Coluna B – dia 14/03

Em homenagem a mais uma falta de consideração do pessoal do jornal para com a minha coluna, vou postar aqui as últimas colunas que não saíram no jornal (mas saíram na internet, mesmo com algumas confusões) e a coluna dessa semana, que não saiu no jornal e, pelo que andei vendo até agora, quase meio-dia de sábado, ainda não foi colocada no ar em lugar algum dos sites de A Gazeta.

Fico contente em saber que o meu trabalho da semana toda é simplesmente ignorado pelos meus superiores.

Aí vai, então, a coluna do dia 14 de março.

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Entre a escuridão e a luz

Fazer parte de uma banda pop de sucesso é ter a certeza de que os holofotes vão estar direcionados para você vinte e quatro horas por dia, não importa o quão bem você tente se esconder. Ao mesmo tempo, a despeito do que os outros queiram ou não ver de você, problemas pessoais podem fazer com que a escuridão seja o seu habitat natural, a sua verdadeira casa. Essa inconstância generalizada, uma gangorra de sentimentos, pensamentos e atitudes, não é nem próximo de uma novidade na vida de John Frusciante. Famoso como guitarrista do Red Hot Chili Peppers, banda clássica dos anos 90 e que ainda deu alguns respiros de criatividade na década atual, e dono de uma carreira solo invejável, o americano de Nova Iorque teve altos e baixos em sua vida pessoal e profissional que formaram o seu caráter e fizeram com que a alternância entre a escuridão e a luz fosse uma constante em sua vida.

Por muitos anos, John Frusciante teve problemas sérios com drogas. Entre 1992 e 1997, assim que deixou o Red Hot Chili Peppers, seu vício em heroína, crack, maconha, cocaína e álcool quase o matou. Foram anos sombrios, até que em 98, após quase morrer e ir parar em uma clínica de reabilitação, Flea e Antony Kieds o chamaram de volta à banda. Neste meio tempo, Frusciante lançou dois de seus dez discos solo – uma carreira com álbuns fantásticos como “To Record Only Water for Ten Days” (2001), “Shadows Collide With People” (2004) e “Curtains” (2005). Sóbrio e renovado, sua fome criativa fez com que lançasse cinco discos apenas em 2004. Mas a depressão que o atingiu naqueles anos de puro breu continua rondando o músico vez ou outra, ainda que sua espiritualidade esteja mais reforçada do que nunca. Todas essas idas e vindas geraram “The Empyrean”, um disco, segundo o próprio, para ser escutado “em uma sala de estar escura, tarde da noite”.

Não surpreende o novo álbum, lançado no final de janeiro pela Record Collection, traga um protagonista assumidamente baseado em sua própria vida, que interage com um personagem secundário que não existe em outro lugar senão em sua mente. O disco temático discorre todo sobre uma só história, segundo textos e mais textos postados pelo músico em seu blog. Ainda que quisesse que o público tivesse seu próprio entendimento do contexto lírico do álbum, Frusciante deu amplas explicações e exemplos, incluindo um pequeno poema que deveria passar uma boa ideia do que fala “The Empyrean”. Tomei a liberdade de traduzi-lo aqui, ainda que de forma apressada, para colocá-los a par do que se passa na mente do rapaz: “Por dentro de confusão e trevas/alcançando a fonte de luz / tentando / desistindo / escalando / descansando / subindo / descendo / morrendo / ressuscitando / a escuridão torna-se mais leve / a confusão se torna mais clara / para cima, para cima, para cima.”

É neste clima de fragilidade e incertezas que “Before the Beginning” funciona como um epílogo desta viagem alucinógena. Sempre muito mais experimental (e, diga-se de passagem, interessante) do que em sua banda, Frusciante começa o disco com uma longa faixa instrumental de 9 min, que cresce ancorada em uma bateria preguiçosa e um lindo e interminável solo de guitarra, bem ao seu estilo. Personalidade é algo que parece sobrar na música de Frusciante. Tanto sua forma de compor quanto seu timbre de voz e seu estilo de tocar guitarra são só seus, como deixa claro quando transforma “Song to the Siren”, um cover de Tim Buckley (sim, o pai de Jeff), em algo com a sua cara. Minimalista e triste, a faixa é o ponto de partida da conversa entre os personagens do álbum, papo que continua em “Unreacheable”, praticamente divida em duas partes de 3 minutos: a primeira fala da confusão em se aceitar, a segunda deixa correr solta uma guitarra cheia de efeitos ao lado de teclados e sintetizadores alucinados.

Muito seguro com seus vocais, Frusciante segue com a ótima “God”, um rock moderno onde ele se coloca como criador do universo, reclama das blasfêmias e termina afirmando que “tudo é crença”. Forte representante do conceito do disco, “Dark/Light” emula em sua primeira parte (a sombria “Dark”) um suicida conversando com sua consciência. Os versos “I’ve lost my perspective” e “Really not sure if I’m needed here at all” assustam, mas a chegada da parte “Light”, com um show dos convidados Flea no baixo e de Donald Taylor and the New Dimension Singers no backing vocal, deixa tudo mais leve e angelical – algo que a canção seguinte, “Heaven”, mantém muito bem, num forte clima de introspecção. “Enough of Me” é suave em sua construção simples, e traz um pouco de otimismo, pelo menos um pouquinho, para o clima de “The Empyrean”. O convidado especial Johnny Marr (ex-The Smiths) esbanja um solo poderoso no final da faixa e já faz a conexão com “Central”, a música seguinte e talvez a melhor do disco, onde toca violão. Aqui Frusciante mostra como sabe usar as capacidades do estúdio para incrementar suas composições, alternando guitarras e vozes como principais estrelas ao longo da faixa.

Na sinistra “One More of Me”, o artista engrossa a voz e é acompanhado apenas de um conjunto de cordas e piano elétrico. Os belos arranjos guardam uma das melhores letras do álbum, falando sobre lições que todos os anos de esbórnia parecem ter lhe ensinado. Fechando o álbum que saiu para o mundo todo, “After the Ending” soa como uma voz do além dando seu recado final sob um instrumental minimalista, psicodélico e bem adornado. Mas a versão japonesa do disco traz mais duas ótimas canções: “Today” é um rock cheio de efeitos e um refrão marcante, enquanto a deliciosa “Ah Yom” é uma das mais pops de sua carreira. Com este inspirado “The Empyrean”, o problemático John Frusciante espanta alguns espíritos que insistem em rondar sua mente fervilhante e criativa e nos presenteia com sua visão agoniante do mundo esperançoso e torto em que vive. Mais um trabalho perturbador deste que é um dos artistas mais significativos do rock atual.

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Promoção Marcelo Camelo + Coluna B

Em parceria com o produtor Patrick Ribeiro, a Coluna B, gente fina que é, vai sortear dois pares de ingresso para o primeiro show solo do Marcelo Camelo em terras capixabas. A apresentação rola dia 28 de março, no Ginásio do Salesiano. Mande um e-mail para colunab@gmail.com com seu nome, telefone de contato e RG, concorra aos ingressos e aguarde. Semana que vem divulgo aqui os vencedores.

Soltas

Depois dos brasileiros do Macaco Bong, mais um artista, desta vez um pouco maior, sofreu com visto negado para os EUA: Amy Winehouse vai desfalcar o Coachella deste ano. Tá difícil entrar na América, hein. /// Tem clipe novo do Solana na rede. O vídeo é para a música “A Melodia Bonny Dundee” e tá fácil no YouTube. /// Oasis no Brasil? Já tem data. Saca só: Rio, 7/5; Sampa, 9/5; Curitiba, 10/5 e Porto Alegre, 12/5. /// Jack White tem uma nova banda. Mais uma. The Dead Weather coloca White na bateria, Dean Fertita (QOTSA), VV (The Kills) e Jack Lawrence (Raconteurs). Em thedeadweather.com dá pra ouvir duas faixas.

Heróis da guitarra de plástico

Que o jogo Guitar Hero revolucionou a indústria de games, não é novidade. E que algumas bandas já se renderam a eles, liberando suas músicas para o jogo, também não. Mas, nessa época de vacas magras quando o assunto é venda de discos, um novo filão foi criado para encher os bolsos dos músicos: os games especiais de bandas. O Metallica vai seguir os passos do Aerosmith, o primeiro a lançar esse tipo de jogo, e colocar no mercado até o próximo mês o “Guitar Hero: Metallica”. Quem também vai voltar, pelo menos em forma de game, é a maior banda pop da história: o “Rock Band: The Beatles” já tem lançamento marcado: 09/09/09. O anúncio mais recente de jogo próprio é de ninguém menos que Van Halen, dono de alguns dos riffs de guitarra mais conhecidos do hard rock. “Guitar Hero: Van Halen” deve ajudar a quebrar os botões da sua bela guitarrinha de plástico até o fim de 2009. O futuro do rock está salvo?

Todo mundo tem que ouvir

O Point Juncture, WA é que chamamos de banda indie. Com mais de 5 anos de existência e três discos lançados de maneira independente, os americanos já cruzaram os EUA tocando em tudo que é lugar.

Zero de preocupação

Só fui conhecer a banda com este belo disco, “Heart to Elk”, de 2009. Mas, pelo que ouvi, vi e li sobre eles, o estilo shoegaze despreocupado e envolvente de guitarras estridentes e vocal e bateria suaves faz mesmo o tipo da banda. Imperdível.

Playlist

Pow Wow! – The New Wave (We Stripes remix)
Radiohead – All I Need
Marcelo Camelo – Tudo Passa
Arboretum – Tomorrow Is A Long Time
The Everyday Visual – Boom! Boom! Boom!
Glasvegas – Go Square Go
The Low Frequency in Stereo – Texas Fox
Yeah Yeah Yeahs – Zero
Ben Kweller – Things I Like To Do
Julie Doiron – Tailor

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