Coluna B, dia 17/10

Em busca de oxigênio
A imagem que me vem à cabeça é a de uma pessoa no fundo do mar, no meio de um longo mergulho. Quando percebe que o ar está acabando, ela dá um forte impulso para cima. Os braços se debatem, o ar preso vai se soltando devagar, as pernas se movem com graciosidade, sem deixar transparecer o desespero de chegar logo à tona. Quando a cabeça encontra a fina película que cobre o imenso mar, a pessoa ganha a superfície e se coloca imediatamente a respirar o límpido ar e retomar suas capacidades. A esse ato de respirar um ar renovador, e a esse ar que amplia visões, recobra ideias e reestrutura pensamentos, chamo de carreira solo. Hoje, a Coluna B vai falar sobre três artistas que emergiram de suas competentes e atribuladas carreiras musicais com suas bandas e inspiraram um oxigênio diferente: Taken By Trees, Julian Plenti e Hope Sandoval & The Warm Inventions.
Taken By Trees – East Of Eden
Entre 1995 e 2006, Victoria Bergsman ficou conhecida como a principal componente do grupo pop The Concretes, um sucesso absoluto em sua terra natal, a Suécia, mas infelizmente pouco conhecida fora de lá. Quando começou a ficar grande demais para caber em uma banda com tantos integrantes, Bergsman resolveu seguir uma carreira diferente. Primeiro passo: arrumar um codinome. Taken By Trees foi o escolhido, e sob ele lançou “Open Field” (2007) e este delicioso “East Of Eden” (ah, claro, um adendo: entre um disco e outro, a moça esperta colocou sua voz a serviço dos conterrâneos Peter, Bjorn and John na incrível “Young Folks”, música de maior sucesso do trio – sim, aquela do assovio). Livre para escolher que caminhos percorrer, Victoria foi parar no Paquistão para gravar seu disco, assistida de perto pelo produtor Dan Lissvik. A mudança de ares é bastante perceptível não apenas na capa do disco, mas desde a abertura com o lindo dream pop “To Lose Someone”, na curtinha “Tidens Gang”, na misteriosa “Day By Day”, na suave “Watch the Waves” e principalmente em “Wapas Karna”, todas com participação de músicos locais. E, por falar em participações, Bergsman capricha ao trazer para perto de si, de duas diferentes formas, a absurda banda americana Animal Collective. Primeiro, ela convida Panda Bear para fazer backing vocal (e influenciar por completo) em “Anna”, uma das mais fantásticas do disco. Depois, toma a liberdade de fazer uma sensível versão de “My Girls”, presente no sensacional “Merriweather Post Pavillion” – aqui em “East Of Eden”, ela ganha o nome de “My Boys” e já garante a Victoria Bergsman o título de cover do ano. Mas fica claro que essa sueca tem fôlego pra muito mais. Fôlego renovado.
Julian Plenti – Julian Plenti is… Skyscraper
Se você começou a ler esse texto sem ter a menor ideia de quem diabos é Julian Plenti e porque ele está nesta humilde lista de artistas arriscando trabalhos solo, me desculpe. Eu deveria ter avisado antes que se trata de ninguém menos que Paul Banks, vocalista de uma das mais bem sucedidas bandas desta década: o Interpol. Mas pior seria se você já chegasse ouvindo o material de “Julian Plenti is… Skyscraper”. Certamente, causaria certa confusão ouvir a voz tão característica de Banks, desta vez produzindo um som menos sombrio e pesado, salpicado com toques de indie pop aqui e ali. Quer dizer, nem tanto. Há faixas que não deixam Banks (ou Plenti?) mentir – lembram um bocado o que o Interpol já fez. Mas é mesmo uma certa instrospecção que se coloca suavemente sobre o disco como um todo, mostrando o artista de forma mais completa, despindo-se das expectativas pré-concebidas para criar um so verdadeiramente criativo. Desde a abertura com “Only If You Run” e “Fun That We Have” já notamos que, apesar da guitarra que range na segunda faixa, há novidades na forma de arranjar as canções de Plenti. Ao passarmos por “Games For Days”, pesada e climática, vemos a pegada dark do Interpol dar um alô, mas nada que sobreviva à esquisitice de “Madrid Song”, ao folk de “On the Esplanade” ou ao clima de romance de “Girl on the Sporting News”. Plenti (ou Banks?) mostrou com “Julian Plenti is… Skyscraper” que andou nadando em outros mares. Fez bem ao rapaz.
Hope Sandoval & The Warm Inventions – Through the Devil Softly
A cara de menina, o jeitinho meigo e a voz que sussurra sensualidade entre cada palavra podem deixar você completamente atordoado, é melhor avisar. Foi assim na década de 90, quando a banda Mazzy Star, capitaneada por Hope Sandoval, era um dos destaques da cena alternativa debulhando o dream pop com uma graça estonteante. A banda, a bem da verdade, nunca acabou, mas não lança material nenhum desde 1996. Sandoval ainda fez alguns “bicos” aqui e ali, cantando com Death in Vegas, Jesus and Maty Chain, Chemical Brothers, Air e Massive Attack, antes de se juntar ao ex-My Bloody Valentine Colm Ó Ciosóg e formar o Hope Sandoval & The Warm Inventions. Em 2001, eles lançaram “Bavarian Fruit Bread”, e agora em 2009 estão de volta com o belo “Through the Devil Softly”, um disco sofisticado, chafurdado em uma melancolia gloriosa e produzido com um cuidado ímpar pelos próprios componentes. Baseado totalmente no folk, com arranjos delicados e uma falta de pressa tremenda, o segundo disco dessa dupla surpreende pela suavidade. A bateria tocada com vassourinha, toques de piano e xilofone, passagens conquistadoras de gaita e a espetacular sensualidade da voz de Sandoval são os trunfos deste trabalho, com destaque para as belíssimas “Wild Roses”, “Trouble”, “Blanchard” e “Lady Jessica and Sam”. Hope Sandoval, essa pequena notável, provou que não é apenas uma simples gota nesse caudaloso mar da música alternativa: é uma onda a ser admirada.
Notinhas
Indie Rock Festival zicado
O Indie Rock Festival, que ano passado se dissolveu semanas antes de acontecer de verdade, tentou dar a volta por cima esse ano, mas já se deu mal. Anunciaram semana passada uma edição com Gogol Bordello, Cake, Mombojó e Holger para os dias 13 (Rio) e 16 (São Paulo) de novembro. Beleza, apesar dos pesares. Mas agora já tiveram que cancelar o Cake e o Mombojó. Parece que o Super Furry Animals vêm pro lugar dos americanos, só não arrumaram ainda substitutos pros brasileiros. Mas é impressionante. Ou os organizadores são deveras incompetentes, ou tem uma cabeça de burro enterrada embaixo do escritório deles. Tudo dá errado pro Indie Rock Festival.
Vários
E eis que os cabelos queimados de Michael Jackson, alguns fios que sobraram do acidente do cantor em 2984, vão a leilão. Topa rachar e comprar um tufo? /// Charlotte Gainsbourg liberou pra download a primeira faixa de seu novo disco, “IRM”, produzido por Beck, que tem o mesmo nome do álbum. /// O Elbow vai relançar seu primeiro disco, “Asleep in the Back”, com novas faixas, raridades e gravações ao vivo para a BBC. Bela pedida pros fãs da banda. /// O LCD Soundsystem anunciou o lançamento, meio que de surpresa, do primeiro single do futuro terceiro disco. “Bye Bye Bayou” sai em 24 de novembro, mas já tá facinho na internet. /// Agora, uma notícia triste: após 25 anos o grupo norueguês pop A-ha se separou. E, pleo jeito, deixou várias viúvas por aí.
Todo mundo tem que ouvir
Quando quatro grandes músicos se juntam para fazer um álbum, espera-se que esse trabalho seja grandioso. No caso do supergrupo Monsters of Folk, ele realmente é.
O disco homônimo traz de M. Ward do She & Him, Jim James do My Morning Jacket e Conor Oberst e Mike Mogis do Bright Eyes em grande forma, com faixas que mostram não apenas folk, mas também pop e country. Obrigatório.
Playlist
Uninhabitable Mansions – Big Kick
The Raveonettes – Suicide
A Perfect Circle – Orestes (acoustic version)
Evol – One Against All
Thom Yorke – Hearing Damage
Bon Iver & St. Vincent – Roslyn
Espers – Another Moon Song
Dirty Projectors – Stillness is the Move
Julian Casablancas – 11th Dimension
Sondre Lerche – Let My Love Open the Door

Em busca de oxigênio

A imagem que me vem à cabeça é a de uma pessoa no fundo do mar, no meio de um longo mergulho. Quando percebe que o ar está acabando, ela dá um forte impulso para cima. Os braços se debatem, o ar preso vai se soltando devagar, as pernas se movem com graciosidade, sem deixar transparecer o desespero de chegar logo à tona. Quando a cabeça encontra a fina película que cobre o imenso mar, a pessoa ganha a superfície e se coloca imediatamente a respirar o límpido ar e retomar suas capacidades. A esse ato de respirar um ar renovador, e a esse ar que amplia visões, recobra ideias e reestrutura pensamentos, chamo de carreira solo. Hoje, a Coluna B vai falar sobre três artistas que emergiram de suas competentes e atribuladas carreiras musicais com suas bandas e inspiraram um oxigênio diferente: Taken By Trees, Julian Plenti e Hope Sandoval & The Warm Inventions.

Taken By Trees – East Of Eden

Entre 1995 e 2006, Victoria Bergsman ficou conhecida como a principal componente do grupo pop The Concretes, um sucesso absoluto em sua terra natal, a Suécia, mas infelizmente pouco conhecida fora de lá. Quando começou a ficar grande demais para caber em uma banda com tantos integrantes, Bergsman resolveu seguir uma carreira diferente. Primeiro passo: arrumar um codinome. Taken By Trees foi o escolhido, e sob ele lançou “Open Field” (2007) e este delicioso “East Of Eden” (ah, claro, um adendo: entre um disco e outro, a moça esperta colocou sua voz a serviço dos conterrâneos Peter, Bjorn and John na incrível “Young Folks”, música de maior sucesso do trio – sim, aquela do assovio). Livre para escolher que caminhos percorrer, Victoria foi parar no Paquistão para gravar seu disco, assistida de perto pelo produtor Dan Lissvik. A mudança de ares é bastante perceptível não apenas na capa do disco, mas desde a abertura com o lindo dream pop “To Lose Someone”, na curtinha “Tidens Gang”, na misteriosa “Day By Day”, na suave “Watch the Waves” e principalmente em “Wapas Karna”, todas com participação de músicos locais. E, por falar em participações, Bergsman capricha ao trazer para perto de si, de duas diferentes formas, a absurda banda americana Animal Collective. Primeiro, ela convida Panda Bear para fazer backing vocal (e influenciar por completo) em “Anna”, uma das mais fantásticas do disco. Depois, toma a liberdade de fazer uma sensível versão de “My Girls”, presente no sensacional “Merriweather Post Pavillion” – aqui em “East Of Eden”, ela ganha o nome de “My Boys” e já garante a Victoria Bergsman o título de cover do ano. Mas fica claro que essa sueca tem fôlego pra muito mais. Fôlego renovado.

Julian Plenti – Julian Plenti is… Skyscraper

Se você começou a ler esse texto sem ter a menor ideia de quem diabos é Julian Plenti e porque ele está nesta humilde lista de artistas arriscando trabalhos solo, me desculpe. Eu deveria ter avisado antes que se trata de ninguém menos que Paul Banks, vocalista de uma das mais bem sucedidas bandas desta década: o Interpol. Mas pior seria se você já chegasse ouvindo o material de “Julian Plenti is… Skyscraper”. Certamente, causaria certa confusão ouvir a voz tão característica de Banks, desta vez produzindo um som menos sombrio e pesado, salpicado com toques de indie pop aqui e ali. Quer dizer, nem tanto. Há faixas que não deixam Banks (ou Plenti?) mentir – lembram um bocado o que o Interpol já fez. Mas é mesmo uma certa instrospecção que se coloca suavemente sobre o disco como um todo, mostrando o artista de forma mais completa, despindo-se das expectativas pré-concebidas para criar um so verdadeiramente criativo. Desde a abertura com “Only If You Run” e “Fun That We Have” já notamos que, apesar da guitarra que range na segunda faixa, há novidades na forma de arranjar as canções de Plenti. Ao passarmos por “Games For Days”, pesada e climática, vemos a pegada dark do Interpol dar um alô, mas nada que sobreviva à esquisitice de “Madrid Song”, ao folk de “On the Esplanade” ou ao clima de romance de “Girl on the Sporting News”. Plenti (ou Banks?) mostrou com “Julian Plenti is… Skyscraper” que andou nadando em outros mares. Fez bem ao rapaz.

Hope Sandoval & The Warm Inventions – Through the Devil Softly

A cara de menina, o jeitinho meigo e a voz que sussurra sensualidade entre cada palavra podem deixar você completamente atordoado, é melhor avisar. Foi assim na década de 90, quando a banda Mazzy Star, capitaneada por Hope Sandoval, era um dos destaques da cena alternativa debulhando o dream pop com uma graça estonteante. A banda, a bem da verdade, nunca acabou, mas não lança material nenhum desde 1996. Sandoval ainda fez alguns “bicos” aqui e ali, cantando com Death in Vegas, Jesus and Maty Chain, Chemical Brothers, Air e Massive Attack, antes de se juntar ao ex-My Bloody Valentine Colm Ó Ciosóg e formar o Hope Sandoval & The Warm Inventions. Em 2001, eles lançaram “Bavarian Fruit Bread”, e agora em 2009 estão de volta com o belo “Through the Devil Softly”, um disco sofisticado, chafurdado em uma melancolia gloriosa e produzido com um cuidado ímpar pelos próprios componentes. Baseado totalmente no folk, com arranjos delicados e uma falta de pressa tremenda, o segundo disco dessa dupla surpreende pela suavidade. A bateria tocada com vassourinha, toques de piano e xilofone, passagens conquistadoras de gaita e a espetacular sensualidade da voz de Sandoval são os trunfos deste trabalho, com destaque para as belíssimas “Wild Roses”, “Trouble”, “Blanchard” e “Lady Jessica and Sam”. Hope Sandoval, essa pequena notável, provou que não é apenas uma simples gota nesse caudaloso mar da música alternativa: é uma onda a ser admirada.

Notinhas

Indie Rock Festival zicado

O Indie Rock Festival, que ano passado se dissolveu semanas antes de acontecer de verdade, tentou dar a volta por cima esse ano, mas já se deu mal. Anunciaram semana passada uma edição com Gogol Bordello, Cake, Mombojó e Holger para os dias 13 (Rio) e 16 (São Paulo) de novembro. Beleza, apesar dos pesares. Mas agora já tiveram que cancelar o Cake e o Mombojó. Parece que o Super Furry Animals vêm pro lugar dos americanos, só não arrumaram ainda substitutos pros brasileiros. Mas é impressionante. Ou os organizadores são deveras incompetentes, ou tem uma cabeça de burro enterrada embaixo do escritório deles. Tudo dá errado pro Indie Rock Festival.

Vários

E eis que os cabelos queimados de Michael Jackson, alguns fios que sobraram do acidente do cantor em 2984, vão a leilão. Topa rachar e comprar um tufo? /// Charlotte Gainsbourg liberou pra download a primeira faixa de seu novo disco, “IRM”, produzido por Beck, que tem o mesmo nome do álbum. /// O Elbow vai relançar seu primeiro disco, “Asleep in the Back”, com novas faixas, raridades e gravações ao vivo para a BBC. Bela pedida pros fãs da banda. /// O LCD Soundsystem anunciou o lançamento, meio que de surpresa, do primeiro single do futuro terceiro disco. “Bye Bye Bayou” sai em 24 de novembro, mas já tá facinho na internet. /// Agora, uma notícia triste: após 25 anos o grupo norueguês pop A-ha se separou. E, pleo jeito, deixou várias viúvas por aí.

Todo mundo tem que ouvir

Quando quatro grandes músicos se juntam para fazer um álbum, espera-se que esse trabalho seja grandioso. No caso do supergrupo Monsters of Folk, ele realmente é.

O disco homônimo traz de M. Ward do She & Him, Jim James do My Morning Jacket e Conor Oberst e Mike Mogis do Bright Eyes em grande forma, com faixas que mostram não apenas folk, mas também pop e country. Obrigatório.

Playlist

Uninhabitable Mansions – Big Kick

The Raveonettes – Suicide

A Perfect Circle – Orestes (acoustic version)

Evol – One Against All

Thom Yorke – Hearing Damage

Bon Iver & St. Vincent – Roslyn

Espers – Another Moon Song

Dirty Projectors – Stillness is the Move

Julian Casablancas – 11th Dimension

Sondre Lerche – Let My Love Open the Door

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