “Heads Will Roll”, uma das faixas mais remixadas do ano. Vale dar uma escutada. /// O álbum de remixes de “Wolfgang Amadeus Phoenix” vazou na internet, finalmente. Mas, segundo a Pitchfork, o disco é bem mais ou menos. Duvido, mas baixarei, ouvirei e darei meu parecer aqui na coluna. /// O músico americano Andrew Bird anunciou uma mini-turnê diferente. Em dezembro, Bird vai fazer cinco shows em igrejas americanas. Segundo ele, as músicas de “Noble Beast”, seu último disco, vão ser “adaptadas” ao formato. Interessante.
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Todo mundo tem que ouvir
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Quando menos se espera, uma joia cai em nossas mãos. É com grande prazer e uma imensa empolgação que anuncio que “III”, o novo disco do Espers, está entre nós.
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O folk psicodélico do grupo é único. “III” traz um pouco mais de peso ao som da banda, mas segue a interminável capacidade desses americanos de fazer grandes canções. Ouve aí.
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Playlist
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Momo – Bonita
Port O’Brien – Oslo Campfire
Friska Viljor – People Are Getting Old
Lulina – Bichinho do Sono
Julian Casablancas – River of Brakelights
Pearl Jam – Just Breathe
Aberfeldy – Something I Must Tell You
Lestics – Ideias Originais
Arctic Monkeys – My Proppeler
Death Cab For Cutie – Meet Me On The Equinox
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