Coluna B, dia 30/05

Três cantoras, três sentimentos.

Imagine só: de repente, você acorda de um transe esquisito, um sono curto, perturbado por sonhos repletos de tensão e medo. Quando seus olhos finalmente se abrem, é como se continuassem fechados: a escuridão que toma conta do local engole tudo. Você não tem a menor ideia de como foi parar ali. Surge então um sentimento bastante singular: a angústia. Creia ou não, existe uma trilha sonora que parece ter sido construída especialmente para você, cidadão angustiado: Fever Ray. Se em 2008 o espetacular “Third”, do Portishead, era a mais perfeita tradução desse complicado sentimento, para este ano Karin Dreijer roubou na maior cara-de-pau este título para si. A moça, a metade feminina do cultuadíssimo duo eletrônico sueco The Knife, acabou de lançar seu disco de estreia, “Fever Ray” – um álbum tão perturbador, e tão arrebatador, que a angústia pode passar a ser um sentimento desejado por muitos.

A atmosfera draconiana das faixas compostas por Karin é abastecida por teclados misteriosos, barulhos de pássaros, vozes multiplicadas e distorcidas como um coro de desesperados, além de batidas repetidas e poderosas. Toques metálicos e sintetizadores enlouquecidos são incapazes de tirar a riqueza das melodias criadas com tanto ardor pela sueca. A variedade de timbres, abordagens incomuns e as letras potentes fazem com que o clima nublado do outono tenha um significado ainda mais delicioso com pérolas como “When I Grow Up”, “Coconut”, “Now’s the Only Time I Know”, “Seven” ou a lindíssima “Keep the Streets Empty For Me”. O Fever Ray vai até o fundo, dói no osso e sabe como corroer o seu dia até que um sentimento inabalável de angústia surja impávido e se faça presente na sua alma. “Fever Ray” não é apenas um dos discos mais notáveis lançados neste ano, é também um álbum feito para quem gosta de se entregar, de sentir a emoção que um artista propõe, seja ela qual for.

É assim que a gente descobre quem realmente gosta de arte – é quem se entrega, independente do que a peça em questão exige. No caso da cantora Sophie Madeleine e seu disco “Love.Life.Ukulele”, é mole entrar no clima que ela oferece. A moça se destaca por usar o citado ukulele, instrumento bastante similar a um violão, mas com apenas quatro cordas e um pouco menor. E, ainda que ele seja a estrela maior aqui (há até uma música sobre o primeiro ukulele da cantora), em sua música entra muita flauta, palmas, violões, chocalhos, teclados, atabaques e uma voz tão suave que parece penetrar lentamente dentro das canções, como aquelas singelas alegrias que a gente sente com as pequenas coisas boas da vida. Um sorriso na hora certa, um cafuné no cabelo antes de dormir, um beijo estalado na bochecha da pessoa amada, um bom copo de suco de laranja, natural e geladinho, no cair da tarde. Sorriso, cafuné, beijo estalado, suco de laranja… Já deu pra entender o tipo de sentimento que Sophie Madeleine traduz com sua música, não é?

“Love.Life.Ukulele” é o primeiro trabalho dessa bela inglesinha de Brighton apaixonada por homens de barba (opa!), que entra de cabeça em um grupo que cresce a cada dia: o de cantoras pouco conhecidas, mas com músicas tão bonitas, de refrões tão cheios de sentimentos saborosos, que faz com que as pessoas que a conhecem queiram espalhar suas composições pelo mundo todo. O clima de felicidade contido em faixas fofas como “You Are My Favorite”, “I Just Can’t Stop Myself (From Writing Love Songs About You)” e “Hurry Locomotive” transborda a cada assovio de melodia. A simplicidade de algumas canções também desperta um carinho imediato com a moça – por exemplo, em “Take Your Love With Me (The Ukulele Song)” “One Kiss Too Many” e “Who Will Buy?”, onde ela canta acompanhada apenas de seu ukulele, ou em “When New Year Comes Around” e “The Knitting Song”, quando os arranjos ganham a presença encorpada de instrumentos singelos. Sophie Madeleine é sorriso sem-vergonha, estampado na cara o dia todo, sem medo de ser feliz.

Voltemos ao quarto escuro do começo deste texto. Neste cômodo completamente fechado, com janelas e cortinas cerradas, luzes apagadas e uma cama confortável, é o seu lugar, onde você se sente seguro, onde você pode ser ninguém além de si mesmo. Não é preciso nada mais do que isso, apenas um sentimento de melancolia aguda, para acompanhar as canções da excepcional austríaca Anja Plaschg, chamada de “Princesa das Trevas” na Europa, que atende pelo nome de Soap&Skin. Um piano nas mãos, uma voz rouca e curta saindo da boca e algumas ideias controversas na cabeça são as armas da moça, uma espécie de “Mallu Magalhães dark de Viena”, com apenas 18 anos e um talento incrível para criar músicas lindas, carregadas de sentimentos. Não deixe se enganar com a pouca idade: tanto as construções melódicas quanto as letras das músicas de “Lovetune For Vacuum”, seu primeiro disco, são tão poderosas que é impossível descobrir que se trata de apenas uma adolescente.

Há um quê de mistério nas músicas do Soap&Skin. Os arranjos podem saltar de uma doçura intermitente para tons simplesmente assustadores em questão de segundos. Um ótimo exemplo é a bela “Marche Funebre”, que faz jus ao nome que recebeu. As batidas trazem a ideia de uma marcha, os violinos e os sintetizadores acompanham um coro dramático de vozes, cortados aqui e ali por um som agudo que lembra trilhas de filmes de terror. Outras faixas como “Thanatos” e “Sleep” mandam imediatamente imagens de bruxas, vampiros, tristezas, filmes da época medieval e afins. Um mundo ao qual não estamos acostumados, e com o qual não queremos contato mas somos obrigados a lidar. As lindas “Mr. Gaunt PT 1000” e “Turbine Womb” trazem linhas de piano aterradoras, perfeitas para acompanhar as lágrimas que vez ou outra descem para molhar os travesseiros. Parece que o disco “Lovetune For Vacuum” foi feito para ser escutado sozinho, no escuro, sem medo de enfrentar os necessários períodos de melancolia. Aliás, de melancolia, é claro, o Sopa&Skin entende muito bem.

Notinhas

Túnel do tempo em outubro

Engraçado como são as coisas. Até o ano passado, outubro era conhecido por aqui como o mês para se ver bandas internacionais “da hora” – com a providencial ajuda do finado TIM Festival, é claro. Mas, para 2009, o que se desenha para o mês é uma volta aos anos 90. O Faith No More, que recentemente voltou a tocar junto, anunciou oficialmente uma data para São Paulo em outubro. A banda ainda passará pela Argentina e pelo Chile. Mas não é só isso: a banda cotada para acompanhar a turma de Mike Patton ao Brasil é ninguém menos do que o Alice in Chains, histórica banda que fez parte do movimento grunge (e que fez simplesmente o melhor Acústico MTV de todos os tempos). Juntam-se a esses dinossauros do rock o Depeche Mode, já amplamente divulgado aqui, e temos um mês de outubro para trintão nenhum colocar defeito, certo?

Várias

Eu já tinha dito aqui da possibilidade de Bob Dylan e Paul McCartney trabalharem juntos. Pois vai virar realidade: o beatle vai passar as férias de verão (americano) em sua casa na Califórnia, bem petinho de onde Dylan também tem uma casa. Vai dar samba. /// Alguém aí se lembra da Marina Vello, ex-vocalista do Bonde do Rolê? A moça está de volta, atendendo agora pelo nome de Marina Gasolina, e metendo a voz na faixa “Baseball Bat”, do Hervé. A música é boa, vale escutar. /// O famosíssimo festival inglês Glastonbury, dito como o maior do mundo, anunciou a programação. Os headliners serão Blur, Neil Young e Bruce Springsteen, mas entre 25 e 28 de junho uma tonelada de artistas vão tocar por lá. Vamos? /// Enquanto isso, no Brasil, o Rapture faz DJ Set na festa de lançamento da revista Vice brasileira, onde também tocam Jay Reatard, King Kahn & The BBQ Show e o DJ A-Trak. E quer saber mais? O ótimo Friendly Fires toca em São Paulo no segundo semestre. O negócio tá ficando bom.

Todo mundo tem que ouvir

Para você ver como o mundo dá voltas. Quando eu achei que o Art Brut não daria em mais nada, os caras chamam Frank Black (Pixies) para produzir seu terceiro disco e cometem o melhor trabalho de sua carreira.

O ótimo “Art Brut vs. Satan” juntou o que a banda tinha de melhor (as letras, a verborragia de Eddie Argos e a ironia de suas canções) com o que o líder do Pixies tem de melhor (o talento para compor uma barulheira melódica) e se tornou um grande disco.

Playlist

The Lovetones – When It Comes
Bat For Lashes – Sleep Alone
Danger Mouse & Sparklehorse – The Man Who Played God (feat.Nina Persson)
Clara Luzia – Bleed
Deradoorian – You Carry the Deed
Jeremy Enigk – Restart
The Pains of Beign Pure At Heart – Young Adult Friction
Telekinesis! – Great Lakes
Phoenix – Love Like A Sunset Part I
Make The Girl Dance – Baby Baby Baby

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