Medo (da internet ou do cinema?)

Semana passada, não lembro se na quarta ou na quinta,  fui ao cinema ver “Alma Perdida”. Filme fraco, terrorzinho desmiolado que tenta fazer uma grande volta e não chega a lugar algum no final. Mas a qualidade baixa do filme foi o que menos me impressionou, para ser franco, naquela noite de terror. O principal elemento que fez brotar tremedeira, ranger de dentes e um ódio crescente e incessante foi a falta de educação dos espectadores presentes ao Cinemark

Em uma demonstração grosseira de que a educação ficou do lado de fora do cinema, aproximadamente 90% dos espectadores falavam alto, conversavam sem parar, chutavam a cadeira da frente ou deixavam o telefone tocar livre, leve e solto durante a exibição. Atrás de mim, um casal bizarro conversava sem parar, impedindo que eu me concentrasse nos sustos que eu estava lá para tomar. A menina ainda tentava falar baixo, mas o rapaz parecia nunca ter ido ao cinema: falava alto nas cenas mais tensas, reclamava dos sustos (era um filme de suspense, queria o quê?), chutava a minha cadeira e tornava o filme, já ruim, em uma verdadeira merda. 

Completamente estressado e vendo que nenhuma das minhas reclamações surtiam efeito, me retirei, lá pelo começo do segundo ato, e sentei numa cadeira mais próxima à tela, onde não havia ninguém na fileira – nem nas duas abaixo, nem nas duas acima.

Isso, infelizmente, não é novidade nos cinemas de Vitória e Vila Velha. As pessoas são realmente escrotas, não sabem o limite da individualidade e acham que, já que pagaram o ingresso, têm liberdade para agir como idiotas e atrapalhar a outros que pagaram a mesma coisa que eles. Uma falta de educação tremenda, e que parece aumentar a cada dia. Mesmo nos cinemas mais “alternativos”, como o Metrópolis ou Jardins, ainda há babacas como esses, ainda que em menor número do que Kinoplex e Cinemark. 

Mas todo este post foi gerado por uma notícia que se desenhou ontem mas chegou hoje aos nossos olhos e ouvidos. O crítico e colunista de cinema Roger Friedman, do canal de TV americano Fox News, foi demitido. O motivo não poderia ser mais torpe: Friedman soltou no fim de semana uma bem-humorada crítica da cópia de “Wolverine” que escorregou para a rede um mês antes de seu lançamento oficial. Trata-se de um arquivo obviamente não-acabado, cheio de imagens toscas (sem a pós-produção) e lotado de lacunas perdidas na mesa de edição – e, assim como milhares de pessoas, foi assistido pelo crítico. Seu texto falava “bem” do filme, usando a ironia para comentar as cenas mal-acabadas, brincando com o fato de ser mole achar o longa na internet e, na minha opinião, fazendo assim uma crítica a esse tipo de pirataria – aquela em que o material, antes mesmo de estar pronto, já vaza na internet e fere consideravelmente seus realizadores. É claro que a Fox News alegou que a crítica de Friedman era nada mais que uma promoção da pirataria, e por isso o demitiu sem nem pestanejar. 

Agora, eu pergunto: com um público idiotizado como o daqui, que não respeita quem está na cadeira ao lado, não dá vontade de deixar as salas de cinema para sempre e passar a adotar a pirataria virtual como prática constante? Mesmo eu, um eterno entusiasta das grandes telas, já venho assistindo diversos filmes que nunca chegarão aos cinemas capixabas em casa, utilizando esses meios. Soma-se a isso o preço exorbitante praticado por boa parte dos exibidores, sem contar o também abusivo preço de balas, pipocas e refrigerantes, mais a falta de respeito com o espectador (cinemas mal-cuidados, sujos, com pernilongos a dar com o pau, um sistema de som horrível, mudanças de horário sem aviso prévio e a falta de uma distribuição decente de títulos mais alternativos) que não é rara, e temos aí o maior dos promotores da pirataria digital do cinema: as próprias empresas de cinema. 

A seguir assim essa triste rotina nos cinemas capixabas, seremos todos companheiros de Roger Friedman nessa vida de piratas virtuais do cinema.

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4 comentários sobre “Medo (da internet ou do cinema?)

  1. PQP, Bruno! Vc disse exatamante o que sempre quis dizer sobre eu não ir mais aos cinemas. E tenho vários motivos que vc tb englobou em seu texto. Falta de educação, gente conversando e gritando., alguns falando o que vai acontecer no filme, e outras atrocidades/imbecilidades do gênero humano sem ética. Por conta disso, que optei pegar um filme e ver em casa. No meu DVD, se eu estiver cansado, posso parar e ver o filme depois, posso voltar cenas ou diálogos, ver extras, ver o filme diversas vezes, o que é melhor, no sossego e paz de meu quarto (sem ninguém por perto para atrapalhar).

    Ok. Aí, uma vez, eu comentei isso no meu fotolog, e um visitante disse que nada tira o brilho do cinema. Nada? Ora, com tanta tecnologia (e com dinheiro, claro) vc faz uma puta sala de cinema em sua casa, com direito a telão, boa sonorização, bom ambiente. Portanto, não me venham mais falar que a sala de cinema é soberana.

    Outra coisa. Sobre ter/comprar/baixar filmes piratas. Se eu for pegar pelo meu próprio gosto, a maioria dos filmes que assisti e que gostei nesses últimos anos, tem sido dessa forma. Baixando ou copiando. Os últimos que vi mesmo, por exemplo, ‘Milk’ e ‘Slumdog Millionaire’, vi por cópias de DVD Script que tinha (cópias que geralmente chegam para os críticos/avaliadores de cinema para análise de premiações). Fazer o q? Se eu fico esperando em locadora, chega perto de 6 meses e nem vejo o filme na locadora (tá, estou dizendo nas locadoras às quais tenho acesso fácil, cômodo e rápido). E nos cinemas, por vezes eu nem vejo se o filme está passando ou não.
    E mesmo se estivesse passando, eu não iria. Agora, o engraçado é que nos anos 80 (e um pouco dos 90), filmes ficavam – pelo menos – até 1 mês em cartaz. Acho que essas inúmeras produções fez o espectador perder muita coisa que geralmente vale a pena – mas que acaba ficando de forma do centro das atenções. Facilidade demais estraga o interessante da arte, talvez?

    Mas, bacana a sua consideração. Eu sou adepto de não deixar de gostar do cinema. Nunca. Vale muito a pena. Mas, os veículos de acesso do produto – neste caso, o filme – estão mudando e muito.

    E sim, se for para baixar um filme, que o pessoal espere pelo menos a cópia bacana dele. Sem pressa. Deixe passar no cinema primeiro, e pegue, de preferência, uma cópia de DVD. Não é? Eu pelo menos faço isso, sem hipocrisia nenhuma.

    Abraços.

  2. Putz…Comentei de forma corrida. Erro de português pra burro! Hehe. Minha concordância passou longe.

    ‘…essas inumerações produções fez…’ (?)

    ‘Essas inúmeras produções fizeram…’

    Pq eu sou perfeccionista e chato pra %¨&$#.
    :)

  3. Bom, aqui na minha cidade (São José do Rio Preto, interios de SP, tem mais de 400 mil habitantes 2 shoppings com cinema e mais alguns cinemas alternativos por ai), o problema nem é esse. Claro que nos dias mais movimentados, como sexta e sabado você encara bastante problema nso shoppings. O GRANDE PROBLEMA é o preço, de sexta e sabado anoite é 19 reais nos dois shoppings, 16 a tarde (ainda que eu pago só oito, que é a meia, fico imaginando como é dificil para uem tem que pagar a inteira), só de quarta feira é que o preço abaixa para oito reais a inteira.

    Ainda se você pagasse tudo isso para ver filmes bons, mais não. Essa semana o unico filme descente é “Quer ser um Milhonário.”, que tambem, se naõ tivesse ganho tantos oscares nunca seria colocado nesses cinemas.

    Os cinemas mais alternativos do centro ainda são bons, preços justos, as veses acho que até baratos demais se comparar a qualidades dos filmes nos shoppings. Só não frequento lá pois ficam muito longe de casa, e pra quem depende de onibus e andar a pé fica comlicado.

    Como você mesmo disse, quem mais financia a pirataria pela internet são os próprios cinemas. É claro que eu prefiro assistir a um bom filme lá no conforto e ar condicionado. Mas, enquanto o cinema for caro e só colocar filmes completamente fúteis e comerciais (salvo raras exeções), vou continuar me submeterndo à espra dos torrents, a filmes independentes que apenas os portuguêses se preocuparam em legendar, ao calor do mes escritório e o desconforto aqui da minha cadeira.

    Obrigado (e desculpe quaisquer erros de português)

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