Coluna B, dia 16/05

 

O que aconteceu com o rock? 
Muita gente passa os dias fazendo esta pergunta aos quatro ventos. Clamam que o rock não é o mesmo, que o estilo musical foi dissolvido pelas novidades tecnológicas, que a gama de lançamentos das décadas passadas superam sem pestanejar a atual leva, que nada mais foi feito depois do “Nevermind”, do Nirvana, entre outras barbaridades. Papo furado. Os alarmistas que me desculpem, mas não aconteceu nada de ruim com o rock. Ele continua potente, bem disposto apesar da idade avançada, e se renovando a cada disco que invade as prateleiras (hoje, virtuais em sua maioria) dedicadas à música que Elvis ajudou a impulsionar. 
A Coluna B tem o imenso prazer em não apenas dizer, mas também mostrar dois belos discos lançados em 2009 e que têm o rock como pedra fundamental. Não interessa se estamos na era dos produtores, em que os truques de estúdio criam vozes tão descomunais quanto inexpressivas, sequências de beats inacreditáveis, falsos climas etéreos de boutique. Ainda há espaço para o bom e velho conjunto clássico de vocal, guitarra, baixo e bateria. E por quê não adorná-lo com teclados, sintetizadores e otras cositas más? Afinal, o rock do novo século se destaca justamente por ser o moderno, sem vergonha de ousar quando é possível e sem medo de se manter fiel às raízes quando é preciso. 
Os membros da escocesa The Phantom Band vivem essa transição todos os dias. Todos eles têm empregos comuns além do grupo, que incluem a biblioteconomia, arte, advocacia e serviço social. Por outro lado, quando assumem suas posições na banda, eles viajam com os instrumentos em mãos, fazem do delírio próprio sobre suas músicas o caminho dourado para a confecção de um trabalho fenomenal. Produzido pelo ex-The Delgados, Paul Savage, “Checkmate Savage”, primeiro disco do sexteto de Glasgow, é capaz de assustar pela maturidade das composições. Contradizendo o comportamento que tinham no começo da carreira, quando sempre se apresentavam com um nome diferente em seus shows e com a cara coberta por sacos de papel, o Phantom Band criou um tipo de música com personalidade forte, marcante, tornando faixas longas e à primeira vista intrincadas em canções que nos dão todo o prazer de cantar junto enquanto batucamos com os dedos na mesa e mexemos a cabeça sem parar. 
O segredo do grupo pode ser o passeio por longas jams, hábito que adotaram quando estavam compondo o disco de estreia. Por horas e horas, a banda ensaiava, se perdia, se achava e colecionava momentos memoráveis em que o krautrock – psicodelia ritmada e progressiva – encontrava o folk e desenhava um imenso céu coberto de nuvens, com um sol ressabiado dando as caras ali por trás. É a imagem que “Checkmate Savage” traz à mente, com faixas simplesmente brilhantes. Os quase nove minutos da semi-balada “Island” estão certamente entre os mais inspiradores da música em 2009. Ao lado desta, o ritmo frenético de “Throwning Bones” encanta pela forma como se desenvolve à nossa frente, avassalador. Em “Crocodile”, percebemos um encontro instrumental entre os sintetizadores do Fujiya & Miyagi e as guitarras do Queens of the Stone Age. “The Howling”, “Burial Sounds”, “Left Hand Wave” e “The Whole Is On My Side” completam a linha de frente do disco, certamente um dos melhores lançados até agora em 2009. 
Falando em transições e em como o rock se mantém vivo, é impossível não vir à mente o novo disco do Jarvis Cocker. Nesta segunda investida em sua carreira solo, o ex-líder do Pulp (banda que foi um dos símbolos do britpop) se derrama pelas guitarras cheias de distorção, riffs rasgados e o instrumental básico e bem armado de uma competente banda de rock. Bem diferente de seu primeiro disco solo, quando a suavidade falava mais alto, “Further Complications” traz as mãos e ideias do mago do rock nos anos 90, o produtor Steve Albini – responsável pela produção de bandas como Nirvana, Pixies, Manic Street Preachers, Bush, Page and Plant e Stooges, por exemplo. Albini encontrou com Cocker em julho de 2008, em Chicago, quando o inglês foi tocar no Pitchfork Music Festival. Após algumas músicas ensaiadas no estúdio do produtor, Cocker teve certeza de como gostaria de soar no seu próximo álbum. Negócio fechado, os dois se encontraram meses depois para trabalhar em cima de algumas canções já compostas.
Com essa sonoridade explosiva, Jarvis só precisou fazer o que sabe melhor do que ninguém: empunhar suas letras pungentes, sempre interessantes e massacradas pelos mais palpáveis dos sentimentos, e dar voz a sua geração de corações partidos. A começar pela lindíssima, “Leftlovers”, que começa com a singela frase “Eu a conheci num museu de paleontologia”, algo que só caberia mesmo em uma música de Jarvis, e segue com uma levada tranquila e pedidos incessantes de amor. Já “Fuckingsong”, se destaca pelo poderoso riff, que lembra muito os cunhados por Angus Young no AC/DC, juntamente com “Angela”, em que a dinâmica entre a guitarra e a interessante cozinha formada pelo baixo e a bateria é tão sedutora que na primeira audição já nos pegamos cantarolando o refrão pegajoso. Outras faixas como a rápida “Caucasian Blues”, a bela “I Never Said I Was Deep” e a faixa-título nos fazem acreditar nas recentes declarações de Cocker, quando disse que o Pulp nunca vai se reunir. Jarvis, você não precisa mais do Pulp. Mas não se esqueça que, assim como The Phantom Band, graças ao bom e velho rock as coisas estão andando bem. E ainda há quem pense que ele está morto…
Notinhas
Diversos
O Little Joy anunciou uma nova turnê americana para os próximos meses, mas com um desfalque: Fab Moretti vai ser substituído por Jack Dishel, músico responsável pelo projeto Only Son. O rapaz se junta a Binki Shapiro e Rodrigo Amarante em uma turnê por grandes cidades dos EUA. Moretti não vai por estar trancafiado em um estúdio com os outros integrantes do Strokes, gravand o quarto disco da banda. /// O White Stripes está muito próximo de lançar seu novo disco. Jack e Meg gravaram novas músicas em seu estúdio novinho em folha e devem lançar o novo material em 2010. /// Falando em Jack White, sua outra banda, o Dead Weather, divulgou a capa do disco de estreia do grupo, “Horehound”, que sai em julho. Na capa, Allison Mosshart, a VV do Kills e vocalista da banda, aparece com de forma meio sinistra. Mas é uma bela capa. /// E o final da quinta temporada de Lost, quem viu? Alguém pode me dizer o que foi aquilo? /// O Mickey Gang, de Colatina, andou tocando em Londres nas últimas semanas, e devem lançar seu single por lá. Pra completar a boa fase dos capixabas, eles foram confirmados no Popload Gig, festival realizado pelo jornalista Lúcio Ribeiro, e abrirá para as já comentadas aqui Matt & Kim e No Age. 
Cineminhas
Frank Sinatra vai ganhar uma cinebiografia em breve, e dirigida por ninguém menos que Martin Scorcese. Pouco se sabe sobre detalhes da produção, mas em Hollywood o buxixo é que Leonardo DiCaprio estaria cotado para viver o cantor nas telas. /// A equipe por trás do esperadíssimo “Where The Wild Things Are”, incluindo o diretor Spike Jonze, abriu um delicioso blog sobre o filme e assuntos afins: http://weloveyouso.com/blog/ /// O Festival de Cannes começou essa semana, tendo como longa de abertura a também esperadíssima nova animação da Pixar, “Up”. E as primeiras críticas já o colocam como o provável melhor filme do ano. Nem duvido. 
Beirut no Brasil
Muito cotado em anos passados para capitanear os festivais do segundo semestre brasileiro, finalmente se confirma a vinda de Zach Condon e seu Beirut para o país. A cultuada banda está armada para tocar em Salvador, no Rio de Janeiro e em São Paulo, com possibilidade de chegar a Recife, no mês de setembro.  
Todo mundo tem que ouvir
O disco é de 2008 (antigo?), mas ainda dá tempo de falar sobre essa belezinha. Hearts by Darts é o nome do disco e também da banda, que lançou este primeiro trabalho e já prepara um novo para o segundo semestre de 2009.
Música de qualidade impenetrável, vozes calmas e uma sintonia pop tão apurada que chega a ser difícil classificar a banda como rock. Ouça “Those Things”, “Company”, “Prime” e todo o resto do disco. E aguardemos o próximo.
Playlist
The Pains of Being Pure At Heart – Stay Alive
Danger Mouse & Sparklehorse – Just War
Clara Luzia – Old House For Sale
Riceboy Sleeps – Atlas Song
Sister Suvi – Deadwood
Dirty Projectors – Remade Horizon
St. Vincent – Save Me From What I Want
CaLLmeKAT – Flower in the Night
Lissy Trullie – Boy Boy
Yeah Yeah Yeahs – Zero (RAC Remix)

O que aconteceu com o rock? 

Muita gente passa os dias fazendo esta pergunta aos quatro ventos. Clamam que o rock não é o mesmo, que o estilo musical foi dissolvido pelas novidades tecnológicas, que a gama de lançamentos das décadas passadas superam sem pestanejar a atual leva, que nada mais foi feito depois do “Nevermind”, do Nirvana, entre outras barbaridades. Papo furado. Os alarmistas que me desculpem, mas não aconteceu nada de ruim com o rock. Ele continua potente, bem disposto apesar da idade avançada, e se renovando a cada disco que invade as prateleiras (hoje, virtuais em sua maioria) dedicadas à música que Elvis ajudou a impulsionar. 

A Coluna B tem o imenso prazer em não apenas dizer, mas também mostrar dois belos discos lançados em 2009 e que têm o rock como pedra fundamental. Não interessa se estamos na era dos produtores, em que os truques de estúdio criam vozes tão descomunais quanto inexpressivas, sequências de beats inacreditáveis, falsos climas etéreos de boutique. Ainda há espaço para o bom e velho conjunto clássico de vocal, guitarra, baixo e bateria. E por quê não adorná-lo com teclados, sintetizadores e otras cositas más? Afinal, o rock do novo século se destaca justamente por ser o moderno, sem vergonha de ousar quando é possível e sem medo de se manter fiel às raízes quando é preciso. 

Os membros da escocesa The Phantom Band vivem essa transição todos os dias. Todos eles têm empregos comuns além do grupo, que incluem a biblioteconomia, arte, advocacia e serviço social. Por outro lado, quando assumem suas posições na banda, eles viajam com os instrumentos em mãos, fazem do delírio próprio sobre suas músicas o caminho dourado para a confecção de um trabalho fenomenal. Produzido pelo ex-The Delgados, Paul Savage, “Checkmate Savage”, primeiro disco do sexteto de Glasgow, é capaz de assustar pela maturidade das composições. Contradizendo o comportamento que tinham no começo da carreira, quando sempre se apresentavam com um nome diferente em seus shows e com a cara coberta por sacos de papel, o Phantom Band criou um tipo de música com personalidade forte, marcante, tornando faixas longas e à primeira vista intrincadas em canções que nos dão todo o prazer de cantar junto enquanto batucamos com os dedos na mesa e mexemos a cabeça sem parar. 

O segredo do grupo pode ser o passeio por longas jams, hábito que adotaram quando estavam compondo o disco de estreia. Por horas e horas, a banda ensaiava, se perdia, se achava e colecionava momentos memoráveis em que o krautrock – psicodelia ritmada e progressiva – encontrava o folk e desenhava um imenso céu coberto de nuvens, com um sol ressabiado dando as caras ali por trás. É a imagem que “Checkmate Savage” traz à mente, com faixas simplesmente brilhantes. Os quase nove minutos da semi-balada “Island” estão certamente entre os mais inspiradores da música em 2009. Ao lado desta, o ritmo frenético de “Throwning Bones” encanta pela forma como se desenvolve à nossa frente, avassalador. Em “Crocodile”, percebemos um encontro instrumental entre os sintetizadores do Fujiya & Miyagi e as guitarras do Queens of the Stone Age. “The Howling”, “Burial Sounds”, “Left Hand Wave” e “The Whole Is On My Side” completam a linha de frente do disco, certamente um dos melhores lançados até agora em 2009. 

Falando em transições e em como o rock se mantém vivo, é impossível não vir à mente o novo disco do Jarvis Cocker. Nesta segunda investida em sua carreira solo, o ex-líder do Pulp (banda que foi um dos símbolos do britpop) se derrama pelas guitarras cheias de distorção, riffs rasgados e o instrumental básico e bem armado de uma competente banda de rock. Bem diferente de seu primeiro disco solo, quando a suavidade falava mais alto, “Further Complications” traz as mãos e ideias do mago do rock nos anos 90, o produtor Steve Albini – responsável pela produção de bandas como Nirvana, Pixies, Manic Street Preachers, Bush, Page and Plant e Stooges, por exemplo. Albini encontrou com Cocker em julho de 2008, em Chicago, quando o inglês foi tocar no Pitchfork Music Festival. Após algumas músicas ensaiadas no estúdio do produtor, Cocker teve certeza de como gostaria de soar no seu próximo álbum. Negócio fechado, os dois se encontraram meses depois para trabalhar em cima de algumas canções já compostas.

Com essa sonoridade explosiva, Jarvis só precisou fazer o que sabe melhor do que ninguém: empunhar suas letras pungentes, sempre interessantes e massacradas pelos mais palpáveis dos sentimentos, e dar voz a sua geração de corações partidos. A começar pela lindíssima, “Leftlovers”, que começa com a singela frase “Eu a conheci num museu de paleontologia”, algo que só caberia mesmo em uma música de Jarvis, e segue com uma levada tranquila e pedidos incessantes de amor. Já “Fuckingsong”, se destaca pelo poderoso riff, que lembra muito os cunhados por Angus Young no AC/DC, juntamente com “Angela”, em que a dinâmica entre a guitarra e a interessante cozinha formada pelo baixo e a bateria é tão sedutora que na primeira audição já nos pegamos cantarolando o refrão pegajoso. Outras faixas como a rápida “Caucasian Blues”, a bela “I Never Said I Was Deep” e a faixa-título nos fazem acreditar nas recentes declarações de Cocker, quando disse que o Pulp nunca vai se reunir. Jarvis, você não precisa mais do Pulp. Mas não se esqueça que, assim como The Phantom Band, graças ao bom e velho rock as coisas estão andando bem. E ainda há quem pense que ele está morto…
 

Notinhas

Diversos

O Little Joy anunciou uma nova turnê americana para os próximos meses, mas com um desfalque: Fab Moretti vai ser substituído por Jack Dishel, músico responsável pelo projeto Only Son. O rapaz se junta a Binki Shapiro e Rodrigo Amarante em uma turnê por grandes cidades dos EUA. Moretti não vai por estar trancafiado em um estúdio com os outros integrantes do Strokes, gravand o quarto disco da banda. /// O White Stripes está muito próximo de lançar seu novo disco. Jack e Meg gravaram novas músicas em seu estúdio novinho em folha e devem lançar o novo material em 2010. /// Falando em Jack White, sua outra banda, o Dead Weather, divulgou a capa do disco de estreia do grupo, “Horehound”, que sai em julho. Na capa, Allison Mosshart, a VV do Kills e vocalista da banda, aparece com de forma meio sinistra. Mas é uma bela capa. /// E o final da quinta temporada de Lost, quem viu? Alguém pode me dizer o que foi aquilo? /// O Mickey Gang, de Colatina, andou tocando em Londres nas últimas semanas, e devem lançar seu single por lá. Pra completar a boa fase dos capixabas, eles foram confirmados no Popload Gig, festival realizado pelo jornalista Lúcio Ribeiro, e abrirá para as já comentadas aqui Matt & Kim e No Age. 

Cineminhas

Frank Sinatra vai ganhar uma cinebiografia em breve, e dirigida por ninguém menos que Martin Scorcese. Pouco se sabe sobre detalhes da produção, mas em Hollywood o buxixo é que Leonardo DiCaprio estaria cotado para viver o cantor nas telas. /// A equipe por trás do esperadíssimo “Where The Wild Things Are”, incluindo o diretor Spike Jonze, abriu um delicioso blog sobre o filme e assuntos afins: http://weloveyouso.com/blog/ /// O Festival de Cannes começou essa semana, tendo como longa de abertura a também esperadíssima nova animação da Pixar, “Up”. E as primeiras críticas já o colocam como o provável melhor filme do ano. Nem duvido. 

Beirut no Brasil

Muito cotado em anos passados para capitanear os festivais do segundo semestre brasileiro, finalmente se confirma a vinda de Zach Condon e seu Beirut para o país. A cultuada banda está armada para tocar em Salvador, no Rio de Janeiro e em São Paulo, com possibilidade de chegar a Recife, no mês de setembro.  

Todo mundo tem que ouvir

O disco é de 2008 (antigo?), mas ainda dá tempo de falar sobre essa belezinha. Hearts by Darts é o nome do disco e também da banda, que lançou este primeiro trabalho e já prepara um novo para o segundo semestre de 2009.

Música de qualidade impenetrável, vozes calmas e uma sintonia pop tão apurada que chega a ser difícil classificar a banda como rock. Ouça “Those Things”, “Company”, “Prime” e todo o resto do disco. E aguardemos o próximo.

Playlist

The Pains of Being Pure At Heart – Stay Alive

Danger Mouse & Sparklehorse – Just War

Clara Luzia – Old House For Sale

Riceboy Sleeps – Atlas Song

Sister Suvi – Deadwood

Dirty Projectors – Remade Horizon

St. Vincent – Save Me From What I Want

CaLLmeKAT – Flower in the Night

Lissy Trullie – Boy Boy

Yeah Yeah Yeahs – Zero (RAC Remix)

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