Coluna B, dia 12/09

Quase esqueço de postar a coluna por aqui essa semana. Aí vai.

Sondre Lerche, o impressionante
Um artista impressionante é aquele de quem você espera tudo, e mesmo assim ele consegue te surpreender. Por mais que você o conheça, saiba bastante de sua carreira, o admire por tudo que fez, ainda assim ele dá um novo passo e te deixa ali, procurando pelas pistas que deixou passar. Apenas impressionado. Em sua não tão longa carreira, mas deveras proveitosa e cheia de grandes feitos, Sondre Lerche conseguiu surpreender seus mais fieis seguidores com discos que sempre fugiam do comum. Em “Heartbeat Radio”, o quinto álbum de sua carreira, é claro que isso acontece de novo.
Sorte a nossa. Para variar, a surpresa é boa. Lerche começou sua carreira aos 14 anos, tocando no clube em que sua irmã trabalhava, e por volta dessa mesma idade começou a compor. Considerado um prodígio, o menino norueguês logo foi alçado à condição de grande músico com o disco de estreia, o fantástico “Faces Down”, de 2001. Aos 19 anos, tornou-se uma estrela em seu país e ganhou manchetes pelo mundo com um som de lamber os beiços, misturando influências do pop sessentista com tons oitentistas, o tropicalismo brasileiro, arranjos acústicos e um senso de melodia perceptivelmente especial. As faixas “Modern Nature” e “No One’s Gonna Come”, sensacionais, são provas cabais da capacidade do artista de ir além.
O que se segue é história, e das boas. Lerche lançou no começo de 2004 o incrível “Two Way Monologue”, ousando mais nos arranjos e mandando algumas faixas diretamente para os anais da música pop dos anos 2000 – tais como “It’s Over”, “Track You Down”, “Stupid Memory” e “It’s Our Job”. No trabalho seguinte, ele formou uma banda (The Faces Down Quartet) e se saiu com um disco de jazz à lá Sinatra. Não há quem não tenha se impressionado com a capacidade do cantor de se reinventar, ainda que este álbum não esteja entre os grandes de sua carreira. E, para quem achava que a partir de 2006 o negócio era ser mais suave, no ano seguinte o agressivo – e adorável – “Phantom Punch” (que traz as maravilhosas “Tragic Mirror” e “The Tape”) fez o cantor, radicado atualmente em Nova Iorque, enfiar mais uma reviravolta no movimentado roteiro de sua carreira.
Ninguém sabia o que esperar de “Heartbeat Radio”, só se tinha em mente que estaria ali mais um disco de Sondre Lerche – alguma surpresa. Após passar pelo folk pop, pelo acid jazz e pelo proto-punk com desenvoltura ímpar, o cantor e compositor colocou no bolso tudo que já tinha visto, ouvido e feito, balançou, jogou pra cima, matou no peito e tirou da cartola mais um trabalho marcante. Agora, pode-se dizer que o pop sinfônico adentra a já extensa gama de estilos que Lerche domina com precisão, mas o disco traz muito mais do que isso. Trata-se de uma seleção bastante abrangente de sons, utilizando todos os tipos de música que ele produziu nesses quase 10 anos de carreira, com baladas certeiras, refrões mágicos e passagens sublimes.
“Heartbeat Radio”, ainda que seja lotado de grandes canções, não consegue superar os dois primeiros disco do artista. Mas chega bem perto quando mostra o quanto pode ser eclético com faixas como a animada “If Only”, ornamentada com percussão e batidas de hip hop entre as entradas de melodias pop perfeitas; a balada minimalista “Pioneer”, um presente construído no violão que a influência dos Beatles deixou para Lerche; “Don’t Look Now”, com um gingado sensacional e a presença de violinos ensandecidos; “Goodnight”, outra balada bem bonita, desta vez mais clássica e arranjadas com cordas de todos os tipos. Cada faixa traz uma particularidade que deixa óbvio o cuidado do compositor com sua obra, desde a introdução, passando por versos, pontes, refrão e encerramento: “Good Luck”, que abre o disco, é um exemplo bastante fiel desse cuidado.
Também fica fácil descobrir em “Heartbeat Radio” um certo desejo de Sondre Lerche: homenagear seus mestres. “Easy To Persuade” tem um pezinho nos anos 80, com aquela pegada que o A-HA tornou clássica. “I Cannot Let You Go” e “Words & Music” tem o cheiro do indefectível charuto de Elvis Costello espalhado por elas. “I Guess It’s Gonna Rain Today” tem o DNA do Beach Boys impresso nas notas, na levada e nas cordas muito bem colocadas desse lindo pop sinfônico. Sabendo quem são os mestres do cara fica até difícil dizer que a gente ainda consegue se impressionar com a qualidade inquestionável de Sondre Lerche. É certo que, com uma formação dessas, ele vai sempre se sair com algo mais bonito e mais bem feito do que a maioria. E olha que, como eu mesmo disse, “Heartbeat Radio” nem é o melhor disco do norueguês. Mas é uma bela peça para quem quer escutar música de qualidade e exercitar a capacidade de se surpreender sempre.
Notinhas
Planeta Terra: finalmente, algo de bom?
Quem lê essa coluna com alguma regularidade sabe que eu não tava nem um pouco animado com o Planeta Terra Festival desse ano. O desânimo de não ter grandes atrações tomava conta de mim. Mas, essa semana, um luz surgiu no fim do túnel. Há fortíssimas especulações de que Kings of Leon e Yeah Yeah Yeahs estejam acertados para o festival. Até o fechamento dessa coluna nada tinha sido divulgado oficialmente, mas o blog Popload, que costuma ter fontes seguras, bancava os dois ao lado das novas últimas confirmações, Sonic Youth e Patrick Wolf. Aí, sim, o Planeta Terra começa a valer a pena. E lembre-se: os ingressos já estão sendo vendidos.
Várias
O incrível projeto Rain Down (radioheadraindown.blogspot.com), onde um rapaz de 22 anos recriou todo o show paulista do Radiohead utilizando vídeos do YouTube, já está disponível pra download. /// O resultado do Mercury Prize desse ano foi surpreendente: a nem um pouco badalada Speech Debelle, rapper britânica, ficou com o trofeuzinho despachando os comentadíssimos Florence + The Machine, Horrors, Kasabian, La Roux, Bat For Lashes, entre outros. /// “IRM” é o nome do disco que une Charlotte Gainsbourg e Beck. Diferente do que se pensa, não é um disco da filha de Serge produzido pelo rapaz: é um álbum em dupla. /// No começo de outubro, disco novo do Editors já vai estar triscando as prateleiras. Fique ligado. /// Você viu os novos iPods? Fiquei feliz com o nano com câmera de vídeo, mas ainda mais feliz com a volta do iPod Classic 160Gb. Vou querer um! /// Quem pinta no Brasil em outubro é o Prodigy. Olá, anos 90. Quanto tempo!
Todo mundo tem que ouvir
O Leaves, desconhecida banda da Islândia de quem não me canso de falar, é possivelmente o grupo mais injustiçado do mundo. Mas há uma nova chance: “We Are Shadows”, o novo disco.
É verdade que a banda não repete a qualidade extra-terrena de “Breathe”, seu indescritível primeiro disco, mas consegue belos resultados com faixas em que elevam o rock a novas plataformas. Ouça agora.
Playlist
Ramona Falls – Melectric
The Fiery Furnaces – Cut the Cake
The XX – VCR
Simian Mobile Disco – Synthesise
The Hoosiers – Killer
Bibio – Fire Ant
Blue Roses – Doubtful Comforts
Hope Sandoval & The Warm Inventions – Satellite
Epic45 – We Were Never Here
The Big Pink – She’s No Sense

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Também fica fácil descobrir em “Heartbeat Radio” um certo desejo de Sondre Lerche: homenagear seus mestres. “Easy To Persuade” tem um pezinho nos anos 80, com aquela pegada que o A-HA tornou clássica. “I Cannot Let You Go” e “Words & Music” tem o cheiro do indefectível charuto de Elvis Costello espalhado por elas. “I Guess It’s Gonna Rain Today” tem o DNA do Beach Boys impresso nas notas, na levada e nas cordas muito bem colocadas desse lindo pop sinfônico. Sabendo quem são os mestres do cara fica até difícil dizer que a gente ainda consegue se impressionar com a qualidade inquestionável de Sondre Lerche. É certo que, com uma formação dessas, ele vai sempre se sair com algo mais bonito e mais bem feito do que a maioria. E olha que, como eu mesmo disse, “Heartbeat Radio” nem é o melhor disco do norueguês. Mas é uma bela peça para quem quer escutar música de qualidade e exercitar a capacidade de se surpreender sempre.
Notinhas

Planeta Terra: finalmente, algo de bom?

Quem lê essa coluna com alguma regularidade sabe que eu não tava nem um pouco animado com o Planeta Terra Festival desse ano. O desânimo de não ter grandes atrações tomava conta de mim. Mas, essa semana, um luz surgiu no fim do túnel. Há fortíssimas especulações de que Kings of Leon e Yeah Yeah Yeahs estejam acertados para o festival. Até o fechamento dessa coluna nada tinha sido divulgado oficialmente, mas o blog Popload, que costuma ter fontes seguras, bancava os dois ao lado das novas últimas confirmações, Sonic Youth e Patrick Wolf. Aí, sim, o Planeta Terra começa a valer a pena. E lembre-se: os ingressos já estão sendo vendidos.

Várias

O incrível projeto Rain Down (radioheadraindown.blogspot.com), onde um rapaz de 22 anos recriou todo o show paulista do Radiohead utilizando vídeos do YouTube, já está disponível pra download. /// O resultado do Mercury Prize desse ano foi surpreendente: a nem um pouco badalada Speech Debelle, rapper britânica, ficou com o trofeuzinho despachando os comentadíssimos Florence + The Machine, Horrors, Kasabian, La Roux, Bat For Lashes, entre outros. /// “IRM” é o nome do disco que une Charlotte Gainsbourg e Beck. Diferente do que se pensa, não é um disco da filha de Serge produzido pelo rapaz: é um álbum em dupla. /// No começo de outubro, disco novo do Editors já vai estar triscando as prateleiras. Fique ligado. /// Você viu os novos iPods? Fiquei feliz com o nano com câmera de vídeo, mas ainda mais feliz com a volta do iPod Classic 160Gb. Vou querer um! /// Quem pinta no Brasil em outubro é o Prodigy. Olá, anos 90. Quanto tempo!

Todo mundo tem que ouvir

O Leaves, desconhecida banda da Islândia de quem não me canso de falar, é possivelmente o grupo mais injustiçado do mundo. Mas há uma nova chance: “We Are Shadows”, o novo disco.

É verdade que a banda não repete a qualidade extra-terrena de “Breathe”, seu indescritível primeiro disco, mas consegue belos resultados com faixas em que elevam o rock a novas plataformas. Ouça agora.

Playlist

Ramona Falls – Melectric

The Fiery Furnaces – Cut the Cake

The XX – VCR

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Epic45 – We Were Never Here

The Big Pink – She’s No Sense

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Um comentário sobre “Coluna B, dia 12/09

  1. nossa deliciosamente bom seu post de ler *-*
    eu nem sabia do Sondre Lerche, mas já tinha ouvido umas musicas dele D: via entender OSUDHD. Já vou ouvir a play list *-* gostei muito do blog. Pena que nem vo no Prodigy :l eles são limdos rs.
    beijoks :*

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