Coluna B, dia 18/04

Já que a Coluna B continua saindo apenas na internet, algumas pessoas acabam perdendo e não conseguindo ler. Para elas, aqui vai o texto desta semana. 


Os perigos de amar o Decemberists

Para quem, como eu, curte melodias pop pegajosas (no bom sentido) e bem construídas, letras criativas sobre assuntos pouco convencionais e estruturas musicais que fogem do comum, o grupo americano The Decemberists é um prato cheio. Não é nada fácil se esquivar das pérolas produzidas pela mente fervilhante de Colin Meloy, vocalista, líder e compositor da banda, que mantém uma discografia simplesmente impecável com os decembrinos – todos os seus álbuns, EPs e singles são absolutamente fantásticos, mantendo uma média altíssima de qualidade em todos os trabalhos, algo bastante raro para qualquer banda. Em 2009, o moço de visual geek, com seus cabelos lambidos e óculos de aro grosso, preparou nada menos que uma ópera rock: “The Hazards of Love” possui 17 faixas sem separação entre elas, que contam a história de uma mulher chamada Margaret e sua quase impossível paixão, Willian, com a ajuda de diversos convidados especiais, cada um interpretando um personagem diferente. 

 

O álbum foi inicialmente concebido por Meloy para ser um musical, mas no meio do caminho o músico desistiu (momentaneamente) da ideia e resolveu lançá-lo como disco. Mas, é preciso que se diga, não se trata de um álbum fácil. Longo (aproximadamente 70 minutos), ele necessita que o ouvinte tenha tempo para escutar todas as faixas de uma só vez, sem pegar nem deixar nada pela metade, para que seu conceito seja completamente entendido. E, nesses tempos corridos de hoje em dia, nem todo mundo tem esse tempo disponível. Além disso, a história contada pelo álbum não é tão fácil de ser seguida. Não se incomode caso se perca entre os personagens, nada mais normal. Mesmo assim, conseguir acompanhar as nuances desse conto musicado do Decemberists é uma experiência fenomenal. As faixas de “The Hazards of Love”, ainda que pareçam não funcionar sozinhas, são capazes de assombrar com suas concepções alucinadas. Os arranjos cuidadosos exploram com extrema competência todas as contagiantes melodias compostas por Meloy. 

 

Segundo o próprio compositor, há uma ligação quase invisível, apesar de forte, entre o folk rock inglês e o metal, principalmente no que diz respeito a contar sagas através da música. Este talvez tenha sido o ponto de partida para uma mudança latente no som da banda para este disco: em toda a carreira dos Decemberists, nunca se viu tantas guitarras, e tão pesadas e distorcidas, como neste quinto trabalho da carreira do grupo. Em algumas faixas, como “A Bower Scene” ou “The Wanting Comes In Waves/Repaid”, os riffs rasgados lembram até Black Sabbath, transformando a fofura característica do grupo em uma histeria avassaladora, derramando entre as notas musicais todo o ódio que os personagens sentem na história. Essa mistura de suave e pesado está presente em todo o disco, dando o tom das falas dos protagonistas, expressando seus sentimentos e abrindo novas possiblidades para as composições de Colin Meloy.

 

O vocalista do Decemberists citou, em uma entrevista sobre o novo disco, algumas referências interessantes que dão uma ideia inicial de como “The Hazards of Love” pode soar. Segundo Meloy, o trabalho une características de: Pentangle, seminal grupo setentista de folk, que incluía elementos de jazz e rock em suas músicas; Wendy Carlos, um dos papas do sintetizador, histórico compositor de trilhas adoradas como “Laranja Mecânica” e “Tron”, e estudioso da música eletrônica; e Electric Wizard, banda inglesa de doom metal e stoner rock, que inclui misticismo, bruxaria e afins em suas canções. Junte tudo isso em um caldeirão onde o grande destaque é a fina escrita de Meloy, de 34 anos, formado em “Creative Writing” na Universidade de Montana, nos EUA. Vai se difícil encontrar em qualquer outra banda do mundo um compositor que rime “sister” com “cistern” sem soar idiota e combinando com passagens realmente adoráveis, transformando suas canções em obras-primas imediatas. 

 

Para montar o intrincado quebra-cabeça de “The Hazards of Love”, o Decemberists lançou mão de diversas participações especiais que compõem o elenco desta perturbadora história de amor. Becky Star, a vocalista do ótimo Lavender Diamond, interpreta Margaret, a heroína. Já Shara Worden, do também ótimo My Brightest Diamond, interpreta a rainha má (mãe de Willian) e é responsável por algumas das mais empolgantes faixas do álbum. Jim James, cantor e líder do cultuado My Morning Jacket, está ao lado de Robin Hitchcock e de Rebecca Gates, do Spinanes, como personagens secundários da trama. E pensar que toda essa tour de force foi formada a partir de um disco antigo da cantora Anne Briggs, chamado “The Hazards of Love”, pelo qual Colin Meloy ficou completamente perturbado. Assim que percebeu que não havia nenhuma música com o mesmo título do álbum, ele resolveu escrever uma canção que deu início a toda história. 

 

“The Hazards of Love” triunfa ao se dar ao luxo de fugir dos padrões atuais, rever as antigas histórias fantásticas de amor e cobrir tudo isso com arranajos magníficos, como é de praxe da banda. No conto, Margaret encontra seu grande amor, Willian, e passa com ele momentos lindos. Em seguida, é sequestrada por um capataz (“The Rake”, que mata os filhos e sofre depois com a vingança de seus espíritos) contratado pela mãe do rapaz, a Rainha da Floresta. Apesar do amor desesperador dos dois fazer com que eles acabem se reencontrando, o desfecho da história não é exatamente feliz. Mais um ponto para Colin Meloy, que foge da facilidade dos finais “Disney” e constrói um poderoso disco, daqueles que valem a pena investir um bom tempo para escutá-lo com o maior cuidado do mundo. O único perigo de se apaixonar por “The Hazards of Love” é não conseguir mais viver sem o Decemberists. Mas, bem, eu já sofro deste “mal” faz tempo, e, pra dizer a verdade, nunca foi um incômodo, mas um imenso prazer. 

 

Notinhas

Rescue Shelter (Pet Shop) Boys

Essa história é ótima. É de se pensar a que ponto nós chegamos. Veja só. Em um belo dia dessa semana que está acabando, o duo inglês Pet Shop Boys recebeu a seguinte mensagem oficial do braço europeu do grupo ambientalista Peta: “queridos Neil e Chris. Vocês têm muitos fãs aqui na Peta. Nosso pedido pode parecer um pouco bizarro à primeira vista, mas logo vocês vão entender: por que vocês não trocam seu nome Pet Shop Boys por Rescue Shelter Boys?” Sim, o Peta quer que os caras mudem de nome, em uma ação de caridade sem precedentes, pelo bem dos animaizinhos que ficam presos e pegam doenças e morrem nos pet shops da vida. É claro que a resposta de Neil Tennant e ChrisLowe foi um sonoro não, mas os caras, não sei se por educação ou por ironia, deixaram uma mensagem de esperança para os ativistas malucos: “é um caso a se pensar”. Vai, Peta!

 

White de um lado, Spektor de outro

A banda nova de Jack White, The Dead Weather, finalmente fez sua estreia em palcos. Foi no famoso Bowery Ballroom novaiorquino, os ingressos se esgotaram em poucas horas e, claro, dizem que o show foi muito bom. Tem alguma coisa que esse cara se meta que não fica bom? Tem. Aquela música para o último 007 é bem chatinha. /// Regina Spektor finalmente se prepara para lançar o sucessor do excelente “Begin to Hope”. Após quase quatro anos sem material inédito, a moça fechou a data de 26 de junho para o lançamento de “Far”, álbum que conta com nada menos que quatro produtores, e só feras: Jeff Lynne, Mike Elizondo, David Kahne e Jacknife Lee estão por trás do novo disco de Regina Spektor. Tomara que vaze logo.

Todo mundo tem que ouvir

“Wonder Subtly Crushing Us” é o primeiro disco do agrupamento de Minneapolis chamado Ice Palace. Após um EP no ano passado, o ótimo “Bright Leaf Left”, a banda de Adam Sorensen e Amy Hager edita um álbum completo.

Sorte a nossa. O Ice Palace reúne referências bacaníssimas em suas canções. A banda lança sopros entre o folk, o indie e o pós-punk, misturando Velvet Underground e The National sem culpa. E com qualidade inquestionável. 

Playlist

 

La Roux – In For The Kill

The Moondoggies – Changing

Conor Oberst & the Mystic Valley Band – “Nikorette”

St. Vincent – Save Me From What I Want

Dirty Projectors – No Intention

The Phantom Band – Burial Sounds

Crystal Antlers – Memorized

Dogs Die In Hot Cars – Trials and Errors

Sophie Madeleine – Who Will Buy?

Chris Cornell – Ground Zero

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4 comentários sobre “Coluna B, dia 18/04

  1. Adoro quando vc se empolga pra falar de uma coisa que gosta muito. São sempre os melhores textos.

    E abaixo a desorganização de A Gazeta, ham..!

  2. Ja esta ficando abusiva a situação da A Gazeta com sua coluna ein rapá?! Caramba…mas aew, não conheço a banda destaque, mas depois de tamanha descrição vou ver se acho o cd, tarefa super dificil depois do fim das comunidades RED e Dsicografias no orkut, rsss. Enfim, White com outra banda? pqp…..e cd novo da Regina? pqp…. Agora só não estou entendendo o pq vc anda escutando o cd novo do Chris….jura que vc gostou véi? rsss. Eu odiei.

    Enfim, indiquei seu blog para um Meme. Meus álbuns favoritos. Espero que goste e tenho curiosidade de ver se consegue definir, rs. Grande abraço cara!

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