Coluna B, dia 03/10

Com atraso, mas honesta. =)

Anos 90 feellings: Alice In Chains
No final dos anos 80, alguém precisava salvar o rock da mesmice. Há tempos a coisa andava meio modorrenta, nada estava saindo muito bom, a imensa maioria das bandas eram nada mais que um pastiche do que um dia foram. No meio do nada, na chuvosa cidade de Seattle, nos EUA, uma cena começou a dar sinal de que alguma coisa poderia mudar. O bafafá era em torno de uma série de bandas independentes locais que usavam as guitarras em volume estridente e uma certa atitude punk retraída para falar das frustrações do dia-a-dia, de amores que nunca aconteceram e de como o futuro parecia pouco animador. A esse movimento, deu-se o nome de Grunge.
Há pessoas que veem o grunge como um estilo musical, mas sou contra essa visão. Para mim, o grunge é mesmo um movimento que abarcava bandas que tinham lá suas coisas em comum, mas que, no final de tudo, eram diferentes entre si. Se por um lado havia a turma que se atraía mais pelo punk, com um som sujo e gritado (Mudhoney, Nirvana e L7), por outro estavam os que puxavam influências do heavy metal e do hard rock, com melodias doces feitas por guitarras pesadas e vocal gritado (Alice In Chains, Soundgarden, Mad Season, Temple of the Dog), e na outra ponta as bandas que se resguardavam no rock americano e inglês setentista, tendo Who, Neil Young e Rolling Stones como deuses-mor (Pearl Jam, Screaming Trees, Stone Temple Pilots). Em comum, as bandas carregavam na depressão das mensagens e no uso de drogas, e guardavam profundo apreço pela formação clássica de guitarras, baixo, bateria e vocal.
O Alice In Chains se destacou como uma das principais bandas do período. Talvez, na medição de popularidade, fique atrás apenas de Nirvana, a grande responsável pelo estouro do grunge, e Pearl Jam, que até hoje se mantém na ativa e com a moral de ser um dos maiores grupos de rock de todos os tempos. Com a presença de uma fantástica dupla de vocalistas, Layne Staley e Jerry Cantrell, além de um conjunto de instrumentistas afiados e com um senso de melodia e peso fora do comum, o Alice In Chains começou sua epopéia em 1987 e havia lançado apenas três álbuns antes da morte de Staley, vocalista e principal letrista da banda, em 2002, de overdose. A perda foi grande, mas mesmo antes, devido ao seu problema com drogas, a banda já se encontrava num beco sem saída, sem gravar há anos e aparentemente relegada ao ostracismo. Mas 2009 vai ficar marcado como o ano do ressurgimento do grupo, e com um disco que surpreendeu muita gente.
“Black Gives Way To Blue” apresenta William DuVall, o novo vocalista a fazer par com Cantrell. DuVall já toca com a banda desde 2007, e é bom que se diga: ele não quer se parecer com o Staley, e nem tenta imitá-lo. O estilo próprio do cantor, que também faz parte da obscura banda Comes With The Fall, fez o Alice In Chains crescer, deu fôlego ao grupo. O resultado é um disco pesado como nunca se viu, ainda apresentando um universo dark que resvala na morbidez vez ou outra, e mostra uma banda totalmente em forma. Coeso e cheio de grandes canções, “Black Gives Way To Blue” só cresce com as seguidas audições. Destacam-se muita guitarra estourando na cabeça, estruturas alongadas se arrastando pelas lindas melodias que são a cara de Jerry Cantrell, e as vozes cortantes dos vocalistas, que tão bem casam com a força enegrecida dos arranjos da banda.
É claro que não é só isso – afinal, estamos falando do Alice In Chains, banda que se sobressaiu no grunge também graças às maravilhosas baladas e aos sets acústicos de arrancar lágrimas. Até Elton John sabe disso, e talvez seja esse o motivo dele ter aceitado tocar piano e colocar um pouco de backing vocal na linda faixa-título, que fecha o disco homenageando Layne Staley e nos deixando completamente arrepiados. Já o estilo desplugado da banda é muito bem retratado na linda “Your Decision”, onde Cantrell discorre sobre a sua decisão de fazer o que quiser com a sua vida. Tanto no estilo quanto nas letras, é palpável a influência que a morte do antigo vocalista ainda representa para todos. “When The Sun Rose Again”, com percussões esquisitas e um climão de galera em volta de uma fogueira contando casos de terror, também se destaca pela tranquilidade.
Voltando ao som mais rasgado, “Black Gives Way To Blue” tem um punhado de canções que são capazes de emocionar os fãs mais antigos da banda. “Check My Brain” é hit total, grudenta, pesada e tão rápida quanto o Alice In Chains pode ser, em sua essência. Clássica. Ao lado dela, “A Looking In View”, de mais de 7 minutos, tem as guitarras de um Black Sabbath e a crueza do Soundgarden, mas é um autêntico produto AIC, assim como a densa e arrastada “Acid Bubble” e a esperta “Lesson Learned”, que trazem à vida os “yeah!” tão famosos de Staley e Cantrell e um belo jogo de vozes. Se “Last of My Kind” reverbera uma dinâmica mais próxima ao heavy metal, “All Secrets Known”, que abre o disco, não deixa de ser um ótimo exemplo de como este renovado Alice In Chains não foge às mudanças, ainda que permaneça fiel às raízes. O mundo muda. Do começo dos anos 90 pra cá, muita coisa aconteceu, a música se transformou. Mas há algo que sempre será inegável: o que é bom de verdade, sobrevive às piores tormentas. O Alice In Chains sobreviveu, e “Black Gives Way To Blue” é a prova de que valeu a pena esperar.
Notinhas
“Março 2010” é o novo “março 2009”
Parece mesmo que as coisas estão mudando. Antes, a dobradinha outubro-novembro era o período de ouro dos shows internacionais no Brasil. Agora, os primeiros meses do ano estão pegando esse título pra eles. Veja março, esse abençoado mês. Se 2008 teve Interpol, 2009
teve nada menos que Radiohead. E 2010, reserva algo de bom? Claro que sim. Anota aí: quatro shows do Franz Ferdinand (Rio, Sampa, Porto Alegre e Brasília, entre os dias 18 e 23), mais dois do Coldplay (Rio, 28/02, e SP, 02/03), e inclui pra mim a abertura da incrível Bat For Lashes pro show de Chris Martin e amigos. Curtiu? Então se prepara: os ingressos do FF começam a ser vendidos esse mês, a partir do dia 19 – já para a imperdível dobradinha Coldplay + Bat For Lashes, a data a ser marcada pra tirar o dinheiro do bolso é 7 de novembro.
Novidades variadas
Semana agitada. Começou com Thom Yorke anunciando uma nova banda pra tocar seu material solo, com ninguém menos que o baixista Flea e um brasileiro, Mauro Refosco, na parada. Depois, a notícia que “Rehab” foi considerada a música mais influente da década pelo jornal inglês “The Telegraph”. Beleza, concordo, mas acho que “Yellow”, do Coldplay, merecia uma posição melhor. Afinal, olha a quantidade de bandas “tipo Coldplay” que vieram depois? E agora o Phoenix anuncia um imperdível disco de remixes para o excelente “Wolfgang Amadeus Phoenix”, com trabalhos de Passion Pit, Friendly Fires, Devendra Banhart, YACHT e Animal Collective, entre outros. Quer mais? Os lançamentos de Wolfmother, Julian Casablancas, The Sunshine Underground, Ben Gibbard (Death Cab For Cutie), Weezer e Air estão na pinta pra sair, se liga.
Todo mundo tem que ouvir
Eu já tinha até esquecido da existência deles quando, 4 anos depois, resolveram lançar disco novo. Ainda bem que me lembrei, porque o Engineers é uma banda pra lá de sensacional.
O novo disco desses britânicos que misturam lo-fi ao dream pop e ao shoegaze se chama “Three Fact Fader”, e é uma belezinha. Trata de correr atrás do Engineers novo, senão vai ficar pra trás.
Playlist
The Black Heart Procession – Rats
The Rosewood Thieves – Junkyard Julie
Xx – Intro
Karen O and the Kids – Heads Up
Girls – Big Bad Mean Mother Fucker
Radiohead – I Will
Epic45 – The Future is Blinding
Florence + the Machine – You’ve Got the Love (The Xx Remix)
Sonic Youth – Antenna
Vivian Girls – I’m Not Asleep

Anos 90 feellings: Alice In Chains

No final dos anos 80, alguém precisava salvar o rock da mesmice. Há tempos a coisa andava meio modorrenta, nada estava saindo muito bom, a imensa maioria das bandas eram nada mais que um pastiche do que um dia foram. No meio do nada, na chuvosa cidade de Seattle, nos EUA, uma cena começou a dar sinal de que alguma coisa poderia mudar. O bafafá era em torno de uma série de bandas independentes locais que usavam as guitarras em volume estridente e uma certa atitude punk retraída para falar das frustrações do dia-a-dia, de amores que nunca aconteceram e de como o futuro parecia pouco animador. A esse movimento, deu-se o nome de Grunge.

Há pessoas que veem o grunge como um estilo musical, mas sou contra essa visão. Para mim, o grunge é mesmo um movimento que abarcava bandas que tinham lá suas coisas em comum, mas que, no final de tudo, eram diferentes entre si. Se por um lado havia a turma que se atraía mais pelo punk, com um som sujo e gritado (Mudhoney, Nirvana e L7), por outro estavam os que puxavam influências do heavy metal e do hard rock, com melodias doces feitas por guitarras pesadas e vocal gritado (Alice In Chains, Soundgarden, Mad Season, Temple of the Dog), e na outra ponta as bandas que se resguardavam no rock americano e inglês setentista, tendo Who, Neil Young e Rolling Stones como deuses-mor (Pearl Jam, Screaming Trees, Stone Temple Pilots). Em comum, as bandas carregavam na depressão das mensagens e no uso de drogas, e guardavam profundo apreço pela formação clássica de guitarras, baixo, bateria e vocal.

O Alice In Chains se destacou como uma das principais bandas do período. Talvez, na medição de popularidade, fique atrás apenas de Nirvana, a grande responsável pelo estouro do grunge, e Pearl Jam, que até hoje se mantém na ativa e com a moral de ser um dos maiores grupos de rock de todos os tempos. Com a presença de uma fantástica dupla de vocalistas, Layne Staley e Jerry Cantrell, além de um conjunto de instrumentistas afiados e com um senso de melodia e peso fora do comum, o Alice In Chains começou sua epopéia em 1987 e havia lançado apenas três álbuns antes da morte de Staley, vocalista e principal letrista da banda, em 2002, de overdose. A perda foi grande, mas mesmo antes, devido ao seu problema com drogas, a banda já se encontrava num beco sem saída, sem gravar há anos e aparentemente relegada ao ostracismo. Mas 2009 vai ficar marcado como o ano do ressurgimento do grupo, e com um disco que surpreendeu muita gente.

“Black Gives Way To Blue” apresenta William DuVall, o novo vocalista a fazer par com Cantrell. DuVall já toca com a banda desde 2007, e é bom que se diga: ele não quer se parecer com o Staley, e nem tenta imitá-lo. O estilo próprio do cantor, que também faz parte da obscura banda Comes With The Fall, fez o Alice In Chains crescer, deu fôlego ao grupo. O resultado é um disco pesado como nunca se viu, ainda apresentando um universo dark que resvala na morbidez vez ou outra, e mostra uma banda totalmente em forma. Coeso e cheio de grandes canções, “Black Gives Way To Blue” só cresce com as seguidas audições. Destacam-se muita guitarra estourando na cabeça, estruturas alongadas se arrastando pelas lindas melodias que são a cara de Jerry Cantrell, e as vozes cortantes dos vocalistas, que tão bem casam com a força enegrecida dos arranjos da banda.

É claro que não é só isso – afinal, estamos falando do Alice In Chains, banda que se sobressaiu no grunge também graças às maravilhosas baladas e aos sets acústicos de arrancar lágrimas. Até Elton John sabe disso, e talvez seja esse o motivo dele ter aceitado tocar piano e colocar um pouco de backing vocal na linda faixa-título, que fecha o disco homenageando Layne Staley e nos deixando completamente arrepiados. Já o estilo desplugado da banda é muito bem retratado na linda “Your Decision”, onde Cantrell discorre sobre a sua decisão de fazer o que quiser com a sua vida. Tanto no estilo quanto nas letras, é palpável a influência que a morte do antigo vocalista ainda representa para todos. “When The Sun Rose Again”, com percussões esquisitas e um climão de galera em volta de uma fogueira contando casos de terror, também se destaca pela tranquilidade.

Voltando ao som mais rasgado, “Black Gives Way To Blue” tem um punhado de canções que são capazes de emocionar os fãs mais antigos da banda. “Check My Brain” é hit total, grudenta, pesada e tão rápida quanto o Alice In Chains pode ser, em sua essência. Clássica. Ao lado dela, “A Looking In View”, de mais de 7 minutos, tem as guitarras de um Black Sabbath e a crueza do Soundgarden, mas é um autêntico produto AIC, assim como a densa e arrastada “Acid Bubble” e a esperta “Lesson Learned”, que trazem à vida os “yeah!” tão famosos de Staley e Cantrell e um belo jogo de vozes. Se “Last of My Kind” reverbera uma dinâmica mais próxima ao heavy metal, “All Secrets Known”, que abre o disco, não deixa de ser um ótimo exemplo de como este renovado Alice In Chains não foge às mudanças, ainda que permaneça fiel às raízes. O mundo muda. Do começo dos anos 90 pra cá, muita coisa aconteceu, a música se transformou. Mas há algo que sempre será inegável: o que é bom de verdade, sobrevive às piores tormentas. O Alice In Chains sobreviveu, e “Black Gives Way To Blue” é a prova de que valeu a pena esperar.

Notinhas

“Março 2010” é o novo “março 2009”

Parece mesmo que as coisas estão mudando. Antes, a dobradinha outubro-novembro era o período de ouro dos shows internacionais no Brasil. Agora, os primeiros meses do ano estão pegando esse título pra eles. Veja março, esse abençoado mês. Se 2008 teve Interpol, 2009 teve nada menos que Radiohead. E 2010, reserva algo de bom? Claro que sim. Anota aí: quatro shows do Franz Ferdinand (Rio, Sampa, Porto Alegre e Brasília, entre os dias 18 e 23), mais dois do Coldplay (Rio, 28/02, e SP, 02/03), e inclui pra mim a abertura da incrível Bat For Lashes pro show de Chris Martin e amigos. Curtiu? Então se prepara: os ingressos do FF começam a ser vendidos esse mês, a partir do dia 19 – já para a imperdível dobradinha Coldplay + Bat For Lashes, a data a ser marcada pra tirar o dinheiro do bolso é 7 de novembro.

Novidades variadas

Semana agitada. Começou com Thom Yorke anunciando uma nova banda pra tocar seu material solo, com ninguém menos que o baixista Flea e um brasileiro, Mauro Refosco, na parada. Depois, a notícia que “Rehab” foi considerada a música mais influente da década pelo jornal inglês “The Telegraph”. Beleza, concordo, mas acho que “Yellow”, do Coldplay, merecia uma posição melhor. Afinal, olha a quantidade de bandas “tipo Coldplay” que vieram depois? E agora o Phoenix anuncia um imperdível disco de remixes para o excelente “Wolfgang Amadeus Phoenix”, com trabalhos de Passion Pit, Friendly Fires, Devendra Banhart, YACHT e Animal Collective, entre outros. Quer mais? Os lançamentos de Wolfmother, Julian Casablancas, The Sunshine Underground, Ben Gibbard (Death Cab For Cutie), Weezer e Air estão na pinta pra sair, se liga.

Todo mundo tem que ouvir

Eu já tinha até esquecido da existência deles quando, 4 anos depois, resolveram lançar disco novo. Ainda bem que me lembrei, porque o Engineers é uma banda pra lá de sensacional.

O novo disco desses britânicos que misturam lo-fi ao dream pop e ao shoegaze se chama “Three Fact Fader”, e é uma belezinha. Trata de correr atrás do Engineers novo, senão vai ficar pra trás.

Playlist

The Black Heart Procession – Rats

The Rosewood Thieves – Junkyard Julie

Xx – Intro

Karen O and the Kids – Heads Up

Girls – Big Bad Mean Mother Fucker

Radiohead – I Will

Epic45 – The Future is Blinding

Florence + the Machine – You’ve Got the Love (The Xx Remix)

Sonic Youth – Antenna

Vivian Girls – I’m Not Asleep

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