Coluna B, dia 2/05

Desta vez a coluna saiu bonitinha no Gazeta Online, no lugar certo, e iclusive ficou até hoje na capa do Divirta-se. Se for sempre assim, tá beleza. Mas, pra quem não viu, aí vai ela.

Chris Cornell e o experimento “Scream”

“Meu Deus, o que é isso?” foi a primeira frase que me veio quando finalmente escutei uma música do comentado (e cornetado) novo disco de Chris Cornell, “Scream”. Aquilo simplesmente não parecia real. O vocalista-galã que fez tanto sucesso na época do grunge com o Soundgraden, uma banda que colocava o peso do metal para adornar melodias do rock típicas dos anos 90, e com o Audioslave, supergrupo com 3/4 do Rage Against the Machine que quase dominou o rock no começo deste século – tinham tudo para tanto, mas acabaram não segurando a onda -, estava se envergonhando ao misturar sua voz cheia de personalidade com as batidas pouco criativas do outrora criativo produtor de R&B, Timbaland. Era difícil acreditar que Cornell realmente tinha feito aquilo. Mas o tempo foi passando, fui escutando o disco com mais cuidado, deixando o preconceito (a duras penas) para trás e, no final, já estava habituado às músicas. Mas, afinal, “Scream” é uma bela porcaria ou um disco visionário e incompreendido?

Os dois, ou nenhum dos dois, na humilde opinião deste colunista. É claro que uma virada tão significativa em uma carreira de sucesso trilhada à base de gritos, riffs de guitarra e atitude rocker é complicada de se absorver. Mas, se levarmos em conta o que Cornell vinha fazendo de sua trajetória na música – tanto no último (e fraquíssimo) disco do Audioslave quanto em seu álbum solo anterior, o péssimo e, esse sim, vergonhoso “Carry On” – talvez essa mudança drástica seja a mais indicada para definir o que vem a seguir: ou Cornell começa a passear por vários estilos até acertar em cheio, ou simplesmente entrega os pontos, abandona a carreira de músico e começa a repensar como fazer render todo o dinheiro que ganhou até hoje. Com “Scream” ainda não deu pra decidir. O disco se divide em três momentos: aqueles em que bate uma aguda vergonha alheia, outros em que seria facilmente ignorado, e alguns em que a dupla Timbaland-Cornell acertou em cheio, ainda que isso fosse difícil de acreditar quando ouvi, atônito, aquela primeira música no MySpace do rapaz.

Enquanto na simbólica capa do álbum o cantor aparece quebrando uma guitarra em fundo infinito, o primeiro embaraço vem logo nos segundos iniciais de disco. A introdução de “Part Of Me” é de ruborizar o mais cara-de-pau dos ouvintes da boa música. Após uma apresentação digna de começo de filme dos anos 20, seguida de um mar de cítaras e vocalizações indianas, uma voz robótica-aquática apresenta a “experiência de Chris Cornell”. Nessa parte já mandei via Twitter, quando escutei pela primeira vez, a minha impressão do que viria. Na sequência, uma batida ao melhor estilo Justin Timberlake invade as caixas de som. Logo vem a inconfundível voz de Cornell, que à primeira vista não combina em nada com a roupagem eletrônica. A temática também é esquisita, e a frase “that bitch ain’t part of me” soa rapper e rasa demais para aquele rapaz acostumado a cantar as mazelas e esquisitices do comportamento humano nas letras de rock. Mas, com o tempo, não é que a música fica agradável? Para colocar fogo nas pistas de dança, então, é um achado.

Essa habilidade invejável de equilibrar vergonha alheia com qualidade musical parece fazer parte da atual estratégia de Chris Cornell para ser reconhecido como um artista completo, que usa as ferramentas de seu tempo para se reinventar sem medo de parecer isso ou aquilo, de peito aberto para os julgamentos que hão de vir. Não raro percebemos um ou outro mudar de opinião em relação ao disco (este colunista incluído) assim que ele é escutado com mais cuidado. Por exemplo, “Long Gone” é uma balada que conta com uma produção mais tímida de Timbaland. Uma guitarra solo percorre toda a canção fazendo contraponto à base, dando um quê de Soundgarden, bem disfarçado, a esta que é uma das melhores canções do disco. A faixa é certamente a que conta com menos influência do produtor de R&B. Ao mesmo tempo, temos “Watch Out”, uma besteirada chatíssima em que Timbaland parece ter tentado justamente o que não devia: misturar seu estilo à história de Cornell, situação que também abala “Never Far Away”, faixa que tinha tudo para ser uma das melhores do disco, mas que sofre do mesmo mal em alguns pontos.

Se é pra mudar, que mude mesmo, com força e coragem, como fez em “Ground Zero”, boa faixa com claras influências de Michael Jackson (de quem Cornell já havia feito a cover de “Billie Jean”, parte de seu repertório ao vivo) e o hip hop dos anos 90. A faixa-título se destaca por encaixar a voz do ex-Audioslave com batidas mais próximas do soul e os sintetizadores que estão na moda hoje em dia, resultado também obtido com a dançante “Sweet Revenge”, canção que abusa do pop de refrão extremamente chicletudo. Dentro da parte mediana de “Scream” estão “Other Side of Town”, onde Timbaland brinca com as múltiplas vozes de Cornell enquanto leva sintetizadores e bateria a um passeio ininterrupto pela faixa, “Time”, tão suingada que não seria nenhuma surpresa se Beyoncé resolvesse fazer uma versão dela para seu próximo disco, e “Enemy”, faixa em que o cantor se declara o inimigo, e pode ter certeza que muitos fãs de rock realmente levaram o refrão ao pé da letra – basta dar uma olhadinha em fóruns e comentários de blogs e sites quando o disco é citado.

Mas não estariam eles exagerando? Será que “Scream” é mesmo esse câncer no seio do rock que as pessoas pintam, ou seria uma prova de que um dos ícones dos anos 90 finalmente chegou aos anos 2000 e se embrenhou à música atual? Claro, é de se admirar que o compositor das clássicas “Rusty Cage” e “Black Hole Sun” tenha cometido uma música tão ruim quanto “Climbing Up the Walls”, mas quando escutamos “Get Up”, capaz de rivalizar com as melhores canções do Justin Timberlake, podemos perceber sua intenção de se permitir as diferenças. Chris Cornell bateu no peito, abriu a mente para novas possiblidades e emprestou sua voz para um disco extremamente polêmico, mas que, pelo bem ou pelo mal, deve ser comentado ainda por muitos anos. E não me admiraria se daqui a algum tempo for considerado um álbum que marcou o início da queda do pesado muro que ainda insiste em separar o “sagrado” rock dos demais estilos contemporâneos. “Scream” está longe, muito longe de ser perfeito. Por enquanto, comemoremos a audácia da tentativa, ao mesmo tempo que nos é necessário reconhecer as falhas e exaltar os acertos. Um viva para a experiência de Chris Cornell, e uma torcida para que da próxima vez o material seja ainda melhor.

Notinhas

Oasis no presente, Matt and Kim no futuro

Entre as centenas de coisas na lista de pedidos do Oasis para seus camarins no Brasil – shows que rolam dias 7 e 9 de maio, semana que vem, no Rio e em São Paulo – há de tudo um pouco. O mais engraçado é apenas um maço de cigarro e cinco isqueiros, a exigência das marcas de cerveja (Becks, Heineken ou Corona) e a ordem: Guinness, só lata. Lembrando que o Multishow transmite a apresentação imperdível dos Gallagher no dia 7, no Rio. /// Vídeo novo e bacaníssimo da dupla americana Matt & Kim para a faixa “Lessons Learned”. Os dois andam e vão tirando suas roupas até ficarem completamente pelados na Times Square, em NY. A música também é boa e nos prepara para a vinda dos dois para o Brasil – dias 3 e 6 de junho, respectivamente em São Paulo e Porto Alegre. Vale conferir.

Mais shows

E tem mais, muito mais. Além do Depeche Mode, que anunciou suas datas para outubro no Rio e em São Paulo (22 e 24), um tal festival bancado pela Coca-Cola e ainda sem nome certo deve trazer, além dos já citados Matt & Kim, o Teenagers, o No Age o The View, no que seria o mais indie de todos os festivais já realizados no país, hehe. Acha pouco? Então fique sabendo que o sueco pop-chic Jens Lekman deve pintar por aqui também, com datas em SP (13), Porto Alegre (14), Recife (16) e Curitiba (17). Tudo isso no mês de junho.

Todo mundo tem que ouvir

Posso apostar, não há sujeito no mundo que não se encante com a incrível sutileza e graça de Sophie Madeleine e seu ukelele mágico. A doçura da voz e o apuro nas melodias a levaram a criar o belo “Love.Life.Ukelele”.

Se o disco te fizer lembrar de Feist ou Aimee Mann, não estranhe. A própria inglesinha coloca as duas em seu MySpace como referências – e eu adicionaria fácil Jenny Owen Youngs e Sia. Vá fundo em “Love.Life.Ukelele”.

Playlist

Sonic Youth – What We Know
The Gossip – Heavy Cross
Iron & Wine – Friends, They Are Jewels
Tinted Windows – Dead Serious
CaLLmeKAT – Flower in the Night
God Help The Girl – A United Theory
Hearts By Darts – Cumulus
Fiona Apple – Not About Love
Kap Bambino – Red Sign
Fever Ray – Triangles Walk

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