O Show de Michael

Era de se esperar que, um dia, esse personagem incrível, de talento reverenciado em cada canto do planeta, de um carisma inabalável, ia simplesmente subir as escadinhas coladas ao fundo de nuvens, virar as costas e sair pela portinha aberta, para nunca mais voltar. Ele já havia percebido que era nada mais do que um personagem de um mundo criado para ele, construído com tijolos frágeis, ainda que parecessem fortes, desde que ele ainda era uma pequena criança apaixonada pela música negra. Ele conhecia seu destino, sabia-se refém, jogava o jogo. Assim como Truman, Michael Jackson participava de um reality show muito mais real do que qualquer similar opaco das TVs de hoje em dia.
Claro que nem sempre foi assim. Imagine como seria ter sua vida controlada nos mínimos detalhes desde a infância? Não me parece nada agradável. Você se lembra daquele crioulinho, cabelo de capacete, perninhas velozes e voz que encantava um mundo inteiro sem fazer a menor força para isso. À frente de toda uma família, carregando praticamente sozinho nas costas a sobrevivência e, logo depois, a riqueza de um bando de marmanjos que careciam do que o pequeno mais tinha: talento. É injusto dizer que ele não gostava ou que estava sendo explorado. Mas é acertado afirmar que o crescimento desse garoto, acompanhado por milhões e milhões de espectadores ao redor do mundo, não foi nem um milímetro próximo do normal.
A inevitável pergunta, “Quem matou Michael Jackson?”, não vai ser feita aqui. Muito fácil agora lançar qualquer tipo de holofote, seja positivo ou negativo, em cima de um sistema que, queira ou não, tira muita coisa das pessoas, mas também oferece seus encantos quase irrecusáveis. Faço aqui apenas uma reflexão, talvez uma constatação ligeiramente óbvia, mas não impertinente. Assim como o protagonista de “O Show de Truman”, filme de 1998 dirigido por Peter Weir e estrelado por Jim Carrey, esse cantor, compositor, dançarino, ator, produtor, pai bizarro e único ser conhecido no mundo do entretenimento que conseguiu mudar de cor, teve toda sua vida acompanhada de perto pela mídia. Cada passo de Michael era reproduzido com estardalhaço por jornais, revistas e canais de TV, cada detalhe de sua vida era esmiuçado – mesmo aqueles a que ninguém nunca teve acesso, devassados cuidadosamente pela indústria da fofoca.
Após vários anos de incrível sucesso na carreira solo, quando ainda jovem se tornou o rei de um mundo onde as coisas são sempre voláteis e cruéis, o homem por trás da maquilagem alva simplesmente não conseguiu montar uma vida comum. Mudança da cor negra para a branca, dezenas e mais dezenas de cirurgias plásticas, acusações de pedofilia, a compra de um rancho transformado em parque de diversões e moradia, dúvidas a respeito de sua sexualidade, discos de pouco sucesso, filhos mascarados que ninguém nunca via o rosto, um bebê que quase cai da sacada, a falência que se aproximava – tudo aconteceu na vida deste Truman da vida real. E todos nós acompanhamos cada detalhe, dando nossas opiniões sem sequer saber do que realmente se tratava.
Esse filme a gente já viu. A pressão em cima de quem cresce sem ter tempo para brincar, precisando cumprir seus compromissos comerciais no momento em que deveria estar correndo pela casa com um carrinho de brinquedo nas mãos. A juventude de uma pessoa rodeada pela necessidade de provar a todos que o talento não foi embora com a ingenuidade da infância. A incompatibilidade com a vida adulta que chegou de repente, cheia de novas responsabilidades somadas às velhas e ainda presentes. E eu, você e o resto do mundo com sorrisos de incredulidade no rosto, observando a tudo isso, tentando entender o que se passava na cabeça daquele ser humano que parecia tão perdido, tão alheio ao mundo em que vivia. Esse filme também poderia se chamar “O Circo de Michael”.
Mas talvez não se passasse nada. Talvez ele estivesse sendo apenas ele, e nós, espectadores assíduos, não entendíamos nada porque não estamos acostumados a ver as pessoas tão de perto. Aquela famosa frase que diz, “de perto, ninguém é normal”, nunca esteve tão certa. Ninguém faz as mesmas coisas, todo mundo tem manias secretas – mas elas costumam permanecer secretas. Já O Show de Michael era transmitido para o mundo todo, via satélite, 24 horas por dia, de uns tempos pra cá em High Definition, com direito a intervalo comercial onde o próprio cantor era o personagem principal – e não foram poucas as campanhas onde ele dava as caras. E o seu protagonista era real, simplesmente existia, e só por isso era julgado dia-a-dia, por todo mundo, inclusive eu e você, e sem culpas. Mas agora o show acabou. Michael Jackson saiu pela sua portinha, não mais que de repente, subindo rapidinho as escadas coladas no fundo de nuvens. E agora, por onde ele anda? Vai saber. Deve estar, sei lá, caminhando de costas pela lua.

Era de se esperar que, um dia, esse personagem incrível, de talento reverenciado em cada canto do planeta, de um carisma inabalável, ia simplesmente subir as escadinhas coladas ao fundo de nuvens, virar as costas e sair pela portinha aberta, para nunca mais voltar. Ele já havia percebido que era nada mais do que um personagem de um mundo criado para ele, construído com tijolos frágeis, ainda que parecessem fortes, desde que ele ainda era uma pequena criança apaixonada pela música negra. Ele conhecia seu destino, sabia-se refém, jogava o jogo. Assim como Truman, Michael Jackson participava de um reality show muito mais real do que qualquer similar opaco das TVs de hoje em dia.

Claro que nem sempre foi assim. Imagine como seria ter sua vida controlada nos mínimos detalhes desde a infância? Não me parece nada agradável. Você se lembra daquele crioulinho, cabelo de capacete, perninhas velozes e voz que encantava um mundo inteiro sem fazer a menor força para isso. À frente de toda uma família, carregando praticamente sozinho nas costas a sobrevivência e, logo depois, a riqueza de um bando de marmanjos que careciam do que o pequeno mais tinha: talento. É injusto dizer que ele não gostava ou que estava sendo explorado. Mas é acertado afirmar que o crescimento desse garoto, acompanhado por milhões e milhões de espectadores ao redor do mundo, não foi nem um milímetro próximo do normal.

A inevitável pergunta, “Quem matou Michael Jackson?”, não vai ser feita aqui. Muito fácil agora lançar qualquer tipo de holofote, seja positivo ou negativo, em cima de um sistema que, queira ou não, tira muita coisa das pessoas, mas também oferece seus encantos quase irrecusáveis. Faço aqui apenas uma reflexão, talvez uma constatação ligeiramente óbvia, mas não impertinente. Assim como o protagonista de “O Show de Truman”, filme de 1998 dirigido por Peter Weir e estrelado por Jim Carrey, esse cantor, compositor, dançarino, ator, produtor, pai bizarro e único ser conhecido no mundo do entretenimento que conseguiu mudar de cor, teve toda sua vida acompanhada de perto pela mídia. Cada passo de Michael era reproduzido com estardalhaço por jornais, revistas e canais de TV, cada detalhe de sua vida era esmiuçado – mesmo aqueles a que ninguém nunca teve acesso, devassados cuidadosamente pela indústria da fofoca.

Após vários anos de incrível sucesso na carreira solo, quando ainda jovem se tornou o rei de um mundo onde as coisas são sempre voláteis e cruéis, o homem por trás da maquilagem alva simplesmente não conseguiu montar uma vida comum. Mudança da cor negra para a branca, dezenas e mais dezenas de cirurgias plásticas, acusações de pedofilia, a compra de um rancho transformado em parque de diversões e moradia, dúvidas a respeito de sua sexualidade, discos de pouco sucesso, filhos mascarados que ninguém nunca via o rosto, um bebê que quase cai da sacada, a falência que se aproximava – tudo aconteceu na vida deste Truman da vida real. E todos nós acompanhamos cada detalhe, dando nossas opiniões sem sequer saber do que realmente se tratava.

Esse filme a gente já viu. A pressão em cima de quem cresce sem ter tempo para brincar, precisando cumprir seus compromissos comerciais no momento em que deveria estar correndo pela casa com um carrinho de brinquedo nas mãos. A juventude de uma pessoa rodeada pela necessidade de provar a todos que o talento não foi embora com a ingenuidade da infância. A incompatibilidade com a vida adulta que chegou de repente, cheia de novas responsabilidades somadas às velhas e ainda presentes. E eu, você e o resto do mundo com sorrisos de incredulidade no rosto, observando a tudo isso, tentando entender o que se passava na cabeça daquele ser humano que parecia tão perdido, tão alheio ao mundo em que vivia. Esse filme também poderia se chamar “O Circo de Michael”.

Mas talvez não se passasse nada. Talvez ele estivesse sendo apenas ele, e nós, espectadores assíduos, não entendíamos nada porque não estamos acostumados a ver as pessoas tão de perto. Aquela famosa frase que diz, “de perto, ninguém é normal”, nunca esteve tão certa. Ninguém faz as mesmas coisas, todo mundo tem manias secretas – mas elas costumam permanecer secretas. Já O Show de Michael era transmitido para o mundo todo, via satélite, 24 horas por dia, de uns tempos pra cá em High Definition, com direito a intervalo comercial onde o próprio cantor era o personagem principal – e não foram poucas as campanhas onde ele dava as caras. E o seu protagonista era real, simplesmente existia, e só por isso era julgado dia-a-dia, por todo mundo, inclusive eu e você, e sem culpas. Mas agora o show acabou. Michael Jackson saiu pela sua portinha, não mais que de repente, subindo rapidinho as escadas coladas no fundo de nuvens. E agora, por onde ele anda? Vai saber. Deve estar, sei lá, caminhando de costas pela lua.

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