À Deriva

Normalmente, escrever sobre filmes, pra mim, não é uma obrigação. É quase um passatempo, não ganho nada colocando no papel meus pensamentos em relação a nenhuma obra cinematográfica. Aliás, ganho apenas a sensação de poder expressar o que aquele filme me trouxe – e isso já é o bastante.

Nesses tempos em que o Outernative está desativado não tenho feito nenhum review dos filmes que vejo, e olha que ando tendo o cinema como uma segunda casa, por este ou aquele motivo – cinema pra mim sempre foi mais do que duas horas de diversão, é alívio do dia-a-dia, claro, mas é também arte, sentimento, beleza, ideias e ideais. E tem sido um grande companheiro de uma solidão totalmente necessária e bem-vinda nos tempos atuais.

Mas, voltando ao assunto inicial, escrever sobre filmes nunca foi uma obrigação, mas há filmes em que o nó na garganta é tão bem construído que apenas se dissolve quando as palavras começam a se empilhar em um espaço em branco. São nesses filmes que sinto a obrigação de escrever alguma coisa, qualquer coisa que coloque pra fora o oceano de sensações que enfrentei e degluti há pouco mais de uma hora.

“À Deriva” é desses filmes. E é daqueles em que a beleza é tão grande, tão presente em praticamente todas as tomadas, que fica difícil analisá-lo como um filme – vem a mim muito mais como uma obra de arte, um quadro que te faz paralisar os movimentos instantaneamente. O cenário deslumbrante de Búzios ajuda muito. A fotografia amarelada de Ricardo Della Rosa, com aquela cor esvoaçante de pôr-do-sol tomando o filme de assalto, é de perder o fôlego. A câmera de Heitor Dhalia, sempre mostrando muito mais do que a gente poderia supor, entrega de bandeja uma história linda, um roteiro tão bem amarrado quanto cuidadoso com detalhes mínimos. Há que se reverenciar também a trilha sonora original de Antonio Pinto, com peças que nos afogam em um caudaloso mar de melancolia e beleza, e um universo amplamente escorado no impressionante figurino de Alexandre Herchcovitch.

É um retrato em sépia colorido dos anos 80 das descobertas, das incertezas, das possibilidades que não se realizam, das novas medidas tomadas, da preocupação, das vontades inalcançáveis, dos tapas na cara, do começo do fim. E o mar de Búzios se esparramando pela tela, quase como um personagem à parte, enchendo de maresia vidas que pareciam perfeitas, intocáveis. O brilho do sol nunca foi tão quente como em “À Deriva”. Em cada quadro quente, a cada mergulho no mar azul, em cada fio de barba mal feita, em cada gota de suor, em cada cubo de gelo no copo de uísque, em cada fio de cabelo que repousa nas costas da amante, a cada cheiro de novidade nos beijos e abraços adolescentes, em cada grão de areia e gota de água salgada, um agradecimento pela sensibilidade tocante do diretor e roteirista Heitor Dhalia.

Obrigado por nos mostrar tanta beleza em um mundo tão tomado de feiúras.
Obrigado por me dar de presente um dos filmes mais bonitos que já vi.
Obrigado por “À Deriva”.

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Um comentário sobre “À Deriva

  1. Ainda nao vi. Mas vc tá ligado q ele vem sendo muito criticado justamente por ter mais estética do q conteúdo, que, inclusive, parece ser chupado de “Chuva de Verão”, um filme europeu independente q passou em alguns festivais (e eu lembro q aluguei há uns 5 anos atrás). Enfim…só pra pensar. Ainda to curioso pra ver tb.

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