Coluna B, dia 8/08

O freio dos Monkeys
Vindos de Sheffield, na Inglaterra, os caras do Arctic Monkeys sempre tiveram uma fama de aceleradinhos. Há mais ou menos três anos, Alex Turner e sua turma tomaram conta do indie rock mundial com um disco que se destacava por aspectos como a qualidade das letras e, principalmente, a velocidade das músicas. Era quase como a invenção de um novo estilo. Turner cantava em ritmo aceleradíssimo canções com letras quilométricas que falavam da realidade dos jovens ingleses. O baterista impressionava pela mobilidade, como se tivesse doze braços de cada lado, e os riffs de guitarra pareciam cada vez mais difíceis de se acompanhar no assovio. “Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not” chegou rápido à internet, e em pouco tempo se tornou um dos discos mais marcantes da música atual.
Depois de um ano, o segundo álbum, “Favorite Worst Nightmare”, serviu para mostrar que o Arctic Monkeys era mais do que um cara correndo desesperadamente contra o tempo, com medo do que ia acontecer agora que sua adolescência estava indo embora. Eles também sabiam dosar os temperos, e músicas como “505” ou “If You Were There, Beware” eram as mais perfeitas provas desta nova faceta da banda. Mas não se engane: a velocidade estonteante ainda estava lá, e a forma como aquele disco começa, com as pancadas e bumbo de pedal duplo de “Brianstorm”, não me deixa mentir. As letras, ainda que um pouco menos juvenis, continuavam ditando o ritmo das coisas. A macacada seguia nervosa, sangue nos olhos e mãos, pés e bocas enviesadas pela rapidez da música.
Agora não. Com “Humbug”, terceiro disco da carreira, o Arctic Monkeys deu uma pisada violenta no freio, daquelas de afundar o pé no piso do carro. Pegaram o botãozinho da velocidade do grupo e giraram todo para trás, sem dó nem piedade. Aquele moleque com cara de maluco correndo a 100 km/h se transformou em um rapaz bem apessoado, cara de poucos amigos, cabelos desgrenhados e tocando os ombros forrados por um surrado paletó de linho, caminhando com certa desenvoltura pela principal avenida da música alternativa. Agora o Arctic Monkeys resolveu inovar seus arranjos, desenvolver suas composições para que fujam dos padrões e não sejam engolidos pelos seus próprios méritos.
Para conseguir esse resultado, a banda não mediu esforços na produção do disco. A maior parte das faixas que entraram no corte final – sete das dez, pra ser mais exato – foram produzidas por ninguém menos que Josh Homme, o mago do rock do século 21, dono do Queens of the Stone Age e presente com firmeza em projetos bacanudos como o Desert Sessions e o Eagles of Death Metal. As outras três também são de pedigree: James Ford, o homem por trás do Simian Mobile Disco e responsável pela produção do primeiro disco da banda, além do álbum realizado por Alex Turner em seu projeto paralelo e de “Myths Of Near Future”, do Klaxons, entre diversos outros álbuns que foram sucesso de crítica e público. Essa divisão de trabalhos gerou, curiosamente, um disco homogêneo, pesado, cinzento, que caminha pelas dez faixas como em busca de calor. E o encontra, afinal.
Em “My Propeller”, que abre o disco, uma sequência de bateria se faz acompanhada de dedilhados em uma guitarra cheia de efeitos. A voz de Turner soa moderna, derramada pela música com parcimônia, sem pressa, e só nesse primeiro contato já temos certeza absoluta de que o som do Arctic Monkeys não é o mesmo. E é esse mesmo sentimento que nos acompanha por todo o disco. É como um passeio por um lugar completamente desconhecido, onde você encontra pistas aqui e ali de que já estivera ali, mas nunca tem certeza disso. Parece algo que você já viu, mas não, não é, e “Crying Lightning”, que vem a seguir, corrobora esse pensamento. A pegada parece que vai decolar, mas se mantém lúgrube, com um pé no psicodélico, tornando o som dos Monkeys de agora uma versão com mais peso e menos velocidade do que era antes. “Dangerous Animals” quase retoma o ritmo dos discos anteriores, mas acaba se rendendo ao novo estilo dos macacos.
Algumas músicas são de rotação tão lentas que, apenas pelo comecinho, não dá nem pra saber que são da banda. “Secret Door” e “Cornerstone” são baladas suaves, com pitadas de psicodelia à lá Beatles aqui e ali, disfarçadas, mas marcantes – principalmente a segunda faixa citada. O velho Arctic Monkeys até coloca a cara à tapa com “Potion Approaching” e “Pretty Visitors”, as duas músicas mais rápidas do disco. Mas, talvez não por acaso, essas acelerações soem quase deslocadas no meio da freadas espalhadas pelas outras canções. São boas, mas acabam perdendo espaço para este novo Arctic Monkeys que é capaz de conduzir uma faixa como “The Jeweller’s Hands”, com quase seis minutos de duração, uma música anamórfica por natureza, entortada pelos novos conceitos que regem o grupo de Sheffield, empolgado com a maturidade e empolgante na sua densidade. Com a velocidade diminuída ao extremo, o Arctic Monkeys se transforma em uma nova banda. E resta a você decidir se gosta deste novo grupo ou se prefere o antigo.
Notinhas
O grande encontro
E eis que, finalmente, a mundialmente celebrada banda Them Crooked Vultures vai fazer sua estreia nos palcos. Não sabe quem é? Então imagine John Paul Jones, do Led Zeppelin, Josh Homme, do Queens of the Stone Age, e Dave Grohl, do Foo Fighters (e do Nirvana, claro) tocando juntos. É isso. A nova superbanda vai fazer seu primeiro show em uma afterparty do Festival Lolapalloozza, que rola este fim de semana em Chicago. Eles insistem que isso não significa que o grupo vá partir para uma turnê, nem mesmo que um disco deva ser gerado no encontro. Mas os caras já têm site, twitter, MySpace e Facebook com o nome da banda. À toa não deve ser.
Várias novidades
Os suecos do Kings of Convenience anunciaram o lançamento de seu novo disco. Segundo o Muzplay, “Declaration of Dependence”, o terceiro álbum da dupla, vai ser lançado no dia 20 de outubro, mas o MySpace dos caras já traz música nova. /// Jack White vai dar um tempo em suas duzentas e trinta e oito bandas e lançar um single solo. A faixa “Fly Farm Blues” faz parte da trilha do documentário “It Might Get Loud”, de David Guggenheim, do qual White participa. /// O KIllers, que confirmou seu shows em novembro no Brasil, é bem apressadinho: já começa a vender ingressos na semana que vem. /// Os ingressos pros shows da Lily Allen também já podem ser comprados. Se está a fim de ir, corra! /// Devendra Banhart está a ponto de lançar seu novo disco. Segundo o Stereogum, o álbum se chamará “What Will We Be” e sai em outubro. /// O Radiohead lançou, “Harry Patch (In Memory Of)”, faixa feita em homenagem a um combatente inglês da primeira grande guerra. Toda orquestrada, bem boa. A faixa está à venda no site da banda por um euro, mas dá pra achar de graça na net. /// Eu gostei dessa ideia de fazer o Planeta Terra Festival no Playcenter. Tomara que role, mesmo.
Todo mundo tem que ouvir
Outro dia tomei um susto: começou uma propaganda de celular na TV e de quem era a música: da Lenka. E eu que imaginei que ninguém mais conhecia essa australiana! Fiquei feliz por ela estar se expandindo.
Ela merece. Bonita e talentosa, com uma bela voz e um fenomenal sexto sentido pra música pop. Uma Lily Allen menos politicamente incorreta, e mais musical. Ouça o disco “Lenka”, de 2008, e sorria sem parar.
Playlist
Mikroboy – Neue Zeiten
Blue Roses – Coast
Delorean – Moonsoon
Bowerbirds – House of Diamonds
The Antlers – Wake
Pajaro Sunrise – Something Else
Céu – Espaçonave
the Clean – Factory Man
The Big Pink – She’s No Sense
The Animal Beat – Ordinary

O freio dos Monkeys

Vindos de Sheffield, na Inglaterra, os caras do Arctic Monkeys sempre tiveram uma fama de aceleradinhos. Há mais ou menos três anos, Alex Turner e sua turma tomaram conta do indie rock mundial com um disco que se destacava por aspectos como a qualidade das letras e, principalmente, a velocidade das músicas. Era quase como a invenção de um novo estilo. Turner cantava em ritmo aceleradíssimo canções com letras quilométricas que falavam da realidade dos jovens ingleses. O baterista impressionava pela mobilidade, como se tivesse doze braços de cada lado, e os riffs de guitarra pareciam cada vez mais difíceis de se acompanhar no assovio. “Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not” chegou rápido à internet, e em pouco tempo se tornou um dos discos mais marcantes da música atual.

Depois de um ano, o segundo álbum, “Favorite Worst Nightmare”, serviu para mostrar que o Arctic Monkeys era mais do que um cara correndo desesperadamente contra o tempo, com medo do que ia acontecer agora que sua adolescência estava indo embora. Eles também sabiam dosar os temperos, e músicas como “505” ou “If You Were There, Beware” eram as mais perfeitas provas desta nova faceta da banda. Mas não se engane: a velocidade estonteante ainda estava lá, e a forma como aquele disco começa, com as pancadas e bumbo de pedal duplo de “Brianstorm”, não me deixa mentir. As letras, ainda que um pouco menos juvenis, continuavam ditando o ritmo das coisas. A macacada seguia nervosa, sangue nos olhos e mãos, pés e bocas enviesadas pela rapidez da música.

Agora não. Com “Humbug”, terceiro disco da carreira, o Arctic Monkeys deu uma pisada violenta no freio, daquelas de afundar o pé no piso do carro. Pegaram o botãozinho da velocidade do grupo e giraram todo para trás, sem dó nem piedade. Aquele moleque com cara de maluco correndo a 100 km/h se transformou em um rapaz bem apessoado, cara de poucos amigos, cabelos desgrenhados e tocando os ombros forrados por um surrado paletó de linho, caminhando com certa desenvoltura pela principal avenida da música alternativa. Agora o Arctic Monkeys resolveu inovar seus arranjos, desenvolver suas composições para que fujam dos padrões e não sejam engolidos pelos seus próprios méritos.

Para conseguir esse resultado, a banda não mediu esforços na produção do disco. A maior parte das faixas que entraram no corte final – sete das dez, pra ser mais exato – foram produzidas por ninguém menos que Josh Homme, o mago do rock do século 21, dono do Queens of the Stone Age e presente com firmeza em projetos bacanudos como o Desert Sessions e o Eagles of Death Metal. As outras três também são de pedigree: James Ford, o homem por trás do Simian Mobile Disco e responsável pela produção do primeiro disco da banda, além do álbum realizado por Alex Turner em seu projeto paralelo e de “Myths Of Near Future”, do Klaxons, entre diversos outros álbuns que foram sucesso de crítica e público. Essa divisão de trabalhos gerou, curiosamente, um disco homogêneo, pesado, cinzento, que caminha pelas dez faixas como em busca de calor. E o encontra, afinal.

Em “My Propeller”, que abre o disco, uma sequência de bateria se faz acompanhada de dedilhados em uma guitarra cheia de efeitos. A voz de Turner soa moderna, derramada pela música com parcimônia, sem pressa, e só nesse primeiro contato já temos certeza absoluta de que o som do Arctic Monkeys não é o mesmo. E é esse mesmo sentimento que nos acompanha por todo o disco. É como um passeio por um lugar completamente desconhecido, onde você encontra pistas aqui e ali de que já estivera ali, mas nunca tem certeza disso. Parece algo que você já viu, mas não, não é, e “Crying Lightning”, que vem a seguir, corrobora esse pensamento. A pegada parece que vai decolar, mas se mantém lúgrube, com um pé no psicodélico, tornando o som dos Monkeys de agora uma versão com mais peso e menos velocidade do que era antes. “Dangerous Animals” quase retoma o ritmo dos discos anteriores, mas acaba se rendendo ao novo estilo dos macacos.

Algumas músicas são de rotação tão lentas que, apenas pelo comecinho, não dá nem pra saber que são da banda. “Secret Door” e “Cornerstone” são baladas suaves, com pitadas de psicodelia à lá Beatles aqui e ali, disfarçadas, mas marcantes – principalmente a segunda faixa citada. O velho Arctic Monkeys até coloca a cara à tapa com “Potion Approaching” e “Pretty Visitors”, as duas músicas mais rápidas do disco. Mas, talvez não por acaso, essas acelerações soem quase deslocadas no meio da freadas espalhadas pelas outras canções. São boas, mas acabam perdendo espaço para este novo Arctic Monkeys que é capaz de conduzir uma faixa como “The Jeweller’s Hands”, com quase seis minutos de duração, uma música anamórfica por natureza, entortada pelos novos conceitos que regem o grupo de Sheffield, empolgado com a maturidade e empolgante na sua densidade. Com a velocidade diminuída ao extremo, o Arctic Monkeys se transforma em uma nova banda. E resta a você decidir se gosta deste novo grupo ou se prefere o antigo.

Notinhas

O grande encontro

E eis que, finalmente, a mundialmente celebrada banda Them Crooked Vultures vai fazer sua estreia nos palcos. Não sabe quem é? Então imagine John Paul Jones, do Led Zeppelin, Josh Homme, do Queens of the Stone Age, e Dave Grohl, do Foo Fighters (e do Nirvana, claro) tocando juntos. É isso. A nova superbanda vai fazer seu primeiro show em uma afterparty do Festival Lolapalloozza, que rola este fim de semana em Chicago. Eles insistem que isso não significa que o grupo vá partir para uma turnê, nem mesmo que um disco deva ser gerado no encontro. Mas os caras já têm site, twitter, MySpace e Facebook com o nome da banda. À toa não deve ser.

Várias novidades

Os suecos do Kings of Convenience anunciaram o lançamento de seu novo disco. Segundo o Muzplay, “Declaration of Dependence”, o terceiro álbum da dupla, vai ser lançado no dia 20 de outubro, mas o MySpace dos caras já traz música nova. /// Jack White vai dar um tempo em suas duzentas e trinta e oito bandas e lançar um single solo. A faixa “Fly Farm Blues” faz parte da trilha do documentário “It Might Get Loud”, de David Guggenheim, do qual White participa. /// O KIllers, que confirmou seu shows em novembro no Brasil, é bem apressadinho: já começa a vender ingressos na semana que vem. /// Os ingressos pros shows da Lily Allen também já podem ser comprados. Se está a fim de ir, corra! /// Devendra Banhart está a ponto de lançar seu novo disco. Segundo o Stereogum, o álbum se chamará “What Will We Be” e sai em outubro. /// O Radiohead lançou, “Harry Patch (In Memory Of)”, faixa feita em homenagem a um combatente inglês da primeira grande guerra. Toda orquestrada, bem boa. A faixa está à venda no site da banda por um euro, mas dá pra achar de graça na net. /// Eu gostei dessa ideia de fazer o Planeta Terra Festival no Playcenter. Tomara que role, mesmo.

Todo mundo tem que ouvir

Outro dia tomei um susto: começou uma propaganda de celular na TV e de quem era a música: da Lenka. E eu que imaginei que ninguém mais conhecia essa australiana! Fiquei feliz por ela estar se expandindo.

Ela merece. Bonita e talentosa, com uma bela voz e um fenomenal sexto sentido pra música pop. Uma Lily Allen menos politicamente incorreta, e mais musical. Ouça o disco “Lenka”, de 2008, e sorria sem parar.

Playlist

Mikroboy – Neue Zeiten

Blue Roses – Coast

Delorean – Moonsoon

Bowerbirds – House of Diamonds

The Antlers – Wake

Pajaro Sunrise – Something Else

Céu – Espaçonave

the Clean – Factory Man

The Big Pink – She’s No Sense

The Animal Beat – Ordinary

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