Coluna B, dia 18/07

The Gossip e o mundo cruel

A crueldade do mundo assusta Beth Ditto. E é aí, quando nos damos comta disso, que uma das músicas mais legais desse ano, a empolgante “Heavy Cross”, deixa de ser apenas dançante ao extremo, chacoalhadora de corpos em busca de algum prazer nessa vida de pancadas e rasteiras, e se torna um hino em potencial para o ano de 2009. Ao lado de “Zero”, do Yeah Yeah Yeahs, essa é uma das canções de pista mais marcantes dos últimos tempos. Seria coincidência que ambos sejam cantadas por mulheres de atitude? Não mesmo! A perda da identidade, a nova ordem social, onde a personalidade das pessoas está intimamente ligada às páginas e perfis pessoais destas espalhadas pela internet, fez o mundo ficar de cabeça pra baixo nos últimos tempos.
É claro que tem gente que se aproveita disso para criar expressões artísticas inesquecíveis. No caso do Gossip e seu novo disco, “Music For Men”, o primeiro por uma grande gravadora de verdade, a Columbia, está tudo conectado desde a gênese da banda. Ditto é enorme, pesa muito mais de 100 quilos e não deve medir mais de 1,65m, mas usa a sua obesidade como forma de desafiar os novos padrões estéticos. Já ficou nua em show, em capa de revista e onde mais pedirem. Levanta a bandeira lésbica com ardor, é tida como exemplo por meninas mais novas e atinge a todos com o que se convenciou a chamar de atitude rocker. Beleza, agora coloquemos um pouco da disco dos anos 70 nessa atitude e teremos “Music For Men”, um disco que, como bem ensina Beth em seu estilo de vida, desafia o ouvinte.
Principal desafio: ficar parado. Impossível. Se “Heavy Cross” não te fez pular da cadeira com inclinações de street dance, jogando os braços pra cima com aquele monte de “ah, ah, ah, oh, oh, oh, ye, ye ye”, então procure um médico – é possível que você esteja morto e tenha apenas esquecido de cair. A americana se joga de cabeça na música, entregando na uma performance vocal que se encaixa perfeitamente com a fúria instrumental dançante do Gossip. Aquela guitarra que se repete insistentemente quando a música se inicia é apenas um prenúncio da explosão dance da sequência. A era disco dá um alô, com as palmas e a linha de baixo suingada formando uma cozinha abrasiva. Atitude é, novamente, a palavra mais indicada para colocar na conta de Ditto e seu grupo.
Se apenas “Heavy Cross” tivesse sido criada, muita coisa já estaria salva mundo afora. Mas há muito mais. O longo caminho que “Love and Let Love” percorre sobre as explosões ritmadas do baixo e dos sintetizadores voadores deixa tudo assombrado pela leveza que uma faixa como esta é capaz de formular. É o que nos leva a mais um desafio imposto por “Music For Men”: acompanhar a salada de ritmos proposta pela banda sem se deixar levar pela potência da combinação entre baixo e bateria das músicas. O disco, quarto trabalho de estúdio da carreira da banda, é indie rock dançante com muito mais destaque para o dançante do que para o indie rock. Ok, as guitarras de “8th Wonder” são realmente algo a se guardar embaixo do travesseiro, riffs colossais que invadem os ouvidos com a mesma força de um soco no pé da orelha. Mas há por trás uma cama de grooves que não se encontra todo dia. Ah, dica: antes do fim do mundo, ouça “2012”. Obrigatória.
Veja “Pop Goes the World”, a ultra-mega-pop faixa que pode ser tocada nas rádios a qualquer hora do dia, e atente para a curiosa percussão que trabalha a faixa como um todo. Mais uma vez, Ditto arrasta um “oh, oh, oh” de tontear qualquer Britney Spears. Agora, vire suas atenções para “Men In Love” e tente descobrir o que o baixista Brace Paine fez nessa música. Enquanto a rotunda vocalista canta “dance like there’s nobody looking”, o baixo corta a música como um chicote com fogo nas pontas. Na oitentista “Love Long Distance”, refrescante como um bom copo de cerveja no calor do meio-dia de domingo, os teclados são mais poderosos do que nunca, aliando-se a uma batida contumaz e a voz redentora de Beth Ditto. É claro, os graves não sumiram, estão aqui arrebentando a cabeça de quem se aventura a deixar a canção ressoar por aí. Aliás, não esqueça de curtir “For Keeps” em toda a sua magnitude rítima e melódica: que música boa!
O mundo é mesmo cruel, “as coisas estão acontecendo”, diria um amigo meu, e às vezes nada mais faz sentido a não ser que tenha uma trilha sonora boa o bastante. É, acho que a vida está cada vez mais assim, precisando de boas trilhas sonoras. Beth Ditto também pensa assim. Deve ser por isso que o Gossip incluiu “Vertical Rhythm” no meio da lista de músicas que formam o delicioso “Music For Men”. “Fora de alcance/fora de tempo”, canta ela, e parece que essa música foi feita pra mim, pra você, para os tempos confusos e velozes que vivemos hoje em dia. No caso do Gossip, “Music For Men” não significa música para machos, para o gênero masculino, mas música para o homem, para a humanidade. Já seria fantástico o bastante se este disco servisse só pra dançar, mas ainda sobra tempo para filosofar em cima de Beth Ditto e sua música do (e para o) novo milênio.
Notinhas
O Brasil dos shows
O Faith No More, que já confirmou datas em outros países da América do Sul, agora deixa no ar o dia 7 de novembro para São Paulo. E aí, segundo a Popload, eis que o Planeta Terra Festival ameaça mudar sua data, que era dia 14/11, para o dia 7/11 também. E com a possibilidade do Grizzly Bear comparecer. /// E o Killers? Esses devem voltar ao país, ainda segundo a Popload, no final de novembro. E tem mais: Franz Ferdinand voltará ao Brasil também! Mas, esse, só em 2010.
Várias
Duas mocinhas sumidas deram as caras na última semana. Vários sites e blogs trouxeram a contribuição de Marina Vello, ex-Bonde do Rolê, com a francesa Soko. A faixa é boa, foi produzida pelo Radioclit e se chama “Mum”. Procure e ouça. /// Só faltava ele: todos os componentes mais importantes do Strokes já tinham lançado trabalhos solo, menos Julian Casablancas. Pois, essa semana, o rapaz anunciou “Phrazers To The Young”, disco dele, que acabou de ser gravado. Se é bom, daqui a pouco saberemos. /// Mattie Safer, uma das vozes (além do titular do baixo) do Rapture deixou a banda. Não foi explicado com detalhes o motivo, mas, em comunicado oficial do grupo, diz-se apenas que foi algo “melhor para os dois lados”. Uma pena, mas ainda há esperanças para um ótimo novo disco da banda, que está sendo finalizado.
Todo mundo tem que ouvir
O nome da banda já era esquisito: Grizzly Bear. O do disco, então, nem se fala: “Veckatimest”. Mas quem já conhecia o grupo, não é novidade nenhuma que trata-se de um lindo álbum, certamente um dos melhores do ano.
A atmosfera nebulosa, com raios de sol se metendo entre as frestas, é a cara do Grizzly Bear. E neste terceiro disco, tudo soa ainda mais etéreo, com levadas deliciosas, batidas suaves e melodias estonteantes. Não é exagero. Ouça agora.
Playlist
Friendly Fires – Kiss Of Life
Lenka – Bring Me Down
Lucas Santtana – O Violão de Mario Bros
Tiny Vipers – Young Gods
One For The Team – Ha Ha
The Anomalies – Blue Peter
John Is Gone – Chest Box
Natalie Prass – A Good Man
Bibio – Abrasion
Sarah Blasko – No Turning Back

Pra não dizer que deixei o blog às moscas, aí vai a coluna que saiu no jornal ontem.

The Gossip e o mundo cruel

A crueldade do mundo assusta Beth Ditto. E é aí, quando nos damos comta disso, que uma das músicas mais legais desse ano, a empolgante “Heavy Cross”, deixa de ser apenas dançante ao extremo, chacoalhadora de corpos em busca de algum prazer nessa vida de pancadas e rasteiras, e se torna um hino em potencial para o ano de 2009. Ao lado de “Zero”, do Yeah Yeah Yeahs, essa é uma das canções de pista mais marcantes dos últimos tempos. Seria coincidência que ambos sejam cantadas por mulheres de atitude? Não mesmo! A perda da identidade, a nova ordem social, onde a personalidade das pessoas está intimamente ligada às páginas e perfis pessoais destas espalhadas pela internet, fez o mundo ficar de cabeça pra baixo nos últimos tempos.

É claro que tem gente que se aproveita disso para criar expressões artísticas inesquecíveis. No caso do Gossip e seu novo disco, “Music For Men”, o primeiro por uma grande gravadora de verdade, a Columbia, está tudo conectado desde a gênese da banda. Ditto é enorme, pesa muito mais de 100 quilos e não deve medir mais de 1,65m, mas usa a sua obesidade como forma de desafiar os novos padrões estéticos. Já ficou nua em show, em capa de revista e onde mais pedirem. Levanta a bandeira lésbica com ardor, é tida como exemplo por meninas mais novas e atinge a todos com o que se convenciou a chamar de atitude rocker. Beleza, agora coloquemos um pouco da disco dos anos 70 nessa atitude e teremos “Music For Men”, um disco que, como bem ensina Beth em seu estilo de vida, desafia o ouvinte.

Principal desafio: ficar parado. Impossível. Se “Heavy Cross” não te fez pular da cadeira com inclinações de street dance, jogando os braços pra cima com aquele monte de “ah, ah, ah, oh, oh, oh, ye, ye ye”, então procure um médico – é possível que você esteja morto e tenha apenas esquecido de cair. A americana se joga de cabeça na música, entregando na uma performance vocal que se encaixa perfeitamente com a fúria instrumental dançante do Gossip. Aquela guitarra que se repete insistentemente quando a música se inicia é apenas um prenúncio da explosão dance da sequência. A era disco dá um alô, com as palmas e a linha de baixo suingada formando uma cozinha abrasiva. Atitude é, novamente, a palavra mais indicada para colocar na conta de Ditto e seu grupo.

Se apenas “Heavy Cross” tivesse sido criada, muita coisa já estaria salva mundo afora. Mas há muito mais. O longo caminho que “Love and Let Love” percorre sobre as explosões ritmadas do baixo e dos sintetizadores voadores deixa tudo assombrado pela leveza que uma faixa como esta é capaz de formular. É o que nos leva a mais um desafio imposto por “Music For Men”: acompanhar a salada de ritmos proposta pela banda sem se deixar levar pela potência da combinação entre baixo e bateria das músicas. O disco, quarto trabalho de estúdio da carreira da banda, é indie rock dançante com muito mais destaque para o dançante do que para o indie rock. Ok, as guitarras de “8th Wonder” são realmente algo a se guardar embaixo do travesseiro, riffs colossais que invadem os ouvidos com a mesma força de um soco no pé da orelha. Mas há por trás uma cama de grooves que não se encontra todo dia. Ah, dica: antes do fim do mundo, ouça “2012”. Obrigatória.

Veja “Pop Goes the World”, a ultra-mega-pop faixa que pode ser tocada nas rádios a qualquer hora do dia, e atente para a curiosa percussão que trabalha a faixa como um todo. Mais uma vez, Ditto arrasta um “oh, oh, oh” de tontear qualquer Britney Spears. Agora, vire suas atenções para “Men In Love” e tente descobrir o que o baixista Brace Paine fez nessa música. Enquanto a rotunda vocalista canta “dance like there’s nobody looking”, o baixo corta a música como um chicote com fogo nas pontas. Na oitentista “Love Long Distance”, refrescante como um bom copo de cerveja no calor do meio-dia de domingo, os teclados são mais poderosos do que nunca, aliando-se a uma batida contumaz e a voz redentora de Beth Ditto. É claro, os graves não sumiram, estão aqui arrebentando a cabeça de quem se aventura a deixar a canção ressoar por aí. Aliás, não esqueça de curtir “For Keeps” em toda a sua magnitude rítima e melódica: que música boa!

O mundo é mesmo cruel, “as coisas estão acontecendo”, diria um amigo meu, e às vezes nada mais faz sentido a não ser que tenha uma trilha sonora boa o bastante. É, acho que a vida está cada vez mais assim, precisando de boas trilhas sonoras. Beth Ditto também pensa assim. Deve ser por isso que o Gossip incluiu “Vertical Rhythm” no meio da lista de músicas que formam o delicioso “Music For Men”. “Fora de alcance/fora de tempo”, canta ela, e parece que essa música foi feita pra mim, pra você, para os tempos confusos e velozes que vivemos hoje em dia. No caso do Gossip, “Music For Men” não significa música para machos, para o gênero masculino, mas música para o homem, para a humanidade. Já seria fantástico o bastante se este disco servisse só pra dançar, mas ainda sobra tempo para filosofar em cima de Beth Ditto e sua música do (e para o) novo milênio.

Notinhas

O Brasil dos shows

O Faith No More, que já confirmou datas em outros países da América do Sul, agora deixa no ar o dia 7 de novembro para São Paulo. E aí, segundo a Popload, eis que o Planeta Terra Festival ameaça mudar sua data, que era dia 14/11, para o dia 7/11 também. E com a possibilidade do Grizzly Bear comparecer. /// E o Killers? Esses devem voltar ao país, ainda segundo a Popload, no final de novembro. E tem mais: Franz Ferdinand voltará ao Brasil também! Mas, esse, só em 2010.

Várias

Duas mocinhas sumidas deram as caras na última semana. Vários sites e blogs trouxeram a contribuição de Marina Vello, ex-Bonde do Rolê, com a francesa Soko. A faixa é boa, foi produzida pelo Radioclit e se chama “Mum”. Procure e ouça. /// Só faltava ele: todos os componentes mais importantes do Strokes já tinham lançado trabalhos solo, menos Julian Casablancas. Pois, essa semana, o rapaz anunciou “Phrazers To The Young”, disco dele, que acabou de ser gravado. Se é bom, daqui a pouco saberemos. /// Mattie Safer, uma das vozes (além do titular do baixo) do Rapture deixou a banda. Não foi explicado com detalhes o motivo, mas, em comunicado oficial do grupo, diz-se apenas que foi algo “melhor para os dois lados”. Uma pena, mas ainda há esperanças para um ótimo novo disco da banda, que está sendo finalizado.

Todo mundo tem que ouvir

O nome da banda já era esquisito: Grizzly Bear. O do disco, então, nem se fala: “Veckatimest”. Mas quem já conhecia o grupo, não é novidade nenhuma que trata-se de um lindo álbum, certamente um dos melhores do ano.

A atmosfera nebulosa, com raios de sol se metendo entre as frestas, é a cara do Grizzly Bear. E neste terceiro disco, tudo soa ainda mais etéreo, com levadas deliciosas, batidas suaves e melodias estonteantes. Não é exagero. Ouça agora.

Playlist

Friendly Fires – Kiss Of Life

Lenka – Bring Me Down

Lucas Santtana – O Violão de Mario Bros

Tiny Vipers – Young Gods

One For The Team – Ha Ha

The Anomalies – Blue Peter

John Is Gone – Chest Box

Natalie Prass – A Good Man

Bibio – Abrasion

Sarah Blasko – No Turning Back

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