Coluna B, dia 26/09

Por questões de espaço no jornal, a Coluna B do último sábado foi uma das mais picotadas que eu já vi, hehe. Normal. Mas, aqui no blog, coloco o texto completo. Lá vai.

Anos 90 feellings: Pearl Jam
Nasci em 1981, às três da manhã de um dia de janeiro, no calor sagrado de Cachoeiro de Itapemirim. No começo da década seguinte estava, portanto, começando a formar minha personalidade, meu caráter, meus gostos e preferências. Os anos 90 foram responsáveis por várias mudanças no mundo, mas, para mim, o que essa década mudou mesmo foi a minha vida. O fim da Guerra Fria, o crescimento da internet e o impeachment do Collor são colocados lado a lado com os dias em que ganhei meu último vinil e meu primeiro CD, o fim da minha infância e o meu primeiro beijo, e a descoberta de um movimento que ajudaria a traduzir quem eu sou hoje: o grunge.
Naquele tempo, era difícil conseguir novidades. Trocávamos não arquivos de MP3, mas fitas K-7 com gravações toscas de rádios, discos e até gravadores caseiros. No interior, então, o trabalho era hercúleo. Assim, a chegada das bandas de Seattle (principalmente Pearl Jam, Nirvana e Alice in Chains) na minha vida foi marcante ao ponto de eu estampar na própria pele a importância delas na minha vida. E, agora, de uma maneira meio esquisita e desafiadora, algumas destas bandas estão de volta ao meu dia-a-dia. Na semana passada, me senti novamente com 14 anos: tinha em mãos “Backspacer”, nono disco de estúdio do Pearl Jam, e “Black Gives Way To Blue”, a volta do Alice In Chains. Mas e agora? Em que forma estão, no fim dos anos 2000, duas das maiores bandas dos anos 90? Leia agora meu parecer sobre o álbum do Pearl Jam e, na semana que vem, volte para ver tudo sobre a nova investida do Alice in Chains.
A crítica musical internacional anda empolgada com “Backspacer”. Eu também estou curtindo muito o disco. Mas, em uma breve passeada pelos sites mais bacanas, é fácil perceber que os motivos que fazem com que os gringos saúdem este álbum como o melhor da banda nesta década são diferentes dos meus. Além disso, não sei se já podemos incluir este nono disco da banda de Eddie Vedder entre os melhores do grupo. Trata-se, sim, de um grande álbum, bastante competente em sua missão de mostrar a banda mais leve, mais divertida, menos preocupada com a (imensa) responsabilidade de agradar tanto aos fãs mais antigos quanto os novos.
“Backspacer” conta com várias faixas acima da média, umas poucas maravilhosas e outras aqui e ali que, apesar de terem notável força, já não me cativam tanto. Até porque, diferente da maioria dos críticos que citei, não espero nem nunca esperei a volta do Pearl Jam ao estilo do começo de carreira. Enquanto lá fora há sempre alguém aguardando um novo “Vitalogy” (1994), talvez o disco mais punk da carreira da banda, eu já estou muito mais pro lado alternativo de “No Code” (1996) e “Yield” (1998), discos em que a banda realmente mostrou a qualidade indiscutível de seus músicos e a capacidade de inovar, ainda que permanecendo fiel às suas origens. Hoje, o Pearl Jam não é mais nem uma coisa nem outra. A banda assumiu a verve do rock n’ roll clássico, tal qual um The Who dos anos 2000, ou um Bruce Springsteen da nova geração – e talvez Vedder, um eterno combatente no mundo da música, até goste de ser o novo “Boss” dessa turma que tem o Twitter como principal veículo de informação.
Mas uma coisa é bom que se diga, fãs da banda de Seattle: há aqui música para todos os gostos. As primeiras quatro faixas de “Backspacer” são dedicadas ao punk rock. É pancada na cabeça com as três guitarras de Vedder, Mike McCready e Stone Gossard afiadas no corte. A poderosa “Gonna See My Friend” traz um Matt Cameron quebrando tudo na bateria em uma das mais empolgantes faixas lançadas pela banda ultimamente. “Got Some”, composta pelo baixista Jeff Ament, é um tantinho menos frenética e tem belos solos de guitarra espalhados pela faixa. Já “The Fixer”, primeiro single da banda, é o tipo de canção que cresce com o tempo. A levada de rock conta com uma linha de baixo bem interessante e um refrão grudento que só. “Johnny Guitar” completa a parcela divertida e despreocupada do disco e, assim como a proto-punk “Supersonic”, perdida lá no meio da segunda metade, está inserida na parte menos empolgante de “Backspacer”.
Para quem gostou do disco solo de Eddie Vedder, “Into the Wild”, trilha para o filme de Sean Penn de mesmo nome, há aqui grandes surpresas. Por sorte, a banda digeriu bem a nova faceta do vocalista e líder do grupo, ajudando que ele criasse a joia “Just Breathe”. Violões dedilhados, um teclado disfarçado, um jogo de cordas esparsas, a voz calma e uma letra matadora sobre alguém que está à beira da morte e repensa toda a vida – detalhes que se amarram para construir uma das mais belas faixas da carreira do Pearl Jam, e eu não tenho o menor problema em afirmar isso. É essa faixa que abre o caminho do grupo para um lado menos linear (e mais agradável) de “Backspacer”. Cabem aqui as duas faixas seguintes – “Amongst the Waves”, com uma estrutura cheia de pequenas fissuras e lindas melodias, e “Unthought Known”, uma das melhores do álbum, que começa suave e vai ganhando força (e uma consistente camada de piano) – e a derradeira, “The End”, um lindo folk melancólico que também lembra a fase solo de Vedder. Fechando a conta, a balada “Speed of Sound” tem melodias bem trabalhadas e remete a algumas músicas do incrível “Vs”, e “Force of Nature” é mais uma bela canção que o Who ou Springsteen teriam tido prazer em fazer. Por fim, “Backspacer”, entre grandes acertos e pequenos deslizes, é o Pearl Jam vivo, eloquente, mais pop do que nunca, dando aos órfãos dos anos 90 algo com que se lambuzar por um bom tempo.
Notinhas
Anos 90 agora (ainda?)
Ainda. É que as coisas andam fugindo do controle de tão absurdas. Veja o exemplo do Pavement, banda classe A da cena underground dos anos 90. Os caras resolveram voltar pra fazer somente um show – deviam estar com as contas atrasadas. Aí colocaram à venda os ingressos e acabou em minutos. Detalhe: o show será em setembro de 2010. Sim, daqui a um ano. Stephen Malkmus e cia resolveram aproveitar para fazer uma poupança, além de pagar as contas, e abriram mais 3 datas na sequência. Todas já esgotadas. Além disso, o Flaming Lips tá com disco novo quebrando por aí, já considerado um dos melhores do ano por quem ouviu. E “The Resistance”, novo do Muse, está em primeiro lugar nas paradas de diversos países.  Quer mais? O Slash, ex-Guns, avisou que está gravando com o arroz de festa (mas só festa boa, né) Dave Grohl e com seu ex-companheiro de banda, Duff McKagan (que, aliás, vem ao Maquinaria com sua nova banda, Loaded). O disco sai no começo do ano que vem e não duvido nada que seja bom. Tá entendendo a força desse revival ou não?
Vampiros, amores e música
Eu acho a série vampiresca “Crepúsculo” uma grande porcaria, falo logo. Mas a produção de trilha sonora para o novo filme, “Lua Nova”, é algo marcante. Estarão presentes Death Cab For Cutie, Grizzly Bear, Thom Yorke, Editors, Killers, Lykke Li, Bon Iver junto com St. Vincente e Black Rebel Motorcycle Club, todos com faixas inéditas feitas especialmente pro filme. E ainda tem o Muse e outras, com faixas já lançadas. A briga pela melhor trilha sonora do ano vai ser com o aguardadíssimo “500 Dias Com Ela”, novo da Zooey Deschanel que estreia aqui lá pra novembro e tem muita coisa dos Smiths, além de Regina Spektor, Black Lips, Belle & Sebastian, Jack Peñate, entre outros. Brinca.
Todo mundo tem que ouvir
Sim, continuamos a saga dos anos 90 com o lançamento de “Black Gives Way To Blue”, novo disco do Alice in Chains após quase oito anos afastados, desde a morte de Layne Staley.
Com a formação original mais William DuVall, novo vocal, a banda chega mais pesada do que nunca, mas mantendo intacta a melancolia e o clima pessimista que fizeram a fama do Alice in Chains na década passada. Imperdível.
Playlist
Kings of Convenience – Freedom and It’s Owner
Sufjan Stevens – Year of the Sheep
The Invisible – Baby Doll
Jennie Sadler – Kept Inside
Megafaun – Solid Ground
The Xx – Basic Space
HEALTH – In Heat
Destroyer – Bay of Pigs
Japandriods – Wet Hair
Laura Jansen – Use Somebody

Anos 90 feellings: Pearl Jam

Nasci em 1981, às três da manhã de um dia de janeiro, no calor sagrado de Cachoeiro de Itapemirim. No começo da década seguinte estava, portanto, começando a formar minha personalidade, meu caráter, meus gostos e preferências. Os anos 90 foram responsáveis por várias mudanças no mundo, mas, para mim, o que essa década mudou mesmo foi a minha vida. O fim da Guerra Fria, o crescimento da internet e o impeachment do Collor são colocados lado a lado com os dias em que ganhei meu último vinil e meu primeiro CD, o fim da minha infância e o meu primeiro beijo, e a descoberta de um movimento que ajudaria a traduzir quem eu sou hoje: o grunge.

Naquele tempo, era difícil conseguir novidades. Trocávamos não arquivos de MP3, mas fitas K-7 com gravações toscas de rádios, discos e até gravadores caseiros. No interior, então, o trabalho era hercúleo. Assim, a chegada das bandas de Seattle (principalmente Pearl Jam, Nirvana e Alice in Chains) na minha vida foi marcante ao ponto de eu estampar na própria pele a importância delas na minha vida. E, agora, de uma maneira meio esquisita e desafiadora, algumas destas bandas estão de volta ao meu dia-a-dia. Na semana passada, me senti novamente com 14 anos: tinha em mãos “Backspacer”, nono disco de estúdio do Pearl Jam, e “Black Gives Way To Blue”, a volta do Alice In Chains. Mas e agora? Em que forma estão, no fim dos anos 2000, duas das maiores bandas dos anos 90? Leia agora meu parecer sobre o álbum do Pearl Jam e, na semana que vem, volte para ver tudo sobre a nova investida do Alice in Chains.

A crítica musical internacional anda empolgada com “Backspacer”. Eu também estou curtindo muito o disco. Mas, em uma breve passeada pelos sites mais bacanas, é fácil perceber que os motivos que fazem com que os gringos saúdem este álbum como o melhor da banda nesta década são diferentes dos meus. Além disso, não sei se já podemos incluir este nono disco da banda de Eddie Vedder entre os melhores do grupo. Trata-se, sim, de um grande álbum, bastante competente em sua missão de mostrar a banda mais leve, mais divertida, menos preocupada com a (imensa) responsabilidade de agradar tanto aos fãs mais antigos quanto os novos.

“Backspacer” conta com várias faixas acima da média, umas poucas maravilhosas e outras aqui e ali que, apesar de terem notável força, já não me cativam tanto. Até porque, diferente da maioria dos críticos que citei, não espero nem nunca esperei a volta do Pearl Jam ao estilo do começo de carreira. Enquanto lá fora há sempre alguém aguardando um novo “Vitalogy” (1994), talvez o disco mais punk da carreira da banda, eu já estou muito mais pro lado alternativo de “No Code” (1996) e “Yield” (1998), discos em que a banda realmente mostrou a qualidade indiscutível de seus músicos e a capacidade de inovar, ainda que permanecendo fiel às suas origens. Hoje, o Pearl Jam não é mais nem uma coisa nem outra. A banda assumiu a verve do rock n’ roll clássico, tal qual um The Who dos anos 2000, ou um Bruce Springsteen da nova geração – e talvez Vedder, um eterno combatente no mundo da música, até goste de ser o novo “Boss” dessa turma que tem o Twitter como principal veículo de informação.

Mas uma coisa é bom que se diga, fãs da banda de Seattle: há aqui música para todos os gostos. As primeiras quatro faixas de “Backspacer” são dedicadas ao punk rock. É pancada na cabeça com as três guitarras de Vedder, Mike McCready e Stone Gossard afiadas no corte. A poderosa “Gonna See My Friend” traz um Matt Cameron quebrando tudo na bateria em uma das mais empolgantes faixas lançadas pela banda ultimamente. “Got Some”, composta pelo baixista Jeff Ament, é um tantinho menos frenética e tem belos solos de guitarra espalhados pela faixa. Já “The Fixer”, primeiro single da banda, é o tipo de canção que cresce com o tempo. A levada de rock conta com uma linha de baixo bem interessante e um refrão grudento que só. “Johnny Guitar” completa a parcela divertida e despreocupada do disco e, assim como a proto-punk “Supersonic”, perdida lá no meio da segunda metade, está inserida na parte menos empolgante de “Backspacer”.

Para quem gostou do disco solo de Eddie Vedder, “Into the Wild”, trilha para o filme de Sean Penn de mesmo nome, há aqui grandes surpresas. Por sorte, a banda digeriu bem a nova faceta do vocalista e líder do grupo, ajudando que ele criasse a joia “Just Breathe”. Violões dedilhados, um teclado disfarçado, um jogo de cordas esparsas, a voz calma e uma letra matadora sobre alguém que está à beira da morte e repensa toda a vida – detalhes que se amarram para construir uma das mais belas faixas da carreira do Pearl Jam, e eu não tenho o menor problema em afirmar isso. É essa faixa que abre o caminho do grupo para um lado menos linear (e mais agradável) de “Backspacer”. Cabem aqui as duas faixas seguintes – “Amongst the Waves”, com uma estrutura cheia de pequenas fissuras e lindas melodias, e “Unthought Known”, uma das melhores do álbum, que começa suave e vai ganhando força (e uma consistente camada de piano) – e a derradeira, “The End”, um lindo folk melancólico que também lembra a fase solo de Vedder. Fechando a conta, a balada “Speed of Sound” tem melodias bem trabalhadas e remete a algumas músicas do incrível “Vs”, e “Force of Nature” é mais uma bela canção que o Who ou Springsteen teriam tido prazer em fazer. Por fim, “Backspacer”, entre grandes acertos e pequenos deslizes, é o Pearl Jam vivo, eloquente, mais pop do que nunca, dando aos órfãos dos anos 90 algo com que se lambuzar por um bom tempo.

Notinhas

Anos 90 agora (ainda?)

Ainda. É que as coisas andam fugindo do controle de tão absurdas. Veja o exemplo do Pavement, banda classe A da cena underground dos anos 90. Os caras resolveram voltar pra fazer somente um show – deviam estar com as contas atrasadas. Aí colocaram à venda os ingressos e acabou em minutos. Detalhe: o show será em setembro de 2010. Sim, daqui a um ano. Stephen Malkmus e cia resolveram aproveitar para fazer uma poupança, além de pagar as contas, e abriram mais 3 datas na sequência. Todas já esgotadas. Além disso, o Flaming Lips tá com disco novo quebrando por aí, já considerado um dos melhores do ano por quem ouviu. E “The Resistance”, novo do Muse, está em primeiro lugar nas paradas de diversos países.  Quer mais? O Slash, ex-Guns, avisou que está gravando com o arroz de festa (mas só festa boa, né) Dave Grohl e com seu ex-companheiro de banda, Duff McKagan (que, aliás, vem ao Maquinaria com sua nova banda, Loaded). O disco sai no começo do ano que vem e não duvido nada que seja bom. Tá entendendo a força desse revival ou não?

Vampiros, amores e música

Eu acho a série vampiresca “Crepúsculo” uma grande porcaria, falo logo. Mas a produção de trilha sonora para o novo filme, “Lua Nova”, é algo marcante. Estarão presentes Death Cab For Cutie, Grizzly Bear, Thom Yorke, Editors, Killers, Lykke Li, Bon Iver junto com St. Vincente e Black Rebel Motorcycle Club, todos com faixas inéditas feitas especialmente pro filme. E ainda tem o Muse e outras, com faixas já lançadas. A briga pela melhor trilha sonora do ano vai ser com o aguardadíssimo “500 Dias Com Ela”, novo da Zooey Deschanel que estreia aqui lá pra novembro e tem muita coisa dos Smiths, além de Regina Spektor, Black Lips, Belle & Sebastian, Jack Peñate, entre outros. Brinca.

Todo mundo tem que ouvir

Sim, continuamos a saga dos anos 90 com o lançamento de “Black Gives Way To Blue”, novo disco do Alice in Chains após quase oito anos afastados, desde a morte de Layne Staley.

Com a formação original mais William DuVall, novo vocal, a banda chega mais pesada do que nunca, mas mantendo intacta a melancolia e o clima pessimista que fizeram a fama do Alice in Chains na década passada. Imperdível.

Playlist

Kings of Convenience – Freedom and It’s Owner

Sufjan Stevens – Year of the Sheep

The Invisible – Baby Doll

Jennie Sadler – Kept Inside

Megafaun – Solid Ground

The Xx – Basic Space

HEALTH – In Heat

Destroyer – Bay of Pigs

Japandriods – Wet Hair

Laura Jansen – Use Somebody

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s