Coluna B, dia 20/06

À liberdade
Dizem que o sonho de todo músico é atingir a maior quantidade de pessoas possível. Não duvido, nem discordo ou discuto. É verdade que todo mundo que produz algum tipo de arte tem, ainda que lá no seu íntimo, a vontade de ser visto, ouvido ou lido pelo maior número de pessoas, e também compreendido ou admirado pela maioria delas. Por mais alternativo que ele queira soar, por mais independente que ele deseje ser, ainda assim é indiscutível a vontade de chegar aos ouvidos alheios com força e limpidez. Mas não podemos considerar um fracasso quando o artista, por mais que tenha uma carreira sólida e extensa, siga seu caminho alternativo sem desvios ou tropeções. Esse pode ser realmente o desejo dele.
Não é enganação. Geralmente, há muito do que se abrir mão para atingir públicos de gostos mais populares, e nem todo mundo está disposto a se sujeitar às ideias de terceiros para produzir sua própria arte. Por mais que vez ou outra passeiem pelo mainstream, transportados por alguns bem-vindos acasos, preferem seguir um caminho mais pessoal, onde escolhem exatamente em que solo vão plantar sua próxima muda, a forma como vão tratar dela e quando colher os frutos que ela dará. Assim é a rotina de quem escolhe ser alternativo, como dois artistas de carreiras muito bem estabelecidas, que lançaram em 2009 discos admiráveis sem se render ao bicho-papão (cada vez mais enfraquecido) da faminta indústria pop. Enquanto Sam Beam, corpo e alma do Iron & Wine, tem contrato assinado com a ousada Sub Pop, Dave Longstreth, a mente por trás do Dirty Projectors, lança seu quinto disco, o primeiro pela esperta Domino. E os dois escolhem exatamente o quê e como querem fazer tudo que diz respeito a suas empreitadas.
“Around the Well” é o quinto disco do projeto do barbudão Sam Beam, mas traz uma particularidade: é um álbum de raridades, músicas feitas especialmente para outros meios (como trilhas sonoras de cinema), lados B de singles e sobras de gravações anteriores. Mas nem parece. A qualidade deste conjunto de faixas é tão alta, com canções tão acima da média, que realmente soa incrível que elas não tenham entrado em nenhum dos discos oficiais de estúdio do Iron & Wine. Por isso, nem dá pra considerar o álbum uma simples coletânea, ou relegá-lo a um lugar menor na discografia da banda. “Around the Well” entra direto para a lista de  grandes discos do Iron & Wine, a qual inclui nada menos do que todos os trabalhos lançados por Beam desde o começo deste século. E este último ajuda a relembrar todos os momentos do artista americano à frente do I&W.
O novo álbum da banda é duplo e dividido entre as duas fases que Sam Beam explorou durante sua carreira. O primeiro disco traz as canções mais lo-fi do projeto, algumas gravadas de forma caseira, jogando os holofotes sobre o combinado voz-e-violão puro e simples. São dessa fase a bela “Dearest Forsaken”, que abre o álbum, os lindos covers de “Peng! 33” do Stereolab e de “Waitin’ for a Superman” do Flaming Lips e a emocionante “Call Your Boys” – e, fechando a primeira parte, “Such Great Heights” do Postal Service, que foi trilha do filme Garden State. O disco 2 explora as sobras de estúdio dos dois últimos discos do Iron & Wine, quando Beam recrutou colegas para encher de camadas seu folk, antes minimalista por natureza. Além da ótima cover de “Love Vigilantes”, do New Order, a bolachinha libera lindíssimas faixas do artista que, se não fosse este trabalho, ficariam esquecidas em alguma gaveta empoeirada. Fazem parte deste rol as fantásticas “The Trapeze Swinger”, “Communion Cups and Someone’s Coat”, “No Moon” e “Kingdon of the Animals”. Os fãs do Iron & Wine precisam agradecer por “Around the Well”.
Enquanto o Iron & Wine simplifica sua música, essa não parece ser a maior preocupação de Dave Longstreth, o cérebro por trás do indie amalucado Dirty Projectors. Em sua estreia por um selo de maior alcance – a Domino não é o que chamamos de “grande gravadora”, mas está por trás de artistas conceituados como Arctic Monkeys, Franz Ferdinand, Animal Collective e Sons and Daughters – a banda não economizou nos experimentalismos de sempre. É claro que isso só fez com que “Bitte Orca” se tornasse ainda mais saboroso. Deve-se observar este álbum como um imenso caldeirão, onde são misturados ingredientes tão diversos quanto o folk, o indie rock, o soul, o electro, o R&B e o pop. E o mais bacana é que o experimentalismo do DP não fica apenas na música: a banda lançou “Bitte Orca” em CD, LP, download, um CD especial com disco-bônus e, pasmem, em fita cassete. Um trabalho assim tinha mesmo que ser muito bom.
A união de melodias deliciosas e arranjos excêntricos que incluem o uso de violões, violinos, teclados, guitarras, sintetizadores, percussão e vozes femininas e masculinas desenha nove faixas simplesmente indispensáveis para o disco. Parece pouco, mas é o bastante para formar um dos álbuns mais consistentes desta temporada. Em “Bitte Orca”, o Dirty Projectors soa como um festival inteiro, diversas bandas de diferentes estilos tocando juntas, construindo canções de inspiração infinita como “Stillness in the Move”, que parece uma música da Beyoncé desconstruída e refeita com uma mão nas costas e a cabeça dez anos à frente, a melosa e sedutora “No Intention”, a transtornada “Temecula Sunrise”, que faz referência ao reggae, ao Black Crowes e a um milhão de outras bandas, a metida a motown-style “Fluorescent Half-Dome”, a dançante “Cannibal Resource” ou a folk chorosa “Two Doves”. O Dirty Projectors fez o que quis, e fez muito, mas muito bem.
Notinhas
Mais uma leva de supergrupos
De vez em quando um bando de artistas famosos resolve se juntar para gravar algo juntos e deixar todo mundo com a curiosidade inflamada para saber como a coisa vai sair. A isso, usa-se dar o nome de supergrupos. E, nos últimos dias, dois novos espécimes surgiram na mídia. O primeiro é o Monsters of Folk, que une o trio Conor Oberst, M. Ward e Jim James, do My Morning Jacket, além de contar com a colaboração de Mike Mogis, do Bright Eyes. Os três uniram o útil ao agradável, já que costumavam fazer turnês em conjunto, e lançam um disco de 15 faixas em setembro. O outro novo projeto é o Bad Lieutenant, formado por todo o New Order menos o Peter Hook, que deixou a banda, e tendo no lugar dele o baixista do Blur, Alex James. A banda também já se mexe para trazer até outubro o primeiro disco do projeto.
Documentando guitarras
O incensado diretor de documentários Davis Guggenheim, responsável pelo sucesso de Al Gore no cinema com “Uma Verdade Inconveniente”, vai emplacar outro longa que certamente será visto por um monte de gente. No doc “It Might Get Loud”, que estreia em agosto nos EUA, o diretor une três mestres da guitarra rocker para discorrer sobre a paixão avassaladora pelo instrumento. As câmeras de Guggenheim seguem The Edge enquanto grava as guitarras de um single do U2, filmam Jack White, do White Stripes e do Raconteurs, enquanto o rapaz compõe em uma guitarra construída por ele mesmo, e entrevista Jimmy Page no local onde o Led Zeppelin criou “Stairway to Heaven”. Depois, o cineasta une os três para uma jam session dos sonhos. Bacana. Tomara que venha parar no cinemas capixabas (duvido), ou então vai ter que rolar um download.
Beirut no Brasil
Confirmado: o Beirut vem ao país em setembro. Toca no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, no dia 8. Outras datas, a confirmar.
Todo mundo tem que ouvir
Finalmente já está disponível para download em tudo quanto é canto da internet o novo disco da Regina Spektor. “Far” é o quinto álbum da cantora, e o primeiro em quase cinco anos.
Mas a espera valeu a pena. O novo disco traz a cantora em um clima um tanto mais alegre do que em “Begin to Hope”, é recheado de grandes passagens de piano e abusa da voz sempre inspiradora da russa-americana. Ouça agora.
Playlist
Lenka – Anything I’m Not
Danger Mouse & Sparklehorse – Jaykub
Kasabian – Secret Alphabets
Laura Jansen – Single Girls
Hanna Scott & John Carden – Long Way Home
Theoretical Girl – A Future Apart
Endah N Rhesa – Blue Day
Boss in Drama – Favorite Song
Project:KOMAKINO: Nebula
Neils Children – Sometimes It’s Hard to Let Go

À liberdade

Dizem que o sonho de todo músico é atingir a maior quantidade de pessoas possível. Não duvido, nem discordo ou discuto. É verdade que todo mundo que produz algum tipo de arte tem, ainda que lá no seu íntimo, a vontade de ser visto, ouvido ou lido pelo maior número de pessoas, e também compreendido ou admirado pela maioria delas. Por mais alternativo que ele queira soar, por mais independente que ele deseje ser, ainda assim é indiscutível a vontade de chegar aos ouvidos alheios com força e limpidez. Mas não podemos considerar um fracasso quando o artista, por mais que tenha uma carreira sólida e extensa, siga seu caminho alternativo sem desvios ou tropeções. Esse pode ser realmente o desejo dele.

Não é enganação. Geralmente, há muito do que se abrir mão para atingir públicos de gostos mais populares, e nem todo mundo está disposto a se sujeitar às ideias de terceiros para produzir sua própria arte. Por mais que vez ou outra passeiem pelo mainstream, transportados por alguns bem-vindos acasos, preferem seguir um caminho mais pessoal, onde escolhem exatamente em que solo vão plantar sua próxima muda, a forma como vão tratar dela e quando colher os frutos que ela dará. Assim é a rotina de quem escolhe ser alternativo, como dois artistas de carreiras muito bem estabelecidas, que lançaram em 2009 discos admiráveis sem se render ao bicho-papão (cada vez mais enfraquecido) da faminta indústria pop. Enquanto Sam Beam, corpo e alma do Iron & Wine, tem contrato assinado com a ousada Sub Pop, Dave Longstreth, a mente por trás do Dirty Projectors, lança seu quinto disco, o primeiro pela esperta Domino. E os dois escolhem exatamente o quê e como querem fazer tudo que diz respeito a suas empreitadas.

“Around the Well” é o quinto disco do projeto do barbudão Sam Beam, mas traz uma particularidade: é um álbum de raridades, músicas feitas especialmente para outros meios (como trilhas sonoras de cinema), lados B de singles e sobras de gravações anteriores. Mas nem parece. A qualidade deste conjunto de faixas é tão alta, com canções tão acima da média, que realmente soa incrível que elas não tenham entrado em nenhum dos discos oficiais de estúdio do Iron & Wine. Por isso, nem dá pra considerar o álbum uma simples coletânea, ou relegá-lo a um lugar menor na discografia da banda. “Around the Well” entra direto para a lista de  grandes discos do Iron & Wine, a qual inclui nada menos do que todos os trabalhos lançados por Beam desde o começo deste século. E este último ajuda a relembrar todos os momentos do artista americano à frente do I&W.

O novo álbum da banda é duplo e dividido entre as duas fases que Sam Beam explorou durante sua carreira. O primeiro disco traz as canções mais lo-fi do projeto, algumas gravadas de forma caseira, jogando os holofotes sobre o combinado voz-e-violão puro e simples. São dessa fase a bela “Dearest Forsaken”, que abre o álbum, os lindos covers de “Peng! 33” do Stereolab e de “Waitin’ for a Superman” do Flaming Lips e a emocionante “Call Your Boys” – e, fechando a primeira parte, “Such Great Heights” do Postal Service, que foi trilha do filme Garden State. O disco 2 explora as sobras de estúdio dos dois últimos discos do Iron & Wine, quando Beam recrutou colegas para encher de camadas seu folk, antes minimalista por natureza. Além da ótima cover de “Love Vigilantes”, do New Order, a bolachinha libera lindíssimas faixas do artista que, se não fosse este trabalho, ficariam esquecidas em alguma gaveta empoeirada. Fazem parte deste rol as fantásticas “The Trapeze Swinger”, “Communion Cups and Someone’s Coat”, “No Moon” e “Kingdon of the Animals”. Os fãs do Iron & Wine precisam agradecer por “Around the Well”.

Enquanto o Iron & Wine simplifica sua música, essa não parece ser a maior preocupação de Dave Longstreth, o cérebro por trás do indie amalucado Dirty Projectors. Em sua estreia por um selo de maior alcance – a Domino não é o que chamamos de “grande gravadora”, mas está por trás de artistas conceituados como Arctic Monkeys, Franz Ferdinand, Animal Collective e Sons and Daughters – a banda não economizou nos experimentalismos de sempre. É claro que isso só fez com que “Bitte Orca” se tornasse ainda mais saboroso. Deve-se observar este álbum como um imenso caldeirão, onde são misturados ingredientes tão diversos quanto o folk, o indie rock, o soul, o electro, o R&B e o pop. E o mais bacana é que o experimentalismo do DP não fica apenas na música: a banda lançou “Bitte Orca” em CD, LP, download, um CD especial com disco-bônus e, pasmem, em fita cassete. Um trabalho assim tinha mesmo que ser muito bom.

A união de melodias deliciosas e arranjos excêntricos que incluem o uso de violões, violinos, teclados, guitarras, sintetizadores, percussão e vozes femininas e masculinas desenha nove faixas simplesmente indispensáveis para o disco. Parece pouco, mas é o bastante para formar um dos álbuns mais consistentes desta temporada. Em “Bitte Orca”, o Dirty Projectors soa como um festival inteiro, diversas bandas de diferentes estilos tocando juntas, construindo canções de inspiração infinita como “Stillness in the Move”, que parece uma música da Beyoncé desconstruída e refeita com uma mão nas costas e a cabeça dez anos à frente, a melosa e sedutora “No Intention”, a transtornada “Temecula Sunrise”, que faz referência ao reggae, ao Black Crowes e a um milhão de outras bandas, a metida a motown-style “Fluorescent Half-Dome”, a dançante “Cannibal Resource” ou a folk chorosa “Two Doves”. O Dirty Projectors fez o que quis, e fez muito, mas muito bem.

Notinhas

Mais uma leva de supergrupos

De vez em quando um bando de artistas famosos resolve se juntar para gravar algo juntos e deixar todo mundo com a curiosidade inflamada para saber como a coisa vai sair. A isso, usa-se dar o nome de supergrupos. E, nos últimos dias, dois novos espécimes surgiram na mídia. O primeiro é o Monsters of Folk, que une o trio Conor Oberst, M. Ward e Jim James, do My Morning Jacket, além de contar com a colaboração de Mike Mogis, do Bright Eyes. Os três uniram o útil ao agradável, já que costumavam fazer turnês em conjunto, e lançam um disco de 15 faixas em setembro. O outro novo projeto é o Bad Lieutenant, formado por todo o New Order menos o Peter Hook, que deixou a banda, e tendo no lugar dele o baixista do Blur, Alex James. A banda também já se mexe para trazer até outubro o primeiro disco do projeto.

Documentando guitarras

O incensado diretor de documentários Davis Guggenheim, responsável pelo sucesso de Al Gore no cinema com “Uma Verdade Inconveniente”, vai emplacar outro longa que certamente será visto por um monte de gente. No doc “It Might Get Loud”, que estreia em agosto nos EUA, o diretor une três mestres da guitarra rocker para discorrer sobre a paixão avassaladora pelo instrumento. As câmeras de Guggenheim seguem The Edge enquanto grava as guitarras de um single do U2, filmam Jack White, do White Stripes e do Raconteurs, enquanto o rapaz compõe em uma guitarra construída por ele mesmo, e entrevista Jimmy Page no local onde o Led Zeppelin criou “Stairway to Heaven”. Depois, o cineasta une os três para uma jam session dos sonhos. Bacana. Tomara que venha parar no cinemas capixabas (duvido), ou então vai ter que rolar um download.

Beirut no Brasil

Confirmado: o Beirut vem ao país em setembro. Toca no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, no dia 8. Outras datas, a confirmar.

Todo mundo tem que ouvir

Finalmente já está disponível para download em tudo quanto é canto da internet o novo disco da Regina Spektor. “Far” é o quinto álbum da cantora, e o primeiro em quase cinco anos.

Mas a espera valeu a pena. O novo disco traz a cantora em um clima um tanto mais alegre do que em “Begin to Hope”, é recheado de grandes passagens de piano e abusa da voz sempre inspiradora da russa-americana. Ouça agora.

Playlist

Lenka – Anything I’m Not

Danger Mouse & Sparklehorse – Jaykub

Kasabian – Secret Alphabets

Laura Jansen – Single Girls

Hanna Scott & John Carden – Long Way Home

Theoretical Girl – A Future Apart

Endah N Rhesa – Blue Day

Boss in Drama – Favorite Song

Project:KOMAKINO: Nebula

Neils Children – Sometimes It’s Hard to Let Go

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