Coluna B, dia 27/06

A redenção dos renegados
Eu sempre me considerei fã do rock inglês. É do país que saem algumas das melhores bandas deste gênero, desde que o mundo é mundo. Sem contar Beatles, que são hors-concours, é fácil enumerar algumas das maiores da história, como Rolling Stones, Led Zeppelin, Sex Pistols, Pink Floyd, The Smiths, Joy Division, Oasis, Blur, Portishead, Radiohead e, mais recentemente, Coldplay, Arctic Monkeys, Bloc Party e Keane. Talvez seja o ar embebido de umidade, talvez seja o desvairado regime monárquico, não tenho certeza, mas é fato que a Inglaterra produziu e ainda produz algumas das melhores bandas de rock do mundo. Mas há os renegados.
Gosto de muita coisa de lá, mas quando eu não gosto, sai da frente. Por exemplo, odeio e simplesmente ignoro qualquer coisa que envolva o junkiezinho mala Pete Doherty. Libertines? Tenho asco. Babyshambles? Ânsia de vômito. Nem o Dirty Pretty Things, do Carl Barat, me descia pela garganta. Entre tantos outros exemplos, há alguns grupos que eu não odiava tanto, mas que simplesmente não me cativavam tanto. Dois deles lançaram novos discos esse ano e, para minha surpresa, gostei bastante desses novos trabalhos. Sou obrigado a dar o braço a torcer: “Art Brut vs Satan”, do Art Brut, e “West Ryder Pauper Lunatic Asylum”, do Kasabian, são muito bons.
O meu problema com o Kasabian nem era muito sério. Eu só achava que eles não eram tão bons quanto todo mundo falava – e continuo não achando, pra ser sincero. A banda sempre foi elogiada no Reino Unido, mas eu nunca consegui captar a essência desses elogios. Até mesmo vendo-os ao vivo, no Planeta Terra Festival de 2007, não senti nada que me fizesse recomendar a banda com palmas enfáticas. Era apenas mais um entre a imensa leva de bandas que mandam sinal diretamente da Inglaterra todos os dias. Mas este terceiro disco de estúdio da banda, produzido por Dan The Automator, saiu da linha chata e pouco interessante que seus outros dois seguiam para adentrar um universo novo (para eles, claro) e quase nada explorado anteriormente.
Se antes as referências mais próximas do Kasabian eram os Rolling Stones, o Stone Roses ou o Happy Mondays, agora a banda acrescentou novas sonoridades para este cardápio. Muita psicodelia e um certo ar de mistério cobrem todo o álbum, espalhados por faixas esquisitonas – e, por isso, ótimas. “Take Aim” mistura um baixo potente com guitarras e coros góticos, “Underdog” lembra um Oasis mais dark, “Where Did All the Love Go?” com seu refrão pegajoso e a ótima “Fire” remete inicialmente ao The Doors não apenas no nome, como na levada incial e na voz de Meighan, para depois retornar para suas referências clássicas. Há também momentos calmos, como na dylanesca “Ladies and Gentleman (Roll the Dice)” ou na bela balada “Happiness”, que fecha “West Ryder Pauper Lunatic Asylum”. Só mesmo essa renovação de referências foi capaz de tirar o Kasabian do meu limbo musical.
Já o caso da outra banda renegada por mim, o Art Brut, é curioso. O primeiro disco lançado pela banda, “Bang Bang Rock N’ Roll”, até que me agradou. Achei curioso como o vocalista Eddie Argos construía suas letras, ficava com a música “Formed A Band” na cabeça sempre que a escutava e cheguei a escutar bastante o álbum. Mas enjoei rápido. No ano de 2006, assisti ao show do grupo em São Paulo, no famoso Motomix em que o Franz Ferdinand fez um dos shows mais fantásticos da história recente brasileira de atrações internacionais – é claro que o Art Brut ficou meio de lado, por tudo isso. O segundo disco, “It’s A Bit Complicated”, já não me desceu. Achei chato, a fórmula se repetia, e se eu já tinha enjoado do primeiro… não era bom sinal. Mas, com a ajuda do rock dos anos 90 e de um casamento feliz, o Art Brut voltou a figurar no meu rol de bandas que valem a pena ouvir.
Sim, anos 90. Por quê? Fácil. As guitarras estouradas que se escuta em todo o disco nunca existiram antes. O sentido melódico dos arranjos da banda só ultrapassaram o nível de pobreza quando o tal casamento que citei aconteceu: Art Brut e Black Francis, o dono do Pixies e dessas guitarras maravilhosas. O músico americano foi quem produziu “Art Brut vs Satan”, dando uma contribuição incomensurável ao som da banda. A verborragia de Argos segue à toda, colocando todo mundo na roda. Ele fala mal do U2 e em seu amiguinho Brian Eno, desce a mão na indústria fonográfica e nas pessoas que deixam de comprar os discos deles para comprar de bandas, segundo eles, muito pior e menos originais que eles, e fala mal até mesmo dos próprios problemas, como o alcoolismo. Mas tudo isso com a parte instrumental totalmente transformada. Francis deu à banda as ferramentas para tornar as músicas mais interessantes. Riffs inacreditáveis, linhas de baixo demolidoras e solos de guitarra ao melhor estilo anos 90 fazem com que as palavras alucinadas de Eddie Argos não se sintam mais solitárias na música do Art Brut. Ironicamente, a luta contra o Satanás rendeu belos frutos à banda.
Notinhas
Dos shows
E o circuito nacional de shows internacionais (hein!?) está ganhando mais e mais nomes. Na última semana, boas surpresas e possibilidades surgiram na onda de boatos costumeira. Fala-se de Passion Pit por aqui em agosto, pra tocar junto com o Friendly Fires, e também em Golden Filter (tem até no MySpace deles), e também de uma grande turnê unindo Killers e Coldplay num giro pela América do Sul – 5 datas brasileiras, tá bom ou quer mais? Então, tá, tem mais: em 2010, Paul MacCartney está praticamente confirmado para dois shows no Brasil, sendo um no aniversário de 50 anos de Brasília e outro em Sampa.
Variadas
Kate Nash e Metronomy armaram um projeto juntos. A união já está rendendo algumas músicas que devem ser lançadas ainda em 2009. Aguardemos. /// Brollies & Apples é o nome do projeto que mistura rock e música eletrônica, e que também mistura integrantes do Leela com o DJ Chernobyl e sua esposa gata, Carol Teixeira. As músicas são divertidinhas. /// Falando em música nacional, o bacana Ludov está para lançar “Caligrafia”, terceiro disco de estúdio dos paulistanos. Sai em julho. /// Jim James, vocalista do My Morning Jacket, resolveu aproveitar a estagnada que a banda deu para lançar sozinho o EP “A Tribute To”, com seis músicas do falecido Beatle George Harrison. Sai em agosto. /// Parece que David Lynch gostou de se unir à música. O cineasta vai lançar na semana que vem “Fox Bat Strategy: A Tribute to Jaurequi”, com sete faixas escritas e produzidas por ele.
Todo mundo tem que ouvir
Ano passado o Gossip deu o cano no TIM Festival alegando que tinha que ficar na Inglaterra gravando o novo disco. Beleza. Pelo menos agora a gente pode dizer que valeu a pena.
O vibrante “Music For Men” já está nos computadores de todo o mundo, e mostra que Beth Ditto não apenas manteve a forma nesse tempo, como deu uma melhorada. Imperdível.
Playlist
Peter, Bjorn and John – It Don’t Move Me
Ladytron – Tomorrow
The Mars Volta – Copernicu
Theoretical Girl – Seeing You Again
Adrian Crowley – Walk On Part
Lord Cut-Glass – Picasso
Chris Garneau – Hometown Girls
Kate Earl – Everlasting
Chew Lips – Salt Air
Arctic Monkeys – Crying Lightning

A redenção dos renegados

Eu sempre me considerei fã do rock inglês. É do país que saem algumas das melhores bandas deste gênero, desde que o mundo é mundo. Sem contar Beatles, que são hors-concours, é fácil enumerar algumas das maiores da história, como Rolling Stones, Led Zeppelin, Sex Pistols, Pink Floyd, The Smiths, Joy Division, Oasis, Blur, Portishead, Radiohead e, mais recentemente, Coldplay, Arctic Monkeys, Bloc Party e Keane. Talvez seja o ar embebido de umidade, talvez seja o desvairado regime monárquico, não tenho certeza, mas é fato que a Inglaterra produziu e ainda produz algumas das melhores bandas de rock do mundo. Mas há os renegados.

Gosto de muita coisa de lá, mas quando eu não gosto, sai da frente. Por exemplo, odeio e simplesmente ignoro qualquer coisa que envolva o junkiezinho mala Pete Doherty. Libertines? Tenho asco. Babyshambles? Ânsia de vômito. Nem o Dirty Pretty Things, do Carl Barat, me descia pela garganta. Entre tantos outros exemplos, há alguns grupos que eu não odiava tanto, mas que simplesmente não me cativavam tanto. Dois deles lançaram novos discos esse ano e, para minha surpresa, gostei bastante desses novos trabalhos. Sou obrigado a dar o braço a torcer: “Art Brut vs Satan”, do Art Brut, e “West Ryder Pauper Lunatic Asylum”, do Kasabian, são muito bons.

O meu problema com o Kasabian nem era muito sério. Eu só achava que eles não eram tão bons quanto todo mundo falava – e continuo não achando, pra ser sincero. A banda sempre foi elogiada no Reino Unido, mas eu nunca consegui captar a essência desses elogios. Até mesmo vendo-os ao vivo, no Planeta Terra Festival de 2007, não senti nada que me fizesse recomendar a banda com palmas enfáticas. Era apenas mais um entre a imensa leva de bandas que mandam sinal diretamente da Inglaterra todos os dias. Mas este terceiro disco de estúdio da banda, produzido por Dan The Automator, saiu da linha chata e pouco interessante que seus outros dois seguiam para adentrar um universo novo (para eles, claro) e quase nada explorado anteriormente.

Se antes as referências mais próximas do Kasabian eram os Rolling Stones, o Stone Roses ou o Happy Mondays, agora a banda acrescentou novas sonoridades para este cardápio. Muita psicodelia e um certo ar de mistério cobrem todo o álbum, espalhados por faixas esquisitonas – e, por isso, ótimas. “Take Aim” mistura um baixo potente com guitarras e coros góticos, “Underdog” lembra um Oasis mais dark, “Where Did All the Love Go?” com seu refrão pegajoso e a ótima “Fire” remete inicialmente ao The Doors não apenas no nome, como na levada incial e na voz de Meighan, para depois retornar para suas referências clássicas. Há também momentos calmos, como na dylanesca “Ladies and Gentleman (Roll the Dice)” ou na bela balada “Happiness”, que fecha “West Ryder Pauper Lunatic Asylum”. Só mesmo essa renovação de referências foi capaz de tirar o Kasabian do meu limbo musical.

Já o caso da outra banda renegada por mim, o Art Brut, é curioso. O primeiro disco lançado pela banda, “Bang Bang Rock N’ Roll”, até que me agradou. Achei curioso como o vocalista Eddie Argos construía suas letras, ficava com a música “Formed A Band” na cabeça sempre que a escutava e cheguei a escutar bastante o álbum. Mas enjoei rápido. No ano de 2006, assisti ao show do grupo em São Paulo, no famoso Motomix em que o Franz Ferdinand fez um dos shows mais fantásticos da história recente brasileira de atrações internacionais – é claro que o Art Brut ficou meio de lado, por tudo isso. O segundo disco, “It’s A Bit Complicated”, já não me desceu. Achei chato, a fórmula se repetia, e se eu já tinha enjoado do primeiro… não era bom sinal. Mas, com a ajuda do rock dos anos 90 e de um casamento feliz, o Art Brut voltou a figurar no meu rol de bandas que valem a pena ouvir.

Sim, anos 90. Por quê? Fácil. As guitarras estouradas que se escuta em todo o disco nunca existiram antes. O sentido melódico dos arranjos da banda só ultrapassaram o nível de pobreza quando o tal casamento que citei aconteceu: Art Brut e Black Francis, o dono do Pixies e dessas guitarras maravilhosas. O músico americano foi quem produziu “Art Brut vs Satan”, dando uma contribuição incomensurável ao som da banda. A verborragia de Argos segue à toda, colocando todo mundo na roda. Ele fala mal do U2 e em seu amiguinho Brian Eno, desce a mão na indústria fonográfica e nas pessoas que deixam de comprar os discos deles para comprar de bandas, segundo eles, muito pior e menos originais que eles, e fala mal até mesmo dos próprios problemas, como o alcoolismo. Mas tudo isso com a parte instrumental totalmente transformada. Francis deu à banda as ferramentas para tornar as músicas mais interessantes. Riffs inacreditáveis, linhas de baixo demolidoras e solos de guitarra ao melhor estilo anos 90 fazem com que as palavras alucinadas de Eddie Argos não se sintam mais solitárias na música do Art Brut. Ironicamente, a luta contra o Satanás rendeu belos frutos à banda.

Notinhas

Dos shows

E o circuito nacional de shows internacionais (hein!?) está ganhando mais e mais nomes. Na última semana, boas surpresas e possibilidades surgiram na onda de boatos costumeira. Fala-se de Passion Pit por aqui em agosto, pra tocar junto com o Friendly Fires, e também em Golden Filter (tem até no MySpace deles), e também de uma grande turnê unindo Killers e Coldplay num giro pela América do Sul – 5 datas brasileiras, tá bom ou quer mais? Então, tá, tem mais: em 2010, Paul MacCartney está praticamente confirmado para dois shows no Brasil, sendo um no aniversário de 50 anos de Brasília e outro em Sampa.

Variadas

Kate Nash e Metronomy armaram um projeto juntos. A união já está rendendo algumas músicas que devem ser lançadas ainda em 2009. Aguardemos. /// Brollies & Apples é o nome do projeto que mistura rock e música eletrônica, e que também mistura integrantes do Leela com o DJ Chernobyl e sua esposa gata, Carol Teixeira. As músicas são divertidinhas. /// Falando em música nacional, o bacana Ludov está para lançar “Caligrafia”, terceiro disco de estúdio dos paulistanos. Sai em julho. /// Jim James, vocalista do My Morning Jacket, resolveu aproveitar a estagnada que a banda deu para lançar sozinho o EP “A Tribute To”, com seis músicas do falecido Beatle George Harrison. Sai em agosto. /// Parece que David Lynch gostou de se unir à música. O cineasta vai lançar na semana que vem “Fox Bat Strategy: A Tribute to Jaurequi”, com sete faixas escritas e produzidas por ele.

Todo mundo tem que ouvir

Ano passado o Gossip deu o cano no TIM Festival alegando que tinha que ficar na Inglaterra gravando o novo disco. Beleza. Pelo menos agora a gente pode dizer que valeu a pena.

O vibrante “Music For Men” já está nos computadores de todo o mundo, e mostra que Beth Ditto não apenas manteve a forma nesse tempo, como deu uma melhorada. Imperdível.

Playlist

Peter, Bjorn and John – It Don’t Move Me

Ladytron – Tomorrow

The Mars Volta – Copernicu

Theoretical Girl – Seeing You Again

Adrian Crowley – Walk On Part

Lord Cut-Glass – Picasso

Chris Garneau – Hometown Girls

Kate Earl – Everlasting

Chew Lips – Salt Air

Arctic Monkeys – Crying Lightning

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