Coluna B, dia 04/07

Valeu esperar por Regina
A espera me consumia. Havia conhecido Regina Spektor na época do lançamento de “Begin To Hope”, um disco que me conquistou por completo e que escuto com fervor de fã até hoje. Ainda me lembro de gravá-lo em um CD e ficar ouvindo meses e meses a fio no som do carro, fazendo associações malucas entre as músicas da moça e as ruas que pegava todos os dias para ir pra casa, saindo do trabalho, ou pelas grandes avenidas de Vitória e Vila Velha, onde o som alto da voz de anjo de Spektor me deixava surdo para buzinas, freadas, xingamentos e qualquer som externo. Os vidros do carro protegiam a minha relação de amor incondicional com a música da cantora e, mais aflorado, com aquele disco em si.
Depois conheci o resto da discografia da moça de origem tão diferente – ela é meio russa, meio americana, toca piano desde criança e é apaixonada por música pop também desde novinha. Ouvi “Soviet Kistch” em um dia de muita chuva e frio, lembro como se fosse hoje. Era como se eu descobrisse o passado de uma amante, entendendo pelas atitudes daquela época o que ela estava dizendo hoje. Gostei e resolvi ir mais fundo. Achei “11:11” e “Songs”, notei suas vertentes mais undergrounds e fiquei ainda mais fascinado por tudo que a cercava. Em pleno fim do ano de 2006, estava perdidamente enamorado pela arte de Regina Spektor.
Assim segui por todos esses anos. Aguardava com muita expectativa qualquer notícia da moça, mas nada era anunciado em relação a um novo trabalho de inéditas. Roía as unhas de nervoso quando entrava em seu MySpace e nada, simplesmente nada de novo havia sido incluído. Nem uma notinha sobre gravações, nem uma demo de nova canção. Nada, até alguns meses atrás, quando Regina Spektor anunciou via blog que estava produzindo seu novo disco com nada menos que quatro produtores diferentes – e só gente de moral: David Kahne, responsável por “Begin To Hope”; Jacknife Lee, que tem Bloc Party, R.E.M. e U2 no currículo; Mike Elizondo, parceiro de longa data da cantora Fiona Apple; e Jeff Lynne, a cabeça do Electric Light Orchestra e produtor de lendas como George Harrison, Brian Wilson, Ringo Starr e Paul McCartney, além do “Anthology” dos Beatles. É, coisa boa estava vindo por aí.
Quando “Far” finalmente vazou para a internet, alguns dias antes de seu lançamento real, a confirmação de mais um grande trabalho de Regina Spektor foi apenas questão de tempo. É verdade que o disco não supera a deliciosa inconsequência de “Begin To Hope”, um álbum que não conhecia limites para viajar sobre suas próprias estruturas. Neste novo disco, Spektor trabalha com mais afinco seu lado “fofo”, suaviza a mão, outrora pesada, nas experimentações, sejam elas vocais ou instrumentais. Mas não perde, nem de longe, sua personalidade vivaz, as letras surpreendentes, os arranjos perfeitos. Há, como é característica sua desde a infância, canções pop combinadas com toques eruditos, histórias inteligentes e toda a incrível capacidade de arrepiar os pelos de seus ouvintes.
É notável também que Regina Spektor esteve em dias menos melancólicos do que anteriormente. Ainda que tenhamos faixas tão lindas e tristonhas como “Genius Next Door” ou as fantásticas “The Wallet” e “Human of the Year”, que remetem a um lugar nevado e sem comunicação como mundo externo, são as empolgantes “Two Birds”, “Machine” e “The Calculation” que dão o tom de “Far”, quinto disco da cantora. Usando seus quatro produtores, ela fez um álbum surpreendentemente homogêneo, apesar de piscar aqui e ali para diferentes estilos sem perder o ritmo dos passos.
Na incrível “Laughing With”, primeiro single do disco, Spektor puxa a orelha de quem só lembra de Deus nas horas de dificuldade ajudada por uma melodia estonteante. Já na animadíssima “Folding Chair”, de pegada marcada e refrão maluquinho, ela opta por uma letra mais simples, mas não menos bem feita. “One More Time With Feeling” é pop de quebrar as orelhas, assim como “Eet”, impossível de se ignorar com sua progressão rocker regada a toques suaves de piano. Em “Dance Anthem of the 80’s” Spektor se acaba em vocalizações curiosas, pegando emprestado toques da música árabe para temperar seu refrão.  E “Far” vai indo, indo, até que “Man of a Thousand Faces”, ao melhor estilo balada-perfeita, fecha o pacote que tanto demorou para chegar. Mas, finalmente, está entre nós. E foi aquele raro caso em que a expectativa não destrói a realidade.
Notinhas
Morte lucrativa
A triste passagem do rei do pop desta para uma melhor ainda vai render muito o que falar. Só nas 24 horas após sua morte, Michael Jackson vendeu na loja online Amazon mais do que vendeu nos últimos 11 anos. O número impressionante se repete na loja HMV, uma das maiores varejistas de música do mundo. Lá, segundo o site Blue Bus, o acervo de Jacko aumentou em oitenta vezes o seu número de vendas, superando fácil as vendas post-mortem de ídolos definitivos como Elvis e Lennon. E ainda tinha gente achando que os filhos do falecido iam sofrer com dívidas.
Música e Twitter, juntos
Essa história é do tipo que a gente termina dizendo: “sinal dos tempos”. A musicista indie Amanda Palmer, de festejada carreira solo e parte feminina da dupla The Dresden Dolls, resolveu fazer uso do Twitter, aquele microblog onde os posts têm no máximo 140 caracteres (será que ainda tem alguém que não sabe o que é isso?), para vender seu peixe. Literalmente. Em algumas horas, segundo o blog Popload, a moça ganhou quase vinte mil dólares. Como? Palmer utilizou o Twitter para anunciar que tinha uma leva de novas camisetas. Vendeu todas em poucas horas. Depois, anunciou um show por lá e rapidamente vendeu centenas de ingressos. Pra terminar, organizou uma espécie de leilão de badulaques seus autografados, com participação ativa e empolgada de seus “seguidores” do Twitter. Resultado: 19 mil dólares na conta da moça em menos de dez horas. É ou não é um exemplo a ser seguido? Sinal dos tempos…
Novidades da música
Pra fechar, três ótimas notícias: o incrível Sondre Lerche está com disco novo saindo do forno. “Heartbeat Radio” vai ser lançado em setembro, mas o primeiro single já está na internet. /// O projeto paralelo de integrantes do Vampire Weekend e do Ra Ra Riot, chamado Discovery, será lançado essa semana, mas está disponível em streaming no site da revista NME(.com). /// Josh Homme, Dave Grohl e John Paul Jones juntos? Sim, é o que diz o site MOG. Desse encontro, um disco pode sair. Aguardemos.
Todo mundo tem que ouvir
Mais uma dessas belezuras que nem disco lançado tem, mas que já derrete corações por aí. Laura Jansen acabou de lançar seu segundo EP, “Single Girls”, e você precisa ouvi-lo.
Holandesa residente em Los Angeles, a moça usa a música pop como o veículo perfeito para sua voz. Ouça “Single Girls” e também seu primeiro EP, “Trauma”, ambos excelentes.
Playlist
Lestics – À Espera de Um Fantasma
La Roux – I’m Not Your Toy
The Rumble Strips – Dem Girls
Portugal. The Man – The Woods
When Saints Go Machine – Pinned
The Fiery Furnaces – Drive To Dallas
Passion Pit – Sleepyhead
Jenny Owen Youngs – First Person
Lord Cut-Glass – Monter Face
The Lovetones – Two Of A Kind

Valeu esperar por Regina

A espera me consumia. Havia conhecido Regina Spektor na época do lançamento de “Begin To Hope”, um disco que me conquistou por completo e que escuto com fervor de fã até hoje. Ainda me lembro de gravá-lo em um CD e ficar ouvindo meses e meses a fio no som do carro, fazendo associações malucas entre as músicas da moça e as ruas que pegava todos os dias para ir pra casa, saindo do trabalho, ou pelas grandes avenidas de Vitória e Vila Velha, onde o som alto da voz de anjo de Spektor me deixava surdo para buzinas, freadas, xingamentos e qualquer som externo. Os vidros do carro protegiam a minha relação de amor incondicional com a música da cantora e, mais aflorado, com aquele disco em si.

Depois conheci o resto da discografia da moça de origem tão diferente – ela é meio russa, meio americana, toca piano desde criança e é apaixonada por música pop também desde novinha. Ouvi “Soviet Kistch” em um dia de muita chuva e frio, lembro como se fosse hoje. Era como se eu descobrisse o passado de uma amante, entendendo pelas atitudes daquela época o que ela estava dizendo hoje. Gostei e resolvi ir mais fundo. Achei “11:11” e “Songs”, notei suas vertentes mais undergrounds e fiquei ainda mais fascinado por tudo que a cercava. Em pleno fim do ano de 2006, estava perdidamente enamorado pela arte de Regina Spektor.

Assim segui por todos esses anos. Aguardava com muita expectativa qualquer notícia da moça, mas nada era anunciado em relação a um novo trabalho de inéditas. Roía as unhas de nervoso quando entrava em seu MySpace e nada, simplesmente nada de novo havia sido incluído. Nem uma notinha sobre gravações, nem uma demo de nova canção. Nada, até alguns meses atrás, quando Regina Spektor anunciou via blog que estava produzindo seu novo disco com nada menos que quatro produtores diferentes – e só gente de moral: David Kahne, responsável por “Begin To Hope”; Jacknife Lee, que tem Bloc Party, R.E.M. e U2 no currículo; Mike Elizondo, parceiro de longa data da cantora Fiona Apple; e Jeff Lynne, a cabeça do Electric Light Orchestra e produtor de lendas como George Harrison, Brian Wilson, Ringo Starr e Paul McCartney, além do “Anthology” dos Beatles. É, coisa boa estava vindo por aí.

Quando “Far” finalmente vazou para a internet, alguns dias antes de seu lançamento real, a confirmação de mais um grande trabalho de Regina Spektor foi apenas questão de tempo. É verdade que o disco não supera a deliciosa inconsequência de “Begin To Hope”, um álbum que não conhecia limites para viajar sobre suas próprias estruturas. Neste novo disco, Spektor trabalha com mais afinco seu lado “fofo”, suaviza a mão, outrora pesada, nas experimentações, sejam elas vocais ou instrumentais. Mas não perde, nem de longe, sua personalidade vivaz, as letras surpreendentes, os arranjos perfeitos. Há, como é característica sua desde a infância, canções pop combinadas com toques eruditos, histórias inteligentes e toda a incrível capacidade de arrepiar os pelos de seus ouvintes.

É notável também que Regina Spektor esteve em dias menos melancólicos do que anteriormente. Ainda que tenhamos faixas tão lindas e tristonhas como “Genius Next Door” ou as fantásticas “The Wallet” e “Human of the Year”, que remetem a um lugar nevado e sem comunicação como mundo externo, são as empolgantes “Two Birds”, “Machine” e “The Calculation” que dão o tom de “Far”, quinto disco da cantora. Usando seus quatro produtores, ela fez um álbum surpreendentemente homogêneo, apesar de piscar aqui e ali para diferentes estilos sem perder o ritmo dos passos.

Na incrível “Laughing With”, primeiro single do disco, Spektor puxa a orelha de quem só lembra de Deus nas horas de dificuldade ajudada por uma melodia estonteante. Já na animadíssima “Folding Chair”, de pegada marcada e refrão maluquinho, ela opta por uma letra mais simples, mas não menos bem feita. “One More Time With Feeling” é pop de quebrar as orelhas, assim como “Eet”, impossível de se ignorar com sua progressão rocker regada a toques suaves de piano. Em “Dance Anthem of the 80’s” Spektor se acaba em vocalizações curiosas, pegando emprestado toques da música árabe para temperar seu refrão.  E “Far” vai indo, indo, até que “Man of a Thousand Faces”, ao melhor estilo balada-perfeita, fecha o pacote que tanto demorou para chegar. Mas, finalmente, está entre nós. E foi aquele raro caso em que a expectativa não destrói a realidade.

Notinhas

Morte lucrativa

A triste passagem do rei do pop desta para uma melhor ainda vai render muito o que falar. Só nas 24 horas após sua morte, Michael Jackson vendeu na loja online Amazon mais do que vendeu nos últimos 11 anos. O número impressionante se repete na loja HMV, uma das maiores varejistas de música do mundo. Lá, segundo o site Blue Bus, o acervo de Jacko aumentou em oitenta vezes o seu número de vendas, superando fácil as vendas post-mortem de ídolos definitivos como Elvis e Lennon. E ainda tinha gente achando que os filhos do falecido iam sofrer com dívidas.

Música e Twitter, juntos

Essa história é do tipo que a gente termina dizendo: “sinal dos tempos”. A musicista indie Amanda Palmer, de festejada carreira solo e parte feminina da dupla The Dresden Dolls, resolveu fazer uso do Twitter, aquele microblog onde os posts têm no máximo 140 caracteres (será que ainda tem alguém que não sabe o que é isso?), para vender seu peixe. Literalmente. Em algumas horas, segundo o blog Popload, a moça ganhou quase vinte mil dólares. Como? Palmer utilizou o Twitter para anunciar que tinha uma leva de novas camisetas. Vendeu todas em poucas horas. Depois, anunciou um show por lá e rapidamente vendeu centenas de ingressos. Pra terminar, organizou uma espécie de leilão de badulaques seus autografados, com participação ativa e empolgada de seus “seguidores” do Twitter. Resultado: 19 mil dólares na conta da moça em menos de dez horas. É ou não é um exemplo a ser seguido? Sinal dos tempos…

Novidades da música

Pra fechar, três ótimas notícias: o incrível Sondre Lerche está com disco novo saindo do forno. “Heartbeat Radio” vai ser lançado em setembro, mas o primeiro single já está na internet. /// O projeto paralelo de integrantes do Vampire Weekend e do Ra Ra Riot, chamado Discovery, será lançado essa semana, mas está disponível em streaming no site da revista NME(.com). /// Josh Homme, Dave Grohl e John Paul Jones juntos? Sim, é o que diz o site MOG. Desse encontro, um disco pode sair. Aguardemos.

Todo mundo tem que ouvir

Mais uma dessas belezuras que nem disco lançado tem, mas que já derrete corações por aí. Laura Jansen acabou de lançar seu segundo EP, “Single Girls”, e você precisa ouvi-lo.

Holandesa residente em Los Angeles, a moça usa a música pop como o veículo perfeito para sua voz. Ouça “Single Girls” e também seu primeiro EP, “Trauma”, ambos excelentes.

Playlist

Lestics – À Espera de Um Fantasma

La Roux – I’m Not Your Toy

The Rumble Strips – Dem Girls

Portugal. The Man – The Woods

When Saints Go Machine – Pinned

The Fiery Furnaces – Drive To Dallas

Passion Pit – Sleepyhead

Jenny Owen Youngs – First Person

Lord Cut-Glass – Monter Face

The Lovetones – Two Of A Kind

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Um comentário sobre “Coluna B, dia 04/07

  1. Também adoro Spektor e suas músicas de “caixinhas”. Já escrevi uma vez que sou sua fã, vc escreve muito bem e sobre tudo que gosto. Vi vc no coquetel Omelete Marginal ;-)

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