Coluna B, 1 de agosto

Mais uma vez, uma coluna que se perde pela internet. Uma pena, mas, fazer o quê? Aí vai, pra quem não viu.

Desistir nunca, render-se jamais
É curioso, mas não é nada raro. De vez em quando, descobrimos algum disco que deixamos passar batido nas primeiras audições. Lá pelas tantas, percebemos que uma pérola estava jogada em um canto qualquer do HD do nosso computador, carcomido pela ignorância e pela pressa do dia-a-dia. Comigo geralmente acontece assim: ouço algumas vezes um disco que acabei de pegar; se gosto, se o som bate de primeira, continuo ouvindo regularmente – se não, coloco a bolachinha em compasso de espera e depois retorno a ela, quando (e se) tiver tempo. É de se compreender que, nessa rotina de baixar diversos discos por semana, alguma coisa boa pode acabar escorrendo disfarçadamente entre os dedos, certo?
Esse “fenômeno” acontece até mesmo com aqueles discos que viraram hype, comentados e resenhados por sites, blogs e revistas especializadas. É o caso de dois álbuns sobre os quais já teci algum comentário rápido aqui na coluna, mas que recentemente roubaram completamente minha atenção: “Two Suns”, do Bat For Lashes, e “Veckatimest”, do Grizzly Bear. Como há de perceber algum leitor mais atento, ambos já se encontram entre as minhas playlists há tempos – e já demonstravam potencial para se tornarem preferidos da casa, é verdade – mas apenas nas últimas semanas, ao me aprofundar um pouco mais neles, notei suas incríveis qualidades com mais cuidado. Sorte a minha.
A moça que responde pelo nome de Bat For Lashes junto com seus músicos, Natasha Khan, já tinha embasbacado o mundo em 2007 com seu disco de estreia, o lindíssimo “Fur and Gold”. Na época, a voz afinada e emblemática da moça fez com que muita gente procurasse saber mais sobre quem fazia um som tão diferente, tão bonito e, ao mesmo tempo, esquisito. A origem da artista é interessante: nascida no Paquistão, moradora de Londres, Khan saiu direto da escola de artes para o palco. Ela não esconde de ninguém sua preferência pelo lado artístico das canções, muito menos a influência que artistas como Radiohead, Björk e PJ Harvey têm em suas composições. O Bat For Lashes só tem uma preocupação: emocionar.
Ainda assim, a diferença entre o primeiro disco da artista e este segundo, “Two Suns”, lançado em abril, foi o que me fez tirar o álbum de seu obscuro canto do meu HD para repetir as audições e constatar, abismado, que estava ali um trabalho primoroso de Khan. Se antes ela primava pela suavidade dos timbres, na leveza e economia da melodia, agora o Bat For Lashes se solta um pouco mais. Faixas como “Daniel”, “Two Planets” e principalmente “Pearl’s Dream” se destacam pelas batidas exóticas e que beiram o dançante, abrindo espaço para um clima dark de melancolia em canções como a belíssima “Glass” e a emocionante “Travelling Woman”, que se desenvolvem em cima de percussão e piano, emoldurando a voz perfeita de Natasha. A cantora brinca de alter ego ao longo do disco (Pearl, sua outra face, é loira), faz dueto com Scott Walker na teatral “The Big Sleep” e ainda coloca o Yeasayer na roda como banda convidada. Mesmo que eu quisesse muito, seria impossível um disco com esses predicados escapar entre a enxurrada de lançamentos semanais. “Two Suns” sobreviveu por seus próprios méritos.
Já meu caso com o novo disco do Grizzly Bear foi bem diferente. Eu demorei para baixar o disco por querer. Lia as resenhas, todas extremamente elogiosas, e pensava, “vou ter que baixar esse disco”, mas não o fazia por saber que seria mais um vício. Amigos perguntavam se eu já tinha ouvido “Veckatimest”, por todo lado algum comentário me deixava ainda mais curioso. Quando finalmente baixei e escutei, me surpreendi: não era bem o que eu esperava. Acabei deixando o álbum meio de lado por umas semanas, mas quando voltei a escutá-lo, agora com mais calma e menos expectativa, fiquei fissurado pela pluralidade do terceiro trabalho dos americanos do Grizzly Bear, um dos mais fantásticos discos do ano.
Imagine um álbum que você escuta uma, duas, três, dez, vinte vezes, e a cada nova audição é pego por detalhes que ainda não havia sacado antes. “Veckatimest” está inserido no panteão dos discos mágicos, que vão muito além de estilos musicais pré-concebidos, formatos fechados ou melodias simplórias. Suas faixas cheias de personalidade conseguem ser melódicas e experimentais sem perder o tato com a música pop. As estruturas inventivas do Grizzly Bear guardam obras dedicadas a surpreender o ouvinte com as aparições surpresa de timbres, instrumentos ou arranjos que fogem completamente do comum. Os refrões ganham coros, as baladas são injetadas com velocidade e barulho, as faixas mais animadas levam quebras acústicas e a eletrônica vez ou outra varre a faixa de fora a fora. “Veckatimest” é conquistador com a emocionante “Foreground”, é apaziguador com “Cheerleader”, é surpreendente com “While You Wait For The Others”, é suingado com “Two Weeks” e vai fazer você pensar duas vezes quando um disco não desce de primeira. Vale a pena dar uma segunda chance.
Notinhas
Shows no Brasil
Uns cancelam, outros confirmam. A parte triste desta notinha vai para os fãs do Depeche Mode, que cancelou suas apresentações no Brasil devido a problemas de agenda. Curioso que, dos shows sulamericanos, só os nossos rodaram. Uma pena. Mas, em compensação, Killers e Lilly Allen confirmaram presença no Brasil. O Killers, antes apenas um boato, já confirmou a vinda em novembro (segundo o site da Rolling Stone, as datas são: São Paulo, dia 21; Rio, dia 24), enquanto a mocinha londrina desbocada pinta por aqui em setembro, no Rio (dia 17) e em São Paulo (dia 16). E, ainda no campo das possibilidades, Green Day, Empire of the Sun e Ting Tings devem aparecer no país para o Planeta Terra Festival, segundo o blog Popload. É esperar pra ver.
França e Suécia no Brasil
Olha que beleza a formação do festival No Ar Coquetel Molotov, segundo o site Rraul: Sebastien Tellier, Zombie Zombie, François Virot, Those Dancing Days, Britta Persson e Loney, Dear. Só gente boa, né?
Humbug no ar
Depois de muita expectativa, o novo disco do Arctic Monkeys, “Humbug”, finalmente vazou na internet essa semana. Com lançamento marcado apenas para o dia 24 de agosto, o terceiro álbum da molecada de Sheffield mostra um som bastante diferente: mais cadenciado, utilizando as guitarras de maneira mais melódica e os vocais de forma mais contida. E, para mostrar esse som para todo mundo, a banda fez uma apresentação gratuita, via web, na quinta-feira. Foi curta, mas deu pra ter uma noção de como as músicas novas ficam ao vivo. “Humbug” ainda vai dar o que falar.
Todo mundo tem que ouvir
O Canadá, esse celeiro fantástico de atrações indie, nos deu há cinco anos mais um motivo para querer morar no alto das Américas. Esse motivo se chama Ohbijou, grupo de dream pop que lança seu segundo disco, “Beacons”.
A doçura das canções do Ohbijou é quase palpável. As vozes femininas dominam o cenário, mas são as orquestrações nos arranjos, misturadas com violões folk e percussões econômicas, que fazem a banda se tornar inesquecível. Ouça agora.
Playlist
Arctic Monkeys – Pretty Visitors
New Look – Future Times
Thom Yorke – The Erasure
Yoñlu – Estrela, Estrela
Pearl Jam – The Fixer
The Dead Weather – Rocking Horse
The Invisible – Tally Of Souls
Regina Spektor – The Calculation
Solana – A Casa dos Ramalhetes
Mayer Hawthorne – Just Ain’t Gonna Work Out

Desistir nunca, render-se jamais

É curioso, mas não é nada raro. De vez em quando, descobrimos algum disco que deixamos passar batido nas primeiras audições. Lá pelas tantas, percebemos que uma pérola estava jogada em um canto qualquer do HD do nosso computador, carcomido pela ignorância e pela pressa do dia-a-dia. Comigo geralmente acontece assim: ouço algumas vezes um disco que acabei de pegar; se gosto, se o som bate de primeira, continuo ouvindo regularmente – se não, coloco a bolachinha em compasso de espera e depois retorno a ela, quando (e se) tiver tempo. É de se compreender que, nessa rotina de baixar diversos discos por semana, alguma coisa boa pode acabar escorrendo disfarçadamente entre os dedos, certo?

Esse “fenômeno” acontece até mesmo com aqueles discos que viraram hype, comentados e resenhados por sites, blogs e revistas especializadas. É o caso de dois álbuns sobre os quais já teci algum comentário rápido aqui na coluna, mas que recentemente roubaram completamente minha atenção: “Two Suns”, do Bat For Lashes, e “Veckatimest”, do Grizzly Bear. Como há de perceber algum leitor mais atento, ambos já se encontram entre as minhas playlists há tempos – e já demonstravam potencial para se tornarem preferidos da casa, é verdade – mas apenas nas últimas semanas, ao me aprofundar um pouco mais neles, notei suas incríveis qualidades com mais cuidado. Sorte a minha.

A moça que responde pelo nome de Bat For Lashes junto com seus músicos, Natasha Khan, já tinha embasbacado o mundo em 2007 com seu disco de estreia, o lindíssimo “Fur and Gold”. Na época, a voz afinada e emblemática da moça fez com que muita gente procurasse saber mais sobre quem fazia um som tão diferente, tão bonito e, ao mesmo tempo, esquisito. A origem da artista é interessante: nascida no Paquistão, moradora de Londres, Khan saiu direto da escola de artes para o palco. Ela não esconde de ninguém sua preferência pelo lado artístico das canções, muito menos a influência que artistas como Radiohead, Björk e PJ Harvey têm em suas composições. O Bat For Lashes só tem uma preocupação: emocionar.

Ainda assim, a diferença entre o primeiro disco da artista e este segundo, “Two Suns”, lançado em abril, foi o que me fez tirar o álbum de seu obscuro canto do meu HD para repetir as audições e constatar, abismado, que estava ali um trabalho primoroso de Khan. Se antes ela primava pela suavidade dos timbres, na leveza e economia da melodia, agora o Bat For Lashes se solta um pouco mais. Faixas como “Daniel”, “Two Planets” e principalmente “Pearl’s Dream” se destacam pelas batidas exóticas e que beiram o dançante, abrindo espaço para um clima dark de melancolia em canções como a belíssima “Glass” e a emocionante “Travelling Woman”, que se desenvolvem em cima de percussão e piano, emoldurando a voz perfeita de Natasha. A cantora brinca de alter ego ao longo do disco (Pearl, sua outra face, é loira), faz dueto com Scott Walker na teatral “The Big Sleep” e ainda coloca o Yeasayer na roda como banda convidada. Mesmo que eu quisesse muito, seria impossível um disco com esses predicados escapar entre a enxurrada de lançamentos semanais. “Two Suns” sobreviveu por seus próprios méritos.

Já meu caso com o novo disco do Grizzly Bear foi bem diferente. Eu demorei para baixar o disco por querer. Lia as resenhas, todas extremamente elogiosas, e pensava, “vou ter que baixar esse disco”, mas não o fazia por saber que seria mais um vício. Amigos perguntavam se eu já tinha ouvido “Veckatimest”, por todo lado algum comentário me deixava ainda mais curioso. Quando finalmente baixei e escutei, me surpreendi: não era bem o que eu esperava. Acabei deixando o álbum meio de lado por umas semanas, mas quando voltei a escutá-lo, agora com mais calma e menos expectativa, fiquei fissurado pela pluralidade do terceiro trabalho dos americanos do Grizzly Bear, um dos mais fantásticos discos do ano.

Imagine um álbum que você escuta uma, duas, três, dez, vinte vezes, e a cada nova audição é pego por detalhes que ainda não havia sacado antes. “Veckatimest” está inserido no panteão dos discos mágicos, que vão muito além de estilos musicais pré-concebidos, formatos fechados ou melodias simplórias. Suas faixas cheias de personalidade conseguem ser melódicas e experimentais sem perder o tato com a música pop. As estruturas inventivas do Grizzly Bear guardam obras dedicadas a surpreender o ouvinte com as aparições surpresa de timbres, instrumentos ou arranjos que fogem completamente do comum. Os refrões ganham coros, as baladas são injetadas com velocidade e barulho, as faixas mais animadas levam quebras acústicas e a eletrônica vez ou outra varre a faixa de fora a fora. “Veckatimest” é conquistador com a emocionante “Foreground”, é apaziguador com “Cheerleader”, é surpreendente com “While You Wait For The Others”, é suingado com “Two Weeks” e vai fazer você pensar duas vezes quando um disco não desce de primeira. Vale a pena dar uma segunda chance.

Notinhas

Shows no Brasil

Uns cancelam, outros confirmam. A parte triste desta notinha vai para os fãs do Depeche Mode, que cancelou suas apresentações no Brasil devido a problemas de agenda. Curioso que, dos shows sulamericanos, só os nossos rodaram. Uma pena. Mas, em compensação, Killers e Lilly Allen confirmaram presença no Brasil. O Killers, antes apenas um boato, já confirmou a vinda em novembro (segundo o site da Rolling Stone, as datas são: São Paulo, dia 21; Rio, dia 24), enquanto a mocinha londrina desbocada pinta por aqui em setembro, no Rio (dia 17) e em São Paulo (dia 16). E, ainda no campo das possibilidades, Green Day, Empire of the Sun e Ting Tings devem aparecer no país para o Planeta Terra Festival, segundo o blog Popload. É esperar pra ver.

França e Suécia no Brasil

Olha que beleza a formação do festival No Ar Coquetel Molotov, segundo o site Rraul: Sebastien Tellier, Zombie Zombie, François Virot, Those Dancing Days, Britta Persson e Loney, Dear. Só gente boa, né?

Humbug no ar

Depois de muita expectativa, o novo disco do Arctic Monkeys, “Humbug”, finalmente vazou na internet essa semana. Com lançamento marcado apenas para o dia 24 de agosto, o terceiro álbum da molecada de Sheffield mostra um som bastante diferente: mais cadenciado, utilizando as guitarras de maneira mais melódica e os vocais de forma mais contida. E, para mostrar esse som para todo mundo, a banda fez uma apresentação gratuita, via web, na quinta-feira. Foi curta, mas deu pra ter uma noção de como as músicas novas ficam ao vivo. “Humbug” ainda vai dar o que falar.

Todo mundo tem que ouvir

O Canadá, esse celeiro fantástico de atrações indie, nos deu há cinco anos mais um motivo para querer morar no alto das Américas. Esse motivo se chama Ohbijou, grupo de dream pop que lança seu segundo disco, “Beacons”.

A doçura das canções do Ohbijou é quase palpável. As vozes femininas dominam o cenário, mas são as orquestrações nos arranjos, misturadas com violões folk e percussões econômicas, que fazem a banda se tornar inesquecível. Ouça agora.

Playlist

Arctic Monkeys – Pretty Visitors

New Look – Future Times

Thom Yorke – The Erasure

Yoñlu – Estrela, Estrela

Pearl Jam – The Fixer

The Dead Weather – Rocking Horse

The Invisible – Tally Of Souls

Regina Spektor – The Calculation

Solana – A Casa dos Ramalhetes

Mayer Hawthorne – Just Ain’t Gonna Work Out

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s