Coluna B, dia 06/06


Tornando clara a noite escura

Há alguns meses, notícias interessantes sobre um novo projeto musical começaram a pipocar pela internet. Dizia-se que Danger Mouse, uma das metades do Gnarls Barkley e festejado produtor de artistas como Beck e Black Keys, se juntaria à mente pensante por trás do projeto eletrônico-lounge-rock Sparklehorse, o maluquinho Mark Linkous, para uma nova empreitada musical. A notícia, que já era boa, se tornou ainda mais animadora quando o cineasta surrealista David Lynch anunciou que faria parte do projeto dos dois, que receberia o nome de “Dark Night of the Soul”. Quando tudo estava certo, firmado e confirmado, a gravadora EMI surgiu para iniciar uma briga pelos direitos das músicas e tentou fazer com que tudo fosse cancelado. Sujou.
Mas “Dark Night of the Soul” não é apenas um disco. A parcela de Lynch no esquema é um incrível livro com mais de 100 fotos, baseadas nas músicas que a dupla Danger Mouse e Sparklehorse construiu com a participação especial de diversos e notabilíssimos artistas da música mundial. Mas, com a sujeira da EMI incomodando, o trio teve que dar seus pulos. O resultado foi criativo: ao comprar o livro, um CD-R viria junto, com uma URL anexada onde o comprador poderia baixar todas as músicas do projeto sem nenhum custo adicional. A saída fez com que o lançamento não fosse adiado e liberou para o mundo um grande disco, lotado de canções marcantes. Mas não fez a EMI sossegar: há poucos dias, ela ordenou que um vídeo de poucos segundos com algumas fotos de Lynch para o projeto fosse retirado imediatamente do YouTube.
Mas a beleza do projeto não morreu. Muito pelo contrário. Na internet, já é possível encontrar algumas fotos fabulosas do cineasta de trabalhos inesquecíveis como “Veludo Azul”, “Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive)” e a série “Twin Peaks”. Além, é claro, do disco completinho. A variedade de elementos e de abordagens faz com que “Dark Night of the Soul” seja o álbum mais charmoso deste ano. Quem espera um disco dançante ou puxado para o eletrônico, pode começar a pensar de novo. O combinado Sparklehorse-Danger Mouse funcionou muito bem com seus convidados vocais, e é bacana saber que cada músico particiou não apenas da interpretação, mas também da composição e da produção de suas faixas, tornando o material ainda mais rico e multi-facetado.
E é com Wayne Coyne, líder do Flaming Lips, que tudo começa. “Revenge” é leve na parte instrumental, com timbres selecionados a dedo, cordas e teclados espaciais contaminando o ar, e pesa a mão na letra existencialista. Já “Just War” emula um country renovado, trazendo Gruff Rhys (Super Furry Animals) na voz e no assovio, enquanto a bela “Jaykub”, com Jason Lytle do Grandaddy, se esvai em um folk cheio de barulhinhos esquisitos, coros no refrão e uma bela orquestração à lá Beatles, com direito a órgão, guitarrinha slide e um crescendo conquistador. Aliás, também tem Lytle uma outra belíssima faixa do projeto, “Everytime I’m With You”, balada certeira, direta, sem concessões.
Além de Lytle, outros três artistas seguram a onda com duas músicas cada. Nina Persson, do Cardigans e do A Camp, comparece com duas pérolas maravilhosas. “Daddy’s Gone” tem vocação pra grandiosidade, recheada de sentimentos, com violões acústicos, violinos e guitarras cercando as vozes, enquanto “The Man Who Played God” é mais simples, mas não menos bonita, e dá um bom espaço à voz fofa da sueca. James Mercer, do Shins, traz “Star Eyes”, psicodélica até os ossos, como uma viagem emocionante ao céu estrelado, e a corrosiva “Insane Lullaby”, que seria um dream pop se não fosse tão barulhenta. O cantor e compositor americano Vic Chesnutt protagoniza a parte misteriosa, suja, melancólica, ao melhor estilo “trilha de filmes de David Lynch”, com as duas últimas faixas do álbum: as emocionantes “Grain Augury” e “Dark Night of the Soul”.
Completam a lista três participações especialíssimas, que compõem o núcleo punk do disco. Julian Casablancas, do Strokes, canta a bacaninha “Little Girl” e me faz acreditar que seu forte é mesmo gritar com voz de bêbado. Black Francis, do Pixies, entra com a garageira “Angel’s Harp”, próxima ao grunge do Nirvana e do Alice In Chains, a mais explosiva faixa de todo o álbum. E Iggy Pop canta a caótica “Pain”, que curiosamente lembra… Strokes – mas com um pé no gótico, verdade seja dita. As diferenças de uma faixa pra outra em “Dark Night of the Soul” mostra como Danger Mouse e Sparklehorse abriram a mente e lançaram mão de seus convidados para criar belíssimos números que, reunidos sob a mão pesada e alucinada de David Lynch, ultrapassam o limite musical e tomam corpo, textura, tamanho e peso. Precisamos agradecer à internet e à criatividade dos artistas, que conseguiram tirar o projeto da fria e apavorante gaveta da EMI e fizeram com que chegasse até nós. A noite escura da alma ficou mais clara agora.
Notinhas
Várias
Os galeses do Los Campesinos! vão ficar desfalcados. A banda anunciou em seu site que uma das três meninas do septeto, Aleks, está deixando a banda para concluir seus estudos. A moça nem deve participar do terceiro disco do grupo, que já está no forno e vem sendo considerado bastante “dark” para o som da banda. /// O paulistano Lestics acabou de lançar seu terceiro disco e, como fez com os outros dois anteriores, colocou o trabalho para download gratuito no site http://www.lestics.com.br. “Hoje” contém nove faixas e é o primeiro trabalho do Lestics como banda – antes o projeto capitaneado pelo gente boa Olavo Rocha era um duo. /// “In This Light and On This Evening” é o nome do novo álbum do Editors, que deve ser lançado no começo do próximo semestre. Vale a espera. /// O Pearl Jam também anunciou novidades para o segundo semestre. “Backspacer” é o nome do novo álbum, com lançamento marcado para 22 de setembro. O primeiro single, “Got Some”, já foi tocado pela banda na TV americana.
Arctic Monkeys, o retorno
Poucos discos são tão aguardados em 2009 do que o terceiro trabalho do Arctic Monkeys. Motivos não faltam. Além de ser o primeiro álbum do grupo após a participação do vocalista Alex Turner em seu projeto paralelo The Last Shadow Puppets, há também o detalhe das músicas terem sido produzidas por dois músicos adorados por muitos: James Ford, do Simian Mobile Disco, e Josh Homme, do Queens of the Stone Age. Por enquanto, pouco se sabe sobre o disco. A banda apenas divulgou a data de lançamento (24 e 25 de agosto) e a tracklist do álbum, que vai conter dez faixas. Ainda não há informações sobre o nome do álbum, mas já dá pra sentir que vem coisa boa por aí para o Arctic Monkeys.
Todo mundo tem que ouvir
E finalmente, após quase cinco anos, Jenny Owen Youngs voltou. A mocinha de Nova Jérsei não gravava fazia tempo, mas o disco “Transmitter Failure” chegou para tirar o atraso.
Logo de cara, a moça mostra que alguma coisa mudou: algumas faixas ganharam mais peso, outras estão mais pop. Mas a voz adorável e os timbres rapidamente reconhecíveis aparecem de pronto. Um disco para ser escutado com cuidado.
Playlist
Grizzly Bear – While You Wait For The Others
The Lovetones – There Is No Sound
Deradoorian – Weed Jam
Florence and the Machine – Dog Days Are Over
Sébastian Schuller – Open Organ
Lacrosse – My Stop
Wintermute – Spanish Girls
Iggy Pop – How Insensitive
Bat For Lashes – Glass

Matt & Kim – I






wanna

Tornando clara a noite escura

Há alguns meses, notícias interessantes sobre um novo projeto musical começaram a pipocar pela internet. Dizia-se que Danger Mouse, uma das metades do Gnarls Barkley e festejado produtor de artistas como Beck e Black Keys, se juntaria à mente pensante por trás do projeto eletrônico-lounge-rock Sparklehorse, o maluquinho Mark Linkous, para uma nova empreitada musical. A notícia, que já era boa, se tornou ainda mais animadora quando o cineasta surrealista David Lynch anunciou que faria parte do projeto dos dois, que receberia o nome de “Dark Night of the Soul”. Quando tudo estava certo, firmado e confirmado, a gravadora EMI surgiu para iniciar uma briga pelos direitos das músicas e tentou fazer com que tudo fosse cancelado. Sujou.

Mas “Dark Night of the Soul” não é apenas um disco. A parcela de Lynch no esquema é um incrível livro com mais de 100 fotos, baseadas nas músicas que a dupla Danger Mouse e Sparklehorse construiu com a participação especial de diversos e notabilíssimos artistas da música mundial. Mas, com a sujeira da EMI incomodando, o trio teve que dar seus pulos. O resultado foi criativo: ao comprar o livro, um CD-R viria junto, com uma URL anexada onde o comprador poderia baixar todas as músicas do projeto sem nenhum custo adicional. A saída fez com que o lançamento não fosse adiado e liberou para o mundo um grande disco, lotado de canções marcantes. Mas não fez a EMI sossegar: há poucos dias, ela ordenou que um vídeo de poucos segundos com algumas fotos de Lynch para o projeto fosse retirado imediatamente do YouTube.

Mas a beleza do projeto não morreu. Muito pelo contrário. Na internet, já é possível encontrar algumas fotos fabulosas do cineasta de trabalhos inesquecíveis como “Veludo Azul”, “Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive)” e a série “Twin Peaks”. Além, é claro, do disco completinho. A variedade de elementos e de abordagens faz com que “Dark Night of the Soul” seja o álbum mais charmoso deste ano. Quem espera um disco dançante ou puxado para o eletrônico, pode começar a pensar de novo. O combinado Sparklehorse-Danger Mouse funcionou muito bem com seus convidados vocais, e é bacana saber que cada músico particiou não apenas da interpretação, mas também da composição e da produção de suas faixas, tornando o material ainda mais rico e multi-facetado.

E é com Wayne Coyne, líder do Flaming Lips, que tudo começa. “Revenge” é leve na parte instrumental, com timbres selecionados a dedo, cordas e teclados espaciais contaminando o ar, e pesa a mão na letra existencialista. Já “Just War” emula um country renovado, trazendo Gruff Rhys (Super Furry Animals) na voz e no assovio, enquanto a bela “Jaykub”, com Jason Lytle do Grandaddy, se esvai em um folk cheio de barulhinhos esquisitos, coros no refrão e uma bela orquestração à lá Beatles, com direito a órgão, guitarrinha slide e um crescendo conquistador. Aliás, também tem Lytle uma outra belíssima faixa do projeto, “Everytime I’m With You”, balada certeira, direta, sem concessões.

Além de Lytle, outros três artistas seguram a onda com duas músicas cada. Nina Persson, do Cardigans e do A Camp, comparece com duas pérolas maravilhosas. “Daddy’s Gone” tem vocação pra grandiosidade, recheada de sentimentos, com violões acústicos, violinos e guitarras cercando as vozes, enquanto “The Man Who Played God” é mais simples, mas não menos bonita, e dá um bom espaço à voz fofa da sueca. James Mercer, do Shins, traz “Star Eyes”, psicodélica até os ossos, como uma viagem emocionante ao céu estrelado, e a corrosiva “Insane Lullaby”, que seria um dream pop se não fosse tão barulhenta. O cantor e compositor americano Vic Chesnutt protagoniza a parte misteriosa, suja, melancólica, ao melhor estilo “trilha de filmes de David Lynch”, com as duas últimas faixas do álbum: as emocionantes “Grain Augury” e “Dark Night of the Soul”.

Completam a lista três participações especialíssimas, que compõem o núcleo punk do disco. Julian Casablancas, do Strokes, canta a bacaninha “Little Girl” e me faz acreditar que seu forte é mesmo gritar com voz de bêbado. Black Francis, do Pixies, entra com a garageira “Angel’s Harp”, próxima ao grunge do Nirvana e do Alice In Chains, a mais explosiva faixa de todo o álbum. E Iggy Pop canta a caótica “Pain”, que curiosamente lembra… Strokes – mas com um pé no gótico, verdade seja dita. As diferenças de uma faixa pra outra em “Dark Night of the Soul” mostra como Danger Mouse e Sparklehorse abriram a mente e lançaram mão de seus convidados para criar belíssimos números que, reunidos sob a mão pesada e alucinada de David Lynch, ultrapassam o limite musical e tomam corpo, textura, tamanho e peso. Precisamos agradecer à internet e à criatividade dos artistas, que conseguiram tirar o projeto da fria e apavorante gaveta da EMI e fizeram com que chegasse até nós. A noite escura da alma ficou mais clara agora.

Notinhas

Várias

Os galeses do Los Campesinos! vão ficar desfalcados. A banda anunciou em seu site que uma das três meninas do septeto, Aleks, está deixando a banda para concluir seus estudos. A moça nem deve participar do terceiro disco do grupo, que já está no forno e vem sendo considerado bastante “dark” para o som da banda. /// O paulistano Lestics acabou de lançar seu terceiro disco e, como fez com os outros dois anteriores, colocou o trabalho para download gratuito no site http://www.lestics.com.br. “Hoje” contém nove faixas e é o primeiro trabalho do Lestics como banda – antes o projeto capitaneado pelo gente boa Olavo Rocha era um duo. /// “In This Light and On This Evening” é o nome do novo álbum do Editors, que deve ser lançado no começo do próximo semestre. Vale a espera. /// O Pearl Jam também anunciou novidades para o segundo semestre. “Backspacer” é o nome do novo álbum, com lançamento marcado para 22 de setembro. O primeiro single, “Got Some”, já foi tocado pela banda na TV americana.

Arctic Monkeys, o retorno

Poucos discos são tão aguardados em 2009 do que o terceiro trabalho do Arctic Monkeys. Motivos não faltam. Além de ser o primeiro álbum do grupo após a participação do vocalista Alex Turner em seu projeto paralelo The Last Shadow Puppets, há também o detalhe das músicas terem sido produzidas por dois músicos adorados por muitos: James Ford, do Simian Mobile Disco, e Josh Homme, do Queens of the Stone Age. Por enquanto, pouco se sabe sobre o disco. A banda apenas divulgou a data de lançamento (24 e 25 de agosto) e a tracklist do álbum, que vai conter dez faixas. Ainda não há informações sobre o nome do álbum, mas já dá pra sentir que vem coisa boa por aí para o Arctic Monkeys.

Todo mundo tem que ouvir

E finalmente, após quase cinco anos, Jenny Owen Youngs voltou. A mocinha de Nova Jérsei não gravava fazia tempo, mas o disco “Transmitter Failure” chegou para tirar o atraso.

Logo de cara, a moça mostra que alguma coisa mudou: algumas faixas ganharam mais peso, outras estão mais pop. Mas a voz adorável e os timbres rapidamente reconhecíveis aparecem de pronto. Um disco para ser escutado com cuidado.

Playlist

Grizzly Bear – While You Wait For The Others

The Lovetones – There Is No Sound

Deradoorian – Weed Jam

Florence and the Machine – Dog Days Are Over

Sébastian Schuller – Open Organ

Lacrosse – My Stop

Wintermute – Spanish Girls

Iggy Pop – How Insensitive

Bat For Lashes – Glass

Matt & Kim – I wanna

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