Coluna B, 29/08

Os Esquecidos
Um dia, um lançamento deles foi algo realmente grande, que balançava muita gente. Já lotaram arenas, já foram eleitos a salvação do rock, já foram a última gota de criatividade da música alternativa. Mas alguma coisa mudou. Fala-se tão pouco nos últimos discos de Wilco, The Mars Volta e Nouvelle Vague que a sensação é a de que eles nem colocaram na praça nenhum novo trabalho nos últimos meses. Pior: dá a sensação de que essas bandas perderam boa parte de sua sedenta turba de fãs, outrora tão presentes. Teriam eles sido esquecidos?
A Coluna B pensa que não. E, na verdade, tem até um certo cuidado ao dizer isso, porque a gente sabe que não se brinca com fãs dessas bandas – principalmente os do Wilco, tão ciumentos que são. Os três grupos possuem uma base sólida de seguidores, sempre dispostos a defender seus músicos preferidos. Mas a gente precisa dizer a verdade: o grande problema com essas bandas hoje é que nenhuma delas lançou o seu melhor disco em 2009. Não que sejam discos ruins, e realmente não são, mas estão aquém do que já foi produzido em outras épocas.
O Mars Volta, que surgiu como uma dissidência da incensada At The Drive-in, teve seu grande momento logo na estreia. O discaço de 2003, “De-Loused In The Comatorium”, inesquecível, arrebatou completamente quem curte rock alternativo. Hoje, no álbum “Octahedron”, lançado em junho, as estruturas enlouquecidas ainda estão lá. As letras esquisitas, os recursos de percussão e as guitarras arranhadas também – as últimas, agora convivem com o violão. A repetição eterna de arranjos e as músicas com mais de sete minutos também sobreviveram. O fato é que este álbum, apesar de trazer boas baladas como “Since We’ve Been Wrong” e “With Twilight As My Guide”, além de faixas mais rápidas com arranjos inspirados, como “Desperate Graves”, não consegue ir além do que já fez, e bem, nos dois primeiros discos. A sensação é de que algo faltou, aquele gostinho extra. Ainda assim, é preciso que se diga: “Octahedron” consegue ser melhor que os últimos dois discos, quase impossíveis de se ouvir, dessa dupla de malucos.
Projeto encabeçado pelos franceses Marc Collin e Olivier Libaux, o Nouvelle Vague só faz covers. A brincadeira da turma é pegar uma pá de músicas conhecidas, geralmente destaques das cenas punk, pós-punk e new wave, e transformar em algo próximo a uma bossa nova respirando ares dos anos 2000. O projeto começou em 2004, sempre recebendo grandes convidados e críticas positivas. O primeiro disco estourou com covers em lenta rotação de faixas como “Too Drunk To Fuck” e “Love Will Tear Us Apart”; o segundo trazia versões em bossa nova de “Dancing With Myself” e “Bela Lugosi’s Dead”. Já “3”, o terceiro lançamento do Nouvelle Vague, faz versões gostosas de “God Save The Queen”, “The American” e “Road To Nowhere”, dá uma cara mais suave a “Say Hello, Wave Goodbye” do Soft Cell e uma deliciosa roupagem folk a “Our Lips Are Sealed”, do The Go Go’s. Mas decepciona em outras faixas, manchando as características do Nouvelle Vague e tornando “3” um disco bom, mas algo irregular.
Para o seu sétimo disco de estúdio, o Wilco deu uma aliviada na barra. A começar por uma brincadeira simpática com a primeira faixa do trabalho: ela se chama “Wilco (The Song)”, não por acaso o mesmo nome do álbum, “Wilco (The Album)”, e, obviamente ainda mais não por acaso, da banda. Esse é apenas um exemplo de como os americanos vieram mais leves para este novo lançamento. Talvez seja por isso que “Wilco”, apesar de ser muito bom e da banda ter fervorosos seguidores, não tenha se tornado um assunto recorrente no mundo musical desde seu lançamento, em junho. Essa leveza pode não ter agradado tanto quanto a faceta mais dark da banda, de letras melancólicas sobre perdas e saudades insuportáveis. Mas há belíssimas composições neste disco novo, e que merecem, sim, serem escutadas e lembradas. A exultante combinação de violão e piano em “You Never Know” conquista de primeira, assim como a deliciosa “I’ll Fight”, que gruda sem dó na cabeça de quem a escuta uma vez só. Mas, ao final, fico me perguntando: se alguém realmente se esqueceu de “Wilco”, o disco do Wilco que começa com aquela música, “Wilco”, tá precisando tomar um remédio para memória.
Notinhas
Surpresinha
Primeiro o Arctic Monkeys anunciou um show surpresa no Brixton Academy, em Londres, e os cinco mil fãs tiveram uns 15 minutos para comprar e esgotar tudo. Depois, um dia antes da apresentação, que rolou na última quarta, disseram quem seria a banda de abertura: ninguém menos que o Them Crooked Vultures. Os caras tocaram nove músicas, e colocaram abaixo o local, antes do Acrtic Monkeys terminar de destruir tudo com seu novo show. Segundo o site da revista Rolling Stone, a noite foi histórica. Nem precisava dizer.
A guerra dos festivais
Tudo está mais claro agora. O Festival Maquinaria rola nos dias 7 e 8 de novembro, com a presença já garantida de Faith No More, Jane’s Addiction e Deftones. O Planeta Terra Festival, também no dia 7, já anunciou oficialmente Primal Scream, The Ting Tings, N.A.S.A., Copacabana Club, Móveis Coloniais de Acaju e Macaco Bong, mas juram que ainda faltam mais quatro atrações. Ambos em São Paulo, claro. E no mesmo dia, como você já percebeu. Mas, quer saber? Pra mim, nenhum dos dois pode receber aquele carimbo de “imperdível”. Faith No More certamente é um showzaço, The Ting Tings pode animar a galera, mas não basta. N.A.S.A. deve ser divertido e Jane’s Addiction e Primal Scream são grandes bandas, mas falta alguma coisa. Já o Deftones, pra mim, já passou. E as bandas nacionais, todas ótimas, podem ser vistas facilmente em outras oportunidades. Das duas, uma: ou trazem um par de bandas imperdíveis de verdade para cada um dos festivais (pelo menos pro Terra), ou vamos dar um jeito de unir esses dois eventos em um só. Aí, sim, pode dar samba.
Todo mundo tem que ouvir
Londrinos, todos com menos de 20 anos. Dois meninos, duas meninas, vocais se revezando em letras que mostram, mais ou menos como o som, a beleza que está inserida diretamente na tristeza.
Falo do Xx, banda que lançou agora em agosto seu disco de estreia, “Xx”. Para não falar demais, apenas digo: você precisa ouvir um dos discos mais bonitos deste ano. Corre.
Playlist
Neil Young – Ohio
Sondre Lerche – Goodnight
Taken By Trees – Anna
Radiohead – There There
Sian Alice Group – Longstrakt
Passion Pit – Sleepyhead
Sally Shapiro – Dying in Africa

The Decemberists – We Both

Go Down Together

The Dodos – Fools
Pearl Jam – Supersonic

Vez ou outra me perguntam porque o texto da coluna que coloco aqui é um pouco diferente da que sai no jornal. A resposta pode ser óbvia pra algumas pessoas, mas pra outras é bom que se explique: este é o texto original, o que sai no jornal recebe os cortes e edições do editor do Caderno 2. Beleza?


Os Esquecidos

Um dia, um lançamento deles foi algo realmente grande, que balançava muita gente. Já lotaram arenas, já foram eleitos a salvação do rock, já foram a última gota de criatividade da música alternativa. Mas alguma coisa mudou. Fala-se tão pouco nos últimos discos de Wilco, The Mars Volta e Nouvelle Vague que a sensação é a de que eles nem colocaram na praça nenhum novo trabalho nos últimos meses. Pior: dá a sensação de que essas bandas perderam boa parte de sua sedenta turba de fãs, outrora tão presentes. Teriam eles sido esquecidos?

A Coluna B pensa que não. E, na verdade, tem até um certo cuidado ao dizer isso, porque a gente sabe que não se brinca com fãs dessas bandas – principalmente os do Wilco, tão ciumentos que são. Os três grupos possuem uma base sólida de seguidores, sempre dispostos a defender seus músicos preferidos. Mas a gente precisa dizer a verdade: o grande problema com essas bandas hoje é que nenhuma delas lançou o seu melhor disco em 2009. Não que sejam discos ruins, e realmente não são, mas estão aquém do que já foi produzido em outras épocas.

O Mars Volta, que surgiu como uma dissidência da incensada At The Drive-in, teve seu grande momento logo na estreia. O discaço de 2003, “De-Loused In The Comatorium”, inesquecível, arrebatou completamente quem curte rock alternativo. Hoje, no álbum “Octahedron”, lançado em junho, as estruturas enlouquecidas ainda estão lá. As letras esquisitas, os recursos de percussão e as guitarras arranhadas também – as últimas, agora convivem com o violão. A repetição eterna de arranjos e as músicas com mais de sete minutos também sobreviveram. O fato é que este álbum, apesar de trazer boas baladas como “Since We’ve Been Wrong” e “With Twilight As My Guide”, além de faixas mais rápidas com arranjos inspirados, como “Desperate Graves”, não consegue ir além do que já fez, e bem, nos dois primeiros discos. A sensação é de que algo faltou, aquele gostinho extra. Ainda assim, é preciso que se diga: “Octahedron” consegue ser melhor que os últimos dois discos, quase impossíveis de se ouvir, dessa dupla de malucos.

Projeto encabeçado pelos franceses Marc Collin e Olivier Libaux, o Nouvelle Vague só faz covers. A brincadeira da turma é pegar uma pá de músicas conhecidas, geralmente destaques das cenas punk, pós-punk e new wave, e transformar em algo próximo a uma bossa nova respirando ares dos anos 2000. O projeto começou em 2004, sempre recebendo grandes convidados e críticas positivas. O primeiro disco estourou com covers em lenta rotação de faixas como “Too Drunk To Fuck” e “Love Will Tear Us Apart”; o segundo trazia versões em bossa nova de “Dancing With Myself” e “Bela Lugosi’s Dead”. Já “3”, o terceiro lançamento do Nouvelle Vague, faz versões gostosas de “God Save The Queen”, “The American” e “Road To Nowhere”, dá uma cara mais suave a “Say Hello, Wave Goodbye” do Soft Cell e uma deliciosa roupagem folk a “Our Lips Are Sealed”, do The Go Go’s. Mas decepciona em outras faixas, manchando as características do Nouvelle Vague e tornando “3” um disco bom, mas algo irregular.

Para o seu sétimo disco de estúdio, o Wilco deu uma aliviada na barra. A começar por uma brincadeira simpática com a primeira faixa do trabalho: ela se chama “Wilco (The Song)”, não por acaso o mesmo nome do álbum, “Wilco (The Album)”, e, obviamente ainda mais não por acaso, da banda. Esse é apenas um exemplo de como os americanos vieram mais leves para este novo lançamento. Talvez seja por isso que “Wilco”, apesar de ser muito bom e da banda ter fervorosos seguidores, não tenha se tornado um assunto recorrente no mundo musical desde seu lançamento, em junho. Essa leveza pode não ter agradado tanto quanto a faceta mais dark da banda, de letras melancólicas sobre perdas e saudades insuportáveis. Mas há belíssimas composições neste disco novo, e que merecem, sim, serem escutadas e lembradas. A exultante combinação de violão e piano em “You Never Know” conquista de primeira, assim como a deliciosa “I’ll Fight”, que gruda sem dó na cabeça de quem a escuta uma vez só. Mas, ao final, fico me perguntando: se alguém realmente se esqueceu de “Wilco”, o disco do Wilco que começa com aquela música, “Wilco”, tá precisando tomar um remédio para memória.

Notinhas

Surpresinha

Primeiro o Arctic Monkeys anunciou um show surpresa no Brixton Academy, em Londres, e os cinco mil fãs tiveram uns 15 minutos para comprar e esgotar tudo. Depois, um dia antes da apresentação, que rolou na última quarta, disseram quem seria a banda de abertura: ninguém menos que o Them Crooked Vultures. Os caras tocaram nove músicas, e colocaram abaixo o local, antes do Acrtic Monkeys terminar de destruir tudo com seu novo show. Segundo o site da revista Rolling Stone, a noite foi histórica. Nem precisava dizer.

A guerra dos festivais

Tudo está mais claro agora. O Festival Maquinaria rola nos dias 7 e 8 de novembro, com a presença já garantida de Faith No More, Jane’s Addiction e Deftones. O Planeta Terra Festival, também no dia 7, já anunciou oficialmente Primal Scream, The Ting Tings, N.A.S.A., Copacabana Club, Móveis Coloniais de Acaju e Macaco Bong, mas juram que ainda faltam mais quatro atrações. Ambos em São Paulo, claro. E no mesmo dia, como você já percebeu. Mas, quer saber? Pra mim, nenhum dos dois pode receber aquele carimbo de “imperdível”. Faith No More certamente é um showzaço, The Ting Tings pode animar a galera, mas não basta. N.A.S.A. deve ser divertido e Jane’s Addiction e Primal Scream são grandes bandas, mas falta alguma coisa. Já o Deftones, pra mim, já passou. E as bandas nacionais, todas ótimas, podem ser vistas facilmente em outras oportunidades. Das duas, uma: ou trazem um par de bandas imperdíveis de verdade para cada um dos festivais (pelo menos pro Terra), ou vamos dar um jeito de unir esses dois eventos em um só. Aí, sim, pode dar samba.

Todo mundo tem que ouvir

Londrinos, todos com menos de 20 anos. Dois meninos, duas meninas, vocais se revezando em letras que mostram, mais ou menos como o som, a beleza que está inserida diretamente na tristeza.

Falo do Xx, banda que lançou agora em agosto seu disco de estreia, “Xx”. Para não falar demais, apenas digo: você precisa ouvir um dos discos mais bonitos deste ano. Corre.

Playlist

Neil Young – Ohio

Sondre Lerche – Goodnight

Taken By Trees – Anna

Radiohead – There There

Sian Alice Group – Longstrakt

Passion Pit – Sleepyhead

Sally Shapiro – Dying in Africa

The Decemberists – We Both Go Down Together

The Dodos – Fools

Pearl Jam – Supersonic

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s