Coluna B, dia 9/05

O que há de novo (e de velho) hoje

Ah, a juventude. Nada mais inspirador do que ter a vida toda pela frente, ver o seu direito de errar ainda intacto, as chances de vencer se acumulando a cada novo dia. Os iniciantes têm a oportunidade de ver as coisas de uma maneira diferente, não viciada, deslumbrados com o arrebatamento de uma existência que acabou de começar, e assim transformar a atual realidade em uma nova forma de ser. Claro, nem todo mundo concorda com isso. Os mais experientes vão dizer que é a vivência quem dá ao artista a chance de explorar todas as variáveis da vida. O caminho percorrido e tudo o que se viu enquanto a estrada era construída, tijolo por tijolo num desenho mágico, podem ser as ferramentas ideais para uma reviravolta na dimensão que conhecemos.

Enfim, não há regras para a produção artística. Seja um principiante ainda com poucos fios de barba no rosto, seja um velho lobo dos palcos do mundo, há sempre a oportunidade de se fazer mais, de ir além, de transformar uma folha em branco em algo memorável. Para realizar uma viagem espiritual e sensorial como a música não é preciso idade mínima nem máxima – apenas deixar a mente ser penetrada, sensibilidade à flor da pele, uma vida pronta para ser impactada. Para uma banda como o Cymbals Eat Guitars, tudo é apenas o começo. Para um artista como Bob Dylan, apenas mais um passo. Ao encalço destes, o Passion Pit aparece como um possível futuro da música pop, enquanto Stuart Murdoch, líder do Belle & Sebastian, abre-se para novas frentes com o projeto God Help The Girl. Para todos eles, a vida é o que acontece agora.

Bob Dylan

E se tudo acontece agora, por que ficar se arremessando rumo ao passado? Para quê? Se há todo um mundo sedento pelas novas faces do dia-a-dia, se há mais gente querendo entrar no clube, se há muito mais do que já houve um dia, dê-nos algo novo. Talvez Bob Dylan tenha captado isso para construir o polêmico “Together Through Life”, seu trigésimo terceiro álbum de estúdio. Sim, polêmico, porque a crítica não anda recebendo lá muito bem a bolachinha. Mas, quer saber? Pense no que diria um novato em Dylan, alguém que nunca escutou o cantor, que nunca saboreou suas letras ácidas, que nunca se encantou com o folk pastoso e poderoso desse ícone da música. O que eles ouviriam em “Together Through Life” seria ótimas canções de rock n’ roll, outras de um country envelhecido em barril de carvalho, faixas em que o violão e a gaita formam um ménage à trois perfeito com a guitarra slide, observados pela inconfundível voz de Dylan, conservada pelo tempo dos deuses. Tudo bem se não é o disco mais perfeito da carreira do homem, mas há que se respeitar. Poucos chegam aos 67 anos com disposição de contradizer o que esperam os fãs e ainda saírem por cima desta peleja. Dylan pode.

Passion Pit

Assim como pode também um grupo novato, que ainda nem sequer lançou um trabalho completo, conquistar uma massa imponente com meia dúzia de músicas jogadas na internet. E por que não? Hoje em dia, a ordem mudou: antes, para ser reconhecido, era preciso gravar um disco. Hoje, grava um disco apenas a banda que já é reconhecida. E o Passion Pit está perto disso. Se no fim de 2008, suas seis canções do EP “Chunk of Change” estavam estouradas, maio de 2009 vai trazer finalmente o disco cheio desses jovens americanos. Liderados pelo já algo endeusado Michael Angelakos, o grupo lança “Manners” no próximo dia 19 com a esperança de conquistar de vez o público angariado apenas com um EP embaixo do braço. Há que se entender, claro, que é mais fácil desovar seis músicas de alta qualidade do que 10 ou 12, e não é à toa que muitos grupos arrebentam nos EPs de estreia e sucumbem na hora do álbum cheio. O pop rasgado, cheio de teclados e barulhinhos eletrônicos do Passion Pit precisa passar por essa provação, mas já faz a sua parte ao se incluir no rol de bandas a serem observadas em 2009.

God Help the Girl

Em uma de suas corridas matinais, uma melodia simplesmente apareceu na mente de Stuart Murdoch. Logo ele a cantarolou e percebeu que aquela não seria uma música para o Belle & Sebastian. “Eu podia ouvir vozes femininas, cordas, tudo, mas não me via cantando aquilo com o grupo”, ele diz em seu MySpace. Essa melodia deu início a uma série de músicas extra banda que Murdoch escreveu, conectando personagens a cada uma delas. Fez sentido que isso se transformasse em uma narrativa musical, e o líder do B&S levou o projeto à frente. Resultado: “God Help The Girl”, o filme, deve ser lançado em 2010. Para cantar as músicas, a maioria inéditas e duas de sua banda (“Funny Little Frog” e “Act of the Apostle”), o músico fez testes com pessoas do mundo todo. Venceu, para o “papel principal” na banda, a novata Catherine Ireton, que gravou os vocais com membros do B&S e outras participantes do concurso, como Dina  Bankole, Celia Garcia e Alex Klobouk. Completam o time a vocalista Asya, do Smoosh, Neil Hammond, do Divine Comedy, e o arranjador Mick Cooke. “God Help The Girl”, o disco, vai ser lançado dia 22 de junho e é um delicioso álbum pop, de belas melodias calcadas no jazz e orquestrações conquistadoras. E as novas vozes caíram muito bem no instrumental do Belle & Sebastian. Esse disco vai dar mesmo um belo filme.

Cymbals Eat Guitars

Se você tem preferência por algum estilo estabelecido, se ouve apenas um tipo de música e nem gosta muito de variar, pare agora mesmo. Não perca tempo lendo sobre o Cymbals Eat Guitars. Sabe por quê? É simples. Este é o tipo de banda em que é basicamente impossível dizer o estilo de som que tocam. Nunca se sabe onde uma música do grupo vai dar – ao estilo de bandas como o And You Will Know Us By The Trail Of Dead – e as reviravoltas, berros e ruídos ensurdecedores são uma constante nas quase sempre longas faixas de “Why There Are Mountains”, disco de estreia do quarteto novaiorquino. À primeira vista, é capaz dessa megalomania disfarçada de punk pop não descer muito bem. Mas, com o tempo, vamos sacando o que faixas como “And the Hazy Sea”, incendiária em alguns momentos, estranhamente apaziguadora em outras, ou “Share”, uma correnteza de sons, vozes e barulhos que é o mais próximo que a banda pode chegar de uma balada, têm de tão encantador. É justamente essa falta de limites, esse baú de referências jogado sem dó no liquidificador, que faz do Cymbals Eat Guitars algo para se ouvir sem medo de ser feliz.


Notinhas

Várias variadas

O Dirty Projectors, que lança o esperadíssimo álbum “Bitte Orca” em junho – trabalho já devidamente baixado e constantemente escutado pela coluna – anunciou que o disco será comercializado em CD, vinil, através de download e em fita cassete! Isso mesmo. E as fitas e os vinis vão vir com um código para que o disco seja baixado na internet. Legal, mas… alguém ainda tem cassete player em casa? /// Paul Banks, vocalista do Interpol, vai lançar trabalho solo. Sob o pseudônimo Julian Plenti, o rapaz coloca “Julian Plenti is… Skyscraper” no mercado apenas em agosto. /// O Simian Mobile Disco vai lançar seu segundo álbum em clima de festa. “Temporary Pleasure” vai trazer convidados do calibre de Beth Ditto (Gossip), Gruff Rhys (Superfurry Animals), Chris Keating (Yeasayer), Alexis Taylor (Hot Chip) e Jamie Lidell nas vozes que emolduram as batidas alucinadas de James Ford e Anthony James Shaw. /// Falando em Beth Ditto, já sabem da boneca dela? Sim, vem aí a boneca da Beth Ditto. /// Falta pouco, muito pouco para o acordo que vai colocar Bob Dylan e Paul McCartney juntos em um disco, ou talvez mais do que isso. Tenho certeza de que vai ser algo imperdível. /// O Shins manda notícias (ruins e boas): o tecladista e o baterista estão fora da banda – mas há um álbum no forno, pronto para sair nos próximos meses.

Cat Power e Friendly Fires no Brasil

Sim, a gata Chan Marshall está de volta ao Brasil. Cat Power vai se apresentar no dia 18 de julho, no Via Funchal, em São Paulo, e os ingressos já estão sendo vendidos. É a primeira vez que a moça vem ao país depois do TIM Festival 2007, quando esteve até mesmo em Vitória, em um show delicioso. Quem também está acertando sua vinda para cá é o Friendly Fires, que deve pintar apenas em agosto, pelo andar da carruagem. Mas são dois shows bastante interessantes.

Todo mundo tem que ouvir

Sob o pseudônimo St. Vincent, a americana Annie Clark está conquistando o mundo indie. O excepcional “Actor”, segundo álbum da carreira-solo da moça, é um dos discos mais comentados e festejados do momento.

Após trabalhar com os bambas Polyphonic Spree e Sufjan Stevens, Clark compôs, arranjou e cantou todas as onze faixas de seu novo disco, o segundo da carreira. Indie pop imperdível, cheio de momentos memoráveis. Discaço.

Playlist

Au Revoir Simone – Shadows
Daniel Merriweather – Change (feat. Wale)
The Phantom Band – Left Hand Wave
Thiago Pethit – Low Light
Jarvis Cocker – Caucasian Blues
Deer Tick – Easy
Ben Harper & Relentless 7 – Shimmer & Shine
CaLLmeKAT – By the Lake
Bat For Lashes – Daniel
Iron & Wine – Carried Home

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